Cristo em profecia
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 2: CRISTO EM PROFECIA
A análise das profecias do Antigo Testamento revela que, no século II, não existia uma atitude uniforme quanto à inspiração profética e à relação entre os dois Testamentos, distinguindo-se fundamentalmente as posições da Grande Igreja, de Marción e Apeles, e dos gnósticos.
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A Grande Igreja partia da premissa da comunhão dos Testamentos, afirmando que um mesmo é o Deus do Antigo e do Novo Testamento, um o seu Cristo, um o Espírito que os inspira, e que Iahweh é o Pai de Cristo e o Messias da Lei e dos Profetas é o Cristo Salvador
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Os justos do Antigo Testamento contemplaram em visão profética o dia e os mistérios do Senhor em virtude do Espírito que os assistia, possuindo o conhecimento da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo) como o pudera ter um dos doze apóstolos
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Marción ensinava que um era o Deus bom e ignoto (Pai do Salvador) e outro Iahweh (o criador do Antigo Testamento), sendo aquele espírito e este alma, e que o Cristo ou Messias hebreu (chamado Emmanuel, não Jesus) ainda estava por vir nos tempos de Marción
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Tertuliano, referindo-se a Marción, afirma: “Provoca agora – como costumas – a esta comparação de Isaías com Cristo, sustentando que ela em nada convém. Pois primeiramente, dizes, o Cristo de Isaías haverá de chamar-se Emmanuel, depois tomar as virtudes de Damasco e os despojos da Samaria contra o rei da Assíria (Isaías 7,14; 8,4). Ora, aquele que veio não foi divulgado sob tal nome nem exerceu ação bélica alguma”
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Apeles, venerado por sua conduta e ancianidade, confessa um só princípio mas diz que os profetas procedem do espírito contrário (ex antikeimenou pneumatos); ao ser perguntado como podia dizer que há um princípio, respondeu que as profecias se refutavam a si mesmas porque nada disseram inteiramente verdadeiro, sendo dissonantes (asymphonoi), enganosas e contrárias entre si (pseudeis kai heautois antikeimenai)
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O anônimo valentiniano de Hipólito afirma: “Assim, pois, todos os profetas e a Lei falaram a impulsos do criador (apo tou demiourgou), deus néscio – diz (o anônimo) –, néscios (também eles), que nada sabiam. Por isso – acrescenta – diz o Salvador (João 10,8): ‘Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores’”
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Os ofitas de Irineu distribuem os profetas em sete grupos conforme o arconte ou deus planetário a cujo serviço haviam sido escolhidos: Jaldabaot (Iahweh) tem Moisés, Josué, Amós e Habacuc; Jao tem Samuel, Natã, Jonas e Miqueias; Sabaot tem Elias, Joel e Zacarias; Adoneo tem os quatro grandes profetas (Isaías, Ezequiel, Jeremias e Daniel); Eloeo tem Tobias e Ageu; Horeo tem Miqueias (novamente) e Naum; Astafeo tem Esdras e Sofonias
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Os mesmos ofitas ensinam que, além dos sete arcontes, a Sabedoria (Sophia) falou mediante os profetas, fazendo valer sua dignidade e servindo-se deles (normalmente instrumentos de só arcontes) para vaticínios de índole espiritual ignorados de Jaldabaot, anunciando “sobre o Primeiro Anthropos e o Eón incorruptível e sobre o Cristo superior”
2. EXEGESE DE João 10,8
O logion de Jesus “Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores” (João 10,8) recebeu exegeses distintas entre os eclesiásticos e os gnósticos, sendo que Clemente de Alexandria o aplica aos falsos profetas e aos filósofos pagãos que se apropriaram indevidamente de verdades das Escrituras.
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Inácio de Antioquia escreve: “Bons são também os sacerdotes. Melhor, o Sumo Sacerdote, a quem está confiado o Santo dos Santos, o único a quem se encomendaram os segredos de Deus, como que é a Porta de Deus, pela qual entram Abraão, Isaac e Jacó, os profetas, os apóstolos e a Igreja” (Philad. 9,1)
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Clemente de Alexandria afirma que está escrito (João 10,8): “Todos os anteriores à parusia do Senhor (pantes oi pro tes parousias tou kyriou) são ladrões e roubadores”, e que, no entanto, os profetas, como enviados e inspirados pelo Senhor, não são ladrões, mas servidores; a filosofia pagã, porém, não recebeu missão do Senhor, mas veio roubada ou por dom de um ladrão: alguma Virtude ou anjo
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O gnóstico Justino, no Livro de Baruc, põe na boca do anjo Baruc as palavras dirigidas ao pastorzinho Jesus: “Todos os profetas que te precederam (pantes oi pro sou prophetai) foram seduzidos” (hypesyresan), referência clara a João 10,8, indicando que até a vinda do Salvador todos viveram em ignorância e sucumbiram à concupiscência da serpente
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O valentiniano de Hipólito afirma que “todos os profetas e a Lei falaram a impulsos do criador (apo tou demiourgou), deus néscio; néscios (também eles), que nada sabiam”, e por isso diz o Salvador (João 10,8): “Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores”
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Agostinho denuncia que os maniqueus acrescentavam ao texto canônico as palavras “ante me” (antes de mim) para dar maior ênfase à sua doutrina contra a Lei e os Profetas, lendo: “Omnes quotquot ante me venerunt, fures sunt et latrones”, enquanto o texto correto seria “Omnes quotquot venerunt, fures sunt et latrones”, referindo-se aos que não foram enviados
3. INSPIRAÇÃO DOS PROFETAS
A doutrina sectária sobre os profetas era complexa, e os gnósticos não adotavam uma postura uniforme diante da Lei de Moisés e dos Profetas, distinguindo múltiplas fontes de inspiração que podiam ser arcónticas (do criador), espirituais (de Sofia ou do Logos), ou até mesmo diabólicas.
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Ptolomeu, em sua carta a Flora, divide a Lei mosaica em três partes: a primeira provém de Deus, a segunda de Moisés (a impulso de uma ideia sua particular), e a terceira dos anciãos do povo (introdutores de mandamentos próprios); e a parte relativa a Deus subdivide-se em: legislação incontaminada (para cujo cumprimento veio o Salvador), legislação contaminada e impura (que o Salvador anularia), e legislação típica e simbólica (que Jesus elevou do sensível ao espiritual e invisível)
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Basilides (segundo Irineu) afirma que as profecias procedem dos príncipes fabricadores do mundo (a mundi fabricatoribus principibus), e propriamente a Lei procede do príncipe deles, o qual tirou o povo da terra do Egito
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O Basilides de Hipólito, porém, aduz oráculos dos Salmos e do Gênesis em pé de igualdade com o quarto evangelho para definir aspectos plenamente gnósticos, indicando que, excepcionalmente, os profetas hebreus foram movidos pelo influxo do Espírito Santo e ainda do Filho
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Os ofitas de Irineu (I 30,11) ensinam que a Sabedoria (Sophia) falou mediante os profetas – além dos sete arcontes – anunciando coisas sobre o Primeiro Homem (Primum Hominem) e sobre o Eón incorruptível e sobre o Cristo que está no alto, despertando os homens para o Lumen incorruptível e para o Primeiro Homem e anunciando antecipadamente a descida do Cristo
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Pistis Sophia (c.18) ensina que a virtude luminosa que estava no profeta Isaías profetizou sobre o advento futuro de Jesus, anunciando que os arcontes (representados pelo Egito) não saberiam o que o Senhor Sabaot faria, distinguindo-se assim entre as profecias meramente arcónticas (sobre a esfera e o Hado) e as profecias excepcionais (luminosas) que vaticinam os verdadeiros mistérios de Jesus
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Tolomeo afirma que Achamot distribuía suas sementes espirituais entre os profetas, sacerdotes e reis; e que o demiurgo, ignorando o superior, sentia-se turbado com as palavras de seus profetas (não inspiradas por ele), mas terminava por desprezá-las, acreditando que a causa fosse outra (o pneuma profético arcóntico, ou o homem, ou a conspiração dos maus)
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O Tractatus tripartitus (I DS 100,30-101,20) ensina que o Logos se serviu do Demiurgo como de uma mão para ordenar e modelar os seres inferiores, e como de uma boca para dizer coisas que seriam profetizadas, sendo o Demiurgo inconsciente de que o movimento de sua mão procede do Espírito que o move
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Os gnósticos afirmavam que os profetas do Antigo Testamento falavam a impulsos do criador (deus néscio) e nada sabiam, pelo que o Salvador disse (João 10,8): “Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores”, e o Apóstolo (Romanos 16,25): “O mistério que não foi dado a conhecer às primeiras gerações”
4. APLICAÇÕES PARTICULARES
Os gnósticos aplicaram ao Antigo Testamento uma exegese espiritual que visava descobrir, sob a letra obvia, referências cristológicas, considerando que muitos oráculos foram ditados a impulsos de duplo espírito: um para os fatos da economia hebraica (arcôntica) e outro para os mistérios da economia da salvação.
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O Apocryphon Iohannis oferece uma dupla exegese de Gênesis 1,2 (“o Espírito de Deus era levado sobre as águas”): segundo a letra, o Espírito se cernia sobre as águas incubando as espécies da criação; segundo o sentido mais alto (inspirado pela Sabedoria), o Espírito Santo, compadecido da Igreja informe dominada pela ignorância da matéria, se arrepende e pede a Deus que envie o Salvador
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Isidoro (filho e discípulo de Basilides) escreve no segundo livro dos Comentários do profeta Parchor: “Não vá alguém a crer que o que dizemos ser peculiar dos eleitos estava já dito de antes por alguns filósofos. Não é invenção de filósofos, mas tomaram dos profetas e aplicaram ao Sabio (estoico), segundo eles inexistente (to me hyperchonti kat’autous sophos)”
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O mesmo Isidoro acrescenta: “Pois a mim me parece que quem presumem de filósofos hão de aprender que coisa é (ou significa) a encina alada (he hypopteros drys) e o manto de cores várias superposto a ela (to en haute pepoikilmenon pharos). De tudo o que teologizou Ferécides entre alegorias, tomando o arranque da profecia de Cam”
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A exegese gnóstica de Gênesis 2,21-24 interpreta o sono ou êxtase de Adão como referência implícita ao sono (morte) de Cristo; a origem de Eva por cisão de Adão como figura do processo da Igreja (terrena) por separação de Cristo; e a profecia de Adão (Gênesis 2,23-24) como vaticínio das relações entre o Salvador e Sofia (entre o Logos e o Espírito Santo) que se haviam de consumar na final synteleia
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os grandes corifeus gnósticos do século II conhecem três fases na existência de Cristo: a do Pleroma (em estádio exemplar puro), a do Novo Testamento (em estádio sensível e histórico), e a do Antigo Testamento (em vaticínio), que se compaginam e confluem num verso ou perícopa da Escritura.
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A restituição do “corpus Christi propheticum” ajudaria a descobrir a importância outorgada a personagens, sucessos, figuras, cláusulas e versos do Antigo Testamento, bem como a relação entre uns livros e outros e a fusão com temas pagãos (literários e filosóficos)
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Os profetas do Antigo Testamento, conscientes de pleno para os oráculos inspirados por Iahweh, não o seriam para os inspirados pelo Espírito Santo (Sofia), entendendo a meias os vaticínios sobre Cristo: em sua dimensão psíquica (hebraica), não na espiritual (caracteristicamente cristã)
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O conhecimento do Salvador inerente aos vaticínios espirituais do Antigo Testamento é apenas objetivo; para que fosse consciente, requerer-se-ia a iluminação gnóstica, vinculada à presença e exercício do Salvador feito homem
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Porfírio (segundo Teodoreto e Macário Magnes) sustentava que não há como, a partir de Moisés, mostrar que Cristo seja deus, Logos deus ou criador, nem provar pela Escritura do Antigo Testamento que ele houvesse de ser crucificado – tese que contrasta com o apriorismo gnóstico, pois os grandes heterodoxos do século II haviam-se imposto a tarefa de ler as Escrituras hebraicas em chave gnóstica, conscientes de que tanto quanto o sopro de Iahweh, governara patriarcas e profetas (em atos e palavras) a Sabedoria do Verbo
