JONAS SONO
Hans Jonas — A RELIGIÃO GNÓSTICA
Torpor, Sono, Intoxicação As categorias emocionais da última seção pode-se dizer que refletem as experiências gerais humanas que se manifestam e se expressam em qualquer parte, embora raramente de modo tão enfático. Outra série de metáforas referindo-se à condição humana no mundo é mais unicamente gnóstica e recorre com grande regularidade através de todo domínio de expressões gnósticas, independente de fronteiras linguísticas. Enquanto a existência terrena é por um lado, como vimos, caracterizada pelos sentimentos de abandono, pavor, nostalgia, é por outro lado descrita também como “entorpecida”, “sonolenta”, “embriagada”, e “esquecida”: quer dizer, assumiu (se excetuamos a embriaguez) todas as características que um tempo anterior aplicou ao estado do morto no mundo de baixo. De fato, vemos que no pensamento gnóstico o mundo toma o lugar do submundo tradicional e já é ele mesmo o reino dos mortos, isto é, daqueles que devem ser soerguidos à vida de novo. Com respeito a isto esta série de metáforas contradiz as anteriores: inconsciência exclui medo. Isto não é ignorado na narrativa detalhada dos mitos: é somente o despertar do estado de inconsciência (“ignorância”), efetuado de fora, que revela ao homem sua situação, até então dele oculta, e causa um surgimento do pavor e do desespero; ainda assim de algum modo estes já deviam estar em operação no estado precedente de ignorância, na Medida que a vida demonstra uma tendência a assegurar-se e a resistir ao despertar.
Como o estado de inconsciência adveio, e em que termos concretos é descrito? A “projeção” como tal daria conta do torpor da alma caída; mas o meio estranho ele mesmo, o mundo como uma entidade demoníaca, tem grande contribuição para tal.
A inconsciência é uma verdadeira infecção pelo veneno da escuridão. Lidamos aqui como em todo grupo de metáforas da sonolência, não com um detalhe mitológico, um mero episódio em uma narrativa, mas com uma característica fundamental da existência no mundo a qual todo o empreendimento redentor da Deidade extramundana está relacionado. O “mundo” por sua parte faz esforços elaborados para criar e manter este estado em suas vítimas e contrapor-se a operação de despertar: seu poder, mesmo sua existência, está em risco.
Dentre as mais constantes e mais amplas imagens em uso pelos gnósticos, o sono destaca-se. A Alma dorme na Matéria. Adão, o “cabeça” da raça e ao mesmo tempo símbolo da humanidade, jaz em profundo sono, segundo uma espécie muito distinta da do Adão bíblico: os homens em geral estão “adormecidos” no mundo. A metáfora expressa o total abandono do homem ao mundo. Algumas figuras de discurso sublinham este aspecto espiritual e moral. Os homens não apenas dormem mas “amam” o sono; abandonam-se a si mesmos mesmos no sono assim como na embriaguez. Mesmo se dando conta que o sono é o maior perigo à existência no mundo não é suficiente para se manter desperto, mas ativa a oração: “De acordo com o que tu, grande Vida, me disseste, uma voz viria diariamente a mim para despertar-me, para que não caia. Se me chamaste, os mundos malignos não me aprisionariam e não cairia presa dos Eões” (Prece dos Mandeanos).
A metáfora do sono pode igualmente servir para descontar as sensações de “vida aqui” como meras ilusões e sonhos, embora pesadelos, que estamos sem poder de controlar; e aí os símiles de “sono” juntam-se aos de pavor e temor.
Na medida que a mensagem gnóstica concebe-se a si mesma como a contraposição ao desígnio do mundo, assim como a Chamada tenciona romper o encantamento, a metáfora do sono, ou seus equivalentes, são um componente constante dos apelos gnósticos ao homem, os quais se apresentam eles mesmos como apelos de “despertar”. Quando falarmos da “chamada” lidaremos mais com estas metáforas. —
Julius Evola: TRADIÇÃO HERMÉTICA
O «sono» é uma expressão esotérica tradicionalmente usada para designar a consciência gravada na condição do corpo animal, em antítese com o símbolo do Acordado ou Desperto do Iniciado, com a obra de destruição do sono — nidrâ-bhanga — dos textos hindus, com a «natureza intelectual privada de sono ou insone — he physis agrypnos» — de que fala Plotino. Como o avidya budista, este «sono» simbólico pode considerar-se equivalente também ao «esquecimento» — lethe — dos gregos. Macróbio transmite a tradição da divisão da «matéria» — hyle — duas partes; uma, como ambrósia, é a substância da vida dos deuses; a outra, bebida das almas, constitui a água do rio Lete, quer dizer, a água do esquecimento, e esta tradição introduz-nos afinal no sentido da doutrina dos dois septenários.
Não se trata de duas ordens realmente distintas, mas sim de uma mesma realidade com duas formas diferentes de ser: o que conduz de uma forma à outra seria o acontecimento referido no Corpus Hermeticum, já que o seu epílogo seria o «estado de sono», o «esquecimento», a perda da consciência espiritual, a alteração do princípio mais profundo. Num discípulo de Boehme — Georg Gichtel— este ensinamento é explícito. Fala de um fogo (ou seja, de uma Potência-Eu) que, separada da Luz (a vitalidade difusa), se torna ânsia: com o seu ardor ele devora toda a «umidade oleosa», razão pela qual a luz se apaga e se produz um precipitado negro (é a cor de Saturno, cuja ponta escura, numa gravura de Basílio Valentino, está dirigida para o princípio Corpus). É a «corrupção do corpo luminoso paradisíaco» que num sono (Gichtel utiliza exatamente esta expressão) é substituído pelo corpo negro terrestre, «sede de um apetite insaciável, de doença e morte». E Gichtel continua: morta interiormente, a Alma (aquele Fogo originário) torna-se no «inferno» onde age a corrupção eterna. «E então aparecem sete figuras, filhas do Dragão ígneo, Espírito-deste-mundo, que são os selos que impedem aos não regenerados receberem o Fogo Divino». Sabe-se, por outro lado, que mesmo nas fábulas e contos populares se introduziram figurações de dragões de sete cabeças, guardando «cavernas» (isto é, os «acessos» ao interior da «Terra» — aos estados profundos encerrados no corpóreo) ou «tesouros» (Ouro ou pedras preciosas — e já no Gnosticismo, como depois na alquimia, as gemas significavam frequentemente os «poderes»). Segundo o mitraísmo, a Alma para se libertar deve atravessar sete esferas, assinaladas por sete portas, cada uma das quais está guardada por um anjo do Deus das Luzes: equivalência dos «selos» que impediriam a realização espiritual do septenário superior (os sete «céus»).
Por outro lado, a cada porta corresponde um grau da iniciação mitraísta. o que demonstra não se tratar de abstrações teológicas, mas sim de alusões a formas transcendentes da consciência, bloqueadas pela potência que atua naqueles que foram vencidos pelo simbólico sono.
