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JONAS HOMEM ESTRANGEIRO

Hans Jonas — Religião Gnóstica

O "Homem Estrangeiro"

A Chamada é expressa por aquele que foi enviado ao mundo para esta finalidade e em cuja pessoa a Vida transcendente uma vez mais toma sobre si o destino do estrangeiro: ele é o Mensageiro ou o Enviado — em relação ao mundo, o Homem Estrangeiro.

O nome “o estrangeiro” indica os tipos de recepção ele encontra aqui em baixo: a exultação bem-vinda daqueles que se sentem estrangeiros e exilados aqui; a chocada surpresa dos poderes cósmicos que não compreendem o que está acontecendo no meio deles; finalmente, o agrupamento hostil dos filhos da casa contra o intruso. O efeito imediato desta aparição aqui em baixo é descrita com força no Evangelho da Verdade.

Assim, para reencontrar seus próprios, a Vida em um de seus membros decaídos uma vez mais submete-se a descer no calabouço do mundo, “vestir-se a si mesma na aflição dos mundos” e assumir o lote do exílio distante do reino da luz. Isto podemos chamar a segunda descida do Divino, tão distinta da trágica anterior que conduziu à situação que agora deve ser redimida. Enquanto inicialmente a Vida agora emaranhada no mundo entrou nele pelo caminho da “queda”, “afundamento”, “ser projetado”, “ser levado cativo”, sua entrada desta vez é de natureza bem diferente: enviado pela Grande Vida e investido com Autoridade, o Homem Estrangeiro não cai mas adentra ele mesmo o mundo.

O ir adiante e voltar devem ser tomados literalmente em seu significado espacial: eles realmente conduzem, no sentido de um “caminho” atual, do exterior à clausura do mundo, e na passagem tem que penetrar através de todas as suas cascas concêntricas, i.e., a múltiplas esferas ou eões ou mundos, a fim de alcançar o espaço mais interior, onde o homem está aprisionado.

Esta passagem através do sistema cósmico é da natureza de um rompimento, portanto já uma vitória sobre seus poderes.

Aqui temos a razão porque a mera chamada do despertar, feita de fora, não é suficiente: não somente deve o homem ser desperto e chamado a retornar, mas em suas almas devem escapar do mundo, uma verdadeira ruptura deve ser feita na “parede de ferro” do firmamento, que barra o caminho para fora assim como para dentro. Somente o ato real da Divindade em si mesma entrando no sistema pode fazer este rompimento. Assim já pelo mero fato de sua descida o mensageiro prepara o caminho para as almas ascendentes. Dependendo do grau de espiritualização em diferentes sistemas, entretanto, a ênfase pode mudar crescentemente desta função mitológica a uma puramente religiosa incorporada na chamada como tal e no ensino que tem a dar, e portanto também na resposta individual à chamada como contribuição humana à salvação. Tal é a função de Jesus no Evangelho da Verdade de Valentino.

Aqui incidentalmente temos assim como os gnósticos “cristãos” em geral podiam considerar a paixão de Cristo e a razão para ela: é devido à inimizade dos poderes da criação inferior (o princípio cósmico: “Erro” — usualmente personificado nos Arcontes), ameaçado nem seu domínio e até existência por sua missão; e frequentemente, o sofrimento e a morte eles eram capazes de infligir sobre ele não são em absoluto reais.

Por último aquele que vem é idêntico àquele para quem ele vem: a Vida, o Salvador, com a vida a ser salva. O Estrangeiro de fora vem àquele que é estrangeiro no mundo, e os mesmos termos descritivos podem de forma surpreendente alternar entre os dois. Ambos no sofrimento e no triunfo, é sempre impossível distinguir qual dos dois está falando ou para quem uma afirmação se refere. O prisioneiro aqui também é chamado o “homem estrangeiro”, e reganha como tal esta qualidade através do encontro com o Estrangeiro enviado de fora.

Há uma forte sugestão de um duplo papel ativo-passivo de uma e mesma entidade. Acima de tudo o Estrangeiro que desce redime ele mesmo, ou seja, àquela parte dele mesmo (a Alma) uma vez perdida no mundo, e por conta disto ele, ele mesmo, deve se tornar estrangeiro na terra da escuridão e no final um “salvador salvo”.

Esta busca, descoberta, e reunião de seus próprios é um processo trabalhoso limitado à forma forma espaço-temporal da existência cósmica. Isto nos leva à ideia que o salvador não vem apenas uma vez ao mundo, mas que desde o começo dos tempos ele vagueia em diferentes formas através da história, ele mesmo exilado no mundo, e revelando ele mesmo sempre de novo até que, com a reunião completa, ele possa ser liberado de sua missão cósmica (doutrina mais completa nas Homilias Pseudo-Clementinas). Aparte das diferentes encarnações humanas, a forma constante de sua presença é precisamente a chamada do outro mundo ressoando através do mundo e representando o estrangeiro em seu meio; e entre suas manifestações ele anda invisível através do tempo. —

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