Valentinianos
Peter Lampe. From Paul to Valentino: Christians at Rome in the first two centuries. Tradução: Michael G. Steinhauser. Minneapolis: Fortress Press, 2003.
A “localização sociológica” do gnosticismo dependeu por muito tempo menos de evidências do que das intuições de Max Weber, que via o motivador para uma crença na redenção na despolitização de uma classe intelectual.
- Weber via o motivador para uma crença na redenção (como a dos gnósticos) na despolitização de uma classe intelectual.
- Classes socialmente privilegiadas de um povo desenvolvem uma religiosidade de redenção mais efetivamente quando desmilitarizadas e excluídas da possibilidade ou interesse em atividade política.
- Segundo Weber, o gnosticismo é uma religião de intelectuais.
- Kippenberg deduziu que as especulações cosmológicas dos gnósticos sobre a relação do demiurgo com a humanidade são uma referência a como os gnósticos experimentavam a estrutura de poder empírica e o sistema de governo do Império Romano.
- O ensinamento gnóstico seria uma expressão da rejeição do estado romano autoritário, burocrático e militarista, no qual os gnósticos estariam excluídos da participação política e se experimentariam como objetos nas mãos de poderes irracionais.
- Essa experiência do mundo seria projetada no modelo cosmológico gnóstico.
COMENTÁRIOS METODOLÓGICOS PRELIMINARES
Antes de testar as hipóteses de que os gnósticos eram intelectuais e pertenciam a classes socialmente privilegiadas, deve-se confrontá-las indutivamente com o material de fonte.
- As duas hipóteses (gnósticos como intelectuais e como pertencentes a classes socialmente privilegiadas) precisam ser testadas.
- Kippenberg trabalhou dedutivamente a partir da intuição de Weber.
- Para a hipótese (a), há vozes afirmativas desde os Padres da Igreja; para (b), quase nenhum material indutivo foi coletado, embora exista material epigráfico mais novo especificamente para Roma.
- Apenas após tratar indutivamente de ambos os aspectos histórico-sociais pode-se explorar as correlações entre “circunstâncias sociais” e “doutrinas metafísicas”.
- Não é metodologicamente correto extrapolar o pano de fundo social dos gnósticos simplesmente da estrutura de seu pensamento teológico com base em ideias pré-concebidas (weberianas) de correlações; o procedimento deve ser revertido.
OS VALENTINIANOS ROMANOS COMO “INTELECTUAIS”?
Baur e Harnack já sustentavam que os gnósticos eram intelectuais com uma base primariamente platônica, revelando-se sua existência intelectual no fato de terem sido mais produtivos literariamente do que a igreja estabelecida.
- Os gnósticos eram mais produtivos literariamente do que a igreja estabelecida, produzindo inúmeros escritos que eles mesmos inventaram.
- Os valentinianos, muito antes dos representantes da igreja estabelecida, escreviam ativamente interpretações de textos do Novo Testamento.
- A diversidade confusa nas doutrinas valentinianas testemunha uma investigação industriosa e contínua das escrituras bíblicas.
- Valentino veio a Roma durante o mandato de Higino (ca. 136-140 d.C.), cresceu em influência sob Pio e permaneceu até Aniceto (ca. 155-166 d.C.), partindo então para o Chipre.
- Antes de Roma, Valentino esteve em Alexandria, onde obteve sua educação grega.
- Os poucos fragmentos preservados da atividade literária de Valentino evidenciam uma linguagem bela e poética, com grande importância dada ao ritmo e ao uso de pontos antitéticos.
- Quanto ao conteúdo, Valentino segue o exemplo de Platão, contrastando o mundo espiritual das Ideias com o mundo empírico mutável.
- O platonismo de Valentino é indiscutível; os conceitos e termos emprestados do platonismo mostram que ele possuía, no mínimo, uma educação filosófica geral.
- Valentino conhece a passagem da Carta de Platão (Ep. 2.312E) e a interpreta no estilo da exegese do Médio Platonismo.
PTOLEMEU
A carta de Ptolomeu a Flora é magistral no desenvolvimento de ideias saturadas com escritos platônicos e em seu estilo, revelando uma prosa rítmica bonita e claramente exemplar.
- A carta demonstra sensibilidade pedagógica: Flora ainda não pertence ao círculo dos iniciados gnósticos, então Ptolomeu não a sobrecarrega com doutrina gnóstica e sua terminologia especial.
- Uma primeira introdução exotérica é cuidadosamente dada, adaptada ao problema pessoal de Flora, usando a terminologia da igreja estabelecida para cercar seu ensinamento com a aura da inocência.
- No final, ele atrai a leitora a deixar-se introduzir mais proximamente no ensinamento gnóstico esotérico.
- Tertuliano viu claramente o método pedagógico dos valentinianos: eles convencem antes de ensinar, confiando sua doutrina aos discípulos apenas depois de tê-los conquistado totalmente.
- Ptolomeu retoma a categoria platônica da imagem (eikon), ecoa a passagem do Timeu (28E) amplamente circulada no segundo século, e retoma vocabulário estoico.
- Ptolomeu pertence indubitavelmente aos círculos educados do segundo século.
Heracleon é chamado por Clemente de Alexandria o “mais considerado da escola valentiniana”, e os fragmentos de seu comentário sobre João são preservados em Orígenes.
- As partes que originam incontestavelmente de Heracleon são, sem exceção, rítmicas.
- Heracleon é influenciado pelo conceito platônico de ousia e também conhece o conceito platônico de vontade que exclui o querer coisas más.
- As descobertas sobre esses três professores valentinianos convergem: eles pertenciam aos círculos educados do segundo século, mesmo que seja impossível obter informações específicas sobre sua educação pagã inicial.
OS SEGUIDORES VALENTINIANOS
O resultado da exploração não exclui a possibilidade de que os seguidores valentinianos desses professores pudessem ser semi-educados ou mesmo não educados.
- Na Gália, Irineu sabe que os valentinianos encontram seu seguimento na “multidão” dos “mais simples” e “rudes”.
- O valentiniano romano Florino, com seus escritos de Roma, cativou os muitos entre os cristãos ortodoxos na Gália; na própria capital, dificilmente fez de outro modo.
- A generalização de que o valentinianismo era um gnosticismo principalmente de círculos “educados” não é válida; é válida para os “inventores” desse gnosticismo, para os professores notáveis, cuja multidão de seguidores não era uniformemente “intelectual”, mas estratificada.
MEMBROS DE “CLASSES SOCIALMENTE PRIVILEGIADAS”?
Uma inscrição de mármore da Via Latina, provavelmente datada do segundo século (época dos Antoninos), foi interpretada como valentiniana, com quatro versos hexâmetros.
- Paleograficamente, a inscrição data mais provavelmente do segundo século, durante o tempo dos Antoninos.
- A leitura pagã (nupcial ou funerária) enfrenta sérias dificuldades: os plurais de “camas” e “câmaras nupciais” seriam estranhos para uma única noiva; as canções de casamento eram cantadas por amigos e não pela própria noiva; os banquetes festivos ocorriam antes da procissão com tochas, não depois.
- A leitura cristã (“banhos”) não cria problemas, pois batismo e banho são intercambiáveis em textos valentinianos e outros cristãos, e o batismo ocorria antes da eucaristia.
- A expressão “câmaras nupciais” atinge uma nota-chave valentiniana, representando a união escatológica dos pneumáticos com seus anjos no pleroma, antecipada em rituais sacramentais.
- A expressão “co-irmãos/cocrianças das câmaras nupciais” corresponde bem à autodescrição valentiniana como “crianças da câmara nupcial”.
- O termo “iluminar com tochas” denota a celebração dos mistérios de Elêusis, e Tertuliano reprova os valentinianos pela influência eleusina.
- Os “banhos” são celebrados pelos valentinianos como uma forma de antecipação da “câmara nupcial” escatológica, e as tochas se encaixam bem nisso.
- Os “banquetes” podem aludir à refeição eucarística, paralelamente aos banhos batismais.
- O “fluir da única fonte” é um motivo cristão comum derivado do judaísmo, e a verdade (aletheia) é um termo importante para os valentinianos, associado à câmara nupcial.
- A forma poética métrica se encaixa bem no estilo de Valentino, com ecos de dialeto jônico.
- A conclusão mais lógica é que o epigrama foi exibido na sala onde os batismos ocorriam, em uma casa suburbana onde valentinianos celebravam rituais sacramentais.
- O caráter valentiniano é sugerido pelo verso 1, e os versos seguintes podem ser facilmente compreendidos em um quadro de referência valentiniano.
- A inscrição revela, do ponto de vista da história social, que o doador escolheu mármore e encomendou um texto poético métrico, fixando-o na casa onde ocorriam as assembleias sacramentais e ritos dos co-consagrados.
A ESTELA DE FLÁVIA SOFE
A lápide de mármore de Flávia Sophe (final do segundo ou primeira metade do terceiro século), também em hexâmetros, contém dois epigramas e oferece o acróstico com seu nome.
- Após a morte, Sophe vai para a “câmara nupcial” para contemplar a eterna “luz paterna”.
- Ela vê “éons” divinos personificados, um motivo difícil de explicar sem algum pano de fundo gnóstico.
- A inscrição alude aos sacramentos valentinianos, com “banhos” e “unção”, e Irineu testemunha essa prática dos valentinianos de reunir batismo e unção em um único ato sacramental.
- A “terra” (esfera de influência do demiurgo) fica “aterrorizada” com a ascensão bem-sucedida à Luz.
- Embora paralelos não-valentinianos possam ser encontrados para alguns motivos individuais, é a combinação desses motivos que torna este epitáfio mais provavelmente valentiniano.
IMPLICAÇÕES HISTÓRICO-SOCIAIS DAS DESCOBERTAS
A inscrição da Via Latina provavelmente pendia na vila suburbana de um homem ou mulher valentiniano abastado, que escolheu mármore e encomendou um texto poético métrico.
- O doador fixou a inscrição na casa onde ocorriam as assembleias sacramentais e ritos dos co-consagrados.
- O “eu” da inscrição nomeia explicitamente esses co-irmãos, e a vila suburbana na Via Latina está aberta a eles.
- No retiro suburbano (“silêncio” é até um termo técnico na teologia valentiniana), a poesia permite celebrar dialeto jônico, misticismo e antecipação da “câmara nupcial”.
- Não se sabe quem eram os “co-irmãos” que se reuniam além da cidade na vila suburbana do anfitrião valentiniano “socialmente privilegiado”.
- A estela de Flávia Sophe, também de mármore, e com a falecida portando um gentílico famoso (provavelmente descendente de um liberto de um imperador flaviano), indica um meio social comparável ao da vila suburbana valentiniana.
CONCENTRAÇÃO DE DESCOBERTAS NA VIA LATINA
Ambas as descobertas (inscrição e estela) referem-se à Via Latina, enquanto em nenhuma outra parte de Roma até agora surgiram vestígios dos valentinianos.
- Uma inscrição de Júlia Everesta (terceiro século, provavelmente influenciada pelo gnosticismo) foi descoberta na mesma área, mencionando a “Psique” renovada e ataviada com o “corpo de um anjo”.
- A pequena catacumba “Cava della Rossa” (quinto miliário da Via Latina) contém uma representação pictórica da eucaristia que lembra a forma valentiniana da eucaristia.
- Ambas as descobertas mostram que a tradição gnóstica valentiniana ainda está viva na Via Latina nos terceiro e quarto séculos.
- A acumulação na Via Latina sugere que os valentinianos viviam no monte Célio (um bairro onde pessoas abastadas e remediadas viviam) e eram bem de vida, podendo pagar um complexo funerário privado.
EVIDÊNCIAS LITERÁRIAS DE PRIVILÉGIO SOCIAL
Evidências literárias adicionais apontam na direção de “pessoas socialmente privilegiadas” no sentido weberiano.
- Se o professor cristão Ptolemeu em Justino (Apol. 2.2) é idêntico ao professor valentiniano de mesmo nome, então se encontra uma senhora distinta simpática ao valentinianismo.
- Flora, a destinatária da carta valentiniana, pertence a um público educado.
- Irineu escreve que o valentiniano Marco se dedica principalmente a mulheres que usam vestidos finos, estão vestidas de púrpura e são muito ricas.
- Heracleon descreve a mulher samaritana como protótipo de uma mulher pneumática para quem “as coisas na vida estavam sempre disponíveis”, parecendo incluir também coisas materiais.
- Os iniciados devem supostamente trazer dinheiro consigo, e os segredos são confiados apenas mediante pagamento substancial.
- No final do século em Roma, o presbítero Florino, representando uma doutrina de caráter gnóstico valentiniano, tinha uma posição esplêndida na corte imperial quando jovem.
INTER-RELAÇÕES ENTRE METAFÍSICA VALENTINIANA E CONTEXTO SOCIAL?
Se a trilha hipotética de Weber e Kippenberg for seguida experimentalmente, tudo o que segue é válido apenas para os “inventores” e “promotores” do gnosticismo valentiniano que realmente pertenciam a um meio intelectual e socialmente elevado.
- As massas que seguiram esses promotores podem ter tido motivos completamente diferentes para escolher a religiosidade redentora valentiniana, como o sentimento de pertencer aos “educados”.
- O motivo dos promotores “socialmente privilegiados” pode ter sido a “despolitização de intelectuais socialmente privilegiados”, interpretando o mundo empírico como nada, embriaguez, um pesadelo irreal, e buscando a verdadeira realidade em um Pleroma escondido.
- A tese de que os “intelectuais socialmente privilegiados” do segundo século teriam sido geralmente roubados de influência política potencial não parece suficientemente apoiada pelas evidências.
- A perda da autonomia da pólis era um problema de séculos atrás, e no segundo século o exercício de influência política era possível (Florino na corte imperial).
- Um “intelectual socialmente privilegiado” possuía influência política potencial se pertencesse às três ordens mais altas (senatorial, equestre, decurião), podendo ocupar cargos e dedicar-se à “res publica”.
- A dificuldade de que os cargos públicos eram um fardo econômico revelou-se um problema sério apenas após Marco Aurélio e Severo, quando a onda do gnosticismo já havia diminuído.
A INCOMPATIBILIDADE ENTRE CARGO PÚBLICO E SER CRISTÃO
Os valentinianos desprezam o mundo em uma extensão muito além do que é encontrado entre os intelectuais contemporâneos do Médio Platonismo porque o cristão não pode mais ser politicamente ativo em cargo público.
- Para a maioria dos cristãos, nem a atividade administrativa (conectada com a participação em sacrifícios pagãos) nem os cargos oficiais (envolvendo sentenças de morte, tortura e organização de jogos) são uma opção.
- O mero fato de ser cristão, se denunciado a um tribunal, evocava condenação imediata, tornando a atividade pública política mais ou menos impossível.
- Um funcionário público que necessariamente entra em contato com atividades religiosas pagãs dificilmente pode manter seu nome cristão em segredo.
- O cristão romano Apolônio (provavelmente pertencente ao senado) foi executado, e ser cristão e cargo público eram incompatíveis na situação da época.
- Um intelectual abastado traz consigo a capacidade e energia para atividade política, mas é precisamente o ser cristão que o impede de exercer essa energia, levando à sua introversão.
- Não é uma incapacitação política geral da classe intelectual do segundo século que leva ao escapismo valentiniano do mundo, mas muito mais uma combinação de existência intelectual/abastada e cristianismo que os incapacitava de fato politicamente e encapsulava sua energia política.
SUPORTE NAS FONTES
Nas fontes, assume-se continuamente que alguém é primeiro um cristão “normal” e só mais tarde evolui para um gnóstico valentiniano.
- Florino, em sua juventude, busca o círculo (ortodoxo) de Policarpo.
- A educada Flora, que Ptolomeu gostaria de recrutar para o valentinianismo, já é cristã.
- Toda a propaganda valentiniana é dirigida exclusivamente aos cristãos, não aos círculos pagãos; o solo fértil estava no cristianismo ortodoxo.
- O gnóstico, segundo a autocompreensão valentiniana, primeiro precisava da mesma criação através da fé e obras que o cristão ortodoxo “psíquico”; somente na igreja ortodoxa o futuro gnóstico poderia ser preparado.
- O próprio Valentino escreve: “Quando vós (como iniciados) dissolveis o mundo e não sois dissolvidos, sois senhores de toda a criação e de tudo o que é perecível”, usando o conceito de poder e domínio (kyriuein).
- O que é negado ao valentiniano na vida pública, ele reconquista através da consciência gnóstica, o sentimento de superioridade sobre o que o cerca.
- A religião gnóstica da redenção dá à pessoa a consciência de ser “do alto”, imortal por natureza e “desde o princípio”, carregando as características da divindade em si mesma.
- Os mistérios gnósticos imbuem a pessoa com a satisfação de possuir algo que os outros não têm, de ser elevado; os iniciados se reconstituem como uma elite em um nível apartado da vida política.
