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Taciano
QUISPEL, GILLES. MAKARIUS, DAS THOMASEVANGELIUM UND DAS LIED VON DER PERLE. LEIDEN: BRILL, 1967.
MACÁRIO E TACIANO
- No século V, Diadoco de Fótice se confronta com os messalianos — e também com Macário — e registra a tese de que nos corações dos crentes convivem simultaneamente duas realidades: a graça e o pecado.
- Diadoco de Fótice: bispo e escritor espiritual do século V, autor das Obras Espirituais (Oeuvres Spirituelles, cap. 80, ed. E. des Places, Sources Chrétiennes 5 bis, Paris 1955, p. 137-138).
- F. Dörr, Diadochus von Photike und die Messalianer, Freiburg 1937.
- Tese messaliana: graça e pecado, divino e diabólico, coexistem no coração humano mesmo após o batismo.
- Diadoco cita João 1, 5 — “a luz brilha nas trevas e as trevas não a compreenderam” — como base escriturística invocada pelos próprios messalianos.
- A tese messaliana é ilustrada pela 16ª Homilia de Macário, que afirma: se o sol, sendo corpo e criatura, ilumina lugares malcheirosos e imundos sem ser contaminado, quanto mais o puro Espírito Santo não recebe nada do mal ao coabitar com a alma ainda oprimida pelo Maligno — pois a luz brilha nas trevas e as trevas não a abarcaram (16, 3).
- Macário, Homilia 16, 3: analogia do sol como imagem da impassibilidade do Espírito Santo ante o mal.
- A exegese de João 1, 5 é aqui aplicada antropologicamente: o Espírito é luz, a alma é em si mesma trevas.
- Há dependência literária dessa passagem em relação ao Discurso contra os Gregos de Taciano, capítulo 13, onde se demonstra que a alma é em si mesma trevas e nenhuma luz existe nela, sendo João 1, 5 invocado para exprimir essa condição — e o fato de que em ambos os casos a relação entre Espírito e alma é elucidada pelo mesmo versículo joanino comprova que Macário leu o Discurso contra os Gregos de Taciano.
- Taciano: apologeta sírio do século II, discípulo de Justino Mártir, autor do Diatessáron e do Discurso contra os Gregos (Oratio ad Graecos).
- E. Goodspeed, Die ältesten Apologeten, Göttingen 1914, p. 280.
- A contribuição pessoal de Taciano à teologia de Macário é considerável: dele Macário extraiu a ideia de que o tema central da espiritualidade não é Espírito e Igreja, nem Espírito e carne, mas Espírito e alma — e essa é a premissa de todo pietismo, incluindo o pietismo de Macário.
- Pietismo: corrente de espiritualidade cristã centrada na experiência interior e na transformação da alma pelo Espírito.
- A tríade Espírito-Igreja-Carne é substituída pela díade Espírito-Alma como eixo da vida espiritual.
- Dessa tese decorre que o ser humano — a alma, enquanto trevas — não pode salvar-se a si mesmo, mas precisa ser salvo pelo Espírito; decorre também que o homem permanece sempre homem e jamais se torna Deus, o que separa definitivamente Macário e Taciano do gnosticismo, que pela autoconhecimento descobre a identidade do gnóstico com a divindade.
- Gnosticismo: corrente religiosa antiga que afirma a consubstancialidade entre o núcleo divino do ser humano e a divindade suprema, realizável pelo conhecimento (gnose).
- Com essa tese vem dada também a interiorização: a atenção ao abismo de trevas da alma e aos abismos de luz que nela emergem pela ação do Espírito, bem como a convicção de que a alma deve recolher-se inteiramente sobre si mesma para que o Espírito possa iluminá-la e elevá-la na mais profunda interioridade — e Taciano já conhece o conceito de personalidade integrada: “o mal desaparece quando obedecemos à palavra de Deus e não nos dispersamos” (me skorpizontos heautous, cap. 30).
- Interiorização: recolhimento da alma sobre si mesma como condição da iluminação espiritual.
- Personalidade integrada: conceito que Taciano já articula no cap. 30 do Discurso contra os Gregos.
- O ser humano deve recolher os membros dispersos de sua alma — imagem que remonta ao mito de Zagreu-Dionísio, despedaçado pelos Titãs, aplicado à alma pelo neoplatônico Porfírio na Carta a Marcela (cap. 10) e já por Platão (Fédon 67c, 70a, 83a); o topos da reunião dos membros dispersos provém portanto da filosofia grega e foi de lá que Taciano, bom conhecedor do médio-platonismo, o assimilou.
- Zagreu-Dionísio: divindade órfica despedaçada pelos Titãs — mito que simboliza a dispersão e a necessária reintegração da alma.
- Porfírio: filósofo neoplatônico do século III, Epistula ad Marcellam 10 (Nauck p. 199).
- Platão, Fédon 67c, 70a, 83a: diálogo sobre a imortalidade da alma e seu recolhimento do corpo.
- Médio-platonismo: corrente filosófica entre o platonismo antigo e o neoplatonismo, influente nos séculos I e II d.C.
- O mesmo pensamento e a mesma metáfora estão em Macário: o Espírito reintegra à sua unidade a alma dispersa — “só a força do Espírito divino é capaz de reunir o coração disperso pela terra inteira ao amor do Senhor” (24, 2); somente o Senhor pode reunir os pensamentos da alma, dispersos pelo mundo, num pensamento divino e orientado para o alto (III, 27, 5).
- Essa visão — de que somente a ação do Espírito conduz a alma à unidade — é notável e surpreendente: somente a experiência religiosa possibilita a unidade e a identidade da personalidade humana.
- Identidade pessoal: em Macário, não é conquista filosófica nem psicológica, mas fruto da ação pneumática.
- Esse pensamento decorre das premissas de Taciano: a alma é trevas, o Espírito é luz interior, e a alma não se dispersa quando escuta a palavra de Deus.
- A escuta da palavra de Deus é o ato pelo qual a alma cessa sua dispersão e se abre à reunificação pelo Espírito.
- Embora seja possível que a doutrina da reunião dos membros dispersos da alma tenha sido ensinada por outros encratitas além de Taciano, em tal precisão e formulação ela não é conhecida por outras fontes encratitas — e é altamente provável que Macário tenha sido influenciado pela teologia de Taciano também nesse ponto, o que revela o caráter do helenismo de Macário: o tema fora assimilado pelo sírio Taciano já no século II e se tornara patrimônio secular da cristandade síria.
- Encratitas: corrente cristã antiga que pregava a renúncia ao casamento, ao vinho e à carne.
- H.-Ch. Puech, Annuaire de l'École Pratique des Hautes Études, 1964-65, p. 101-104.
- Nenhum grego jamais afirmou que somente a experiência do Espírito torna possível a integração da alma.
- A originalidade síria reside precisamente nessa exclusividade pneumática: a integração da alma não é alcançável pela filosofia, mas apenas pela experiência do Espírito.
- Por outro lado, essa interpretação do cristianismo pressupõe que o ser humano possui uma alma.
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