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Hermann Hesse e Gnosis

QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica, judaica, catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.

  • A controvérsia sobre a gênese de “Demian” e a questão das fontes literárias versus inspiração
    • O confronto inicial com o arquiteto Heiner Hesse, filho do escritor, acerca da acusação de plágio em “Demian”, estabeleceu o conflito entre a defesa familiar de uma criação literária desprovida de notas preparatórias e a evidência acadêmica de que a obra depende estruturalmente dos “Septem Sermones ad Mortuos” de Carl Gustav Jung, visto que ambos proclamam, de forma idêntica, um novo Deus chamado Abraxas que transcende as categorias morais de bem e mal.
    • A postura do próprio Hermann Hesse, exemplificada em uma resposta de 1929 a uma leitora sobre os paralelos gnósticos de sua concepção de Caim, e corroborada por seu amigo Hugo Ball, sustentava a narrativa romântica de uma criação veemente e intuitiva, negando o conhecimento de fontes literárias, o que impõe ao estudioso o dever de investigar a origem das ideias para além da sensibilidade familiar, discernindo entre produtos espontâneos do inconsciente e a apropriação de tradições antigas.
  • A experiência psicanalítica e o simbolismo de “O Lobo da Estepe”
    • A gênese de “O Lobo da Estepe” em 1927 está intrinsecamente ligada à análise de Hesse com o Dr. J.B. Lang, discípulo de Jung, e à sua proximidade com o Clube Analítico de Zurique, refletindo o drama do pacifista agressivo Harry Haller, que descobre em si a dicotomia de um lobo devorador, uma projeção dos problemas do próprio autor.
    • A personagem Hermine, cujo nome é a forma feminina de Hermann, atua como a “anima” do autor e uma espécie de “Beatriz prostituta”, cuja função não é apenas ensinar a dança e o ritmo, mas iniciar o intelectual isolado na realidade das emoções negligenciadas e na totalidade da vida, culminando na cena do teatro mágico que reflete as tendências suicidas não resolvidas de Hesse à época.
  • A revitalização do arquétipo de Sophia Prounikos e suas raízes históricas
    • Ao caracterizar Hermine como uma figura de sabedoria que possui traços de cortesã, Hesse revitalizou inconscientemente o símbolo gnóstico de Sophia Prounikos, a Sabedoria Devassa, cuja natureza paradoxal de prostituta e santa foi confirmada pela descoberta do escrito “Bronte” (O Trovão) em Nag Hammadi, onde a divindade feminina reivindica ambos os títulos.
    • A interpretação patrística de Epifânio, que atribuía uma conotação obscena ao termo “Prounikos”, demonstrou-se correta frente à tentativa da crítica moderna, representada por Martin P. Nilsson, de suavizar o termo apenas como “portadora”, pois os textos gnósticos, como o Apócrifo de João, e as referências de Celso ao diagrama dos Ofitas confirmam a conexão entre a Sabedoria e a lascívia ou o desejo desenfreado.
    • A genealogia deste símbolo remonta à antiguidade suméria, especificamente ao Épico de Gilgamesh, onde a hieródula de Ishtar civiliza o selvagem Enkidu através da iniciação sexual, transformando-o em um ser sábio como um deus, um tema que persiste no sincretismo helenístico na lenda de Simão Mago e Helena, encontrada num bordel de Tiro, e na hagiografia cristã com Santa Pelagia/Marina.
  • Sofiologia Russa e a confirmação de Hesse
    • A tradição da Igreja Grega e a sofiologia russa preservaram, ainda que de forma sublimada, a conexão da Sabedoria com o elemento feminino e telúrico, como evidenciado nos ícones de Novgorod e na literatura de Dostoiévski, onde a personagem Sonia (Sophia) em “Crime e Castigo”, sendo uma prostituta, atua como o princípio de salvação e consciência moral, instruindo o assassino a beijar a terra mãe.
    • A consciência de Hesse sobre a profundidade mítica de sua criação foi confirmada em uma carta a Thomas Mann em 1934, na qual, após ler “José no Egito”, Hesse reconheceu com “alegre espanto” o paralelo entre a educação de Enkidu pela prostituta e a função de Hermine em “O Lobo da Estepe”, admitindo o retorno do símbolo à infinitude dos éons.
  • A apropriação da teologia de Jung em “Demian”: O Nada e a Plenitude
    • A concepção de Abraxas em “Demian” como a união do divino e do satânico deriva diretamente dos “Septem Sermones ad Mortuos” de Jung, escritos em 1916, que por sua vez foram inspirados na doutrina do gnóstico Basilides sobre o Nada que é também Plenitude (Pleroma), conforme interpretado por Wolfgang Schulz em “Dokumente der Gnosis”.
    • Jung, em seus sermões esotéricos, afastou-se do Basilides histórico, para quem Abraxas era um demiurgo inferior, e elevou Abraxas à condição de divindade suprema, terrível e bela, que gera a verdade e a mentira no mesmo ato, transcendendo tanto o summum bonum (Sol) quanto o infimum malum (Diabo).
  • Iconografia e significado de Abraxas e Phanes
    • A figura de Abraxas nos amuletos mágicos da Antiguidade, caracterizada por cabeça de galo (solar), pernas de serpente (ctônicas/gigantescas), couraça e chicote, representa um símbolo unificador de luz e trevas, céu e inferno, consciência e inconsciente, servindo como o arquétipo ideal para a superação da esquizofrenia cultural abordada por Hesse.
    • A representação anômala de Abraxas com cabeça de leão no mandala pessoal de Jung (“Systema Totius Mundi” de 1916) sugere uma fusão sincrética com a figura monstruosa do Tempo Infinito (Aion/Kronos) dos mistérios de Mitra, demonstrando a erudição de Jung ao conectar o simbolismo solar e temporal.
    • Jung identificou o impulso criativo da libido com a figura órfica de Phanes (Eros/Protogonos), o deus alado e andrógino nascido do ovo cósmico, baseando-se no “Lexikon” de Roscher e na controvérsia arqueológica sobre o relevo de Módena, onde Robert Eisler corretamente identificou a figura como Phanes, refutando a interpretação puramente mitraica de Franz Cumont.
  • A mediação de J.B. Lang e a síntese simbólica
    • A imagem central de “Demian”, o pássaro que luta para sair do ovo-mundo (“O pássaro voa para Deus. O Deus chama-se Abraxas”), resulta de uma fusão poética operada por Hesse a partir de informações transmitidas oralmente por seu analista J.B. Lang, que conhecia tanto os escritos secretos de Jung quanto a simbologia de Phanes, nascimento do ovo, e Abraxas, cabeça de galo/gavião.
    • O mandala de Jung de 1916 antecipa visualmente o processo de individuação, descrevendo um universo onde o vazio e a plenitude são aspectos da mesma realidade, com Abraxas na base, origem sombria, e o jovem Phanes no topo, meta espiritual, o “Self”, embora nos “Sermones” Jung funda as duas figuras em uma unidade paradoxal.
  • Conclusão sobre a trajetória de Hesse
    • Ao integrar esses símbolos antigos, Hesse transformou o conhecimento esotérico de poucos eruditos em uma expressão universal da aspiração de sua geração pela “totalidade” e pela cura da cisão interior, embora posteriormente tenha abandonado a Gnose em favor das religiões orientais e do pietismo, em “O Jogo das Contas de Vidro”.
    • Constata-se, por fim, que o novo Deus cósmico de Hesse, Abraxas, que abarca o céu e o submundo, não difere essencialmente do Deus de amor e ira da tradição pietista de seu pai, indicando um retorno às estruturas religiosas fundamentais de sua formação.
    • Uma nota adicional sugere que a veneração de Sophia Prounikos pelos gnósticos judeus de Alexandria pode representar a sobrevivência histórica do culto à Rainha dos Céus (Asherah/Ishtar), consorte de Yahweh, combatido pelo profeta Jeremias mas persistente na religiosidade popular judaica, o que lançaria nova luz sobre as origens do culto mariano.
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