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Plotino

Henri-Charles Puech. Sulle tracce della Gnosis. Ι. La Gnosis e il tempo. II. Sul Vangelo secondo Tommaso. Milano: Adelphi, 1985

Posição espiritual e significado de Plotino

  • A edição monumental das Enéadas organizada por Emile Brehier alcança sua conclusão com a segunda parte do sexto tomo, e a ordenação porfiriana revela o mérito de conduzir a meditação plotiniana em ritmo ascendente.
    • Porfírio dispôs os cinquenta e quatro tratados em seis grupos de nove escritos.
    • O percurso vai daqui de baixo, isto é, da moral, da física e do mundo sensível, até lá em cima, isto é, às hipóstases da Alma, do Intelecto, do Bem ou do Uno.
    • A conclusão da obra coincide com a citação: “o fim da viagem”.
    • Os tratados finais concentram a experiência do Uno, na qual o sistema inteiro oferece sua chave de inteligibilidade.
    • Quatro índices completam a edição, abrangendo citações e referências, textos citados por Plotino, termos gregos transliterados e assuntos.
  • A edição de Brehier representa progresso em relação às traduções anteriores e atesta uma atualidade moderna de Plotino.
    • A antiga tradução francesa de Marie-Nicolas Bouillet é julgada frequentemente fraca, opaca, por vezes inexata e desequilibrada em suas notas.
    • Stephen MacKenna, Kenneth Sylvan Guthrie e Richard Harder são mencionados entre tradutores modernos de Plotino.
    • A multiplicação dessas traduções indica uma afinidade entre a atitude espiritual de Plotino e a inquietação do pensamento moderno.
  • A importância histórica de Plotino decorre de sua influência ampla na Antiguidade tardia, no Medievo, no Renascimento e na filosofia moderna.
    • Porfírio, Eusébio de Cesareia, Basílio, Cirilo de Alexandria, Teodoreto, Sinésio, Hérmias, Proclo, Marino, Damáscio, Simplício, Eneias de Gaza, João Filopono, a Suda, Nicéforo Gregoras, João Lido, Firmico Materno, Mário Vitorino, Macróbio, Sérvio, Amiano Marcelino e Sidônio Apolinário são mencionados como autores ligados direta ou indiretamente à recepção plotiniana.
    • Santo Agostinho ocupa lugar especial, pois o plotinismo contribuiu para afastá-lo do maniqueísmo e orientá-lo ao cristianismo.
    • O Pseudo-Dionísio Areopagita, Proclo e outros canais transmitiram elementos plotinianos ao Medievo latino, à especulação bizantina e às filosofias muçulmanas e judaicas.
    • A chamada Teologia de Aristóteles, derivada de extratos das últimas três Enéadas, passou do siríaco ao árabe e depois ao latim.
    • Marsílio Ficino traduziu as Enéadas ao latim em 1492, e a primeira publicação impressa ocorreu em Basileia, em 1580.
    • Spinoza, Leibniz, Novalis, Schelling, Hegel e Bergson são evocados por afinidades com aspectos do pensamento plotiniano.
  • A transmissão histórica deformou diversas vezes a imagem de Plotino, exigindo a recuperação de sua fisionomia própria.
    • Plotino foi interpretado como enigma incompreensível, exaltado, místico panteísta de tipo oriental, eclético ou produto espontâneo da filosofia helênica.
    • Seus herdeiros imediatos também o traíram ao transformar o neoplatonismo em escolástica posterior.
    • Damáscio é mencionado como figura que leva essa tradição a seu acabamento.
    • Porfírio narra que Amélio queria levar Plotino a cerimônias religiosas, mas Plotino respondeu: “São os deuses que devem vir a mim, não eu que devo ir a eles”.
    • A religião interior de Plotino se distancia do rito, da prece, da magia e da teurgia que, desde Jâmblico, se tornaria obsessiva na escola neoplatônica.
    • Nos últimos anos, Plotino, acometido por lepra e evitado por amigos, deixou Roma pela Campânia e morreu quase sozinho, com a presença tardia do médico Eustóquio.
  • A restituição de Plotino a si mesmo exige remover as camadas interpretativas acumuladas e reencontrar a atualidade histórica de seu pensamento.
    • A tarefa do historiador das ideias, do editor e do tradutor consiste em recuperar uma imagem direta de Plotino.
    • A citação das Enéadas afirma: “Faze como o escultor de uma estátua que deve tornar-se bela: ele retira uma parte, raspa, alisa, limpa até fazer aparecer belas linhas no mármore; como ele, retira o supérfluo, endireita o que é oblíquo, limpa o que é escuro para torná-lo brilhante”.
    • Outra citação afirma: “Vimos a alma como se vê Glauco, o deus marinho; se se quer conhecer sua natureza, é preciso bater fortemente para retirar tudo o que se lhe acrescentou, considerar o amor que ela tem pela sabedoria e ver a que ela se aplica e quais são suas afinidades”.
  • O pensamento de Plotino deve ser reinserido no presente histórico em que se expressou para que sua originalidade se torne inteligível.
    • As afinidades da alma plotiniana abrangem os vínculos com seu tempo e com o passado que atuou sobre ela.
    • A filosofia de Plotino aparece inicialmente como exegese e sistematização de Platão, adaptação ou crítica respeitosa dos Antigos.
    • As Enéadas reproduzem lições orais frequentemente ligadas a textos citados ou pressupostos.
    • As notas de Brehier permitem identificar citações de Platão, Aristóteles e seus comentadores, bem como objeções a doutrinas clássicas e contemporâneas.
  • Os anos de 250 a 270, durante o ensino de Plotino em Roma, constituem período decisivo de conflito espiritual no mundo antigo.
    • O mundo antigo oscila entre o abandono dos cultos antigos e a ameaça das novas religiões de salvação.
    • A ruptura com o cristianismo se acentua, mas coexistem tentativas de sincretismo e de conciliação.
    • Plotino, egípcio de origem e filósofo grego, aparece como testemunha privilegiada desse mundo em transformação.
    • A confrontação com forças estranhas ao gênio helênico permite compreender aquilo que o estimulava e ao mesmo tempo o repelia.
  • A viagem de Plotino ao Oriente e a possível contemporaneidade com Mani simbolizam o confronto entre a razão grega e a ciência mística oriental.
    • Porfírio relata que Plotino, aos trinta e nove anos, se alistou no exército de Gordiano III para conhecer diretamente a filosofia praticada entre os persas e honrada entre os indianos.
    • Plotino participou da campanha da Mesopotâmia contra os persas do rei Sapor até o desastre de fevereiro de 244.
    • Mani é apresentado como fundador de uma nova religião de salvação pronta a expandir-se no Império.
    • A hipótese de que Mani estivesse no exército de Sapor é posteriormente corrigida como menos provável para a campanha contra Gordiano III e mais verossímil para a campanha de 259—260 contra Valeriano.
    • O encontro simbólico põe frente a frente o filósofo do nous e da razão grega e o apóstolo de uma ciência mística emanada do Nous ou Espírito de Luz.
  • O confronto de Plotino com a Gnose continuou em Roma, no interior de sua própria escola.
    • Após chegar a Roma no verão de 244, Plotino encontrou ouvintes e críticos gnósticos em sua escola.
    • Esses gnósticos consideravam a filosofia grega algo a ser superado.
    • Eles sobrepunham aos diálogos de Platão revelações orientais ou pseudo-orientais, como as de Zoroastro e Zostriano.
    • Afirmava-se contra Platão que ele “não penetrara até as profundidades abissais da essência inteligível”.
    • Por volta de 264, a discussão tornou-se conflito aberto no nono tratado da segunda Enéada, dirigido contra os gnósticos.
  • Os gnósticos combatidos por Plotino eram provavelmente cristãos, e o cristianismo não lhe podia ser desconhecido.
    • Muitos ataques da Enéada II, 9 atingem diretamente dogmas cristãos.
    • Amônio Sacas, mestre alexandrino de Plotino, pertencia ao cristianismo.
    • Orígenes foi condiscípulo de Plotino.
    • Porfírio, discípulo de Plotino, escreveu Contra os cristãos já em 268.
    • A filosofia neoplatônica e a filosofia cristã nasceram em Alexandria no mesmo ambiente e na mesma atmosfera.
  • Cristianismo, gnosticismo e neoplatonismo disputam a hegemonia espiritual do século III a partir de um problema comum de salvação individual.
    • Essas três forças compartilham um mesmo clima espiritual, embora permaneçam irredutivelmente distintas.
    • A passagem da polis à oikoumene deslocou o homem da cidade para o universo civilizado.
    • O zoon politikon de Aristóteles converte-se no zoon koinonikon de Crisipo.
    • O cidadão do mundo torna-se simultaneamente livre em toda parte e solitário em toda parte.
    • O isolamento revela ao homem seu eu e o leva a projetar no além um Deus supremo em solidão inefável.
    • A citação conceitual “de só para só” exprime a relação íntima do indivíduo com o divino.
    • As perguntas fundamentais tornam-se: “Por que me encontro aqui embaixo? Qual é minha origem? Como retornar aonde eu estava, onde sou verdadeiramente em mim mesmo?”.
    • A sabedoria deve tornar-se religião, ou encontrar na religião sua origem e seu cumprimento.
  • As correntes do século III não devem ser compreendidas por oposições rígidas entre fé e razão, religião e filosofia, Oriente e Ocidente, mística e intelectualismo.
    • Os novos sistemas pretendem reunir os dois polos dessas oposições.
    • A especulação de Plotino pode ser chamada tanto de intelectualismo místico quanto de misticismo intelectualista.
    • A oposição entre mythos e logos é mais fecunda, mas também não deve ser absolutizada.
    • O plotinismo procura unir mitos e raciocínios platônicos em um único sistema.
    • A questão consiste em saber se há racionalização do mito ou mitização da razão.
    • No cristianismo, queda, conversão e retorno ligam-se a eventos históricos como a culpa de Adão, a revelação veterotestamentária, a Encarnação do Verbo e o Juízo Final.
    • Na gnose cristã ou maniqueia, a salvação depende de eventos descontínuos e atemporais, de catástrofes e intervenções que compõem uma história mítica.
  • Plotino também procura fazer da filosofia um método de salvação, mas situa esse caminho no cosmos racional da filosofia grega.
    • A filosofia torna-se introdução à vida bem-aventurada.
    • A citação plotiniana fala de “unidade substancial” entre ser e pensamento, sujeito e objeto.
    • Outra citação afirma uma “participação na verdadeira ciência” na qual “nós somos os seres”.
    • A conversão é retorno a si, ao próprio princípio e a uma natureza superior, anterior e primitiva.
    • A queda e a ascensão coincidem com os movimentos descendente e ascendente da dialética platônica.
    • O kosmos plotiniano é coerente, eterno, ordenado, circular e refratário à criação, ao progresso histórico e ao aniquilamento escatológico.
  • A salvação plotiniana não depende de mito ou história, mas da relação interior da alma com a transcendência imóvel.
    • Descida e ascensão designam atitudes interiores de afastamento ou proximidade diante da transcendência eterna.
    • O mito simula uma gênese onde nunca houve senão eternidade.
    • O tempo transforma em sucessão aquilo que é totalidade.
    • O tempo nasce da deficiência da alma que se afasta da contemplação do mundo inteligível.
    • O tempo desaparece quando a alma anula sua distância em relação ao Intelecto e se reabsorve no Inteligível.
  • A originalidade de Plotino consiste em unir consciência da queda, monismo racional e recusa de técnicas religiosas de salvação.
    • Há em Plotino consciência aguda do decaimento da alma e da dualidade entre mundo sensível e mundo de cima.
    • A ordem racional necessária justifica o lugar de cada alma no universo.
    • O dualismo é superado por um monismo fundado na emanação contínua.
    • O mundo é exaltado como belo porque é aquilo que é.
    • Revelação, culto e prece são tratados como práticas ligadas a simpatias ocultas e à magia natural do mundo inferior.
    • O plotinismo aparece como herdeiro do racionalismo helênico e como defesa do Ocidente contra as gnoses orientais e contra a nova visão cristã do mundo.
  • A principal herança racional recebida por Plotino é a concepção de um universo uno, coerente, solidário e suficiente a si mesmo.
    • O estoicismo impôs a imagem orgânica de um mundo animado pelo Logos, razão e força imanente.
    • O platonismo, o aristotelismo e o neopitagorismo contribuíram para verticalizar e transcender essa unidade.
    • O universo plotiniano é hierarquia de realidades subordinadas, mas essa hierarquia é expansão e continuidade.
    • A citação afirma: “Todas as coisas são, pois, como uma vida que se estende em linha reta; cada ponto sucessivo da linha é diferente dos outros; mas a linha inteira é contínua. Ela tem pontos sempre diferentes; mas o ponto anterior não se anula naquele que o segue”.
  • As três hipóstases plotinianas não rompem a continuidade dinâmica da realidade.
    • O Uno, o Intelecto e a Alma são momentos ou aspectos estabilizados pela especulação.
    • A processão nasce da superabundância do Uno e se difunde como irradiação espontânea.
    • A multiplicidade torna-se cada vez mais dispersa à medida que se afasta do Uno.
    • Em toda parte há uma só e mesma realidade percebida em níveis sucessivos.
  • A eternidade da hierarquia plotiniana implica a coexistência recíproca dos graus da realidade.
    • Criação, modificação e fim do universo são tão inconcebíveis quanto começo ou interrupção da processão do Uno.
    • O inferior está implicado no superior, e o superior permanece presente no inferior.
    • A citação afirma: “Os últimos entre os seres estão naturalmente naqueles que os precedem imediatamente, aqueles que estão no primeiro lugar estão naqueles que estão ainda antes deles, e assim um ser está no outro até que se chegue ao primeiro princípio”.
    • O primeiro princípio, por nada ter antes de si, não é contido por nada e contém todas as coisas.
  • A realidade plotiniana pode ser figurada como esferas interiores ou como círculo em expansão a partir de um centro único.
    • As esferas diferem pela extensão de seus limites, mas coincidem no mesmo centro.
    • O círculo alarga-se continuamente, mas todos os raios têm sua origem e permanência em um único ponto.
    • Dieterich Mahnke é mencionado por seu estudo sobre a esfera infinita e o centro universal.
  • A interioridade recíproca entre superior e inferior permite compreender a presença do Uno no fundo de todas as coisas.
    • O Uno é inteiramente voltado para si e interno a si.
    • A citação afirma: “Aquilo que está fora do Uno é o próprio Uno, porque ele abarca e mede todas as coisas. Ou melhor, está dentro das coisas e em sua profundidade”.
    • Outra citação afirma: “É preciso voltar-se totalmente para o interior… Deus não é externo a nenhum ser; está em todos os seres; mas estes não o sabem. Fogem para longe dele, ou antes, para longe de si mesmos”.
  • O inferior reencontra o superior ao recolher-se em si e regressar à fonte.
    • O movimento de retorno é comparado a um curso de água que reflui para a fonte ou a um raio reconduzido à origem.
    • A multiplicidade momentânea pode remontar à unidade primordial.
    • A citação afirma: “O sábio, já cheio de razão, tira de si mesmo aquilo que revela aos outros; é para si que olha; não somente tende a unificar-se e a isolar-se das coisas externas, mas está voltado para si e em si encontra todas as coisas”.
  • A interioridade permite a Plotino desenvolver uma mística da imanência dentro de uma metafísica da transcendência.
    • O divino está sempre e em toda parte presente, sem deslocamento nem localização no tempo e no espaço.
    • A citação afirma: “Ele, o Primeiro, não vem, como se esperava que se dissesse; vem sem vir; e, sem vir, aparece, porque já está presente antes de todas as coisas, até antes que o intelecto tenha vindo”.
    • Outra citação afirma: “Não veio, e está aqui! Não está em nenhuma parte, e não há nada em que não esteja!”.
  • A presença eterna do Uno exclui parusia histórica, messianismo e necessidade de intermediário salvífico.
    • O Uno aparece instantaneamente na experiência mística sem movimento ou condescendência de sua parte.
    • Essa presença contrasta com o gnosticismo e o cristianismo.
    • A citação afirma: “Procura confiantemente Deus com o auxílio de tal princípio, a alma, e sobe até ele; ele não está de modo algum longe e tu chegarás a ele: os intermediários não são numerosos”.
    • Entre a alma e o divino não é necessário Salvador nem Intercessor.
  • A alma humana está presente a Deus porque possui no mundo transcendente seu princípio inteligível.
    • Cada ser individual tem uma ideia no mundo transcendente.
    • O homem pode reintegrar-se nele e assimilar a si o ser universal.
    • A citação afirma: “Há em nós também o princípio e a causa do intelecto que é Deus”.
    • Outra imagem afirma que o centro permanece em si mesmo, mas cada ponto do círculo o contém.
    • Com esse elemento interior, a alma toca Deus, permanece com ele e se estabelece nele ao voltar-se para ele.
  • A coesistência ontológica do superior e do inferior torna possível o retorno do inferior ao superior.
    • O retorno depende do inferior, que contém em si suas próprias possibilidades.
    • O inferior não deve esperar mudança de atitude do superior.
    • O problema da salvação nasce do contraste entre a permanência verdadeira em Deus e a situação atual e aparente do homem.
  • A condição humana possui paradoxo e dualidade porque a alma abrange simultaneamente o superior e o inferior.
    • A citação afirma: “A alma é muitas coisas; ela é todas as coisas, as coisas superiores e as coisas inferiores, e se estende por todo o âmbito da vida”.
    • Cada um é um mundo inteligível.
    • Pela parte visível, o homem está ligado às coisas inferiores.
    • Pela parte inteligível, permanece em contato com as coisas superiores.
    • A atividade que se difunde para baixo não diminui a parte plenamente inteligível.
  • A dualidade da alma não implica separação definitiva entre duas naturezas, pois a alma permanece contínua consigo mesma.
    • A alma aparece dividida apenas ao ser que a recebe.
    • A citação pergunta: “Nós? Somos aquela alma ou aquilo que se aproxima da alma e aquilo que é gerado no tempo?”.
    • Antes do nascimento, a alma estava no mundo inteligível como homem, por vezes como deus, alma pura e intelecto unido ao ser inteiro.
    • Mesmo agora, a alma não está separada desse mundo.
    • Um segundo homem se uniu ao homem inteligível originário, formando uma espécie de dupla.
  • Plotino pode falar em dois ou três homens no interior do homem para descrever níveis de atuação espiritual.
    • Um homem corresponde ao intelecto intuitivo.
    • Outro corresponde ao pensamento discursivo.
    • O terceiro corresponde à sensação.
    • Não há pluralidade definitiva de substâncias, mas múltiplos aspectos e atitudes possíveis da verdadeira alma.
    • A citação afirma: “Cada um de nós é, desses três homens, aquele segundo o qual age”.
  • A relação entre o eu aparente e o eu verdadeiro é problema de presença e ausência.
    • O eu está em toda parte e é tudo, mas aparece aqui e como isto.
    • A manifestação local e momentânea não constitui a alma.
    • A ação atual pode lançar o eu verdadeiro na inconsciência.
    • O domínio do eu verdadeiro mergulha as potências do eu aparente em uma espécie de ausência.
  • O sono e o despertar exprimem a alternância entre queda e ascensão da alma.
    • O torpor do eu verdadeiro corresponde à descida da alma.
    • O despertar do eu verdadeiro corresponde à ascensão e ao retorno à plena verdade.
    • A citação afirma: “Muitas vezes desperto para mim mesmo fugindo do meu corpo; estranho a qualquer outra coisa, na intimidade de mim mesmo, vejo a mais maravilhosa das belezas”.
    • A mesma citação prossegue: “Estou unido ao ser divino e, chegando a essa atividade, fixo-me nele acima dos outros seres inteligíveis”.
    • Após repousar no ser divino, a alma desce novamente do intelecto ao pensamento reflexivo e se pergunta como pôde entrar no corpo.
  • A alma nunca desce inteiramente para cá porque sua morada permanece no inteligível.
    • A presença inferior da alma em um corpo pode ser compreendida mais como movimento do corpo em direção à alma do que como queda da alma no corpo.
    • O destino humano resolve-se na relação que o eu sustenta consigo mesmo.
    • A adesão às manifestações externas cria a ausência de si.
  • O esquecimento de Deus e de si nasce da audácia da alma, de sua geração, de sua diferença inicial e de sua vontade de pertencer a si mesma.
    • A citação pergunta: “De que depende, pois, que as almas tenham esquecido Deus seu pai e que, fragmentos vindos dele e completamente seus, ignorem a si mesmas e o ignorem?”.
    • A alma, feliz com sua independência, corre em direção oposta a Deus.
    • Como crianças afastadas do pai, as almas esquecem quem são e quem são seus pais.
    • A causa da ignorância de Deus é o apreço pelas coisas daqui de baixo e o desprezo de si.
    • Admirar as coisas sujeitas a nascimento e morte significa reconhecer-se inferior a elas.
  • A ilusão de possuir-se ao distinguir-se faz o eu perder sua universalidade e substituir o verdadeiro eu por um falso eu parcial.
    • A alma que pretende acrescentar algo a si mesma acrescenta-se a outro e se subtrai de si.
    • Toda aquisição torna-se perda e todo acréscimo torna-se diminuição.
    • A alteridade introduzida no Uno dá origem à multiplicidade.
    • A multiplicidade afasta progressivamente suas partes do princípio até o puro Nada ou Outro absoluto da Matéria.
    • A existência inferior da alma começa com um ato de audácia que a torna diferente e a carrega de não ser.
  • O engrandecimento do eu ocorre pelo abandono daquilo que o particulariza e o prende ao não ser.
    • A citação afirma: “Como sentirás sua presença? O fato é que lhe estás próximo e não te detiveste em um ser particular”.
    • A citação prossegue: “Deixas todo limite para tornar-te o ser universal”.
    • O homem era universal desde o princípio, mas o acréscimo do não ser o tornou alguém particular.
    • A citação afirma: “Não há necessidade de que ele venha para estar presente; és tu que te foste”.
  • A matéria recebe aparência de ser das almas que aderem a ela, e o mundo sensível torna-se ilusão mágica.
    • A matéria é fantasma e mentira em ato.
    • Ela é escuridão iluminada por reflexos indiretos da processão.
    • O mundo sensível seduz, fascina e fixa a alma que se vê como outra no espelho da matéria.
    • A ação insere o homem na trama de simpatias e encantamentos do universo inferior.
    • Submetido ao céu e aos astros, o mundo inferior é domínio da Necessidade e da escravidão.
  • A salvação equivale à dissolução dos encantamentos do sensível e ao despertar do sonho de olhos abertos.
    • A permanência do verdadeiro eu no mundo transcendente torna possível a evasão.
    • A parte inteligível do ser humano é superior aos movimentos celestes e às conexões do kosmos.
    • A epistrophe é conversão de atitude, na qual uma parte é trocada pelo todo, uma aparência pela realidade, um nada pelo ser.
    • A purificação é técnica de fuga do mundo.
    • A citação final da ascensão é: “fuga do ser só para o Uno que é só”.
  • A purificação plotiniana não remove uma culpa interna, mas separa a alma de tudo o que lhe é exterior.
    • As culpas e vícios são externos à alma.
    • A citação afirma: “abandona todas as outras coisas” e “retirando tudo”.
    • Purificar-se é isolar o próprio eu para reencontrar sua espontaneidade interna.
    • O desapego começa pelo corpo, pelas paixões e por toda passividade.
    • Como a passividade deriva da atividade mundana, é preciso também substituir a ação pela contemplação.
    • A sabedoria aparece como técnica do esquecimento, instrumento de unidade e redução do múltiplo.
    • O último desapego elimina as diferenças que fazem a alma ser outra diante do Uno.
  • A alma aspira a uma unidade nua e livre em que o eu se realiza como contemplação infinita.
    • A condição almejada supera passividade, multiplicidade e diferença.
    • A espontaneidade do eu coincide com seu próprio ser.
    • A citação descreve o si mesmo como “esplendor voltado para si, iluminante e iluminado ao mesmo tempo”.
    • O Inteligível, todos os intelectos e todos os inteligíveis aparecem mutuamente implicados em transparência total.
  • O mundo inteligível é descrito como vida fácil, transparência total e identidade recíproca de todos em todos.
    • A citação afirma: “Lá, a vida é fácil; a verdade é a mãe deles, dos deuses, e sua nutriz, sua substância e seu alimento”.
    • A citação prossegue: “Tudo é transparente; nada de escuro nem de resistente; todos são claros para todos, até em sua intimidade; é a luz para a luz”.
    • A citação afirma ainda: “Cada um tem tudo em si, e vê tudo em cada outro: tudo está em toda parte, tudo é tudo, cada um é tudo”.
    • O movimento é puro porque seu motor não se distingue dele.
    • O repouso não é perturbado pelo movimento.
    • O lugar em que cada ser está é exatamente aquilo que ele é.
  • O intelecto busca superar o pensamento analítico fragmentado para alcançar uma ciência intuitiva e simultânea.
    • A inteligência não quer permanecer em proposições, teoremas e silogismos descontínuos.
    • Ela deseja um saber total no qual consequências estejam presentes nas premissas e efeitos nas causas.
    • A escrita hieroglífica é tomada como imagem de um saber simultâneo.
    • A citação afirma que “cada sinal gravado é uma ciência, uma sabedoria, uma coisa real, apreendida simultaneamente, e não uma série de pensamentos como um raciocínio ou uma deliberação”.
  • A libertação consiste em dissolver toda opacidade para reencontrar a translucidez da luz inteligível.
    • A mente elimina da imagem sensível toda delimitação e configuração espacial.
    • A finalidade é comunicar-se apenas com a força interna e abstrata da realidade.
    • A imagem da massa luminosa no centro de uma esfera transparente mostra uma luz que se estende sem deslocar-se.
    • Quando se suprime a massa e se conserva a força luminosa, já não se pode localizar a luz em um ponto preciso.
    • A luz é vista em todo ponto da esfera como presença igualmente distribuída.
    • A alma vê o Uno ao confundir e apagar os contornos distintos de seu intelecto.
  • A salvação é uma odisseia intelectual e uma anábase interior que conduz do sensível ao inteligível e à unidade.
    • Ulisses é evocado como aquele que escapa aos sortilégios da maga Circe e retorna à pátria querida.
    • A anábase interior conduz de dispersão, perda e derrota à plenitude e ao domínio de si.
    • O noûs eron, isto é, o intelecto amante, impulsiona o místico, o músico, o filósofo ou o amante.
    • A contemplação da forma liberta da matéria e constitui uma primeira ascensão dialética.
    • A beleza verdadeira é a unidade que atravessa a forma, não a simples simetria ou harmonia exterior.
    • A estética de Plotino é uma estética do informe.
    • A beleza conduz à imagem invisível e ao Bem que está acima do Belo.
  • A ascensão pelas hipóstases não deve ser tomada como deslocamento espacial, mas como transformação de atualidade e potência na alma.
    • A Alma, o Intelecto e o Uno são aspectos sucessivos de uma única realidade.
    • A alma particular é particular em ato e Alma universal em potência.
    • A Alma universal é universal em ato e almas particulares em potência.
    • Cada intelecto particular é particular em ato e todos os intelectos em potência.
    • O acesso ao universal ocorre quando a alma deixa de particularizar-se em ato.
  • O Intelecto ainda não é a unidade suprema, porque conserva dualidade entre sujeito e objeto.
    • O Intelecto pensa, e todo pensamento é pensamento de algo.
    • A salvação culmina em uma experiência do Uno que não é pensamento, mas contato imóvel.
    • Essa experiência não é ciência, mas estado.
    • A synousia indica comunhão.
    • A experiência é menos visão do que saída de si, simplificação, abandono de si, desejo de contato, repouso e adesão.
  • A experiência do Uno não pode ser demonstrada, mas apenas sugerida por metáforas insuficientes.
    • A experiência é inefável e escapa à análise.
    • A citação afirma que a alma, ao inflamar-se de amor pelo Uno, “se despoja de todas as suas formas, e até da forma do inteligível que havia nela”.
    • A alma deve nada guardar para si, nem de bem nem de mal, para recebê-lo “de só para só”.
    • Quando a presença se manifesta, “nada há entre ela e ele; não são mais dois, mas os dois são um só”.
    • A alma não sente mais o corpo, não se chama homem, ser animado, ser ou qualquer outra coisa.
    • A alegria experimentada não vem de um prurido do corpo, mas do retorno à felicidade de outrora.
    • A alma despreza honras, poder, riqueza, beleza e ciência ao encontrar um bem superior.
    • A citação conclui que, mesmo se tudo ao redor fosse destruído, a alma consentiria nisso para permanecer junto dele “de só para só”.
  • A experiência mística do Uno é rara, mas revela como normal e permanente a presença eterna que funda toda realidade.
    • A certeza dessa solução experimental da salvação depende da experiência pessoal e do testemunho dos que viram.
    • Porfírio relata que Plotino alcançou essa experiência apenas quatro vezes.
    • A presença do Uno é condição real de toda realidade.
    • Pensamento, vida, ação, multiplicidade, tempo, mundo e até hipóstases podem obscurecer essa presença.
    • A estase mística corrige a estase metafísica pela qual as manifestações saem do Uno na processão.
  • A tentativa plotiniana de inserir uma mística no racionalismo grego introduz um elemento novo e duradouro na filosofia ocidental.
    • O ponto de partida de Plotino permanece próximo das teorias contemporâneas de salvação.
    • O conhecimento é compreendido como cumprimento de uma libertação.
    • A interioridade viva e vivida do eu torna-se componente essencial da metafísica.
    • A citação afirma: “o ego torna-se um termo filosófico”.
    • Julius Stenzel e Emile Brehier são mencionados a propósito dessa virada.
    • As Enéadas conferem à consciência filosófica um acento original e preparam o advento de um idealismo ainda ativo nas especulações modernas.
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