PERATAS
José Montserrat Torrents. Los Gnósticos I (Biblioteca Clasica Gredos)
A segunda das seitas ofitas que Hipólito estuda em seu livro V é a dos peratas. Seus fundadores teriam sido Eufrates, o Perata (mencionado por Orígenes em relação aos ofitas), e Celbes ou Aquembes de Caristios, personagem desconhecido por outras fontes. O apelido de «perata» (peratikós) é explicado pelo próprio Hipólito como derivado de peráo, «ultrapassar (a corrupção)». Celbes seria originário da cidade de Caristios, na Eubeia.
Hipólito pretende sugerir que reuniu toda uma biblioteca perática. Ele cita textualmente uma obra intitulada Os Alcaides até o Éter e, em sua resenha do peratismo, parece basear-se em outras duas fontes distintas. Em sua descrição da astrologia perática, ele parafraseia uma passagem de Sexto Empírico.
A todo claro, Hipólito manipula suas fontes para fundamentar sua tese: os peratas extraíram suas doutrinas dos astrólogos. No entanto, sua informação é suficientemente ampla para permitir a reconstituição do sistema perático em suas linhas gerais. Os peráticos partem de uma exegese do Antigo Testamento, cujos passos principais são os primeiros versículos do Gênesis (sobretudo os referentes às águas), a travessia do Mar Vermelho e a serpente do deserto, convertida em ponto central de sua alegoria cristã. O sistema é de corte platônico médio e aparece ornamentado com brilhantes dissertações astrológicas.
Francisco García Bazán: Gnosis
Os peratas também são considerados adoradores da serpente (Elenchos V, 16,4 ss.), o logos sábio que falou a Eva, o que permite classificá-los como um ramo distinto do mesmo tronco ofítico. O perata também afirma seu conhecimento privilegiado do universo e da situação do homem nele (gnose e esoterismo). Seu dualismo anticósmico é fortemente enfatizado e, na elaboração de seu simbolismo dualista, contribui a multiplicação de nomes para as potências celestiais que impõem a fatalidade. A Tipologia Bíblica se coloca a serviço de seus anseios de libertação do mundo da corrupção ou da mudança (o Mar Vermelho representa essa corrupção, os egípcios nele afundados são os ignorantes — isto é, os homens desprovidos da gnose — e o êxodo do povo hebreu é a saída do corpo alcançada pelo gnóstico). A presença do arconte demiurgo, o produtor da corrupção e da morte e deus deste mundo, torna mais patética a expressão do sentimento de alienação do perata.
Na tripartição do universo ou da realidade que Hipólito conseguiu nos transmitir, afirma-se a grandeza do Pai (o Bem perfeito e não gerado), a perfeição do Filho, de quem provêm tanto o cosmos quanto a salvação dos conhecedores, e a geração emanatista que reconhece Nele seu princípio original. A queda está implícita, mas afirmada na presença do Salvador (Cristo), que desceu do alto para salvar todos os que provêm de cima, para a totalidade do nous, o verdadeiro cosmos, que inclui tanto o setor supremo quanto o pleromático. Por isso: “o Filho do Homem não veio ao cosmos para perdê-lo, mas para salvá-lo”, enquanto o terceiro setor, o da corrupção plena, o do não-ser, porque a matéria não apenas o prodigalizou com a marca do devir, mas, sobretudo, o invadiu, afastando dele a presença dos princípios superiores (tal é o cosmos mencionado em I Cor. 11,32), será aniquilado, como o não-Si-Mesmo diante do que realmente é. O pneuma subjugado deve trilhar seu caminho ascendente por meio da Serpente ou Palavra (o Salvador), aquele que inspira o homem a reconhecer sua identidade e assim retornar à sua própria essência, que é essa mesma Palavra, porque foi também o Filho que, tendo recebido sua potência do Pai, a colocou no cosmos, embora, é claro, tenha sido também um descendente do Filho, o arconte deste mundo, aquele de quem Jo 8,44 diz: “vosso pai é homicida desde o princípio”, aquele que o escravizou. Em suma, é a própria Palavra ou Logos que antes estava oculta, agora deve ser revelada e salva. O que foi descrito anteriormente explica por que Hipólito acrescenta, para completar sua informação, uma segunda tripartição de princípios à primeira já citada, pois se a do início da notícia descrevia as três grandes regiões da realidade, esta segunda se refere aos três grandes princípios que permitem a cosmogonia. Aqui, portanto (Elenchos, V, 17,1 ss.), trata-se da cosmogênese necessária, que precede e permite a soteriologia. O mundo do devir tem um começo Divino e ele não é autônomo, mas resulta originado pela imposição que o Filho faz sobre a matéria das ideias projetadas nele mesmo a partir do Pai. Isso revela aqui uma clara distinção entre dois conceitos de “cosmos” e nos lembra, mais uma vez, tanto, por um lado, os ecos de uma cosmovisão platônica quanto, por outro, que, por sua orientação cosmogônica, o que aqui é explicado não tem nada a ver com um tipo de dualismo estrito ou inicial.
