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Paraíso

ANTONIO ORBEANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU

CAPÍTULO VII — O REGIME DO PARAÍSO

O PARAÍSO

  • As especulações judaicas a respeito do regime do Paraíso foram amplamente herdadas pelos exegetas cristãos, destacando-se como questão preliminar a sua localização cósmica ou geográfica.
    • Moisés Bar-Cepha aborda detalhadamente as discussões patrísticas sobre a situação do Éden em seu tratado homônimo De paradiso.
    • Referências cosmológicas antigas associam a dignidade ontológica de um local à sua respectiva elevação nos estratos do universo.
    • Menção aos estudos desenvolvidos por Festugière, J. Kroll e M. Pohlenz sobre as correntes do Stoicorum Veterum Fragmenta.
  • A caracterização do Paraíso, independentemente do termo utilizado, exigia a definição de sua situação nos estratos do universo para determinar a sua dignidade ontológica.
    • Santo Irineu provavelmente abordou o tema com extensão em sua obra perdida Sobre a Ogdoada, mencionada por Eusébio de Cesareia.
    • Elementos fragmentários presentes em Adversus Haereses e na Epideixis atestam o interesse dedicado aos três primeiros capítulos do Gênesis.
  • A exegese patrística primitiva não se limitava à leitura literal dos textos de Moisés, aplicando elementos alegóricos para vincular o Paraíso ao mistério de Cristo e da Igreja.
    • São Anastácio Sinaíta preserva uma página onde detalha a interpretação espiritual realizada pelos exegetas mais antigos.
    • Filão de Alexandria, descrito como filósofo contemporâneo dos apóstoles, e Papias de Hierápolis, discípulo do evangelista João, contemplaram o jardim de forma mística.
    • Justino de Roma, Panteno, o alexandrino, e Clemente de Alexandria, autor dos Stromata, referiram o regime edênico à Igreja.
    • Transliteração dos termos gregos pneumatikos ta peri paradeisou e pneumatiko ti para demonstrar a dimensão espiritual.
  • A interpretação estritamente carnal ou literal do relato do Gênesis sobre Deus e o Paraíso foi apontada como a origem de diversas heresias.
    • Anastácio Sinaíta assevera que razões incompreensíveis fundamentam a leitura espiritual desenvolvida pelos antigos padres.
  • A distinção entre o Paraíso simples e o Paraíso de Deus apoia-se na autoridade de tratados antigos dedicados ao exame do hexaemeron.
    • Anastácio Sinaíta evoca os comentários perdidos desenvolvidos por Santo Ambrósio e pelo mártir Justino em sua argumentação.
    • Transliteração da expressão grega en tois eis ten Hexaemeron auton hypomnema-sin para designar as memórias escritas.
    • Moisés Bar-Cepha contesta a divisão radical de paraísos, reduzindo-os a duas modalidades de uma mesma realidade.
  • A distinção entre o Paraíso material e terreno e o celeste ou espiritual disuena na atmosfera teológica do século II, particularmente em Santo Irineu.
    • Justino de Roma e Santo Ambrósio formularam bases interpretativas que nem sempre ganham aceitação na patrística da época.
  • A localização do Paraíso gerava indecisão entre os judeus, variando as opiniões entre a fixação de uma realidade terrena ou uma sede localizada nos céus planetários.
    • Os rabinos no tratado Nedarim 32a situavam o Gan Eden dos justos em direção ao terceiro ou quarto céu planetário.
    • A visão do êxtase paulino registrada na Segunda Epístola aos Coríntios 12,2-4 influenciou a cosmologia contida no Testamentum Levi.
    • Investigações críticas conduzidas por W. Bousset, H. Gressmann e J. Dupont sobre o pensamento judaico antigo.
  • A exegese cristã interpretava o arrebatamento de São Paulo como um processo dividido em duas etapas cósmicas distintas.
    • A primeira etapa compreendia o rapto do apóstolo até o terceiro cielo.
    • A segunda fase estendia-se desde o terceiro céu até o Paraíso.
    • Clemente de Alexandria afirma nos Stromata que o apóstolo ouviu palavras inefáveis que não é lícito ao homem proferir.
    • São Metódio de Olimpo, em trecho preservado por Santo Epifânio na obra Haereseis, expressa essa mesma divisão com clareza.
    • Transliteração do termo grego kakeithen para indicar a transição local.
    • Estudos desenvolvidos por W. Bousset acerca da viagem celeste da alma.
  • A fixação do Paraíso no quarto céu planetário revestia-se de grande valor simbólico por representar o centro da hebdomada celeste e o equilíbrio face ao reino do Espírito.
    • Os valentinianos posicionavam o jardim no centro da hebdomada para vinculá-lo à economia ideal da psyche administrada pelo demiurgo.
    • O demiurgo, cego instrumento de uma sabedoria superior, infunde a substância psíquica no homem terreno para elevá-lo acima de sua condição natural.
    • O rapto paulino e a exaltação de Adão em Gênesis 2:8-15 indicavam para os gnósticos a superação física e gratuita das condições normais de existência.
    • Notas críticas de F. Sagnard em sua edição dos Extratos de Teódoto.
  • A teologia de Santo Irineu situa o Paraíso acima do terceiro céu e fora da terra, integrando-o no sistema dos sete céus planetários.
    • A colocação edênica a meia distância entre a cidade nova e o céu supremo diverge radicalmente da tese terrena de São Teófilo de Antioquia.
    • Teófilo de Antioquia asseverava em Ad Autolycum que as expressões bíblicas ao oriente e da terra comprovam que o jardim estava sob o nosso céu.
    • O modelo irineano preserva a descrição dos sete espíritos de Isaías 11:2 distribuídos nos sete céus na Epideixis.
    • Investigações e notas de Arturo Graf e I. de Vuippens sobre a localização cósmica do Paraíso.
  • A experiência dos mistérios espirituais e das visões celestes realiza-se por meio das operações de Deus na carne e fora do corpo.
    • Santo Irineu retém o enunciado da Segunda Epístola aos Coríntios 12,3 — Quer no corpo, quer fora do corpo, Deus o sabe.
    • A permissão para contemplar os sacramentos e as obras do Criador sem o peso do corpo atinge os indivíduos perfeitos na dileção divina.
    • Gregório de Elvira assevera em seus tratados que o apóstolo agradava a Deus e testemunhava os mistérios supercelestes ainda em carne posicionado.
  • A transladação física de Enoque e a assunção de Elias prefiguravam em seus corpos a futura elevação dos justos e dos homens espirituais.
    • Enoque agradou a Deus e foi transposto com o próprio corpo no qual operou a virtude, conforme a Epístola aos Hebreus 11:5 e Gênesis 5:24.
    • Elias foi assumido enquanto permanecia na substância de plasma carnal, conforme o Quarto Livro dos Reis 2,11.
    • As mãos de Deus, que são o Verbo e o Espírito, modelaram a Adão e habituaram-se a carregar e colocar o plasma próprio onde quisessem.
    • Gênesis 2:8 — E plantou Deus o Paraíso no Edém frente ao oriente, e pôs ali o homem que plasmou.
    • A insumissão ao mandamento causou a expulsão do primeiro homem do Paraíso em direção a este mundo.
    • Os presbíteros afirmam que o jardim foi disposto para os homens justos e portadores de Espírito, servindo de abrigo póstumo até a consumação final.
    • São Paulo foi conduzido a essa mesma habitação espiritual onde escutou palavras inefáveis para os que habitam na terra.
    • São Lucas inicia a genealogia a partir do Senhor para demonstrar que Cristo regenerou os pais antigos no evangelho da vida.
    • A obediência de Maria desatou o nudo que a incredulidade da virgem Eva havia amarrado, invertendo a ordem conforme Mateus 19:30 e o Salmo 44,17.
    • Colossenses 1:18 — Primogênito de entre os mortos.
    • Transliteração do termo grego kai ekeithen exeblethe eis tonde ton kosmon parakousas para ilustrar a expulsão.
    • Notas críticas de O. Perler sobre Melitão de Sardes, além das investigações de J. A. de Aldama, W. Bousset e L. Cignelli.
  • A consumação final distribuirá os bem-aventurados em três habitações distintas de acordo com a proporção de seus frutos espirituais.
    • Os indivíduos que frutificaram a cem serão assumidos para a vida nos céus.
    • Os seres que produziram a sessenta desfrutarão das delícias e da conversação no Paraíso.
    • Os homens que geraram a trinta habitarão a cidade renovada de Jerusalém.
    • O Senhor justifica essa gradação ao anunciar a existência de muitas mansões na casa do Pai.
  • A escatologia de Santo Irineu recusa o alegorismo extremo para garantir a restauração firme e substancial da criação em proveito dos justos.
    • O Paraíso definitivo funcionará como uma morada integrada na casa do Pai onde Deus será contemplado intuitivamente.
    • A manifestação da gnose do Padre transfigurará a substância do céu planetário e da terra em templos de incorrupção.
    • São Metódio de Olimpo, Teodoreto de Ciro e Eznik de Kolb atestam a permanência póstuma provisória dos ressuscitados.
  • A manutenção das teses escatológicas na Epideixis confirma o papel do Paraíso como a morada intermédia destinada à superação da mortalidade carnal.
    • As qualidades edênicas descritas por Teófilo de Antioquia ressaltam a formosura excelente da plantação plantada por Deus.
    • A colocação no quarto céu busca assegurar a salvação cósmica da região do alma, situada entre a divinização e a matéria.
    • A salvação da carne e a permanência definitiva do mundo sensível operam como repercussões da vitória humana de deificação.

O ESTADO DE VIDA NO PARAÍSO

  • O interesse fundamental do jardim de delícias repousa em sua função como residência ordenada para o crescimento espiritual do homem.
    • O desdobramento das condições físicas servia de amparo para a manifestação do destino superior do plasma.

CARACTERÍSTICAS NEGATIVAS

  • O desterro de Adão e Eva expôs a humanidade às misérias terrenas do trabalho duro e da fadiga sob os raios do sol.
    • A Epideixis 16 assevera que o Paraíso é uma habitação santa que não admite ou não sofre a presença do pecador.
    • A terra passou a produzir espinhos e abrolhos como o castigo direto decorrente da transgressão original na Epideixis 17.
  • O sono constituía uma condição inexistente no regime original do Paraíso, sendo infundido por um ato extraordinário da vontade divina.
    • O Criador inspirou um êxtase sobre Adão para adormecê-lo a fim de realizar uma obra a partir de outra obra na Epideixis 13.
    • A introdução do repouso corporal funcionava como uma retirada provisória da tensão espiritual pelo Criador.
  • O Paraíso edênico operava como o santuário da conversão íntima com o Verbo, exigindo do justo a retidão contra o descuido das virtudes.
    • O desvio do mandamento implicava a perda imediata do direito de habitar na mansão das delícias.
  • As tradições rabínicas e a primeira literatura eclesiástica descrevem o Paraíso como o local onde os justos contemplam continuamente o rosto de Deus.
    • O tratado midráshico aos Salmos afirma a vigência do refrigério e da adoração mística no jardim, conforme F. Weber e A. Wünsche.
  • A imobilidade e o repouso são alheios à natureza divina e às esferas superiores dominadas pela claridade do Espírito.
    • Filão de Alexandria descreve a conduta da mente que não experimenta o ocaso e o olho sem sono de Deus.
    • Epicteto atribui a qualidade de imperecedouro e insone ao daimon ou gênio protetor do indivíduo.
    • Clemente de Alexandria qualifica a Cristo como a Luz que não dorme, utilizando a expressão de dia perfeito.
    • Transliteração das expressões gregas phos akoimeton e phos anesperon.
    • O escrito gnóstico Evangelium Veritatis assevera a vigência da claridade que nunca cessa nas regiões celestes.
  • O verdadeiro pastor de almas é conclamado a manter o seu espírito em vigília contínua por meio de preces incessantes.
    • Inácio de Antioquia exorta Policarpo de Esmirna a viver em guarda como o detentor do espírito insomne.
    • Transliteração da frase grega gregorei akoimeton pneuma kektymenos.
    • O Livro de Enoque designa os anjos celestes que custodiam o trono como os vigilantes que nunca dormem, segundo J. Michl e E. Peterson.
  • O sono do alma representa o relaxamento da tensão divina e a abertura para a intrusão das inclinações materiais no composto.
    • O comentário escolástico aos Provérbios assevera que o adormecimento das dez vírgenes simboliza a execução do pecado atual.
    • Transliteração dos termos gregos hypnos, aupnia e he kat energeian hamartia.
    • Santo Irineu assevera que Adão não cometeu falta espontânea porque o Criador regulou o hálito antes da sedução do inimigo.
  • A necessidade biológica do repouso e do alimento caracteriza a fraqueza das criaturas terrestres geradas no tempo.
    • Aristóteles vincula o sono à digestão e à subsistência dos entes mortais em seus tratados de física.
    • Hipólito de Roma assevera que a Voz de Deus manifesta-se sem sono na imortalidade.
    • As lendas rabínicas relatam que os arcontes constataram a humanidade de Adão por meio do advento do repouso.
    • O sono constitui a marca do hades e do mundo terreno, enquanto a vigência da gnose exalta os espirituais conforme Reitzenstein.
  • A harmonia edênica exigia a vigília do espírito insomne para obstar a entrada das imaginações perversas e manter a inocência.
    • A proteção contra as investidas do mal realizava-se pela atuação vigilante do Verbo guardião.

CARACTERÍSTICAS POSITIVAS

  • A exclusão do pecado e do sono converte o Paraíso em um santuário de candor e de contínua vigília diante da presença divina.
    • O reflexo das condições locais de pureza determinava o formato da vivência carnal sem mácula.
  • O Éden representa um espaço de deleites provido de condições biológicas e climáticas superiores às do mundo decaído.
    • A Epideixis 12 indica que a habitação foi adornada com excelente beleza para que o homem se nutrisse gostosamente.
    • Teófilo de Antioquia e Filão de Alexandria operavam a exegese de Gênesis 2:15 associando a lavoura ao cultivo das virtudes.
    • Santo Ambrósio em De paradiso XI afirma que o jardim místico figura a mente cujas potências domesticam as paixões irracionais e as aves das cogitações.
    • Estudos dogmáticos de W. Seibel e E. Dassmann acerca da piedade e do simbolismo do Paraíso na patrística milanesa.
  • A lavoura e a guarda do jardim das virtudes eram atribuídas por Filão ao homem ideal feito à imagem de Deus.
    • O homem essencial formado em Gênesis 1:26 ignora as limitações e o pó da plasmação material de Gênesis 2:7.
    • Santo Ambrósio e Filão dividem as tarefas entre o processo de aquisição da virtude e a consumação perfeita da custódia.
  • As composições poéticas primitivas evocam a infância do homem no palácio real sob a guarda das potências angélicas.
    • O cântico preservado nos Atos de Tomé 108 descreve a habitação na pátria do oriente entre riquezas e delícias.
    • Transliteração dos vocábulos gregos brephos alalon e tryphe sem acentuação.
    • Estudos e paralelos gnósticos desenvolvidos por G. Quispel acerca das homilias de Macário.
  • O verdadeiro deleite do Paraíso residia na presença ativa do Verbo de Deus que conversava frequentemente com o homem.
    • A Epideixis 12 atesta que o passeio do Logos prefigurava a intimidade da futura encarnação e ensinava a santidade.
    • Teófilo de Antioquia asseverava que o edito de Gênesis 2:15 impulsionava o homem médio rumo ao céu e à imortalidade.
    • Procópio de Gaza indica que o mandamento operava como a lavoura da fé descrita pelo Salvador em João 6:29.
  • O passeio frequente do Verbo não suprimia o livre-arbítrio, mas oferecia uma instrução regular que encaminhava a criatura ao Pai.
    • São Metódio de Olimpo formula que a ocupação edênica consistia em mirar a divindade e lavrar os frutos da sabedoria.
    • Transliteração da frase grega georgein ten zoen e menção às notas de H. Schlier sobre as cartas inacianas.
    • Investigações de J. Daniélou acerca do simbolismo do jardim e da figura de Jesus hortelão.
  • Santo Irineu evita o uso do conceito de vida angélica para afastar os desvios origenianos que identificavam a natureza de homens e anjos.
    • Estudos e notas críticas de E. Lamirande, G. Colombás e M. Aubineau sobre a virgindade e o bios angelikos em São Gregório Nysseno.
  • O Paraíso funcionará como o espaço de transição onde os ressuscitados justos se habituarão a compreender a glória do Pai.
    • Santo Irineu em Adversus Haereses V 35,1 assevera que o milênio promoverá a comunhão com as virtudes angélicas e a unidade dos seres espirituais.
    • O intercâmbio com as ordens celestes e a assimilação da clareza divina preparam o plasma para a consumação.
  • A filosofia de Platão definia a conduta agradável a Deus como o esforço de assemelhar-se à divindade por meio da temperança.
    • O edito das Leis IV 716C conceitua o conversar com os deuses por orações e ofertas como o caminho mais belo e seguro da felicidade.
    • Transliteração da expressão grega prosomilein tois theois, com notas de Festugière sobre o ideal religioso helenístico.
  • O conceito de colóquio com a divindade migrou das práticas rituais pagãs para as formulações místicas da patrística e da gnose.
    • Filão de Alexandria, Juvenal, Hipólito de Roma e os tratados herméticos registram o uso da homilia sagrada.
    • Citação da Paixão de Perpétua 4,1 celebrando o privilégio de fabular com o Senhor, com notas de Waszink.
    • Clemente de Alexandria ensina em Stromata VII 3 que o ato do gnóstico perfeito consiste em conversar com Deus por meio do Sumo Pontífice.
    • Transliteração dos enunciados gregos prosomilein to theo dia tou megalou archiereos e homoisis theo estudada por H. Merki.
  • Santo Irineu aplica o motivo transformando o relato bíblico de Gênesis 3:8 em um templo de conversação profética onde o Verbo instrui o homem sobre a encarnação.
    • O diálogo com o Logos antecipa a convivência terrena de Jesus e o ensino da justiça na Epideixis 12.
    • Paralelos com as visões do alquimista Zósimo acerca do Nous que aconselha secretamente os seus homens estudados por Festugière.
  • A contínua memória de Deus unificava o composto humano, subtraindo-o da dispersão carnal e elevando-o à comunhão espiritual.
    • Citação de Adversus Haereses IV 13,1 — Ele é em efeito quem na comunhão e unidade de Deus o homem induz.
    • O crente edênico funcionava como um monachos dotado da parthenia essencial característica de Deus, conforme Quispel e Schrage.
    • Transliteração dos vocábulos gregos monachos, parthenia e monosis sem acentuação.
    • Filão de Alexandria contrapunha o matrimônio espiritual da mente com a divindade ao adultério consumado com a matéria.
    • Inserção do conceito grego de monachos em Gênesis 2:18 traduzido por Símaco como o continente isento de diástase.

ESTADO DE INTEGRIDADE

  • As correntes pseudo-clementinas descrevem o estado original como uma era de pureza mental e imunidade absoluta contra as enfermidades.
    • As Recognitiones IV 9,3 asseveram que o culto puro impedia o surgimento de vícios corporais e afastava a debilidade senil.
  • Teófilo de Antioquia formulou que o fruto da árvore da ciência era bom, mas Adão era ainda uma criança incapaz de receber a ciência dignamente.
    • Citação de Ad Autolycum II 25 — O fruto da ciência é bom como se use devidamente dela. Mas pela idade, este Adão era um menino, e por isso não podia ainda receber de modo digno a ciência.
    • Uso das expressões gregas nepios e paidion comentadas por Th. Zahn.
  • A infância de Adão expressava a sua inexperiência inicial e não uma limitação de tamanho orgânico.
    • Procópio de Gaza explaya que a menoridade de discernimento convivia com a perfeição fisiológica do plasma.
  • A nudez sem vergonha de Adão e Eva no Paraíso decorria de uma mentalidade infantil isenta das concupiscências sexuais.
    • Santo Irineu em Adversus Haereses III 22,4 assevera que os pais recém-creados careciam do intelecto da geração de filhos.
    • O plano divino previa o crescimento moral prévio antes da multiplicação carnal das gerações.
  • A menoridade de discernimento dos primeiros pais convivia com o estatuto de seres racionais dotados de livre-arbítrio e julgamento.
    • Adversus Haereses III 23,5 aponta que a consumação do pecado gerou a amissão do sentido pueril inicial.
    • A exaltação de Adversus Haereses IV 37,6 comprova a responsabilidade jurídica dos seres capazes de ingratidão contra o Criador.
    • Estudos sobre a inocência infantil e os editos de justiça desenvolvidos por H. Herter e E. Klebba.
  • O homem edênico necessitava percorrer um caminho de maturação mental sob o preceito para atingir o nível ético do adulto.
    • Transliteração da locução grega en to phronein para indicar o desenvolvimento no entender e sentir.
    • Apeles formulava em suas antíteses que um ser sem ciência do bem e do mal seria um párvulo isento de culpa e castigo, segundo Ambrósio.
  • Os primeiros pais incorreram em soberba ao buscarem a divinização imediata antes de aprenderem a ser homens perfeitos.
    • A pressa humana em saltar as etapas do aumento violou as diretrizes da pedagogia divina, em Adversus Haereses IV 38,3-4.
  • A transgressão de Adão é comparada ao erro de uma virgem que antecipa o comércio conubial fora do tempo e do matrimônio legítimo.
    • Procópio de Gaza em In Genesim II 8 afirma que o alimento sólido é inadaptado para os recém-nascidos.
    • Transliteração do vocábulo grego nepios e da palavra parthenos para designar a doncella corrompida.
    • Investigações de Clemente de Alexandria e F. Bolgiani sobre as raízes da paradosis encratita.
  • A Epideixis 12 reitera que o homem infante foi enganado pela astúcia do sedutor por não possuir o uso pleno da razão.
    • O Criador estabeleceu o ser de barro como o dono das potências angélicas perfectas que operavam como servidores.
    • Análise das traduções latinas de Froidevaux, Faldati e Smith acerca do discernimento ainda em desenvolvimento.
  • Adão representou uma exceção à marcha biológica comum ao receber uma inteligência penetrante capaz de impor nomes aos brutos.
    • A Epideixis 13 atesta o império intelectual do plasma sobre os seres vivientes antes da retirada de Eva de seu costado.
    • As tradições de Rabbi Eliezer indicavam que os próprios anjos falharam na imposição de nomes, segundo Strack e Billerbeck.
    • Referências eruditas ao Pugio Fidei de Raymundus Martini.
  • A menoridade de juízo convivia com uma sobreabundância de dons celestes destinados a guiar a criatura de barro rumo à semelhança de Deus.
    • Oposição à igualdade natural entre homens e anjos asseverada em Adversus Haereses IV 37,6.
  • As virtudes angélicas operam de modo fixo nos limites decretados pelo Criador, servindo à economia ordinária do universo.
    • A Epideixis 10 assevera que o Verbo infatigável impôs leis para que cada potência permaneça em seu posto cumprindo o seu trabalho.
    • São Justino em Segunda Apologia V 2 expõe que Deus entregou a guarda das coisas infracelestes aos anjos que violaram a disposição por amor.
    • Transliteração das expressões gregas taxis e ous epi toutois etaxe, com notas de Atenágoras e Jâmblico.
  • A infância de Adão e Eva assemelha-se à menoridade do gênero humano que caminha através da história em direção à maturidade final.
    • A perfeição carnal consumar-se-á quando a Igreja de todos os filhos se aclimate à imagem gloriosa de Cristo e veja o Pai.

INOCÊNCIA DE ADÃO

  • O vocábulo infantil encerra a feição de imperfeição e o candor de quem vive em simplicidade e inocência.
    • Teófilo de Antioquia em Ad Autolycum II 25 formula que o Criador desejava que o homem permanecesse inocente como criança.
    • Transliteração das sentenças gregas nepios, haploun kai akeraion diameinai nepiazonta e en haploteti kai akakia.
  • O pastor de Hermas ensina que a integridade e a muita continência salvam o crente e o reservam para a vida eterna.
    • A vivência em inocência e simplicidade quebra toda malícia e abre as portas do refrígerio, conforme as visões estudadas por Peterson.
    • Transliteração das frases gregas he haplotes sou kai he polle egkrateia e en akakia kai haploteti.
  • O hálito vital impedia a brotação de pensamentos sucios e concupiscências no estado de integridade dos primeiros pais.
    • A Epideixis 14 assevera que Adão e Eva se beijavam e abraçavam com o candor mais infantil sem experimentarem a vergonha da nudez.
    • O sopro inspirado conservava a sua potência e dignidade original antes da intromissão da malícia satânica.
  • O Criador posicionou o plasma destituído de coberturas artificiais para fazê-lo desfrutar de uma vida sem artifícios.
    • São Gregório Nazianzeno em sua Oração 45,8 define a nudez original como a simplicidade sem disfarce, com comentários de Máximo Confessor.
    • Severiano de Gábala e E. Dassmann asseveram que o encerramento do pecado revestia a criatura com a estola da glória.
    • Transliteração do enunciado grego gymnon te haploteti kai zoe te atechno kai dicha pantos epikalymmatos kai problematos.
  • A vergonha da nudez manifestou-se após o pecado devido à amissão da veste de glória que cobria o corpo humano.
    • Moisés Bar-Cepha indica que a violação da lei exuiu os pais de sua dignidade mística e inseriu o temor no composto.
  • O vestido do Espírito cobria os primeiros pais por dentro e por fora, neutralizando as agitações desordenadas da concupiscência carnal.
    • Santo Irineu em Adversus Haereses III 23,5 expõe o lamento de Adão pela perda da estola de santidade sofrida por meio da desobediência.
    • As tradições de L. Ginzberg, as homilias de São Efrém da Síria e os comentários de Procópio de Gaza coboraboram o indumento celeste.
    • Transliteração do termo grego tonos para designar a tensão vital e mística da alma unida à potência divina.
  • A manutenção do vigor do hálito preservava a unidade de ânimo e afastava as imaginações perversas da carne.
    • O tratado hermético Poimandres apresenta o testemunho do Nous guardião que barra a entrada das humilhantes ações.
    • Transliteração do vocábulo grego Nous e paralelo exegético com as Questões no Gênesis de Filão.
  • A integridade edênica orientava a mente em direção ao bem, revelando o deleite impoluto da inteligência ocupada em Deus.
    • Adversus Haereses III 23,5 e I 11,1 delineiam a perda da memória dos melhores tratada na teologia do Espírito Santo.
  • A perda da estola do Espírito deixou a carne à mercê das leis da corrupção e desnudou a debilidade do composto.
    • O homem carnal afasta-se da vingança racional e cede à herança da Geena detalhada nos comentários de São Metódio e Fócio.

O REGIME DE INOCÊNCIA NOS DESÍGNIOS DE DEUS

  • O Paraíso possuía um caráter transitório nos desígnios de Deus, servindo como a morada prévia antes da ascensão ao céu.
    • A transfiguração do jardim pela visão intuitiva do Pai constituirá o espaço definitivo para os frutos de sessenta.
  • O sopro de vida insuflado no plasma confere uma condição temporal intermédia que difere da eternidade do espírito vivificante.
    • Santo Irineu em Adversus Haereses V 12,2 ampara-se em Isaías 42:5 e 57,16 para demonstrar que o hálito é uma feitura comum.
    • O pneuma de adoção pertence em propriedade à divindade e cinge o homem por dentro e por fora de modo permanente.
    • Transliteração das palavras gregas pnoe e pneuma sem acentuação.
  • A exalação do hálito edênico continha um germe espiritual cuja finitude seria absorvida pela imutabilidade do Espírito de Deus.
    • Filão de Alexandria diferencia o pneuma dotado de força e eutonia do sopro brando, conforme os comentários de Waszink e Melitón.
    • Transliteração dos vocábulos gregos ischyn, eutonian e dynamin.
  • As correntes heréticas estruturavam o casamento místico entre a alma e o espírito para guiar a criatura às regiões superiores.
    • O Evangelho de Filipe 80 indica que a Sofia Mãe infundiu o espírito companheiro da alma capaz de proferir palavras excelsas.
    • Taciano em Ad graecos 13 assevera que a psyche solitária decai na matéria, mas a sua syzygia com o pneuma quebra o desamparo.
    • Orígenes em Homilia I in Genesim 15 propõe a alegoria do homem interior onde o espírito macho fecunda a alma fêmea com cogitações úteis.
    • O desvio confluxo com as volúpias carnais opera o adultério com a matéria tratado por A. Kehl.
    • Transliteração das palavras gregas psyche, syzygia e nous.
  • A união hipostática resolve os extremos, erguendo a encarnação do Verbo como o meio absoluto e indispensável para operar a divinização do composto carnal.
    • O Filho feito Menino assume a pequenez humana no Paraíso ou na terra para cumprir os desígnios de deificação do Pai.
  • O estado de integridade teria sido transmitido em herança aos descendentes de Adão se os primeiros pais guardassem a submissão.
    • Os justos como Abel teriam permanecido intramuros do jardim sem experimentar o pecado original hereditário carnal.
    • A vinda do segundo Adão espiritual recapitula a antiga plasmação de Maria Virgem para abolir a herança da morte física, em Adversus Haereses V 1,3.
  • A re-plasmação do homem pelo Espírito vivificante supera a fragilidade do hálito primeiro e deifica o plasma humano.
    • Adversus Haereses V 12,1-2 e Primeira Coríntios 15,45-46 ensinam a prioridade cronológica do homem animal seguida pela assimilação em glória.
    • O desfalecimento orgânico é corrigido pela restauração do madeiro obediencial de Cristo que aniquila o império da corrupção.
    • A imposição do edito edênico operou como o teste necessário para conferir o mérito à integridade, afastando a soberba da feitura.
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