Naassenos
Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.
SISTEMAS QUE ENVOLVEM TRÊS PRINCÍPIOS III – OS NAASSENOS
Os naassenos recebem seu nome da serpente, cuja palavra hebraica é vertida em grego como “Naas”, e a principal fonte sobre eles é um tratado alegórico conhecido como “Sermão Naasseno”, citado por Hipólito.
- O nome “Naassenos” deriva da palavra hebraica “naas”, que significa serpente.
- O Sermão contém um hino que equipara Átis, uma divindade dos cultos de mistério da Ásia Menor, a uma série de outras figuras divinas.
Introdução
O ponto de partida da doutrina é que o mundo surge a partir de três princípios: o preexistente, o auto-originado e o caos derramado.
- O auto-originado é chamado de Adamas e é bissexual.
- Adamas é comparado à semente, à água, à serpente e à alma.
- Ele é aquilo que faz todas as coisas, mas não é idêntico a nada do que faz.
- Toda “natureza”, ou seja, toda espécie de ser na natureza, busca esta água ou esta alma, pois sem ela nada pode existir.
- Esta água ou alma é comparada ao grande “Oceano”, que flui “para baixo” e “para cima”.
- O fluxo descendente significa que os homens vêm a ser (nascimento natural), enquanto o fluxo ascendente significa que os “deuses” vêm a ser (o elemento divino nos homens retornando ao seu verdadeiro lar).
- Uma seção do texto reproduz a “Grande Apófase” e a sentença: “Aquele que diz que o universo procede de um (princípio) está enganado; aquele que diz que é de três, fala a verdade”.
- As três palavras tomadas de Isaías 28:10 — Caulacau, Saulasau e Zeesar — são interpretadas como as três potências.
Desenvolvimentos Adicionais da Doutrina
O sistema não se contenta apenas com os três princípios e sua interação, introduzindo especulações adicionais.
- A “alma”, buscada pelas três partes do mundo (terrestre, infernal e celestial), é castrada pela “mãe dos deuses”, que retira a potência masculina da alma para a região supercelestial, retirando-a do processo de geração.
- Cada natureza seleciona da água o seu próprio produto apropriado, como a oliveira e seu azeite, mas “nós, os homens espirituais, somos selecionados pela água viva”.
- Aparece uma quarta potência, chamada Esaldaeus, “o deus ígneo”, o criador deste mundo, que escraviza a humanidade.
- A humanidade caiu entre as “imagens de barro” (o mundo material) sem o conhecimento e consentimento de Adamas, embora seja dito que eles são “semeados nela” por Adamas.
- Os homens espirituais devem não apenas despertar, mas também “nascer de novo” para reaverem sua pátria espiritual.
- O elemento espiritual no homem, como o fermento em três medidas de farinha, é chamado de Cristo ou “o grande Homem das alturas”.
- Existe um Redentor, distinto do elemento espiritual, chamado “Jesus” ou “o Salvador”, que liberta os homens do cativeiro do mundo material.
- Os homens devem “entrar pela terceira porta”, que é Jesus, o que provavelmente alude a um sacramento que confere salvação.
- O homem, antes de ser animado, é dito ter sido “feito pelas muitas potências” e “passa por todos os reinos e regiões”.
- A única questão ética claramente indicada é a abstinência rigorosa do contato com mulheres.
Hipólito, Ref. V 6, 3-11, 1
O texto apresenta a tradução e interpretação de Hipólito sobre a doutrina naasseno-gnóstica, iniciando com a adoração do Homem e do Filho do Homem.
- Os naassenos reverenciam acima de todos o Homem e o Filho do Homem.
- Este Homem é bissexual e é chamado de Adamas, sendo louvado em hinos como: “De ti, Pai, e através de ti, Mãe, os dois nomes imortais, pais dos Eões, tu cidadão do céu, Homem do poderoso nome”.
- Adamas é dividido em três partes: intelectual, psíquica e terrena.
- O conhecimento do Homem é o princípio do poder de conhecer Deus, enquanto o conhecimento de Deus é a perfeição completa.
- Todas essas três partes (intelectual, psíquica e terrena) desceram juntas em um só homem, Jesus nascido de Maria, e falaram cada uma de sua própria substância.
- Existem três classes de seres no universo (angélica, psíquica e terrena) e três comunidades ou igrejas (angélica, psíquica e terrena), cujos nomes são os escolhidos, os chamados e os escravizados.
Adamas e a Criação do Homem
A base do sistema é o Homem Adamas, e a doutrina explora a origem do primeiro homem a partir de várias tradições míticas.
- A base do sistema é o Homem Adamas, a quem se aplica o texto: “Sua geração, quem a declarará?”.
- A terra produziu o primeiro homem, desejando ser mãe de uma criatura tratável e amante de Deus.
- Vários povos têm seus próprios primeiros homens: Alalcomeneus na Beócia, os Curetes em Creta, os Coribantes na Frígia, Pelasgo na Arcádia, Garamas na Líbia e Oanes na Assíria.
- O homem feito pela terra jazia sem fôlego, sem movimento, como uma estátua, sendo uma imagem do Homem celestial Adamas, e foi feito pelas muitas potências.
- Uma alma foi dada ao homem para que, através de seu sofrimento e punição em escravidão, a criação do grande Homem perfeito fosse punida.
- Os naassenos investigam o que é a alma, de onde vem e qual é sua natureza, recorrendo a escritos secretos, e afirmam que a alma é muito difícil de descobrir e conceber.
A Alma e sua Busca por Diferentes Entidades
A alma, que é a causa de tudo o que vem a ser, é buscada por toda espécie de ser, mas de diferentes maneiras, conforme exemplificado pelos mitos de Adônis, Endimião e Átis.
- Toda espécie de ser busca a alma, pois nada pode obter nutrição ou crescimento sem ela, e até as pedras têm alma, pois possuem poder de crescimento.
- Os assírios chamam a alma de Adônis ou Endimião; quando chamada de Adônis, Afrodite (a geração) a ama e deseja.
- Quando Perséfone (Core) ama Adônis, a alma é mortal e separada da geração que pertence a Afrodite.
- Se Selena deseja Endimião, a criação superior também necessita de alma.
- Se a mãe dos deuses castra Átis, a natureza sublime e bendita das realidades supercelestiais e eternas chama para si a potência masculina da alma.
- Por isso, o intercâmbio da mulher com o homem é considerado mais ímpio e proibido, pois Átis foi castrado das partes terrenas para ir à substância eterna onde não há feminino nem masculino, mas uma nova criatura, um “novo homem” bissexual.
Confirmação nos Mistérios e nas Escrituras
Os naassenos interpretam passagens de Paulo e os mistérios de vários povos como confirmações de sua doutrina sobre a natureza bendita e o prazer abençoado.
- As palavras de Paulo em Romanos 1:20-27 contêm todo o segredo e mistério insondável do prazer abençoado.
- A promessa da lavagem (batismo) é a introdução ao prazer imperecível daquele que é lavado em água viva e ungido com unção inefável.
- Os mistérios dos assírios, frígios e egípcios confirmam o pensamento sobre a natureza bendita, oculta e revelada, que é o reino dos céus dentro do homem.
- O Evangelho Segundo Tomás é citado: “Aquele que busca me encontrará em crianças de sete anos; pois lá sou encontrado, eu que estou oculto, na décima quarta era (Eão)”.
- Os egípcios possuem os santos e veneráveis mistérios de Ísis, que nada mais são do que a “vergonha” (parte genital) de Osíris (a água) que foi roubada e buscada pela senhora das sete vestes.
- A natureza tem sete vestes (os planetas) através das quais o ser inefável, inimaginável e sem forma transforma a criação.
A Natureza da Semente e a Identificação com Hermes
A semente, causa de tudo o que vem a ser, é descrita como imóvel e geradora, sendo identificada com a figura de Hermes, o Logos.
- A natureza da semente, causa de tudo o que vem a ser, não é nenhuma dessas coisas, mas gera e produz tudo, dizendo: “Torno-me o que quero, e sou o que sou”.
- O ser que move tudo não se move, pois produz tudo e permanece o que é, sem tornar-se nenhuma das coisas que vêm a ser.
- Dele foi dita a sentença do Salvador: “Por que me chamas bom? Há um que é bom, meu Pai nos céus, que faz nascer o seu sol sobre justos e injustos e envia chuva sobre justos e pecadores”.
- Os gregos adotaram dos egípcios a prática mística de honrar figuras de Hermes, que é o Logos, o intérprete e artífice do que veio a ser, vem a ser e virá a ser.
- A estátua de Hermes tem a forma de um falo humano apontando para cima a partir de baixo.
- Hermes é o guia das almas, o enviador e a causa das almas, como diz o poeta: “O Hermes Cilênio chamou para fora as almas dos pretendentes”.
Esaldaeus, o Demiurgo, e a Doutrina das Três Divisões
O texto distingue entre o demiurgo Esaldaeus, o princípio triplo do universo e a busca pela natureza bendita através do Logos.
- O demiurgo, artífice e pai do mundo particular, é chamado de Esaldaeus, o deus ígneo, o quarto em número.
- Hermes tem a vara de ouro com a qual ele acalma os olhos dos homens ou os desperta do sono, e é o único com poder sobre a vida e a morte.
- Os que despertam e se tornam “pretendentes” recebem a exortação: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te, e Cristo te iluminará”.
- Este é o Cristo, que entre todos os que vêm a ser é caracterizado como Filho do Homem a partir do Verbo sem caráter.
- A doutrina afirma: “Aquele que diz que o universo procede de um (princípio) está enganado; aquele que diz que é de três, fala a verdade”.
- A natureza bendita do Homem bendito nas alturas é uma; a mortal aqui em baixo é outra; e a raça sem dominação que ascende àquele lugar é a terceira.
- As três palavras portentosas são Caulacau (o ser nas alturas, Adamas), Saulasau (o mortal aqui em baixo) e Zeesar (o Jordão que flui para cima).
O Cálice, o Reino e o Mistério do Homem Perfeito
O Homem bissexual está em todos, e sua natureza é explorada através de imagens como o cálice de Anacreonte, o reino nos céus e os mistérios samotrácios.
- O Homem bissexual está em todos os homens e é chamado pelos ignorantes de Gerião de três corpos, que significa “fluindo da terra”.
- “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele é vida”, sendo esta vida a geração inefável dos homens perfeitos, e o “nada” é o mundo particular, feito sem ele pelo terceiro e pelo quarto.
- O cálice com o qual o rei adivinha ao beber estava oculto e foi encontrado na boa semente de Benjamim.
- A taça de Anacreonte fala sem fala do mistério inefável, indicando o tipo de homem que se deve ser (espiritual, não carnal).
- Esta é a água que Jesus transformou em vinho nas bodas de Caná, o princípio dos sinais que manifestou o reino dos céus.
- O reino dos céus está dentro de nós como um tesouro oculto em “três medidas de farinha”.
- O grande e inefável mistério dos samotrácios é o mesmo Adão, o homem primal, representado por duas estátuas de homens nus com as mãos erguidas para o céu e os membros masculinos voltados para cima.
A Descida e a Ascensão do Homem Perfeito
O Homem perfeito desce através das regiões, é desconhecido na forma, e sua regeneração é descrita como uma passagem pelo portão do céu.
- O Salvador disse: “A menos que bebais meu sangue e comais minha carne, não entrareis no reino dos céus; mas mesmo se beberdes o cálice que eu bebo, não podeis entrar no lugar para onde vou”.
- Ele escolheu doze discípulos das doze tribos para falar a cada tribo, pois o que não está de acordo com a natureza de alguém é contrário à sua natureza.
- Ele é chamado de Coribas pelos trácios e frígios, pois do “cume” acima e do cérebro sem caráter ele começa sua descida e passa pelos reinos de todas as potências subordinadas.
- Diz-se: “Ouvimos sua voz, mas não vimos sua forma”; quando ele é estendido e caracterizado, uma voz é ouvida, mas a forma que desce do alto do ser sem caráter, ninguém sabe como é.
- A escritura diz: “Levantai, ó vossos governantes, os portões, e erguei-vos, ó portões eternos, e o rei da glória entrará”, sendo este rei “um verme e não um homem, opróbrio dos homens e desprezado pelo povo”, mas também “poderoso na guerra”.
- O portão foi visto por Jacó quando viajou para a Mesopotâmia (o fluxo do grande Oceano que flui do meio do Homem perfeito), e ele disse: “Quão terrível é este lugar. Esta não é outra coisa senão a casa de Deus, e esta é a porta do céu”.
- Jesus diz: “Eu sou a verdadeira porta”, e o homem perfeito não pode ser salvo a menos que seja regenerado entrando por esta porta.
Os Nomes Frígios do Homem e a Regeneração
O mesmo ser é conhecido pelos frígios por múltiplos nomes, que descrevem sua função de pôr fim ao conflito, morrer e ressuscitar.
- Os frígios o chamam de Papas, porque ele “pôs uma pausa” em todas as coisas que estavam em movimento desordenado e falho antes de seu próprio aparecimento, fazendo “paz com os que estão longe” (os materiais e terrenos) e “paz com os que estão perto” (os espirituais e intelectuais perfeitos).
- Os frígios o chamam de “o Morto”, pois ele está sepultado no corpo como num túmulo, e a ressurreição acontece através da porta do céu; aqueles que não entram por ela permanecem mortos.
- Os frígios também o chamam de “deus”, pois ele se torna deus quando ressuscita dos mortos e entra pela porta para o céu.
- Esta porta foi conhecida por Paulo, que foi arrebatado ao segundo e terceiro céu, ao paraíso, e ouviu palavras inefáveis.
- O Salvador disse: “Ninguém pode vir a mim, a menos que meu Pai celestial o atraia”, pois é muito difícil aceitar e receber este grande e inefável mistério.
- “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus”, assim como “os publicanos e as prostitutas entram no reino dos céus antes de vós”.
Os Publicanos, a Parábola do Semeador e o Fruto Bom
Os “publicanos” são os perfeitos que realizam o cumprimento, e a parábola do semeador descreve a recepção do conhecimento pelos gnósticos.
- “Publicanos” são aqueles que realizam o cumprimento (tele) de todas as coisas, sendo “aqueles para quem o cumprimento (tele) dos eons chegou”.
- O cumprimento significa as sementes semeadas do ser sem caráter no mundo, através das quais o mundo inteiro é cumprido e também teve seu início.
- A parábola do semeador (Mateus 13:3-9) significa que ninguém se tornou ouvinte desses mistérios senão os gnósticos que são “cumpridos” ou perfeitos.
- A terra boa e fértil é a terra que mana leite e mel, e o leite e o mel são aquilo cujo gosto faz o perfeito tornar-se sem dominação e atingir o pleroma.
- O mesmo ser é chamado pelos frígios de “o infrutífero” quando é carnal e executa o desejo da carne, e “toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo”.
- Os frutos são os homens racionais e vivos que entram pela terceira porta, e “se comeste coisas mortas e as fizeste viver, o que farás se comeres coisas vivas?”
- Por “vivas” entendem-se razões, mentes e homens, as pérolas pertencentes àquele ser sem caráter que são lançadas na criatura moldada.
Os Nomes Frígios: Aipolos, o Frutífero e a Espiga Verde
Os frígios também chamam o ser de Aipolos (o Cabreiro) devido ao seu movimento circular, e de “o Frutífero” e “a espiga verde” em referência à geração espiritual.
- Os frígios o chamam de Aipolos (o Cabreiro) não porque pastoreia cabras, mas porque ele é aeiplos, ou seja, aquele que “sempre puxa” e gira todo o universo em círculo.
- Os frígios também o chamam de “o Frutífero” porque “a esposa abandonada tem mais filhos do que a que tem marido”, significando que muitos são os que renascem, imortais e duradouros, mesmo que sejam poucos.
- “Raquel chorou por seus filhos e não quis ser consolada, porque sabia que eles não são”, e Jeremias lamenta pela Jerusalém terrena (a geração corruptível), pois conhecia o homem perfeito que é regenerado “pela água e pelo espírito”.
- Jeremias disse: “Ele é um homem, e quem o conhecerá?”, mostrando quão profundo e incompreensível é o conhecimento do homem perfeito.
- Os frígios o chamam de “a espiga verde que é ceifada”, e os atenienses, nos mistérios de Elêusis, exibem uma espiga ceifada, que é o grande e perfeito Iluminador vindo do ser sem caráter.
- O hierofante, castrado com cicuta, proclama nascer à noite: “Um santo menino nasceu para a Senhora Brimo, Brimos” (para a Forte, o Forte).
Os Mistérios Menores e Maiores e a Interpretação do Pai
A distinção entre os mistérios menores (Perséfone, nascimento carnal) e os maiores (o portão do céu, a casa de Deus) é explicada, e o Pai do universo é identificado como Amygdalus.
- Os mistérios menores são os de Perséfone aqui em baixo, o caminho “largo e espaçoso” que leva à perdição, enquanto o caminho “estreito e apertado” leva à vida.
- A iniciação nos mistérios menores precede a iniciação nos grandes e celestiais, que é “a porta do céu” e “a casa de Deus”, reservada apenas para os espirituais.
- Ao entrarem ali, os homens devem depor suas vestes e tornar-se todos noivos, sendo tornados inteiramente masculinos através do espírito virgem.
- O Salvador disse claramente: “Estreito e apertado é o caminho que leva à vida, e poucos são os que entram por ele; largo e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que passam por ele”.
- “Amyxai” significa quebrar e cortar aberto, e os frígios chamam o ser preexistente de Amygdalus, de quem veio e foi gerado o invisível.
- Os frígios chamam essa prole de “flautista”, porque essa prole é um espírito em harmonia, pois “Deus é espírito” e a adoração dos perfeitos é espiritual, não carnal.
A Exposição da Grande Potência e o Hino a Átis
O texto cita a palavra da Exposição da Grande Potência e apresenta um hino que identifica a figura de Átis com várias outras divindades.
- Esta é a palavra de Deus, a palavra da Exposição (apophasis) da Grande Potência, que será selada, coberta e velada, armazenada na morada onde a raiz de todas as coisas tem seu fundamento.
- O reino dos céus é o grão de mostarda, o ponto indivisível existente no corpo que ninguém conhece senão o espiritual, sobre o qual está escrito: “Não há palavras nem discursos, cujas vozes não são ouvidas”.
- Os performers no teatro, quando um entra vestido com uma túnica peculiar carregando uma lira, declaram os grandes mistérios sem saber o que dizem.
- O hino canta: “Seja a raça de Cronos, ou o bendito filho de Zeus ou da grande Reia, Salve a ti, Átis, triste mensagem de Reia; os assírios te chamam de três vezes desejado Adônis, todo o Egito, Osíris, A sabedoria dos gregos, a crescente lunar celestial, Os samotrácios, venerável Adamas, Os homens do Hemo, Coribas, Os frígios, ora Papas, ou novamente o Morto, ou Deus, Ou o Infrutífero, o Cabreiro, ou a espiga verde que é ceifada, Ou o Homem, o Flautista, nascido da frutífera Amendoeira”.
- Este ser é o multiforme Átis, de quem eles cantam: “Cantarei de Átis, o filho de Reia, Não com o clangor de sinos nem com a flauta ou com o bramido dos Curetes do Ida, Mas eu o afinarei à musa da lira de Febo. Salve! Salve! – como Pã, como Baco, como pastor das estrelas brilhantes”.
A Serpente Naas e a Interpretação do Éden
Os naassenos veneram a serpente (Naas) como princípio líquido do qual todos os templos derivam seu nome, e interpretam o Éden como o cérebro e o paraíso como o homem.
- Os naassenos veneram nada além da serpente (naas), e dela todos os templos do mundo obtêm seu nome “naos”.
- A serpente é a substância líquida, e nada do que existe, seja imortal ou mortal, animado ou inanimado, pode consistir sem ela.
- Todas as coisas estão sujeitas a ela, e ela tem a bondade de tudo o mais dentro de si, como no chifre do unicórnio, passando por todas as coisas como “saindo do Éden e dividindo-se em quatro fontes”.
- Éden é o cérebro, envolto nas membranas que o circundam como os céus, e o paraíso é o homem, na extensão de sua cabeça apenas.
- O rio que sai do Éden (o cérebro) divide-se em quatro fontes: Pheison (o olho), Geon (o ouvido), Tigre (o olfato) e Eufrates (a boca).
- A boca (Eufrates) é por onde a oração sai e o alimento entra, que alegra e nutre o homem espiritual e perfeito.
A Água Viva e os Homens Espirituais
A água acima do firmamento é a água viva da qual cada natureza seleciona sua substância, e os homens espirituais são eleitos por essa água viva.
- Esta é a água acima do firmamento, sobre a qual o Salvador disse: “Se tu soubesses quem é que te pede, tu lhe terias pedido, e ele te teria dado de beber água viva que jorra”.
- Cada espécie natural vem a esta água e seleciona sua própria substância, mais do que o ferro vem ao ímã ou o ouro ao ferrão da arraia.
- O homem cego de nascença pode, através dos naassenos, recuperar a visão e ver como da mesma água a oliveira tira seu azeite, a videira seu vinho, e cada planta segundo sua espécie.
- Os homens espirituais são os escolhidos como possessão própria pela água viva, o Eufrates que flui através do meio da Babilônia.
- Eles entram pela verdadeira porta, que é Jesus o bendito, e são os únicos verdadeiros cristãos que completam o mistério na terceira porta e são ungidos com uma unção inefável de um chifre, como Davi.
O texto apresenta um salmo naasseno que celebra a criação a partir do Nous, do caos e da alma, culminando com o pedido de Jesus para descer e salvar.
- O salmo canta: “Nous primogênito foi a lei que tudo engendrou, / Próximo (masc.) ao primogênito foi o caos derramado, / Em terceiro lugar a alma recebeu uma lei enquanto trabalhava [ou enquanto era feita]. / Daí revestida na forma de um veado (?) / Ela labuta, cativa, como um despojo para a morte. / Ora com honra real vê a luz, / Ora lançada na miséria, chora. / Ora é chorada, ela se alegra, / Ora chora, é julgada, / Ora é julgada, morre, / … e sem escapatória a miserável (alma) / Entra num labirinto de males em seus erros.”
- Jesus disse: “Pai, eis: / Perseguida por males aqui sobre a terra / Vagueia a (obra) do teu próprio sopro; / Ela busca escapar do amargo caos / Mas não sabe como vencerá. / Portanto envia-me, Pai; / Portando os selos descerei, / Passarei por todos os Eões, / Revelarei todos os mistérios, / Mostrarei as formas dos Deuses / E as coisas ocultas do santo caminho, / Despertando o conhecimento (gnosis), eu o transmitirei”.
