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MENANDRO
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Menandro e o Quarto Evangelho
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Menandro é apresentado por Justino como um dos três principais hereges ao lado de Simão e Marcion, possuindo ideias próprias que diferem das de Simão.
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A ideia de que o verdadeiro Deus é desconhecido por todos, atribuída a Simão, aproxima-se mais de João do que de Paulo, pois João afirma explicitamente que o mundo e os judeus não conhecem a Deus.
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Menandro provavelmente conhecia os escritos joaninos ou o ensino oral do autor joanino, o que situa sua doutrina nas últimas décadas do primeiro século.
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Diferentemente dos paulinistas ligados às comunidades cristãs, os paulinistas derivados da comunidade de Simão não tinham preconceito contra o Evangelho de João, sendo provavelmente os primeiros a aceitá-lo e usá-lo.
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Saturnilo e Basilides, discípulos de Menandro, dependem de João ao falarem da “imagem luminosa” e da sucessão de seres divinos baseada no Prólogo Joanino.
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Cullmann e Meeks sugerem que o círculo joanino foi ampliado pela recepção de convertidos samaritanos, indicando possíveis vínculos entre o autor joanino e a escola samaritana de Antioquia.
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Diz-se no Evangelho que “os campos estão brancos para a colheita” (4:35) e que os discípulos colhem o que outros semearam, indicando que os samaritanos estavam mais dispostos a receber a verdade do que os judeus.
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O capítulo 4 retrata os samaritanos de forma mais favorável do que o capítulo 5 retrata os judeus, diferindo completamente do sentimento expresso em Mateus 10:5.
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H. Odeberg sugere que o capítulo 4 visa um círculo composto por samaritanos, e Bowman afirma que o evangelista quis apresentar a mensagem cristã numa forma aceitável aos samaritanos, como uma ponte entre samaritanos e judeus em Cristo.
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O interesse pela Samária sugere que o evangelista teve vínculos com pessoas daquele país, possivelmente membros da comunidade fundada por Simão, tanto mais livremente quanto provavelmente estava fora da comunhão das próprias igrejas.
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O pseudo-Clementino retrata a escola de Simão como derivada de João Batista, e uma tradição preservada por Eusébio afirma que João Batista foi enterrado em Sebaste.
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A hipótese de que o autor joanino devesse ideias a Simão ou a Menandro é problemática, pois a ideia da Ennoia criadora (importante para Menandro) não se encontra em João, onde é o Logos quem cria.
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A ideia de ressurreição presente e vida eterna, presente tanto em Menandro quanto em João, parece tão ligada à alegria do Evangelho joanino que dificilmente pode ser considerada emprestada.
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A beleza da obra joanina indica que o autor inventa suas próprias ideias em vez de costurar um texto de remendos, ao passo que os samaritanos, se tivessem criado teologia tão poderosa, teriam deixado obras igualmente belas.
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A ideia de um “profeta que há de vir”, que liga o Evangelho joanino a um tema samaritano e alexandrino, não parece ter existido em Simão ou em sua escola, inclinando-se a preferir uma origem alexandrina.
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Os paralelos com a literatura mandeia são mais provavelmente explicados pela influência do Quarto Evangelho sobre o mandeísmo do que o contrário, pois a hipótese de a terminologia mandeia ser anterior à joanina baseia-se em argumentos frágeis.
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Conclui-se que os vínculos entre o Quarto Evangelho e as ideias atribuídas a Menandro são melhor explicados pela influência da doutrina joanina sobre Menandro do que vice-versa.
Menandro e o Docetismo
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Irineu não fala de docetismo em relação a Menandro, mas há razões para pensar que ele pode ter sido ou parecido docético.
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Os dois discípulos de Menandro (Saturnilo e Basilides) e também Cerdon foram docetistas, e Inácio de Antioquia opunha-se principalmente a hereges docéticos.
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A Ascensão de Isaías, de tendência docética, pode ter sido composta na escola simoniana na época de Menandro.
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Se Menandro foi docético, os ataques lidos nas epístolas joaninas talvez tenham concernido a ele e à sua escola, restando então pouco para atestar a existência de Cerinto.
Dúvidas sobre algumas afirmações de Irineu
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Irineu afirma que Menandro reivindicava ser o enviado, o Salvador, e que o batismo em seu nome dava vida eterna, mas Justino, anterior, nada diz sobre isso.
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Justino fala de homens que “pretendiam ser deuses” pensando principalmente em Simão, e não há evidência de que Menandro tenha reivindicado ser deus ou Deus.
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Se Menandro se atribuísse o papel de Cristo, sua religião não seria cristianismo, mas “menandrianismo”, o que contrasta com o fato de seus discípulos Saturnilo e Basilides considerarem Cristo o Salvador.
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A expressão “batismo de Menandro” pode ter sido entendida primeiro como o batismo dado na comunidade de Menandro (diferindo apenas por ser numa comunidade cismática e não incluir a transmissão do Espírito), e depois interpretada como batismo em nome do próprio Menandro.
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Se Saturnilo e Basilides tivessem sido batizados em nome de Menandro e depois convertidos a Cristo, deveria haver traços de polêmica contra Menandro em suas doutrinas, mas não se encontra nada disso nos relatos dos heresiólogos.
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A acusação de magia contra Menandro seria natural por ele pertencer à comunidade de Simão, e a promessa de imortalidade poderia facilmente ser transformada em magia.
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Tertuliano atribui a Menandro a teoria de que o corpo humano (não o mundo) foi criado pelos anjos, teoria que também se encontra em Saturnilo e que pode derivar de Filon ou do judaísmo helenístico.
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Essa teoria implica uma forte desvalorização do corpo e vincula o cristianismo de Menandro a certas correntes da filosofia grega, possivelmente inspirada pelo plural em Gênesis (“Façamos o homem”).
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Menandro parece estar num ponto de virada: seus anjos são criadores do corpo humano (como em Filon) mas não necessariamente do mundo, e Deus permanece o verdadeiro Criador, embora em Antioquia o Deus do Antigo Testamento começasse a ser descido do nível supremo aos olhos de certos cristãos.
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