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Tratado sobre a Ressurreição
Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.
O TRATADO SOBRE A RESSURREIÇÃO
INTRODUÇÃO
- O Códex I de Nag Hammadi — também chamado Códex Jung — contém nas páginas 43, 25–50, 18 um tratado cujo título, aposto ao final (50, 17–18), é O Tratado sobre a Ressurreição, redigido na forma de uma carta desprovida, porém, de praescriptio.
- Praescriptio — termo técnico da epistolografia antiga que designa o cabeçalho formal da carta, com remetente, destinatário e saudação
- Valentino — fundador da escola gnóstica valentiniana, ativa no século II
- O destinatário é Régino, residente na Palestina (44, 17)
- A ocasião da carta é uma consulta de Régino sobre a ressurreição (44, 4)
- O remetente apela tanto a uma revelação direta de Jesus (49, 37) quanto a citações de Mateus 17:3 (48, 6) e a uma combinação de textos das epístolas paulinas (45, 24), enfatizando a necessidade da ressurreição — em que muitos não creem e que poucos encontram — e afirmando que ela é um fato, não uma ilusão (48, 10).
- São distinguidas três ressurreições: espiritual, psíquica e carnal (45, 40)
- O tratado frequentemente se refere à ressurreição em termos gerais sem indicar claramente qual das três tem em mente, gerando obscuridades
- Uma ressurreição já ocorreu — cf. 2 Timóteo 2:18 — quando o homem se afastou das divisões e dos laços e se conheceu a si mesmo (49, 13); ela acontece na terra antes da morte
- Referências a essa ressurreição terrena aparecem nos ditos 23 e 90 do Evangelho de Filipe e nas exposições da Exegese sobre a Alma 133, 31 e 134, 11
- A ressurreição espiritual é descrita em detalhe (45, 28): como raios somos atraídos ao céu
- A ressurreição carnal também é ensinada (47, 2), como no dito 23 do Evangelho de Filipe
- K. Rudolph (ThR 34, 1969, p. 204) discute a questão da autoria com bibliografia
O TRATADO SOBRE A RESSURREIÇÃO
- Diante de alguns que buscam aprender muitas coisas pelo simples prazer de resolver problemas e se vangloriar das soluções, constata-se que esses não se firmaram na palavra da verdade, pois buscavam o repouso que se recebe do Salvador ao perceber a verdade.
- Referências paralelas à atitude dos buscadores vaidosos: Evangelho da Verdade 19, 21; 24, 16–20; 42, 11–25
- Régino pergunta de modo acolhedor sobre a ressurreição; em resposta afirma-se que ela é necessária, que muitos não creem nela e que poucos a encontram
- O Filho de Deus era também Filho do Homem e possuía ao mesmo tempo humanidade e divindade: pela condição de Filho de Deus venceu a morte, e pela condição de Filho do Homem tornou possível o retorno ao Pleroma, pois era desde o princípio uma semente da verdade anterior à estrutura do mundo.
- Pleroma — termo gnóstico designando a plenitude divina, o conjunto dos éons celestiais
- Referências paralelas à dupla natureza do Salvador: Exc. Theod. 61, 4; Irineu I 12, 4; 15, 3
- O Salvador falou sobre a lei da natureza — chamada de morte — enquanto estava na carne e se revelou como Filho de Deus
- Referências à vitória sobre a morte: Exc. Theod. 61, 7; Irineu I 15, 2–3
- A solução revelada visa não ocultar nada mas expor claramente a origem das coisas — de um lado a destruição do mal, de outro a revelação do excelente — e isso é a emanação da verdade e do Espírito; a graça faz parte da verdade
- O Salvador devorou a morte, depôs o mundo que perece e o transformou num éon incorruptível
- Ao devorar o visível pelo invisível, o Salvador deu o caminho da imortalidade, e conforme o Apóstolo — Romanos 8:17 — sofremos com ele, ressuscitamos com ele e fomos ao céu com ele; manifestos no mundo como portadores dele, somos seus raios e somos por ele sustentados até nossa morte nesta vida, sendo atraídos ao céu como os raios pelo sol — e isso é a ressurreição espiritual.
- Referências paralelas à atração ao céu: Irineu I 7, 1
- A ressurreição espiritual absorve a psíquica e a carnal
- Referências paralelas nos ditos 23 e 90 do Evangelho de Filipe
- A ressurreição não é matéria de persuasão mas de fé; o que morreu ressuscitará
- Mesmo dentre os filósofos deste mundo há quem creia e ressuscitará — mas o filósofo não deve imaginar que revolve em torno de si mesmo
- Pela fé conheceu-se o Filho do Homem, crendo que ressuscitou dos mortos; ele se tornou a destruição da morte; grandes são os que creem
- O pensamento dos salvos não perecerá; a mente dos que o conheceram não perecerá
- Os eleitos foram ordenados desde o princípio — Romanos 8:29 — para não caírem na insensatez dos ignorantes, mas para atingirem a sabedoria dos que conheceram a verdade
- O sistema do Pleroma é forte; o que dele se desprendeu é pequeno e se tornou o mundo — mas o Todo, que abarca tudo, não veio a ser, ele existia; e quem não estava na carne ao entrar no mundo recebeu carne, do mesmo modo que ao ascender ao éon receberá carne.
- A verdade guardada não pode ser abandonada nem veio a ser — ou não virá a ser
- Referência paralela ao Todo e ao Pleroma: Evangelho de Filipe, dito 57
- O resíduo do corpo é a velhice; a corrupção é a perda, mas há nela graça; ninguém nos redime deste mundo — o Todo que somos é que é salvo; a salvação foi recebida do começo ao fim
- A questão de se o salvo, ao abandonar o corpo, é salvo imediatamente não deve gerar dúvida: os membros visíveis mas mortos não impedirão a ressurreição, pois os membros vivos que estão neles ressuscitarão
- A ressurreição é a revelação em todo tempo dos que ressuscitaram — não uma ilusão mas um fato — e o próprio mundo é mais ilusão do que ela, pois a ressurreição é a verdade estabelecida, a revelação do que é, a transformação das coisas e uma passagem para a novidade.
- A aparição de Elias e Moisés no Evangelho — Mateus 17:3 — é evocada como prova de que a ressurreição não é ilusão
- Os vivos morrerão; os ricos empobreceram; os reis foram derrubados; tudo muda — o mundo é ilusão
- A incorrupção desce sobre a corrupção e a luz flui sobre as trevas devorando-as — Evangelho da Verdade 24, 37–25, 1
- O Pleroma preenche a carência; esses são os sinais e imagens da ressurreição; isso é o que cria o bem
- Régino é exortado a não perceber em parte, a não viver segundo esta carne em nome da unidade, mas a afastar-se das divisões e dos laços — e então já se tem a ressurreição; quem sabe que vai morrer e ainda assim age como se fosse morrer revela falta de exercício espiritual.
- Referências paralelas às divisões e aos laços: Evangelho da Verdade 25, 10–19; 25, 12
- O exercício em várias formas liberta do princípio elemental para que o crente não se extravie mas se receba de volta tal como era no princípio
- Caso haja algo profundo na exposição do tratado que precisar ser interpretado, o remetente promete fazê-lo quando solicitado
- O remetente saúda Régino e os que o amam em amor fraterno
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