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Peratas

Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.

Sistemas Envolvendo Três Princípios IV — Os Peratae

Introdução

  • Os Peratae constituem outra seita que adota uma divisão em três: o princípio supremo é o Bem perfeito, sem origem; o segundo é o autogerado, pleno de potências; o terceiro é o ser originado, ou seja, a matéria.
    • A potência intermediária volta-se primeiro para o Deus supremo, o Pai, recebe dele as ideias e depois se volta para a matéria, imprimindo-as nela.
    • Da matéria ela recebe de volta os “sinetes do Pai” e os conduz ao Pai.
    • Essa potência intermediária é chamada adequadamente de “a serpente”, pois o título simboliza a passagem de ida e volta — descendo do alto para o mundo inferior e retornando dali ao superior.
  • O sistema faz uso análogo da narrativa da libertação dos israelitas da praga das serpentes durante a travessia do deserto (Números 21:4 ss.), e nesse ponto potências malignas são subitamente introduzidas: as estrelas, que determinam os destinos do mundo em mudança.
    • Os Peratae demonstraram intensa preocupação com as estrelas, conforme atesta uma passagem citada por Hipólito.
    • As estrelas são também figuradas na imagem das serpentes que morderam os israelitas no deserto, às quais Moisés contrapôs “a serpente perfeita, plena de plenitude.”
    • Quem acreditava nela não era mordido pelas “potências” — nome alternativo para os seres que controlam os processos de mudança e dissolução.
    • Essa serpente se assemelha ao Filho (João 3:14), que apareceu em forma humana nos últimos dias no tempo de Herodes; mas não há explicação clara de como ele salva.
    • Para escapar da mudança e da dissolução, é necessário despertar e conhecer os caminhos pelos quais o homem entrou no mundo.
  • O sistema não depende de um processo cíclico eterno de mudança e dissolução: as coisas do mundo inferior vieram a ser por uma “emanação” do alto, mas são governadas pelas estrelas e sujeitas à mudança e dissolução.
    • A serpente é tida como “a palavra sábia de Eva”, que é a “mãe de todos os que vivem” (Gênesis 3:20) — e portanto, pelo alcance da palavra “todos”, mãe de deuses e anjos, de imortais e mortais, de seres racionais e irracionais.
    • As estrelas escravizam a humanidade para que não escape do processo de dissolução — exceto os Peratae.
    • Aqui são as estrelas que mantêm os homens cativos, como Esaldeu faz na visão dos Naassenos; como na Megale Apophasis, nem toda a humanidade é salva.
    • Cristo teria descido a este mundo no tempo de Herodes, portando em si todas as potências das três partes do mundo; é um homem tríplice com três corpos e três potências — cf. Naassenos, Hipólito V 6,7 e o Apócrifo de João 27:19 ss.
  • Hipólito, Refutação V 12, 1–17, 13: os Peratae declaram que o universo é uno, possuindo três partes; uma dessas partes é como um único princípio — uma grande fonte que pode ser dividida pelo logos em um número infinito de divisões.
    • A primeira e mais importante divisão é uma trindade chamada “bondade perfeita”, uma potência paternal; a segunda parte da trindade é como um número infinito de potências que se originaram de si mesmas; a terceira é o particular.
    • O primeiro é ingênito e bom; o segundo, bom e autooriginado; o terceiro é originado — daí falarem explicitamente de três deuses, três logos, três mentes, três homens.
    • A cada parte do mundo atribuem deuses, logos, mentes e homens em virtude de suas distinções.
  • No tempo de Herodes, desceu do alto, do ser ingênito — quando o mundo já estava de outro modo completo —, um homem de tripla natureza chamado Cristo, com três corpos e três potências, possuindo em si as complexidades e potências procedentes das três partes do mundo.
    • Colossenses 2:9: “Toda a plenitude determinou habitar nele em forma corpórea” — nele está toda a divindade da trindade assim dividida.
    • Das duas regiões superiores — a ingênita e a autooriginada — foram trazidas para este mundo as sementes de todo tipo de potência.
    • Cristo desceu do alto, do ser ingênito, para que por sua descida toda a divisão tríplice fosse salva: o que foi trazido do alto subirá por ele, mas o que conspirou contra o que desceu do alto é abandonado, punido e rejeitado.
    • João 3:17: “O Filho do Homem não veio ao mundo para destruir o mundo, mas para que o mundo por ele fosse salvo” — por “mundo” entende-se as duas partes superiores.
    • 1 Coríntios 11:32 (“para não sermos condenados com o mundo”) refere-se à terceira parte do mundo — o particular —, que deve ser destruída, ao passo que as duas partes superiores tornam-se livres da corrupção.
  • A heresia dos Peratae deriva dos astrólogos com meras adaptações verbais; os líderes dessa heresia foram Eufrates, o Perata, e Celbes de Caristia, que adotaram a doutrina astrológica caldeia, mudando apenas o nome e apresentando como palavra de Cristo a posição dos Éons, a defecção de potências boas para as más, e as alianças entre boas e más.
    • Falaram também de “toparcos” e “proástii” e inventaram inúmeros outros nomes para si mesmos que não correspondem a objetos reais.
    • Elaboraram toda a ilusão dos astrólogos concernente às estrelas e, por terem lançado o fundamento de um grave erro, serão refutados.
  • Um dos livros aprovados entre eles declara: “Sou a voz do despertar no Éon da noite; agora começo a expor a potência que vem do caos. A potência das trevas abissais, que sustenta o sedimento do vazio aquoso imperecível, toda a potência da convulsão, colorida como água, sempre em movimento, sustentando o que se mantém firme, consolidando o que é instável, resolvendo o que está por vir, aliviando o que se mantém firme, purificando o que cresce; o fiel tesoureiro do caminho dos vapores, que frui do que brota dos doze olhos (fontes) da Lei, mostrando o selo à potência que governa com aquelas águas invisíveis que pairam acima — seu nome era Thalassa (o Mar). A essa potência a ignorância deu o nome de Cronos, guardado com cadeias, pois ele ligou entre si a complexidade do Tártaro denso, nebuloso e sombrio. Nasceram à sua imagem Céfeu, Prometeu, Iapeto…”
    • O restante do capítulo 14 não é traduzido: apresenta declarações astrológicas adicionais que introduzem nomes divinos e personagens lendários sem contribuir com material essencialmente relevante para o gnosticismo.
  • A heresia dos Peratae deriva dos astrólogos: as causas originárias de todos os seres originados são as que são ingênitas e superiores; este mundo — chamado por eles de “o particular” — veio a ser por emanação, e todas as estrelas visíveis no céu foram as causas deste mundo.
    • Assim como o mundo veio a ser por emanação do alto, as coisas dentro dele recebem seu início, fim e direção da emanação das estrelas.
    • Alegorizam o sistema dos astrólogos apresentando o polo como Deus, mônada e Senhor de todo o processo cósmico; a declinação chamam de esquerda, e a aproximação, de direita.
    • Quando em seus escritos aparece uma potência chamada direita ou esquerda, ela remete ao centro, à declinação e à aproximação — todo o sistema é doutrina astrológica.
  • Os Peratae se denominam assim por sustentarem que nada pertencente ao mundo do devir pode escapar ao destino imposto às coisas que vêm a ser; a Sibila afirma: “Tudo o que vem a ser também é completamente destruído” — mas somente eles, que reconheceram a necessidade do vir-a-ser e os caminhos pelos quais o homem entrou no mundo, são exatamente instruídos e são os únicos que podem atravessar (perasai) e cruzar a destruição.
    • A destruição é a água, e nada traz destruição mais rápida ao mundo do que a água; a água é aquela que circunda os Proástii — Cronos —, uma potência da cor da água.
    • Cronos preside todo o processo do devir para torná-lo sujeito à destruição; não há vir-a-ser sem a interferência de Cronos.
    • Homero, Ilíada XV 36–38: “Que a terra seja testemunha, e o amplo céu acima, e a corrente precipitada do Estige, o juramento mais grandioso e terrível para os deuses bem-aventurados.”
    • Heráclito, fr. 36 Diels: “É morte para as almas tornar-se água” — essa é a morte que alcança os Egípcios no Mar Vermelho junto com seus carros (Êxodo 14); todos os ignorantes são Egípcios.
    • Sair do Egito significa sair do corpo — pois o corpo é considerado um Egito em miniatura —; cruzar o Mar Vermelho é cruzar a água da destruição, ou seja, Cronos; e chegar ao deserto é escapar do processo do devir, onde estão reunidos todos os deuses da destruição e o deus da salvação.
  • Os deuses da destruição são as estrelas que impõem sobre os que vêm a ser a necessidade pertencente à geração mutável — chamadas por Moisés de “as serpentes do deserto” (Números 21:6) que morderam e destruíram os que pensavam ter cruzado o Mar Vermelho.
    • Quando os filhos de Israel eram mordidos no deserto, Moisés lhes mostrou a verdadeira serpente perfeita; os que acreditaram nela não foram mordidos no deserto, ou seja, pelas potências.
    • Não há quem possa salvar e libertar os que saem do Egito — do corpo e deste mundo — exceto a serpente perfeita que está plena de plenitude.
    • A serpente universal é a palavra sábia de Eva; esse é o mistério de Éden, o rio que fluiu de Éden (Gênesis 2:10–14), o sinal marcado em Caim para que ninguém que o encontrasse o matasse (Gênesis 4:15).
    • O sacrifício de Caim não foi aceito pelo deus deste mundo, que recebeu o sacrifício sangrento de Abel (Gênesis 4:3–5); pois o senhor deste mundo se deleita em sangue.
    • Aquele que apareceu nos últimos dias em forma humana no tempo de Herodes é feito à imagem de José — vendido pelas mãos de seus irmãos e único a vestir uma túnica de muitas cores (Gênesis 37:3) —, e é aquele de quem está escrito: “Como Ninrode, um poderoso caçador diante do Senhor” (Gênesis 10:9).
    • João 3:14: “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também o Filho do Homem deve ser levantado.”
    • João 1:1–4: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele é vida.”
    • Nele foi feita Eva, que é a vida — e ela é Eva “a mãe de todos os que vivem” (Gênesis 3:20), a natureza universal de deuses e anjos, de imortais e mortais, de seres irracionais e racionais; pois quem disse “todos” quis dizer todos.
    • Quem tem “olhos abençoados” verá, ao olhar para o céu, a bela imagem da serpente no grande princípio dos céus girando e tornando-se o princípio de todo movimento em tudo que vem a ser.
  • Na coroa da cabeça dessa serpente — fato absolutamente inacreditável para os que não têm conhecimento — o ocaso e o nascimento se mesclam um ao outro; a ignorância descreve isso assim: nos céus, “O Dragão se enrola, grande maravilha assombrosa de ver” (Arato, v. 46).
    • De cada lado do Dragão estão dispostos a Coroa e a Lira; logo acima de sua cabeça vê-se um homem miserável, o Ajoelhado, “segurando a ponta do pé direito do retorcido Dragão” (ibid., v. 70).
    • Às costas do Ajoelhado há uma serpente imperfeita mantida firme nas duas mãos pelo portador de serpente, Ofiúco, impedida de tocar a coroa que jaz ao lado da serpente perfeita.
  • O universo, segundo os Peratae, é Pai, Filho e matéria; cada um desses três tem em si potências inumeráveis.
    • Entre a matéria e o Pai está o Filhoo Logos, a serpente que sempre se move em direção ao Pai imóvel e em direção à matéria móvel.
    • Ora ele se volta para o Pai e recebe as potências em sua própria face; quando as recebeu, volta-se para a matéria, e a matéria — sem qualidade e sem configuração — é impressa com as formas (ideias) procedentes do Filho, que o Filho imprimiu a partir do Pai.
    • O Filho é impresso pelo Pai de modo inefável, inexprimível e inalterável, à maneira que Moisés descreve em Gênesis 30:37: as cores das ovelhas que conceberam fluíram das varas colocadas junto aos bebedouros.
    • Do mesmo modo, as potências fluem do Filho para a matéria; a diferença das cores e sua dessemelhança, que fluíram das varas através da água para as ovelhas, é uma diferença entre geração corruptível e incorruptível.
  • Assim como um pintor não tira nada das criaturas que pinta mas transfere suas formas para sua tela ao desenhá-las, o Filho por sua própria potência transfere os caracteres do Pai para a matéria; tudo o que pertence ao Pai está aqui e, ao mesmo tempo, nada é — cf. Monôimus, Hipólito VIII 13,4 e Basilides, Hipólito VII 25,6.
    • Se alguém dos que estão aqui embaixo tem forças para compreender que é um caráter do Pai trazido do alto e posto num corpo neste mundo, então — como uma concepção vinda da vara que se torna branca — torna-se essencialmente idêntico ao Pai no céu e sobe até lá; mas se não obtém esse ensinamento nem reconhece a necessidade pertencente à geração, perece pela noite como um aborto nascido pela noite.
    • Mateus 7:11: “Vosso Pai que está nos céus” — refere-se àquele de quem o Filho recebe os caracteres e os transferiu para seu mundo.
    • João 8:44: “Vosso pai é um assassino desde o princípio” — refere-se ao governante e artífice da matéria, que tomou os caracteres distribuídos pelo Filho e os reproduziu neste mundo; é um assassino desde o princípio, pois sua obra conduz à corrupção e à morte.
    • Ninguém pode ser salvo ou ascender sem o Filho, que é a serpente: como trouxe do alto os caracteres do Pai, assim ele também reconduz deste mundo os que foram despertados e tornaram-se caracteres do Pai, transportando-os deste mundo àquele como seres reais saídos da irrealidade.
    • João 10:7: “Eu sou a porta.”
    • A serpente atrai de volta do mundo a raça perfeita e plenamente formada que lhe é essencialmente idêntica — como o nafta que atrai o fogo a si de todos os lados, ou o magneto que atrai o ferro e nada mais, ou o ferrão da arraia que atrai o ouro e nada mais, ou o âmbar que atrai a palha.
  • Como prova da doutrina, os Peratae recorrem à anatomia do cérebro: o cérebro é comparado ao Pai por sua imobilidade, e o cerebelo ao Filho, por se mover e ter forma serpentina.
    • Sem palavra ou sinal, o cerebelo extrai pela glândula pineal a substância espiritual e vivificadora que flui do arco do cérebro; do mesmo modo, o Filho sem palavra imparte as formas (ideias) à matéria — pela medula espinal fluem as sementes e os gêneros dos que são gerados segundo a carne.
    • Por meio dessa comparação, os Peratae julgam poder introduzir de forma atraente seus mistérios inefáveis destinados a ser transmitidos em silêncio.
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