gnosis:foerster:hipostase-arcontes
Hipóstase dos Arcontes
Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.
INTRODUÇÃO
- O Códex II de Nag Hammadi contém nas páginas 86, 20–97, 23 um tratado cujo título final é A Hipostase dos Archons e cujo cabeçalho inicial reza Acerca da hipostase das potências, composto provavelmente de duas partes ou mesmo de dois escritos combinados.
- Hypostasis — termo grego transliterado: hypostasis — significa substância, realidade subjacente ou modo de existência
- Archons — termo grego transliterado: archons — designa governantes ou poderes demiúrgicos inferiores no universo gnóstico
- Da página 93, 13 em diante a narrativa passa à primeira pessoa do singular; antes disso está na terceira pessoa
- Na primeira parte uma pergunta sobre a hipostase das potências (86, 26–7) é formulada e respondida por interlocutores não identificados
- Eleleth é descrito como o grande anjo, um dos quatro luminares que estão diante do grande espírito invisível (93, 18–22), enviado pelo Espírito Santo para falar com Noreia, libertá-la dos Archons da injustiça e ensiná-la sobre sua raiz (93, 11–13)
- As duas partes foram provavelmente combinadas porque a primeira culmina no nascimento de Noreia
- A primeira parte inicia-se com uma citação do Novo Testamento — Efésios 6:12 — e, embora mencione Paulo como o grande apóstolo que já tratou do tema das potências, não apresenta outras citações ou ecos neotestamentários até seu final.
- A citação de Efésios é: “Nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra as potências do mundo e os espíritos da maldade”
- A cosmogonia da primeira parte não se desenvolve logicamente a partir da divindade suprema, mas introduz personagens cujas origens e relações com outros seres não são declaradas
- Os versículos dos seis primeiros capítulos do Antigo Testamento são frequentemente citados ou reproduzidos em sentido gnóstico, com alterações de redação
- A cosmogonia da primeira parte pode ser reconstruída a partir de elementos dispersos: a divindade suprema é o Pai do Todo, de cuja vontade tudo procede, e dele deve ter procedido a Incorrupção, que contemplou as águas e nelas teve sua imagem refletida.
- O chefe das potências é Samael (87, 3) — cego, ignorante e arrogante (86, 2) — que se crê o único Deus (86, 29)
- Samael é repreendido pela Incorrupção (87, 3); sua mãe é o abismo (87, 7)
- As potências das trevas viram a imagem da Incorrupção refletida nas águas e se inflamaram de amor por ela, mas por serem psíquicas pertenciam ao abismo e não conseguiram atingi-la, pois ela como pneumática pertencia ao céu (87, 14–20)
- O mundo das trevas é organizado segundo o modelo do mundo da luz
- Os Archons deliberam e decidem criar um homem de terra segundo seu próprio corpo e segundo a imagem de Deus que haviam visto nas águas, esperando capturar Deus ao fazê-lo vir contemplar sua própria semelhança na criatura.
- Os Archons têm corpo feminino e rosto animal
- A criatura torna-se por insuflação um homem psíquico, mas não consegue levantar-se (88, 3–6)
- O mundo da luz intervém: pelo descimento do espírito a Adão e sua habitação nele, Adão se torna uma alma vivente (88, 12–16)
- Referências paralelas à impotência dos Archons: Apoc. João 50:15; Saturnino; Ofitas; Naassenos
- Os Archons reúnem todos os animais para que Adão os nomeie (88, 19–24); instalam-no no Paraíso para que o cultive e guarde, proibindo-o de comer da árvore do conhecimento (88, 25–32)
- A proibição ocorre por vontade do Pai do Todo, para que Adão coma e reconheça que os Archons pertencem ao mundo material
- Os Archons lançam o esquecimento sobre Adão, tiram dele a partícula de luz na forma de mulher vivente extraída de sua costela e a substituem por carne, tornando Adão inteiramente psíquico — mas o plano fracassa porque Adão, ao ver a mulher pneumática, reconhece que ela lhe deu vida.
- Adão diz à mulher: “És tu que me deste a vida. Serás chamada 'a mãe dos viventes'” — Gênesis 3, 20b
- Referências paralelas: Apoc. João 58:13; 58, 15; 60, 15
- Os Archons ficam perturbados e desejam passar a noite com a mulher (89, 20–6); ela os engana deixando apenas sua sombra, e eles se profanam (89, 26–31)
- A partícula de luz entra na serpente e instrui Adão a comer da árvore do conhecimento (89, 31–90, 10); depois deixa a serpente, que retorna à condição terrena
- Após comerem da árvore, Adão e Eva reconhecem que foram despojados do pneumático, e a estupidez do grande Archon — identificado com o Deus do Antigo Testamento — se revela no fato de ele não saber onde Adão está nem o que aconteceu.
- Adão precisa iluminar o Archon sobre o ocorrido (90, 22–9)
- O Archon amaldiçoa a mulher e a sombra da serpente por ter iluminado a mulher (90, 29–34)
- A maldição recai sobre a serpente até que o homem perfeito venha (90, 34–91, 3)
- Adão e sua mulher são expulsos do Paraíso — Gênesis 3, 23a
- Os homens são mergulhados nos prazeres da vida para que mantenham suas mentes nesta vida e não no mundo da luz, identificado com o Espírito Santo (91, 3–11)
- A narrativa prossegue com os episódios de Caim e Abel baseados em Gênesis 4:1–5, o nascimento de Sete como substituto de Abel segundo Gênesis 4:25, e a interpretação de Gênesis 5:4 como nascimento de Noreia por Eva.
- Eva exalta Noreia como virgem, auxiliadora de todas as gerações de homens, e a virgem que as potências não contaminaram (91, 35–92, 3)
- Com base em Gênesis 6:1 narra-se a multiplicação dos homens e o dilúvio
- Na versão gnóstica são os Archons — não Deus — que querem trazer o dilúvio sobre toda a carne (92, 4–8)
- Noé recebe a ordem de construir a arca não de Deus como em Gênesis 6:14, mas do Archon das Potências (92, 8–13)
- A arca deve ser instalada no Monte Seir (92, 13–14)
- Noreia quis entrar na arca; ao ser impedida, soprou sobre ela e a incendiou, obrigando a reconstruí-la (92, 15–18)
- A segunda narrativa começa em 93, 13 com Noreia falando em primeira pessoa; a aparição do mensageiro do mundo da luz é indescritível, e Eleleth revela a ela que nenhum Archon pode prevalecer contra ela nem contra a raiz da verdade.
- A morada de Noreia — e provavelmente a dos demais gnósticos (93, 29) — é com o espírito virginal acima das potências do caos e de seu mundo (93, 29–32)
- Noreia pergunta três vezes e recebe instrução de Eleleth sobre: a origem e a natureza das potências; se ela pertence ao mundo material; e quanto tempo falta até que o verdadeiro homem, o redentor gnóstico, se revele
- A primeira pergunta de Noreia é respondida por Eleleth por meio de uma cosmogonia (94, 4–96, 17) que em muitos aspectos complementa a da primeira narrativa mas também a contradiz: a Sophia, chamada também de Pistis, quis realizar uma obra sem seu consorte, e disso resultou uma cortina entre o mundo superior e os éons inferiores, abaixo da qual surgiu uma sombra que se tornou matéria.
- Sophia — termo grego transliterado: Sophia — sabedoria; Pistis — fé
- A sombra tomou forma de aborto semelhante a um leão — figura chamada Samael como na primeira parte
- Samael cita Isaías 46, 9b na versão dos Setenta, é repreendido e chamado de deus cego (94, 21–6)
- Diante da demanda de Samael para que um deus anterior se revele, Sophia estende seu dedo, leva a luz para a matéria, desce ao caos com ela e retorna à sua luz (94, 27–33)
- Referências paralelas à ação de Sophia: Apoc. João 36:16]]; Hipólito, Ref. VI 30, 6 (ensinamento valentiniano)
- O Archon andrógino recebe os nomes Saklas e Ialdabaoth (95, 7–8) e cria um éon e sete filhos andróginos
- Sabaoth é o único filho nomeado (95, 13–14); sua mãe é a matéria (95, 17)
- Ialdabaoth se designa diante dos filhos como “Deus do Todo” — pretensão que conflita com o título do Senhor do mundo da luz: “Pai do Todo” (88, 11 e 96, 12)
- Zoé, filha de Pistis Sophia, repreende Saklas dizendo: “Tu erras, Saklas” — e esse nome significa Ialdabaoth; ela sopra sobre ele e o sopro se torna um anjo de fogo que lança Ialdabaoth no Tártaro
- Sabaoth, ao ver o poder do anjo, arrepende-se, condena seu pai e sua mãe e exalta Sophia e Zoé (95, 8–18)
- Sophia e Zoé elevam Sabaoth e o instalam sobre o sétimo céu, abaixo da cortina; como “deus das potências” ele reina sobre as potências do caos
- Sabaoth faz para si uma grande carruagem-querubim com quatro faces e incontáveis anjos, conforme Ezequiel 1:4; Zoé senta-se à sua direita e o instrui sobre a Ogdoade; um anjo da ira é posto à sua esquerda
- Ialdabaoth, ao ver a glória do filho, enciumou-se; do ciúme nasceu a morte e seus filhos, instalados sobre todos os céus do caos — o que se completou segundo a vontade do Pai do Todo em imitação do mundo celestial (95, 19–96, 17)
- À segunda pergunta Eleleth responde que Noreia e seus filhos — os gnósticos — pertencem ao Pai, pois suas almas vieram de cima, da luz incorruptível, e as potências não podem prejudicá-los; os gnósticos são imortais, mas isso só se tornará manifesto após três gerações.
- O espírito da verdade habita nos gnósticos e os protege das potências
- A semente não será revelada agora, mas depois de três gerações (96, 19–31)
- À terceira pergunta Eleleth responde que quando o verdadeiro homem — o salvador — se revelar em uma criatura, o espírito da verdade ensinará todas as coisas e os ungirá com a unção da vida eterna, e então os gnósticos, filhos da luz, abandonarão a cegueira e ascenderão à luz.
- Referência a João 14:16–17, 26: o espírito da verdade
- Os gnósticos conhecerão sua raiz e exaltarão o Pai do Todo e o Espírito Santo
- As potências, seus anjos e demônios lamentarão sua própria destruição e morte
- A literatura patrística sobre a Gnose não contém nenhum relato que concorde em todos os detalhes com as narrativas deste tratado, sendo as maiores convergências com o relato de Irineu sobre os Ofitas em Adv. Haer. I 30, 9.
- Irineu — bispo e heresiologista do século II; Adv. Haer. — Adversus Haereses, obra de refutação das heresias gnósticas
- Material paralelo à primeira narrativa encontra-se no Apócrifo de João, já publicado; material paralelo a ambas as partes encontra-se no Tratado sem Título que segue imediatamente a Hipóstase dos Archons no Códex II
- O fato de o material do Tratado sem Título ter sido frequentemente reorganizado e expandido sugere que a Hipóstase dos Archons é mais antiga que o Tratado sem Título
A HIPÓSTASE DOS ARCHONS
- O texto se abre invocando o espírito do Pai da Verdade e citando Paulo sobre as potências das trevas, afirmando que o chefe dessas potências é cego e que em sua arrogância proclamou ser o único Deus.
- A citação de Paulo é Efésios 6:12: “Nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra as potências do mundo e os espíritos da maldade”
- Referência paralela à citação: Exegese sobre a Alma 131, 9–13
- A proclamação do chefe das potências remete a Isaías 45:5 e 46, 9 na versão dos Setenta: “Eu sou Deus, não há outro exceto eu”
- Ao proclamar isso, ele pecou contra o Todo; a palavra chegou até a Incorrupção
- Uma voz veio da Incorrupção dizendo: “Tu erras, Samael” — que é o deus cego
- Samael lança sua força — a blasfêmia — até o caos e o abismo, sua mãe, pela Pistis Sophia, que instala os filhos de Samael segundo o modelo do éon superior; a Incorrupção contempla as regiões das águas e sua imagem se reflete nelas, inflamando as potências das trevas de amor por ela.
- As potências das trevas não podem atingir a imagem porque os psíquicos pertencem ao abismo enquanto ela como pneumática pertence ao céu (87, 14–20)
- Referência a Gênesis 1:2: as águas primordiais
- A Incorrupção contempla as regiões para unir o Todo com a luz segundo a vontade do Pai
- Os Archons deliberam: “Vinde, façamos um homem de pó da terra” — Gênesis 1, 26a e 2, 7a
- Os Archons têm corpo feminino e rosto animal; formam a criatura segundo seu próprio corpo e segundo a imagem de Deus aparecida nas águas
- Referência paralela ao conselho dos Archons: Apoc. João 48:11
- Por não conhecerem o poder de Deus em sua impotência, os Archons insuflam a criatura e ela se torna um homem psíquico sobre a terra, mas não conseguem fazê-la levantar-se; depois, o espírito desceu da terra adamantina, habitou em Adão e ele se tornou uma alma vivente.
- Referência a Gênesis 2, 7b: “soprou em seu rosto, e o homem tornou-se uma alma vivente”
- Referência paralela ao espírito descendo: Apoc. João 53:6; também em Saturnino, Ofitas e Naassenos
- Adão recebe o nome de Adam porque foi encontrado movendo-se sobre a terra
- Uma voz veio da Incorrupção em auxílio de Adão
- Os Archons reúnem todos os animais e aves para que Adão os nomeie — Gênesis 2, 19b; instalam-no no Paraíso para que o cultive e guarde — Gênesis 2:15
- Os Archons ordenam: “De toda árvore que está no Paraíso comereis. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comais nem a toqueis, pois no dia em que dela comerdes certamente morrereis” — Gênesis 2:16–17
- Eles dizem isso sem compreender o sentido, mas segundo a vontade do Pai, para que Adão coma e veja que os Archons pertencem ao mundo material
- Os Archons lançam o esquecimento sobre Adão, que adormece; abrem sua costela como uma mulher vivente e a substituem por carne, tornando Adão inteiramente psíquico — mas a mulher pneumática se dirige a ele e ele a reconhece como aquela que lhe deu vida.
- Referência a Gênesis 2:21: a costela de Adão
- Referências paralelas ao esquecimento e à costela: Apoc. João 58:13; 58, 15
- Adão diz: “Serás chamada 'a mãe dos viventes'. Pois ela é minha mãe, ela é a médica e a mulher e aquela que gerou” — Gênesis 3, 20b
- As potências veem a imagem de Adão conversando com a mulher, ficam perturbadas e se inflamam por ela, dizendo: “Vinde, lancemos nossa semente sobre ela”
- Referência paralela ao desejo das potências: Apoc. João 62:3
- A mulher os zomba por sua tolice e cegueira; transforma-se numa árvore para escapar — P. Nagel (Das Wesen der Archonten, p. 40) relaciona esse episódio à história de Dafne em Luciano, Verae Historiae I, 8
- A mulher deixa com eles apenas sua sombra semelhante a ela; eles a profanam e profanam o selo de sua voz para se condenarem em sua própria criatura
- A instrutora pneumática entra na serpente e instrui Adão e Eva sobre a proibição divina, revelando que a morte anunciada pelo Archon é mentira motivada por ciúme, e então deixa a serpente, que retorna à sua condição terrena.
- A serpente diz: “Certamente não morrereis, pois ele disse isso a vós porque é ciumento. Antes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, conhecendo o mal e o bem” — Gênesis 3:4–5
- Eva diz à serpente: “Não apenas disse 'não comais', mas também 'não a toqueis, pois no dia em que dela comerdes certamente morrereis'” — Gênesis 3:2–3
- Após comerem, os psíquicos percebem que foram despojados do espiritual e atam folhas de figueira em seus quadris — Gênesis 3:7
- O grande Archon pergunta: “Adão, onde estás?” — Gênesis 3:9 — pois não sabia o que havia acontecido
- Adão responde: “Ouvi tua voz. Temi porque estava nu e me escondi”
- O Archon pergunta por que Adão comeu da árvore proibida; Adão responde: “A mulher que me deste me deu e eu comi” — Gênesis 3:10–12
- O Archon amaldiçoa a mulher; a mulher diz: “A serpente me enganou e eu comi” — Gênesis 3, 13b
- Os Archons amaldiçoam a sombra da serpente sem saber que era sua própria criatura
- Desde esse dia a serpente ficou sob a maldição das potências até que o homem perfeito viesse; Adão e sua mulher são expulsos do Paraíso — Gênesis 3, 23a
- Os homens são mergulhados nos grandes trabalhos e sofrimentos da vida para que se prendam a ela e não se dediquem ao Espírito Santo — Gênesis 3:17–19
- A narrativa do nascimento de Caim, Abel e Sete segue com omissões de Gênesis 4:1–25, culminando no nascimento de Noreia como filha virgem de Eva, intocada pelas potências, e então o texto relata o dilúvio atribuído aos Archons e o papel especial de Noreia.
- Caim e Abel ofereceram sacrifícios; Deus aceitou o de Abel e rejeitou o de Caim — Gênesis 4:1–10
- Deus diz a Caim: “Eis que a voz do sangue de teu irmão clama a mim. Qualquer um que matar Caim perecerá com sete vezes mais vingança. Mas tu estarás suspirando e tremendo sobre a terra” — Gênesis 4:15
- Eva diz ao nascer Sete: “Gerei outro homem em Deus em lugar de Abel” — Gênesis 4:25
- Eva diz ao nascer Noreia: “Ele me gerou uma virgem como ajuda para gerações sobre gerações de homens”
- Na versão gnóstica são os Archons que dizem: “Vinde, façamos um dilúvio com nossas mãos e destruamos toda a carne, do homem ao animal” — diferindo de Gênesis 6:7
- Noé recebe a ordem de construir a arca não de Deus mas do Archon das Potências: “Faze para ti uma arca de madeira que não apodrece e esconde-te nela, tu e teus filhos, com os animais e as aves do céu, do menor ao maior, e instala-a no Monte Seir” — diferindo de Gênesis 6:14
- Monte Seir — cf. J. Doresse, The Secret Books of the Egyptian Gnostics, 1960, p. 161 n. 27 e p. 180 n. 58
- Noreia quis entrar na arca; ao ser impedida soprou sobre ela e a incendiou; a arca foi construída pela segunda vez
- Os Archons atormentam Noreia como haviam feito com Eva (89, 21); o chefe deles diz: “Tua mãe Eva veio a nós”
- Noreia responde: “Vós sois os Archons das trevas. Vós sois malditos, e não conhecestes minha mãe, mas conhecestes vossa própria imagem. Pois eu não sou de entre vós, mas vim de cima”
- O Archon volunt ário avança contra ela e diz: “É necessário que nos sirvas como também fez tua mãe Eva”
- Noreia clama ao Santo, o Deus do Todo: “Socorre-me contra os Archons da injustiça e resgata-me de suas mãos”
- O anjo Eleleth desce do céu em socorro de Noreia, apresenta-se como a compreensão e um dos quatro luminares diante do grande espírito invisível, e assegura a ela que nenhum Archon pode prevalecer contra a raiz da verdade.
- Eleleth diz: “Eu sou Eleleth, a sabedoria, o grande anjo, que está diante do Espírito Santo. Fui enviado para falar contigo e para te resgatar da mão dos iníquos. E ensinar-te-ei sobre tua raiz”
- Referências paralelas a Eleleth: Apoc. João 34:2; 36, 13; Irineu I 29, 2
- Eleleth diz: “Eu sou a compreensão. Sou um dos quatro luminares que estão diante do grande espírito invisível. Vós (pl.) habitais na Incorrupção, no lugar onde está o espírito virginal, que está acima das potências do caos e de seu mundo”
- Em resposta à primeira pergunta de Noreia, Eleleth expõe a cosmogonia: nos éons infinitos existe a Incorrupção; a Sophia, chamada Pistis, quis realizar uma obra sem seu consorte, e disso resultou uma cortina entre o mundo superior e os éons inferiores.
- Eleleth diz: “Nos éons infinitos está a Incorrupção. A Sophia, que é chamada a Pistis, quis realizar uma obra sozinha sem seu consorte. E sua obra tornou-se uma imagem do céu”
- Referência a Gênesis 1:2 para a contemplação das águas pela Incorrupção
- Abaixo da cortina surgiu uma sombra que se tornou matéria e tomou forma de aborto semelhante a um leão, andrógino — chamado Samael
- Samael proclama: “Eu sou Deus, e não há outro exceto eu” — Isaías 45:5 e 46, 9b
- Uma voz da altura da autoridade absoluta responde: “Tu erras, Samael”, que é o deus cego
- Samael desafia: “Se existe outro antes de mim, que se revele a mim”
- Sophia estende seu dedo, leva a luz para a matéria, desce ao caos com ela e retorna à sua luz
- Referência a Filipenses, dito 76 e dito 125 para a cortina; Apoc. João 46:10 para o aborto
- O Archon andrógino cria para si um grande éon e sete filhos andróginos como o pai; seu único filho nomeado é Sabaoth (95, 13–14); sua mãe é a matéria (95, 17)
- Ialdabaoth diz a seus filhos: “Eu sou o Deus do Todo”
- Zoé, filha de Pistis Sophia, exclama: “Tu erras, Saklas” — cuja interpretação é Ialdabaoth; ela sopra sobre ele e o sopro se torna um anjo de fogo que lança Ialdabaoth no Tártaro
- Sabaoth arrepende-se, condena seu pai e sua mãe a matéria, e canta louvores a Sophia e a Zoé
- Sophia e Zoé elevam Sabaoth e o instalam sobre o sétimo céu, abaixo da cortina; é chamado “deus das potências, Sabaoth”
- Sabaoth faz para si uma grande carruagem-querubim com quatro faces — Ezequiel 1:4 — e incontáveis anjos, harpas e cítaras
- Sophia põe Zoé à direita de Sabaoth para ensinar-lhe sobre os que estão na Ogdoade; um anjo da ira é posto à sua esquerda
- Ogdoade — a oitava esfera celeste superior ao sistema das sete esferas planetárias, associada ao reino da luz no pensamento gnóstico
- Ialdabaoth, ao ver a glória do filho, enciumou-se; do ciúme nasceu uma obra andrógina que se tornou o princípio do ciúme; do ciúme nasceu a morte e seus filhos, instalados sobre todos os céus do caos
- Tudo isso se completou segundo a vontade do Pai do Todo à semelhança do mundo celestial (95, 19–96, 17)
- Eleleth conclui: “Eis que te ensinei sobre o tipo dos Archons e a matéria da qual foram trazidos à existência, e seu pai e seu mundo”
- À segunda pergunta Eleleth responde que Noreia e seus filhos — os gnósticos — pertencem ao Pai desde o princípio, pois suas almas vieram de cima da luz incorruptível, e as potências não podem aproximar-se deles por causa do espírito da verdade que neles habita; os gnósticos são imortais em meio aos homens mortais, mas a semente não será revelada até depois de três gerações.
- Eleleth diz: “Vós com vossos filhos pertenceis ao Pai que é desde o princípio. Vossas almas vieram de cima, da luz incorruptível. Por isso as potências não poderão aproximar-se deles por causa do espírito da verdade que neles habita”
- Referência paralela à imortalidade dos gnósticos: Eugnostos 71, 11
- À terceira pergunta — até quando durarão as potências — Eleleth responde que quando o verdadeiro homem se revelar numa criatura, o espírito da verdade ensinará todas as coisas, os gnósticos serão ungidos com a unção da vida eterna e ascenderão à luz infinita, enquanto as potências, seus anjos e demônios lamentarão sua própria destruição.
- Referência a João 14:16–17, 26: o espírito da verdade que o Pai envia
- A unção da vida eterna foi dada ao verdadeiro homem pela geração que não tem rei
gnosis/foerster/hipostase-arcontes.txt · Last modified: by 127.0.0.1
