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Evangelho da Verdade
Madeleine Scopello. Les évangiles Apocryphes - Nouvelle édition Revue et Augmentée. 1st ed ed. Québec: Presses de la Renaissance, 2017.
- O Evangelho da Verdade é o mais abstrato dos evangelhos gnósticos, presente no códice I de Nag Hammadi com uma versão muito fragmentária no códice XII, tradução copta de um original grego perdido datado do final do século II.
- Irineu de Lião — em Contra as Heresias III, 11, 9 — menciona um tratado composto pelos discípulos de Valentino e lido em suas comunidades, mas não se sabe se é o mesmo texto
- O Evangelho da Verdade de Nag Hammadi é anônimo; o conteúdo de alto valor filosófico e poético sustenta a hipótese de que seja obra do próprio Valentino, caso em que teria sido composto antes de 175
- O texto não traz título, mas suas primeiras linhas enunciam: “O Evangelho da Verdade é uma alegria para os que receberam do Pai da Verdade a graça de o conhecer, pelo poder da Palavra que veio da plenitude, Palavra que existia no pensamento e no intelecto do Pai. Essa Palavra é chamada Salvador” — Evangelho da Verdade 16, 31-35
- O início do texto coloca em cena seus três principais atores — o Deus transcendente, chamado Pai da Verdade; seu filho, a Palavra ou Verbo identificado a Jesus e ao Salvador; e os humanos para quem esse evangelho representa uma alegria que antecipa a condição celeste.
- Mais sermão que evangelho, o texto descreve por imagens sugestivas a oposição entre mundo terrestre e mundo celeste e o papel do Salvador na passagem de um ao outro
- A angústia existencial que aperta o coração dos humanos é evocada de modo surpreendentemente moderno
- O texto desenvolve a origem da angústia humana a partir do desconhecimento do Pai, e o Erro que daí decorre assume substância material no vazio.
- “Todos buscaram Aquele de quem provêm. Todos estavam com ele, o Sem Limite, o Inconcebível, Aquele que está além de todo pensamento. Mas o fato de mal conhecer o Pai deu lugar à angústia e ao medo, e a angústia tornou-se espessa como um nevoeiro, a ponto de mal se poder ver. Foi assim que o Erro se tornou poderoso. Ele moldou sua substância material no vazio, pois não havia conhecido a verdade. Essa criação foi uma aparência falsa e ele a compôs dando-lhe poder e beleza, por não ter podido torná-la verdadeira” — Evangelho da Verdade 17, 4-21
- “Sendo sem raízes, o Erro caiu no nevoeiro olhando em direção ao Pai, ao mesmo tempo que preparava o esquecimento e o terror para aprisionar em suas redes os que se encontravam no meio e torná-los escravos” — Evangelho da Verdade 17, 30-35
- “O esquecimento surgiu porque o Pai não era conhecido, mas quando o Pai for conhecido, o esquecimento não existirá mais” — Evangelho da Verdade 18, 7-11
- O Salvador identificado a Jesus é descrito como guia e mestre que transmite seu ensinamento, acolhendo os pequenos aos quais revela o conhecimento do Pai, enquanto os que se julgam sábios são rapidamente confundidos.
- “Ele iluminou os que se encontravam nas trevas por causa do esquecimento. Ele os iluminou, indicou-lhes o caminho. E esse caminho é a Verdade que lhes ensinou” — Evangelho da Verdade 18, 16-21
- A humanidade vive em um mal-estar existencial expresso por metáforas que exploram o campo lexical do sono, da torpor e do pesadelo.
- O texto enuncia: “Assim como, quando se adormece e se está no meio de pesadelos — corre-se em uma direção ou é-se incapaz de se mover quando se tenta escapar do que nos persegue, ou participa-se de uma briga ou recebem-se golpes, ou cai-se de alturas ou é-se aspirado pelo ar, sem ter asas. Às vezes também tem-se a impressão de que nos matam, sem que ninguém nos persiga, ou então de que se mata um próximo, pois se está coberto de seu sangue —, até o momento em que, após ter atravessado todos esses sonhos, se acorda. No meio de todos esses transtornos, não se vê nada, pois tudo isso não era nada. Da mesma forma, é assim para os que rejeitaram a ignorância, assim como se afasta o sono, pois percebem que ela não é nada e que suas características não pertencem ao real. Deixam-na de lado como um sonho noturno e sabem que o conhecimento do Pai é como a aurora. […] É assim que se age na ignorância: como se se estivesse adormecido. E é assim que se chega ao conhecimento quando se está desperto” — Evangelho da Verdade 28, 32-30, 9
- A essas imagens de angústia se opõem metáforas em torno do repouso, da alegria e da suave fragrância que evocam o mundo celeste — perfume que reflete a inconcebível beleza e bondade do Pai — Evangelho da Verdade 33, 34-35, 5
- A obtenção do conhecimento nasce de uma iluminação que investe seres predestinados, e a teoria dos eleitos aparece no texto pela imagem do Livro Vivante dos viventes revelado no coração dos escolhidos.
- “Em seu coração o Livro Vivente dos viventes foi revelado, o livro que havia sido escrito no pensamento e no intelecto do Pai e que estava na incompreensibilidade do Pai antes que o Todo fosse fundado. Ninguém podia servir-se dele, pois havia sido ordenado que, quem quer que o tivesse tomado, teria sido morto” — Evangelho da Verdade 19, 34-20, 4
- “Os viventes cujo nome é mencionado no Livro são eles que recebem o ensinamento; recebem do Pai um ensinamento sobre si mesmos e retornam a ele” — Evangelho da Verdade 21, 3-8
- “Tal é o conhecimento do Livro Vivente que ele revelou aos eons eternos, letra por letra. Mostrou que essas letras não são apenas vogais e consoantes que se leem e se encontram vazias de sentido. Pelo contrário, são letras da Verdade, elas falam e se conhecem a si mesmas. Cada letra é uma verdade perfeita, como se fosse um livro completo, pois são letras escritas na unidade, escritas pelo Pai para os eons eternos, a fim de que, por meio de suas letras, possam chegar ao conhecimento do Pai” — Evangelho da Verdade 22, 38-23, 19
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