Ovelha Perdida
Marcion — Ovelha Perdida
Antonio Orbe, Parábolas Evangélicas em São Irineu
A parábola, segundo Tertuliano, foi considerada por Marcion:
XXXII. Quem procura essa dracma, essa ovelha perdida? Não é aquele que a perdeu? Quem a perdeu? Não é aquele que a possuía? Quem a possuía? A não ser aquele a quem ela pertencia por direito? Se, portanto, o homem é propriedade de seu Criador, e de mais ninguém além dele, aquele que a possuía era quem tinha a propriedade legítima; aquele que a perdeu era seu possuidor; aquele que a procurou é aquele que a perdeu; aquele que a encontrou é aquele que a procurou; aquele que se alegrou, foi aquele que a encontrou. Assim, em ambas as parábolas, não há uma única palavra que seja contraditória quando aplicada a Deus, que não é o proprietário nem da ovelha, nem da dracma, ou seja, do homem. Quem não possuía, nada perdeu; quem nada perdeu, nada procurou; quem nada procurou, nada encontrou; quem nada encontrou, não pôde se alegrar. Quem, então, se alegrará com o arrependimento do pecador, ou seja, com o reencontro do bem que ele havia perdido? Quem? Aquele que declarou formalmente outrora «que prefere o arrependimento do pecador à sua morte» (Adv. Marc. IV).
Tertuliano critica a afirmação de Marcion de que o Senhor não veio para os seus, mas para os “estranhos”. Se a ovelha (= homem) não lhe pertencia, sendo propriedade do demiurgo, por que vinha em busca dela?
Seria melhor compreender a interpretação da parábola dada por Marcion, conforme o próprio Tertuliano:
O que dissemos até agora, para explicar segundo a verdade do Evangelho inteiro e não corrompido, esta única passagem da Escritura que Marcion e Apelles nos opõem como uma autoridade na qual se apoiam com tanta firmeza deveria ser suficiente para provar a natureza humana de Jesus Cristo, estabelecendo o seu nascimento no tempo: mas, como esses discípulos de Apelles enfatizam ao extremo a ignomínia da carne e querem que ela tenha como autor o anjo do deus maligno, supondo que esse anjo, que eles imaginam todo em chamas, tenha dado a carne às almas depois de lhes ter inspirado no céu o desejo pelas carnes terrenas, daí concluem que essa carne é indigna de Jesus Cristo, e que, por isso, foi necessário que ele tivesse tomado sua carne da substância dos astros; é daí que devo extrair o que me permite refutar seus erros: essa origem que eles atribuem ao corpo de Jesus Cristo me servirá de matéria para combatê-los. Dizem, portanto, que há um anjo ilustre e glorioso que criou o mundo e que, tendo-o criado, introduziu nele a penitência, ou seja, concebeu a dor e o arrependimento por não ter tornado este mundo inferior tão perfeito quanto o mundo superior. Já falamos sobre isso em outro lugar e escrevemos um livro contra eles, no qual tratamos: se aquele que teve o espírito, a vontade e a virtude de Jesus Cristo para realizar essas grandes obras, fez algo que devesse suscitar o arrependimento e a dor da penitência, e que lhes pudesse dar motivo para interpretar, a partir desse anjo criador do mundo, a figura do Evangelho em que se fala da ovelha perdida que precisa ser recolocada no rebanho pelo pastor. (De carne Christi 8)
Harmonizando as notícias com outras do mesmo Tertuliano e de Hipólito se restitui o pensamento de Apeles:
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Existe o Deus Bom, ignoto e transcendente, com seu mundo espiritual próprio.
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Debaixo, vindo por criação do bom, os anjos ou virtudes subalternas, intermediárias entre Ele e o mundo sensível.
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Deles o primeiro — Deus segundo — o YHWH criador, justo, a quem se atribui a fabricação do mundo sensível.
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Segundo anjo — deus terceiro — seria o “deus ígneo” que falava Moisés e o outorgou a lei.
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Terceiro anjo — deus quarto — o arconte deste mundo (?) autor dos males.
