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Paulicianismo
COULIANO, Ioan P. The tree of gnosis: gnostic mythology from early Christianity to modern nihilism. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1992
Capítulo 7 — Paulicianismo ou Marcionismo Popular
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A única fonte existente sobre a doutrina pauliciana é a Historia Util, Refutação e Derrubada da Heresia Vã e Ociosa dos Maniqueus, também conhecidos como Paulicianos, redigida entre 870 e 871 pelo escritor bizantino Pedro da Sicília, acompanhada de três Sermões do mesmo autor destinados a refutar as três teses centrais dos paulicianos.
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Pedro da Sicília — autor da Historia e dos três Sermões; refuta o dualismo, o docetismo e a negação da transubstanciação
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Os Sermões não acrescentam dados relevantes além dos já fornecidos pela Historia
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Pedro da Sicília redigiu um epítome de sua Historia em 871-72, cujos manuscritos trazem Pedro o Higúmeno como autor
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Paul Lemerle demonstrou que a solução para esse enigma é simples: Pedro da Sicília era monge e higúmeno
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Por volta de 871-72, o Patriarca Fócio de Constantinopla redigiu uma Exposição Resumida do Reaparecimento Recente dos Maniqueus, baseada exclusivamente no Epítome e na Historia de Pedro o Higúmeno da Sicília
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Outras informações constam nas quatro Fórmulas de Recantação usadas pela Igreja Bizantina para converter paulicianos, erroneamente chamados de maniqueus por serem dualistas
2. Doutrina Pauliciana
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Os paulicianos professavam um dualismo fundado na distinção entre um deus pai celestial sem poder neste mundo e um deus criador do mundo que governa a era presente, ao passo que os cristãos comuns — chamados por eles de “romanos” — reconheciam um único deus ao mesmo tempo pai celestial e criador do universo.
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Os paulicianos se autodenominavam cristãos e chamavam os cristãos comuns de “romanos”
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Pedro da Sicília registra a confissão dos paulicianos: “Há apenas uma coisa que nos separa dos romanos — dizemos que existe um deus que é pai celestial e não tem poder neste mundo, mas no mundo vindouro, e existe outro deus, o criador do mundo, que tem poder sobre o mundo presente”
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A Historia de Pedro especifica cinco pontos doutrinários fundamentais dos paulicianos: a negação da virgindade de Maria, a rejeição da transubstanciação, a recusa do símbolo da cruz, a rejeição integral do Antigo Testamento e a recusa do clero da Igreja.
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Maria teria dado outros filhos a José após o nascimento de Jesus, cujo corpo era celestial
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Os profetas são chamados pelos paulicianos de “mentirosos e ladrões” — planoi kai lestai em grego transliterado
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A primeira Fórmula de Recantação menciona a crença de que o Senhor “usou o ventre da Mãe de Deus como uma bolsa — balantion —”, passando por Maria como por um cano sem tocar nem ser tocado por seu corpo
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Fócio comenta sobre o nascimento virginal: “Tendo trazido consigo seu corpo do alto, passou por ela — a Virgem — como por um cano — hos dia solenos —, e dizem que essa Virgem pura e imaculada, após o nascimento do Salvador, deu à luz outros filhos de José”
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A segunda Fórmula de Recantação anatemiza de forma concisa e aparentemente correta sete posições heréticas atribuídas aos paulicianos.
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Anatemiza quem afirma que há dois princípios, o bem e o mal, um autor da Luz e outro da Noite
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Anatemiza quem professa que o Diabo perverso é o autor e Arquonte da Matéria e de todo o mundo visível e de nossos corpos
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Anatemiza quem denigre a Lei Mosaica e diz que os Profetas não derivam do princípio bom
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Anatemiza quem rejeita o matrimônio legítimo e sustenta que a multiplicação da espécie humana provém do Demônio
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Anatemiza quem apresenta a cruz, a morte e a ressurreição de Cristo como uma aparência
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Anatemiza quem não crê que o que Cristo deu aos Apóstolos dizendo “tomai e comei” seja seu corpo e sangue reais, sustentando que se trata do Evangelho e do Apóstolo
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A quarta Fórmula de Recantação, possivelmente tardia e referente aos bogomilos, chama Satanás de deus criador e professa que Cristo nasceu apenas em aparência — dokesei — e não realmente da Mãe de Deus.
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N. G. Garsoian e outros estudiosos debatem se essa fórmula se refere aos paulicianos ou aos bogomilos
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As fontes atribuem aos hereges a prática de reservatio mentalis — confissão pública da fé ortodoxa com sentido simbólico privado —, bem como a simulação pública do culto ortodoxo e a dissimulação de suas crenças reais.
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O Epítome atribui aos paulicianos convivências promíscuas
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Nas Fórmulas de Recantação esse elemento se transformou no estereótipo implausível da orgia de Ano Novo sem iluminação
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O cânone neotestamentário dos paulicianos, descrito por Pedro da Sicília nos capítulos 42 a 44 de sua Historia, aceita os quatro Evangelhos, as quatorze Epístolas de Paulo, a Epístola Católica de Tiago, as três de João, a de Judas e os Atos dos Apóstolos.
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Pedro da Sicília registra: “Aceitam apenas o conjunto dos quatro Santos Evangelhos e as quatorze Epístolas do Apóstolo Paulo e a católica de Tiago e as três de João e a católica de São Judas e os Atos dos Apóstolos, sendo o texto igual ao nosso, palavra por palavra. Possuem também epístolas, amaldiçoadas por Deus, de seu mestre Sérgio, cheias de soberba e impiedade. Assim, não aceitam as duas epístolas católicas de Pedro, o príncipe dos apóstolos, a quem têm em desapreço e cobrem de insultos e ofensas inumeráveis, sem que eu saiba com que intenção”
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Uma escólia ao capítulo 42 da Historia acrescenta que os paulicianos posteriores reconheciam apenas os quatro Evangelhos — Lucas preferencialmente — e as quinze epístolas de Paulo, incluindo uma Epístola aos Laodicenses
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Sérgio — mestre pauliciano cujas epístolas são mencionadas por Pedro da Sicília
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O dualismo professado pelos paulicianos é a oposição marcionita entre os dois deuses — de futuro versus de praesenti —, reduzida a seus componentes primários: o Demiurgo e Arquonte deste mundo e o Deus oculto da era vindoura.
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O Demiurgo é o deus do Antigo Testamento, texto rejeitado integralmente pelos paulicianos
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Toda a construção se assemelha a um marcionismo popular cultivado em circunstâncias difíceis e com recursos escassos, usando um cânone neotestamentário ortodoxo privado das epístolas de Pedro — o mesmo apóstolo que Marcion considerava um falso apóstolo
3. Hipótese Armênia
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O nome dos paulicianos remete a alguém chamado Paulo, mas a derivação grega regular produziria paulianoi e não paulikianoi, o que sugere que o sufixo armênio depreciativo ik está presente no termo, tornando-os os adeptos de um Paulo desprezível ou os adeptos desprezíveis de Paulo.
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Os seguidores do adotacionista Paulo de Samósata, bispo de Antioquia no século III, são chamados paulianoi — e não paulikianoi
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Steven Runciman observou o caráter depreciativo do sufixo ik no termo paulikianoi
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O paulicianismo ocupava posição central na história das correntes dualistas ocidentais segundo a hipótese difusionista clássica, que o via como o único elo capaz de explicar a transmissão do gnosticismo ao ismaelismo, ao bogomilismo e ao catarismo.
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Ignaz von Dollinger formulou essa tese clássica
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Steven Runciman, Raoul Manselli, Milan Loos, Henri-Charles Puech e Heinz Halm desenvolveram e retomaram a tese difusionista
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F. C. Conybeare (1898) e Nina G. Garsoian se opuseram firmemente a essa hipótese a partir de estudos sobre a literatura armênia
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O intermédio armênio decorreu da descoberta, na primeira metade do século XIX, da Escritura de uma seita armênia aparentemente relacionada aos messalianos, cujo nome se assemelhava ao de paulikianoi
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Paul Lemerle demonstrou que toda essa construção repousa sobre um equívoco lamentável
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Os documentos armênios ignoram completamente os paulicianos, mas mencionam uma heresia foneticamente próxima ao seu nome — o payl-i-keank —, expressão que significa simplesmente “os imundos” ou “aqueles que são imundos em suas vidas”, sem qualquer relação com um Paulo.
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O payl-i-keank é mencionado pela primeira vez em 555
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O katholikos João de Ojun os refutou mais seriamente no Concílio de Dvin de 719, após o que seu nome desaparece das fontes
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N. G. Garsoian sustenta que o payl-i-keank deve ser identificado com o mclneut'iun — de mclne, “imundície” — condenado em 447 pelo Grande Sínodo de Shahapivan
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Os mclneut'iun sempre foram identificados com os messalianos — em siríaco metsalleyane —, considerados pelos textos antigos como os hereges “mais sujos”, acusados de passarem o tempo em depravação e troca de parceiros
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O payl-i-keank nada tem a ver com os messalianos nem com os paulicianos, sendo adeptos do Paulo adotacionista de Samósata, e essa heresia continuou a existir sob outros nomes mesmo após a refutação de João de Ojun.
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No início do século XI, Gregório Magistros, governador do Vaspuragan e Taron, perseguiu os seguidores de uma seita fundada entre 836 e 855 na região de T'ondrak, ao norte do Lago Van — conhecidos como T'ondrakeci
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No século XI a seita T'ondrakeci fugiu para a Síria e não é mais mencionada por fontes armênias após 1166
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Os T'ondrakeci ainda existiam entre 1833 e 1847 em Ark'weli e forneceram à pesquisa acadêmica um manuscrito de 1782 do texto antigo chamado Chave da Verdade
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A análise da Chave da Verdade prova que os T'ondrakeci eram adotacionistas e não paulicianos
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Os T'ondrakeci criam que Jesus Cristo não era Filho de Deus, que sua concepção não foi imaculada, seu nascimento não foi virginal, e que Deus o adotou como Filho aos trinta anos durante seu batismo no Jordão — o que implicava abolir o batismo infantil ortodoxo
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Essa doutrina é uma versão simplificada do adotacionismo sofisticado que Paulo de Samósata teria pregado no século III
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A conclusão é inequívoca: o payl-i-keank, adeptos do contemptível Paulo de Samósata, nada tem a ver com os paulikianoi bizantinos — cujo Paulo é simplesmente Paulo apóstolo, venerado por Marcion e pelos próprios paulicianos.
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Toda especulação sobre a evolução dos paulicianos fundada na falsa premissa de que em algum momento teriam sido idênticos ao payl-i-keank deve ser igualmente descartada como inútil
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Adotacionistas e paulicianos dualistas tinham em comum a negação do nascimento virginal de Cristo e a rejeição da cruz e dos sacramentos, porém chegaram a essas posições por caminhos inteiramente separados
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Um adotacionista simples descartaria naturalmente a fábula do nascimento virginal, pois até os trinta anos Jesus seria apenas um ser humano nascido de uma mulher como qualquer outro
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O docetista rejeita a cruz porque ela implica a crença na morte real de Cristo; é improvável que um docetista tivesse tomado emprestada essa rejeição de um adotacionista, como N. G. Garsoian sugere
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Os sacramentos podem ser igualmente desprezados por docetistas e adotacionistas, mas por razões distintas
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Tanto o adotacionismo quanto o dualismo são sistemas; o dualismo atravessa a história porque continua a existir como sistema nas mentes de quem cultiva seu princípio e transforma e multiplica seus desdobramentos
4. Dualismo Pauliciano
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Adolf von Harnack, mais cauteloso do que seus predecessores que tomavam os paulicianos por marcionitas autênticos, os considerou halbschlachtige Marcioniten — marcionitas pela metade.
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Dmitri Obolensky observa que não há menção de encratismo nem de vegetarianismo entre os paulicianos
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Uma das Fórmulas de Recantação atribui aos paulicianos a (improvável) rejeição do matrimônio
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A forte rejeição pauliciana dos sacramentos da Igreja não tem paralelo entre os marcionitas
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Os marcionitas praticavam o batismo, a eucaristia — com água em vez de vinho — e a unção, e sua liturgia era semelhante à da Igreja antiga
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O fato de que certos elementos do paulicianismo não existiam no marcionismo não significa que os paulicianos tiveram de “tomá-los emprestados” de alguma outra fonte, pois a teoria contemporânea da transmissão histórica erra ao pressupor que tudo deve ter um precedente histórico do qual deriva.
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A transmissão cognitiva significa simplesmente que princípios são comunicados, mesmo de forma elusiva ou alusiva, de mente humana a mente humana, onde continuam a operar segundo os padrões específicos da mente humana
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É historicamente plausível que o contato dos paulicianos com o marcionismo tenha se reduzido a algumas poucas lições orais de exegese bíblica marcionita recebidas por Constantino de Mananali de algum monge siríaco profundamente convicto da inanidade do Antigo Testamento e da oposição dos dois deuses
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Constantino de Mananali — fundador dos paulicianos; recebeu lições orais de exegese marcionita de um monge siríaco
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A mente de Mananali teve de elaborar, segundo os caminhos lógicos acessíveis a todos os seres humanos e inalterados há talvez sessenta mil anos, outras soluções para as questões que seu mestre não teve tempo de responder
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Os paulicianos não dispunham da opção heroica e sobre-humana dos marcionitas, que praticamente auxiliaram seus perseguidores a exterminá-los, e por isso sua única escolha foi ativar a opção antinomiana e combater a Igreja sem se tornarem vítimas.
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O docetismo pauliciano — que implica a passagem de Cristo por Maria sicut per fistulam e o sofrimento real de seu corpo fantasmático sem a morte na cruz — deriva diretamente do marcionismo
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A rejeição da eucaristia é consequência da mesma negação do corpo físico de Cristo: um docetista que não atribui realidade física ao corpo de Cristo negaria naturalmente sua presença num pedaço de pão
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Os paulicianos repudiam a eucaristia e interpretam simbolicamente as palavras hoc est corpus meum como referência à Palavra de Cristo que inspira seus discípulos
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Diante da cruz, os docetistas têm poucas opções: ou a desprezam pela impossibilidade da morte real de Cristo, ou a aceitam sob pretexto de função simbólica e comemorativa.
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Os paulicianos afirmam que “esse pedaço de madeira e instrumento maldito” não deve ser adorado, pois a verdadeira cruz é o próprio Cristo
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Os paulicianos eram capazes de reverenciar a cruz com reservatio mentalis, mas não lhe atribuíam função positiva alguma, pois não concebiam a morte de Cristo como dotada de função salvífica
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Não é inteiramente claro por que os paulicianos repudiavam o batismo, que interpretavam de forma simbólica.
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P. Lemerle sugere que evitavam o batismo com água porque Cristo, segundo os Evangelhos — Mateus 3:11, Lucas 3:16, João 1:26 e 33 —, batiza “com o Espírito Santo e com fogo”
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Os paulicianos detestavam os sacerdotes e não reconheciam os santos ortodoxos, o que era consequência natural de negar tantos aspectos do dogma ortodoxo
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Tudo isso indica que os paulicianos eram marcionitas tardios e populares, capazes de extrair, a partir de princípios dualistas simples, suas próprias conclusões antinomianas sobre a autoridade da Igreja ortodoxa
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