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CARPOCRATES
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo X — Carpocrates
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Carpocrates vincula-se à corrente de pensamento representada por Saturnilo e Basilides — corrente originada na escola cristã dissidente de Menandro, ela mesma derivada do cisma de um grupo cristão samaritano —, compartilhando com eles a ideia de que o mundo foi feito por anjos muito inferiores ao “Pai desconhecido” ou “Pai não gerado,” e que entre esses anjos criadores há um superior aos outros, o Archon, identificável com o Deus do Antigo Testamento.
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Epifânio — filho de Carpocrates, cujo texto descreve um dos mandamentos da Lei antiga como “ridículo” (Clemente de Alexandria, Stromata III, 9, 3).
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Em relação ao docetismo, Carpocrates inicialmente parece distinguir-se claramente de Saturnilo e Basilides ao afirmar que Jesus era simplesmente um homem, sem nada de divino em seu nascimento; mas a virtus que Jesus recebeu por ter uma “alma firme e pura” e por lembrar melhor do que os outros o que vira antes de nascer poderia ser análoga ao Cristo de Cerinto — o Espírito que desceu sobre Jesus no batismo —, o que indica uma forma de docetismo cerintiano presente também em Carpocrates.
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Carpocrates é mais profundamente platônico e pitagórico do que mesmo Basilides, e quase tudo de peculiar em seu cristianismo é explicável por Platão — a pré-existência da alma, a metempsicose, o corpo como “prisão” da alma, a reminiscência platônica como meio de salvação, e a teoria de que nenhuma ação é boa ou má em si mesma.
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A ideia de que é preciso ter experimentado tudo ao longo da vida para ser definitivamente liberado da necessidade de retornar a este mundo após a morte (Irineu, I, 25, 4) encontra sua explicação no mito final da República de Platão (619b-620d), onde as almas dos mortos erram ao escolher uma nova vida por falta de experiências anteriores; não se trata de ensinar uma vida dissoluta, assim como ninguém afirma que Platão ensinasse a imoralidade nesse mito.
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A teoria de que não há ação boa ou má em si mesma (Irineu, I, 25, 4-5) evoca o que Platão diz sobre a justiça na República: que ela não diz respeito às ações exteriores mas à ordem interior da alma (República 443c-444a).
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Epifânio — filho de Carpocrates que morreu aos dezessete anos após ter escrito um livro “sobre a justiça,” no qual encontra seu ideal de comunismo e de comunidade de mulheres na República de Platão (Clemente de Alexandria, Stromata III, 6, 1 — 9, 3; República 416d-417b, 423e-424a, 457d).
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Clemente de Alexandria afirma que Carpocrates criou seu filho no estudo de Platão (Stromata III, 5, 3).
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Carpocrates era antes de tudo um cristão que interpretava o cristianismo à luz do platonismo, e sua escola ensinava que se salva pela fé cristã — pois a fé como meio de salvação é uma ideia cristã —, e uma das afirmações mais audaciosas atribuídas por Irineu a seus discípulos pode derivar do Evangelho de João.
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João 14:12 — versículo de onde pode provir a ideia, atribuída pelos discípulos de Carpocrates, de que os cristãos podem realizar feitos tão grandes quanto os de Jesus, ou ainda maiores.
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O pensamento de Carpocrates oscila entre afirmar que a humanidade realiza sua salvação por si mesma, pela potência da alma, e afirmar que algum tipo de graça ou eleição vinda do alto é necessária desde o início — o que impede que sua religião seja reduzida ao platonismo.
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Os discípulos de Carpocrates associavam a imagem de Cristo às imagens de Pitágoras, Platão e Aristóteles (Irineu, I, 25, 6); ele pode também ter permitido honras divinas a seu filho morto na ilha de origem de sua mãe, o que indicaria grande tolerância para com os ritos religiosos pagãos.
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O pensamento de Carpocrates procede provavelmente da mesma fonte que o dos discípulos de Menandro, sendo muito provável que tenha conhecido as ideias expostas pela escola simoniana de Antioquia, ainda que Irineu não o declare discípulo de Menandro.
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As doutrinas da escola simoniana podiam estar em Alexandria, mas somente se Basilides as levou até lá; Carpocrates pode ter as recebido do próprio Basilides — de quem mais se aproxima —, ou é possível que essas doutrinas tenham circulado no Egito por intermédio de outros missionários.
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