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Bogomilismo

COULIANO, Ioan P. The tree of gnosis: gnostic mythology from early Christianity to modern nihilism. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1992

Bogomilismo: Um Pseudodualismo

  • A única fonte direta sobre o bogomilismo é a Questões de João (Interrogatio Iohannis), um texto apócrifo trazido da Bulgária por volta de 1190 e traduzido para o latim, existindo dois manuscritos e um texto impresso pertencentes a duas recensões (a de Viena e a de Carcassonne).
    • As primeiras fontes indiretas referem-se ao bogomilismo búlgaro e incluem a segunda carta do patriarca Teofilato de Constantinopla ao czar Pedro da Bulgária (940-50) e o Tratado Contra os Bogomilos de Cosmas, o Presbítero, escrito logo após 972.
    • Fontes bizantinas, como a carta do monge Eutímio do Mosteiro de Nossa Venerabilíssima Senhora de Constantinopla (por volta de 1050) e o Diálogo sobre a Operação dos Demônios de Miguel Pselo, contêm informações sobre a mitologia bogomila, mencionando os nomes phoundagiagites ou phoundaites (do latim funda, “saco”) e torbeshi (do búlgaro torba, “saco”).
    • Um século depois, a captura de Basílio, o líder impenitente dos bogomilos de Constantinopla, é contada em detalhes na Alexíada de Ana Comnena (1148), e sua confissão, escrita pelo historiador da igreja Eutímio Zigabeno, tornou-se parte de sua Panóplia Dogmática sob o título Narratio de haeresi Bogomilorum.
    • A mitologia bogomila interferiu com lendas dualistas populares em toda a Europa Oriental, mas esses materiais populares podem ser muito anteriores ao próprio bogomilismo.

Prólogo no Céu

  • Duas fontes concordam sobre a existência de sete céus (ou oito, se contado o céu visível produzido por Satanás), mas Eutímio Zigabeno menciona apenas um céu e uma terra criados por Deus e um céu e uma terra criados por Satanael (Samael) em imitação de Deus, sugerindo dualismo radical.
    • Satanás, identificado com o mordomo desonesto da parábola de Cristo (Lucas 16:1-8), é o administrador de todo o universo; o universo, de acordo com a Interrogatio, consiste em sete céus e, por baixo, zonas de Ar, Águas Superiores, Águas Inferiores, Terra (repousando sobre dois Peixes), Nuvens “que contêm o Oceano” e a zona ocupada pelo Inferno (geema ignis).
    • O orgulho é a causa da queda de Satanás, que imita o poder criador do Pai e deseja reinar sobre um reino semelhante ao Dele, visitando as sete camadas inferiores através do Portão do Ar e do Portão da Água, que lhe são abertos pelos anjos que supervisionam os elementos Ar e Água.
    • Satanás, voltando aos anjos superiores no céu, proclama-se chefe do reino inferior preexistente mas não reivindicado e tenta persuadir os anjos a segui-lo, usando argumentos diretamente extraídos de Lucas 16 para reduzir as dívidas dos anjos para com Deus e assim ganhar um séquito angelical, “seduzindo os anjos do Pai invisível” até o quinto céu.
    • Deus, irritado, ordena que seus anjos fiéis despojem os rebeldes de todas as insígnias de suas fileiras e dignidades celestiais (vestes, tronos, coroas), e Satanás é severamente punido, tendo a luz de sua glória divina (lumen glorie sue) retirada, “e seu rosto tornou-se como ferro em brasa, e seus traços se tornaram completamente semelhantes aos do homem, e ele tinha sete caudas com as quais arrastou consigo um terço dos anjos de Deus”.
    • Expulso de seu posto de comando e de suas residências celestiais, Satanás se instala com seus anjos rebeldes no firmamento, pede misericórdia a Deus, e o Pai mostra misericórdia e lhes dá trégua por sete dias para fazerem o que quisessem (sed precepto patris).
    • O episódio enfatiza o paralelismo entre a criação do mundo em sete dias (Gênesis 2:2) e a criação simulada de Satanás também em sete dias, um mundo do qual ele é arquiteto, não criador, pois os anjos do Ar e das Águas levam dois terços da água que cobre a terra para o céu por ordem direta do Pai, que assim intervém na criação do mundo inferior.
    • De pé sobre os dois Peixes (o signo de Peixes?), o anjo das Águas ergueu a terra, e a terra seca apareceu; então, pegando a coroa do anjo do Ar, Satanás fabrica seu trono de metade dela e a luz do Sol da outra metade, e a coroa do anjo das Águas lhe serve para fazer a luz da Lua e a do dia, enquanto as joias das coroas se tornam a “milícia das estrelas”.
    • Satanás ordenou que a terra produzisse todos os seres vivos, animais, árvores e ervas, e ordenou que o mar produzisse peixes e provavelmente que o ar produzisse as aves do céu, e uma glosa anônima acrescenta: “Aves e peixes não têm alma, nem os animais têm almas humanas, mas aves e peixes recebem o que têm da água e do ar, os animais da terra e do ar.”
    • Outras fontes são menos precisas: Cosmas atribui à criação do Diabo “o céu, o sol, as estrelas, a terra, o homem”; Eutímio de Nossa Senhora faz do Diabo o criador do mundo visível, exceto o Sol e a alma humana; Pselo atribui ao Pai o governo da zona acima do universo (ta hyperkosmia), ao Filho mais jovem (Cristo) a zona celestial (ta ourania), e ao Filho mais velho (Satanael) o mundo (ta enkosmia).
    • Eutímio Zigabeno identifica o Diabo com o deus do Antigo Testamento, que faz para si um segundo céu e uma segunda terra, separados do Reino de Deus; a tripartição do universo em Pselo corresponde a um mito em que o Pai tem dois filhos: Satanael, o primogênito (prōtotokos), que governa sobre a terra, e Jesus, o mais jovem (neōteros), que governa sobre o céu.
    • A trindade bogomila, segundo Zigabeno, tem influências sabelianas, onde o Filho e o Espírito Santo são hipóstases distintas apenas durante os trinta e três anos da vida de Jesus (5500 a 5533 da criação do mundo), após o que se confundem novamente, sendo a imagem dessa Trindade a de um Pai com rosto humano, com o Filho à sua direita e o Espírito à sua esquerda representados como feixes emanados através de seus olhos.

Antropogonia

  • De acordo com a Interrogatio, Satanás fabrica o homem à sua própria imagem a partir do barro e ordena que o anjo do terceiro ou segundo céu entre no novo corpo, fazendo o mesmo com a mulher usando o anjo do primeiro (ou segundo) céu, e esses dois anjos derramam lágrimas amargas por estarem presos em corpos mortais e sexualmente diferenciados (in divisis formis; dissimiles forma), não sabendo cometer o pecado (nesciebant facere peccatum).
    • Satanás recorre a um truque: faz o Paraíso, coloca o casal humano ali e planta no meio uma palha (a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal) na qual esconde a Serpente fluida, que nada mais é que a própria saliva de Satanás, levando os humanos a violar a interdição que ele mesmo havia formulado.
    • Entrando na Serpente, o Maligno seduz Eva e a engravida com sua cauda: “É por isso que os humanos não são chamados filhos de Deus, mas filhos do Diabo e da Serpente, realizando os planos diabólicos de seu pai até o fim dos séculos”, e Adão e Eva dão à luz uma raça satânica que se propaga de acordo com a antiga doutrina do traducianismo (novas almas derivam da cópula psíquica dos pais).
  • Eutímio de Nossa Senhora conhece uma versão diferente do mito: o Arconte deste mundo molda o corpo de Adão e quer colocar nele a alma roubada de Deus, mas a alma entra pela boca e sai pelo ânus; por trezentos anos o corpo de Adão fica sem alma, até que o Governante tem a ideia de comer animais impuros (serpente, escorpião, cão, gato, sapo) e cuspir essa mistura horrível sobre a alma, tampando o ânus de Adão e soprando a alma em sua boca, onde ela permanece devido ao envoltório repugnante.
    • Essa versão é reconhecida como uma versão popular e negativa do antigo conceito do antimimon pneuma, o veículo da alma (ochēma) ou corpo astral que envolve a alma antes de ser introduzida no corpo.
  • A versão de Zigabeno é mais simples: Samael-Satanael tenta animar o corpo úmido de Adão com seu próprio espírito (pneuma), mas o espírito escapa imediatamente pelo seu dedão direito, arrastando umidade que se torna a Serpente; somente depois de implorar a Deus que lhe enviasse um pouco do Seu Espírito é que Satanael conseguiu fazer Adão se levantar, e em todas as versões a alma deriva diretamente de Deus ou é um anjo inocente.

História da Humanidade

  • Eutímio Zigabeno é o único autor que expande a posteridade do Arconte e Adão: Deus concordou em enviar a alma humana a Samael porque Samael prometeu que o propósito da nova raça era preencher os lugares deixados vagos no céu pela queda dos anjos, mas Samael, ciumento de Deus, não mantém sua promessa e tem relações com Eva, gerando Caim e sua irmã Calomēnē, enquanto Eva dá à luz Abel, que é morto por Caim.
    • Para punir Satanael, Deus o despoja de sua partícula divina -el, privando-o de qualquer poder criativo, tornando-se uma criatura escura e disforme (skoteinos kai dyseides), mas Deus em sua bondade permite que ele continue a reinar sobre o mundo.
    • Os anjos têm relações com as filhas dos homens, e seus filhos, os Gigantes, opõem-se ao Arconte, que os destrói através do dilúvio, poupando apenas Noé, seu sincero adorador.
  • De acordo com a Interrogatio, o Arconte sequestra Enoque para seu céu, e Enoque escreve setenta e seis livros contendo a descrição deste reino celestial inferior, fazendo os humanos esquecerem os sete céus superiores do Pai, e Enoque ensina a seus filhos “a ordem dos sacrifícios e rituais ímpios”.
    • O Pai decide enviar Jesus, seu Filho que está sentado ao seu lado, para revelar a verdade; Satanás fica sabendo de sua intenção e entrega a Moisés pedaços de três árvores para fazer a cruz de Jesus, dá a Moisés a Lei e o ajuda a atravessar o Mar Vermelho.
    • O Pai primeiro envia o anjo Maria ao mundo, e Jesus entra e sai por sua orelha (a direita, especifica Zigabeno), e Maria não estava consciente da passagem de Jesus: ele a atravessou como água através de um cano.
    • Jesus não tem um corpo físico (isto é, de barro), vestindo apenas um corpo imaterial que ele abandona na zona do Ar quando retorna ao reino paterno, não necessitando de alimento, e sua morte e ressurreição não são reais.
    • Tendo ouvido falar da descida de Cristo ao mundo, mas não sabendo de seu paradeiro, o Arconte envia seu próprio anjo Elias, também conhecido como João Batista, que batiza em água e é capaz de identificar Cristo por causa da pomba que pousa sobre ele.
    • As expressões “meu corpo” e “meu sangue” referem-se metaforicamente ao Pai Nosso, e os bogomilos rejeitam os sacramentos da Igreja, associando-os aos maus cristãos, discípulos de João Batista que “casam e são dados em casamento”, enquanto os discípulos de Jesus são enraptizados: “eles são como os anjos de Deus no céu, no Reino dos céus, são eunucos propter regnum celorum” (Mateus 19:10-12).
  • O mundo durará enquanto o número de Justos admitidos no céu permanecer menor do que o número de lugares deixados vazios pelos anjos caídos, e a escatologia é baseada no Apocalipse de João: Cristo virá com os apóstolos para julgar o universo, os demônios e seus seguidores serão enviados ao fogo eterno, os Justos herdarão o Reino dos Céus, e então, com a permissão do Pai, “uma Escuridão obscura e uma Geena de fogo (obscuritas tenebrosa et geenna ignis) irromperão da profundidade da terra para o ar do firmamento”; Satanás e sua milícia demoníaca serão lançados em um lago de fogo tão profundo que uma pedra atirada por um homem de trinta anos levaria três anos para chegar ao fundo, onde o Diabo será amarrado com “correntes indestrutíveis”, enquanto “os Justos brilharão como o Sol no Reino de seu Pai” e o Filho de Deus se sentará à direita de seu Pai.

Consequências Doutrinais e Éticas do Mito Bogomila

  • Vivendo de maneira enraptizada para emular a vida dos anjos e abstendo-se de todas as coisas que derivam ex coitu ou de coisas que, como o vinho, foram inventadas pelo Diabo para estimular a procriação, os bogomilos têm uma posição claramente antinomiana em relação à doutrina, aos sacramentos e à ética da Igreja.
    • Cosmas, o Presbítero, atribui a eles a crença de que o autor dos milagres de Jesus era o próprio Diabo, o que, segundo H.-Ch. Puech, significa que eles interpretam os milagres simbolicamente, não literalmente.
    • Os bogomilos repudiam o batismo, a eucaristia, o culto da cruz, o culto da Virgem e dos santos, ícones e relíquias, a hierarquia eclesiástica, a liturgia ortodoxa e as orações, aceitando apenas o Pai Nosso como oração, e acreditam que os edifícios materiais das igrejas são os resorts de Satanás, desprezando riquezas e autoridade e incitando à desobediência civil, embora finjam ser cristãos exemplares.
    • Eutímio de Nossa Senhora acrescenta a rejeição dos dogmas da ressurreição dos mortos e do juízo final, enquanto Zigabeno fornece informações adicionais sobre as práticas e ritos da comunidade bogomila.
    • Cosmas afirma que os bogomilos búlgaros rejeitam a Lei e os Profetas, mas Zigabeno afirma que os bogomilos bizantinos aceitam o cânon do Novo Testamento ortodoxo mais os dezesseis livros dos Profetas e os Salmos, interpretando as Escrituras alegoricamente.
    • Um exemplo notável de exegese alegórica diz respeito à descrição das roupas sumárias de João Batista no deserto (o pano de saco de pelo de camelo e o cinto de couro) e de sua dieta (gafanhotos e mel silvestre, segundo Mateus 3:14): o pelo do camelo representa os numerosos mandamentos da Lei Mosaica (tas entolas tou mosaikou nomou), impuros como o camelo, pois permite uma dieta de carne (kreophagvia), juramentos, sacrifício, assassinato e assim por diante; o cinto de couro, ao contrário, representa o Santo Evangelho, que foi escrito em pele de ovelha; os gafanhotos são novamente os mandamentos da Lei, incapazes de distinguir o bem do mal, enquanto o mel silvestre é mais uma vez o Santo Evangelho, doce como mel para aqueles que o recebem.

Os Cristãos da Bósnia

  • Esta heresia derivada de Bizâncio foi atestada pela primeira vez na Bósnia em 1199, mas já em 1167 o padre Niketas/Niquinta, presente no Concílio Cátaro de Saint-Félix-du-Lauragais, mencionou uma igreja cátara dálmata, e De haeresi catharorum in Lombardia (cerca de 1200) refere-se à relação direta entre as comunidades cátaras de Mântua e Vicenza e “Sclavenia” ou “Sclavania”, identificada por Anselmo de Alexandria como a terra chamada Bossona (Bósnia, parte da Croácia, chamada “Eslavônia” em documentos medievais).
    • De acordo com um manuscrito glagolítico do século XIV, a fé desses hereges bósnios seria semelhante à dos bogomilos: “Eles dizem que nosso Senhor Jesus Cristo não tinha um corpo humano real, que a Virgem Maria era um anjo e muitos outros erros contra a fé católica… Eles condenam o casamento, certos alimentos e muitas outras coisas.”
    • Uma carta de junho de 1223, do legado papal na Borgonha, Cardeal Conrado de Urach, relata a existência de um “antipapa” cátaro residindo “em território búlgaro, na Croácia e Dalmácia, na fronteira com a nação húngara”, que teria investido Bartolomeu de Carcassonne, levantando a hipótese de que este “antipapa” poderia ser o djed (“Ancião”) da igreja patarena bósnia, embora não haja evidências de que os cristãos da Bósnia fossem dualistas.
    • Os únicos fatos positivos conhecidos sobre esses “cristãos que repudiam o pecado” são a rejeição do batismo dos romanos com água (substituído por um “batismo do Livro”), a negação do valor da caridade e (de acordo com uma fonte de 1454) a recusa em fazer qualquer juramento; os Dubia ecclesiastica (depois de 1373) do franciscano Bartolomeu d’Auvergne confirmam a rejeição do batismo, acrescentando que os bósnios negligenciam o sacramento do matrimônio.
    • Um resumo de 1697 do Diálogo Contra os Maniqueus da Bósnia de Tiago de Marchia (vigário dos franciscanos bósnios em 1435-38) afirma: “Sobre a criação das coisas visíveis e dos animais, a heresia dos Patarenos delira, dizendo que o criador do mundo visível era o Diabo e ensinava uma doutrina estúpida segundo a qual as almas dos seres humanos eram demônios que outrora caíram do céu e para lá retornariam.”
    • O cânon bíblico dos cristãos bósnios, exemplificado pelo codex de 1404 copiado por Hval para o duque Hrvoje de Spalato, é muito próximo do cânon dos bogomilos bizantinos, contendo o Novo Testamento completo, quatro apócrifos, o Decálogo (Êxodo 20:1-7), 151 Salmos, oito Odes do Antigo Testamento e o Magnificat, o que significa que no início do século XV os cristãos da Bósnia rejeitavam a maior parte do Antigo Testamento por razões semelhantes às dos bogomilos.
  • Uma lista do século XIV de erros (anterior a Tiago de Marchia) mostra as seguintes crenças dos Patarenos: “Eles dizem que existem dois Deuses e o mais elevado deles criou as coisas espirituais e invisíveis, enquanto o inferior, Lúcifer, criou todas as coisas corpóreas e visíveis… Eles negam a humanidade de Cristo e dizem que ele tinha um corpo fantástico e aéreo… Eles dizem que Santa Maria era um anjo, não um ser humano… Que Cristo não morreu, ressuscitou e subiu ao céu com seu verdadeiro corpo… Eles rejeitam o Antigo Testamento, com exceção dos Salmos, e afirmam que todos os Pais do Antigo Testamento, Patriarcas e Profetas, são amaldiçoados… Eles condenam João Batista e dizem que ele é amaldiçoado… Eles dizem que a Lei de Moisés foi dada pelo Diabo… Eles dizem que Lúcifer foi ao céu e seduziu os anjos de Deus, que desceram à terra onde Lúcifer os encasulou em corpos humanos… Que as almas dos homens são demônios que caíram do céu e retornarão ao céu depois de fazer penitência em um ou mais corpos (in corporibus uno vel pluribus).”
    • Este testemunho é corroborado por Juan de Torquemada (1461), geralmente considerado espúrio, que afirma: “Existem dois deuses, o Senhor bom e o Senhor do mal… Os anjos eram maus por natureza e não podiam deixar de ter pecado. Lúcifer subiu ao céu, lutou contra Deus e fez muitos anjos caírem. As almas são demônios encasulados em corpos. Os anjos maus, encasulados em corpos, retornarão ao céu através do batismo, purificação (purgation) e penitência. Rejeitando e reprovando o Antigo Testamento, eles dizem que ele pertence ao Príncipe das Trevas.”
    • O problema com esta interpretação é que o Catarismo Radical existia muito antes (1167 na Provença) do que os testemunhos que o atribuem aos Patarenos bósnios, portanto, se estes últimos o sustentavam, pode muito bem ser derivado de uma fonte provençal tardia.

Dualismo Bogomila

  • A questão do dualismo bogomila é difícil porque, embora se reconheça a oposição entre Deus Pai e Satanás, é preciso decidir se Satanás é aqui o princípio de algo, já que várias versões da Gênese bogomila enfatizam que Satanás, um anjo muito elevado expulso do céu por querer imitar a Deus Pai, não é o autor do mundo inferior, mas apenas o Artesão (dēmiourgos) que o molda a partir de elementos preexistentes, com o próprio Pai intervindo.
    • À primeira vista, pode-se admitir um “dualismo mitigado”, mas uma análise mais detalhada mostra que a posição dos bogomilos não parece dualista, diferindo pouco da da Igreja, que faz de Lúcifer um oponente real, porém subordinado a Deus, enfatizando a monarquia e a onipotência de Deus.
    • Embora Zigabeno afirme que o Diabo é o criador de animais e plantas, a Interrogatio especifica que todos os seres vivos são produzidos pela terra e pela água (e provavelmente pelo ar), e uma glosa acrescenta que os animais não possuem alma, mas têm uma essência dos elementos, que foram criados por Deus, não pelo Diabo.
    • O bogomilismo é original e não dualista: embora Satanás exiba poderes criativos efetivos em relação ao corpo humano (fabricado inteiramente por ele e à sua imagem, a partir de uma matéria úmida contendo muita água), os bogomilos mostram menos horror pela matéria do que muitos Padres da Igreja primitiva.
    • Os bogomilos não são anticósmicos, pois mesmo que o Diabo tenha organizado o mundo, o Pai interveio, e os seres vivos surgiram dos próprios elementos; os animais são desprezíveis apenas por sua procriação coital, mas as plantas não, e a vinha é amaldiçoada apenas porque “o Diabo colocou secretamente (latenter) seu sabor nela”.
    • A única coisa que pode ser definida como má na visão de mundo bogomila é a concupiscência, da qual o Diabo é a quintessência, e os bogomilos se abstêm de carne e sexo para diminuir o desejo pecaminoso; Maria e Jesus foram capazes de evitá-la porque não possuíam um corpo físico, eram anjos como nossas almas, apenas não presos em corpos.
    • A identificação do Diabo com o deus do Antigo Testamento tem um sabor gnóstico definitivo, mas os bogomilos provam que não é uma simples reminiscência livresca, aplicando criativamente o princípio da exegese inversa ao Livro de Gênesis, fazendo de Satanás tanto a Árvore do Conhecimento quanto a Serpente, que engravida Eva com sua cauda, gerando a raça arquética de Caim, a única raça existente.
    • Jesus Cristo é o Filho do Deus bom, enviado por seu Pai para revelar a verdade, e o Arconte o crucifica, mas sua paixão e morte não são reais; quando os Justos ocuparem todos os tronos deixados vagos pela queda dos anjos, o mundo será consumido pelo fogo, e o Diabo será acorrentado no recôndito mais profundo da Geena.
    • A atitude bogomila em relação à inteligência ecossistêmica é ambígua: o arquiteto do ecossistema é o Diabo, mas o criador de seu material é Deus, embora o Diabo bogomila pareça ter mais poder criativo do que Lúcifer em Orígenes ou Milton.
    • Como a essência do ser humano é uma alma angelical que é divina embora caída, o bogomilismo nega o princípio antrópico que exige que o mundo seja para os humanos e os humanos para o mundo, e, ao contrário do gnosticismo e do maniqueísmo, mas por outra razão que no marcionismo, o bogomilismo é pessimista, pois o anjo inocente foi vítima do astuto e não pode escapar da condição acusada de sua raça a não ser renunciando à concupiscência e às outras obras do Arconte, ou seja, às crenças e práticas dos romanos malignos.
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