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Apocalipse de Adão

Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.

INTRODUÇÃO

  • O Códex V de Nag Hammadi contém nas páginas 64, 1–85, 32 um documento intitulado A Apocalipse de Adão, cuja transmissão teria ocorrido no sétimo centésimo ano de vida de Adão ao seu filho Sete.
    • Nag Hammadi — sítio arqueológico no Egito onde foram descobertos os códices gnósticos em 1945
    • O texto apresenta lacunas nas metades superior e inferior das páginas que não podem ser preenchidas com certeza
    • Estudiosos que se dedicaram à restauração das lacunas: R. Kasser (Le Muséon 78, 1965; Revue de Théologie et de Philosophie 100, 1967), H. M. Schenke (OLZ 61, 1966) e W. Beltz
    • O documento subdivide-se em seções, sendo o excurso 77, 27–83, 4 uma unidade independente
  • A introdução (64, 5–67, 14) narra o estado paradisíaco original de Adão e Eva e a sua queda, a partir de referências ao Antigo Testamento.
    • Antes da queda, ambos eram semelhantes a grandes anjos eternos e superiores ao Deus que os criou
    • Eva ocupava posição ainda mais elevada que Adão, pois lhe transmitiu o conhecimento de Deus
    • A queda ocorreu por instigação do deus criador inferior — os dois se tornaram dois éons e a glória e o conhecimento primordial os abandonaram, passando para a descendência de Sete, os setianos
    • Três homens vieram para libertar Adão e Eva, convocando Adão a despertar do sono da morte e receber instrução sobre o éon e a semente de seu filho Sete
    • O Criador — identificado com o Deus do Antigo Testamento — tentou impedir a libertação e lançou trevas sobre os olhos do casal, suprimindo o conhecimento deles
    • O desfecho é o desejo de Adão por Eva e o encurtamento das vidas de ambos, submetidos ao domínio da morte
  • A apocalipse propriamente dita (67, 14–85, 18) vincula-se à aparição dos três homens e expõe a revelação sobre o destino futuro dos descendentes de Sete e de Noé, recorrendo novamente ao Antigo Testamento.
    • O Criador tentará destruir toda a carne por meio de um dilúvio, incluindo os gnósticos — portadores do conhecimento de Eva
    • Grandes anjos salvarão os gnósticos; os demais homens, exceto Noé e sua família, perecerão nas águas
    • Noé receberá a terra para seu domínio; em troca, seus descendentes deverão servir ao Criador
    • Quando os gnósticos resgatados chegam a Noé, o Criador interpela Noé supondo que ele próprio criara esses homens — acusação que Noé refuta
    • Os gnósticos são conduzidos a uma terra onde viverão com os anjos da grande luz por 600 anos sem pecado
    • 400.000 descendentes de Cam e Jafé virão a eles e habitarão com eles igualmente sem desejo
    • Fracassado o dilúvio, o Criador tenta destruí-los com fogo, enxofre e asfalto — mas Abrasax, Sablo e Gamaliel os livram do fogo
    • Abrasax, Sablo e Gamaliel — entidades angélicas do universo gnóstico setiânico
    • O Iluminador vem e livra da morte os descendentes de Cam e Jafé que “pensam em seus corações o conhecimento do Deus eterno” (76, 20–3)
    • Por sinais e prodígios o Iluminador envergonha as potências; o Deus das potências indaga em que o Iluminador lhe é superior
    • As potências, incapazes de ver o Iluminador, o consideram uma ilusão e punem apenas a sua carne
    • Um excurso (77, 27–83, 4) apresenta treze reinos e a raça sem rei (82, 19–20) discutindo a origem do Iluminador em forma de clímax culminante na declaração da raça sem rei
    • Após o conflito com as potências, uma nuvem de trevas virá; os povos proclamarão bem-aventurados os que conheceram Deus — os gnósticos —, pois viverão eternamente
    • Michev, Michar e Mnesinus — representantes dos povos — são repreendidos por terem poluído a água da Vida e perseguido os gnósticos
  • O documento encerra-se (85, 19–31) com a indicação de que as revelações de Adão foram transmitidas a Sete, que as ensinou à sua descendência, os setianos, seguida pelo título final (85, 32).
    • O tratado se insere na tradição setiânica e na escola setiânica
    • A questão levantada é se o livro foi composto como tratado gnóstico ou se remonta a tradições do Antigo Testamento, ao judaísmo tardio e à literatura apócrifa de Adão posteriormente reelaborada pelos gnósticos
    • K. Rudolph (ThR 34, 1969) discute essa questão
    • Identificam-se ideias iranianas: divisão tripartite da história do mundo, aparição do redentor na terceira época, origem do Iluminador a partir de uma rocha — análoga ao nascimento de Mitras
    • Identificam-se também concepções mandaicas, em especial do décimo primeiro livro do Ginza Direito
    • O batismo mencionado no texto (85, 22–6) foi espiritualizado por sua identificação com a Gnose
    • Uma distribuição dessas ideias por fontes individuais não é considerada possível — elas foram fundidas em sincretismo, desvinculadas de seus contextos originais
    • Material cristão não está presente de modo aberto e sem disfarce; o documento é caracterizado como gnóstico não cristão
    • A datação proposta situa a composição no primeiro ou segundo século, com revisão posterior em sentido gnóstico

APOCALIPSE DE ADÃO

  • No sétimo centésimo ano, Adão transmite a Sete a revelação recebida, narrando o estado original de glória compartilhado com Eva — estado de conhecimento eterno e semelhança com os grandes anjos.
    • Adão diz: “Ouça minhas palavras, meu filho Sete!”
    • Referência a Gênesis 2, 7: Deus criou Adão da terra
    • Eva ensinara a Adão “uma palavra de um conhecimento de Deus o eterno”
    • Ambos eram superiores ao Deus que os criou e às potências que estavam com ele
  • Deus, o archon dos éons e das potências, os separou na ira, fazendo-os tornar-se dois éons, e a glória e o primeiro conhecimento os abandonaram, migrando para a semente de Sete.
    • Archon — termo gnóstico para governante ou demiurgo inferior
    • O primeiro conhecimento — referências paralelas em Apoc. João 28, 6. 8. 18; 29, 13; 31, 20; 34, 19; 36, 19; Eug. III 73, 15
    • O conhecimento não originado neste éon passou para a semente dos grandes éons — razão pela qual Adão nomeou Sete com o nome “daquele homem”, semente da grande raça
    • Após essa perda, Adão e Eva receberam instrução sobre coisas mortas e serviram ao Criador em medo e escravidão
  • No estado de entorpecimento do coração, Adão avistou três homens cuja aparência não conseguia reconhecer, pois eram superiores às potências do Deus criador.
    • Os três homens disseram: “Levanta-te, Adão, do sono da morte. E ouve sobre o éon e a semente daquele homem a quem a vida veio”
    • Referências paralelas: Apoc. João II 31, 5–6; Poimandres 27; Atos de Tomé 110
    • Ao ouvir as palavras, Adão e Eva gemeram em seus corações
    • O Senhor Deus que os criara se apresentou e disse: “Adão, por que gemeis em vossos corações? Não sabeis que sou Deus quem vos criou? E soprei em vós um sopro de vida para uma alma vivente” — Gênesis 2, 7
    • Referências paralelas a essa fala do Criador: Apoc. João 51, 15; Hipo. Arch. 88, 3; 88, 15–16
  • Após as palavras do Criador, trevas cobriram os olhos de Adão e Eva, e Deus proclamou ser o único Deus — “Eu sou Deus e não há outro” —, remetendo assim à tradição do Antigo Testamento.
    • A declaração remete a Isaías 45, 5 e 46, 9
    • Referências paralelas: Hipo. Arch. 86, 30; Apoc. João 44, 15; Ireneu I 29, 4; 30, 6
    • A continuação da fala divina retoma Gênesis 3, 19: “Vós sois terra e tornareis a ser terra com Eva vossa mulher”
  • O conhecimento eterno perece em Adão, que reconhece ter caído sob o domínio da morte, e então passa a revelar a Sete o que os três homens lhe revelaram.
    • “A flor de nosso conhecimento eterno pereceu dentro de nós. E uma fraqueza nos tomou”
    • O encurtamento dos dias de vida é consequência direta da queda sob o domínio da morte
    • Adão anuncia que após o término de sua geração virá Noé — referência a Gênesis 6, 9 e 6, 17
  • O Criador enviará um dilúvio para destruir toda a carne da terra, incluindo os portadores do conhecimento procedente de Eva — os gnósticos —, mas grandes anjos em nuvens elevadas os salvarão.
    • Referências paralelas: Apoc. João 63, 5; 72, 15; 73, 2. 7. 10; Hipo. Arch. 92, 6. 9
    • Os gnósticos serão recebidos no lugar em que habita o espírito da vida eterna
    • Toda a multidão da carne perecerá nas águas; Deus descansará de sua ira e lançará seu poder sobre as águas
    • Deus salvará Noé, seus filhos e as esposas deles na arca, com os animais e as aves
    • Noé será chamado pelas gerações de “Deucalião” — paralelo entre a tradição bíblica e o mito grego do dilúvio
  • Deus concederá a Noé e a seus filhos o domínio sobre a terra, exigindo que sua descendência o sirva, mas ao ver os gnósticos resgatados junto a Noé, o Criador o interpela acusando-o de ter criado uma nova geração.
    • Noé responde que a geração desses homens não veio por meio dele nem de seus filhos, mas pelo Deus eterno da verdade e pelo conhecimento
    • Os gnósticos são conduzidos à terra que lhes é própria e habitarão ali por 600 anos em conhecimento de incorruptibilidade
    • Com eles estarão anjos da grande luz; nenhuma coisa vergonhosa entrará em seus corações, exceto o conhecimento de Deus
    • Noé divide a terra entre seus filhos Sem, Cam e Jafé, ordenando-lhes que sirvam a Deus em medo e servidão
  • Da semente de Cam e Jafé virão 400.000 homens que habitarão com os gnósticos na terra do conhecimento eterno, protegidos da impureza, mas o Criador Saklas tentará destruí-los com fogo.
    • Saklas — nome do demiurgo gnóstico maligno; referências: Apoc. João 41, 6; 42, 10; Hipo. Arch. 95, 7
    • A sombra do poder dos gnósticos preservará os que habitam com eles de todo mal e desejo impuro
    • A semente de Cam e Jafé formará doze reinos
    • As potências acusarão esses homens diante de Saklas, dizendo que eles subverteram toda a glória de seu poder
    • Fogo, enxofre e asfalto serão lançados sobre esses homens; trevas virão sobre os éons
  • Grandes nuvens de luz descerão dos grandes éons e Abrasax, Sablo e Gamaliel retirarão os eleitos do fogo, conduzindo-os acima dos anjos e das potências para a glória eterna.
    • Referências a nuvens de luz: Apoc. João 38, 7; 73, 12
    • O éon incorruptível é a morada dessas grandes luzes, dos anjos santos e dos éons
    • Os homens serão semelhantes a esses anjos, pois não lhes são estranhos e atuam na semente incorruptível
  • O Iluminador do conhecimento passará pela terceira vez em grande glória para salvar da morte aqueles entre os descendentes de Noé, Cam e Jafé que carregam no coração o conhecimento do Deus eterno.
    • Referências paralelas à libertação das almas: Apoc. João 64, 15; 69, 13
    • Os que pensam no conhecimento do Deus eterno não perecerão, pois receberam espírito dos anjos eternos, não do reino demiúrgico
    • O Iluminador virá sobre a terra morta e a selará em nome de Sete, operando sinais e prodígios para envergonhar as potências e os archons
    • O Deus das potências perguntará: “Qual é o poder deste homem, que é superior a nós?”
    • As potências não verão o Iluminador; puniram apenas a carne do homem sobre quem o Espírito Santo desceu
    • As potências chamarão o nome de engano, perguntando: “De onde veio o engano, ou de onde vieram as palavras mentirosas que todas as potências não encontraram?”
  • O excurso dos treze reinos apresenta versões míticas divergentes sobre a origem do Iluminador, concluindo com a declaração suprema da raça sem rei sobre sua procedência transcendente.
    • Primeiro reino: o Iluminador veio do Deus de um reino santo e elevado; um espírito o levou ao céu; foi criado nos céus; veio ao seio de sua mãe
    • Segundo reino: veio de um grande profeta; uma ave tomou a criança e a levou a uma alta montanha; um anjo disse: “Levanta-te! Deus te deu glória”
    • Terceiro reino: nasceu de um ventre virginal; foi expulso de sua cidade com sua mãe e levado a um lugar deserto
    • Quarto reino: veio de uma virgem que concebeu em segredo; Salomão a perseguiu com Fersalis, Sayel e seus exércitos; enviou demônios à procura da virgem; a criança foi criada numa ravina no deserto
    • Quinto reino: veio de uma gota do céu; foi lançado ao mar; o abismo o tomou e o levou ao céu
    • Sexto reino: veio de um éon inferior que colhia flores; ela engravidou pelo desejo das flores; os anjos de Anteonos o criaram
    • Anteonos — nome interpretado de formas diversas: Böhlig traduz como “Panteon”; Kasser, como “lugar de Anteu”
    • Sétimo reino: é uma gota que desceu do céu à terra; foi criado em cavernas de dragões; um espírito o levou às alturas de onde a gota procedera
    • Oitavo reino: uma nuvem envolveu uma rocha da qual ele nasceu; anjos acima das nuvens o criaram
    • Nono reino: uma das nove Pierides separou-se, foi a uma alta montanha e desejou a si mesma tornando-se bissexual; engravidou de seu próprio desejo
    • Pierides — as Musas, deusas da música, da arte e da ciência
    • Décimo reino: seu Deus amou uma nuvem de desejo; gerou-o em sua mão e lançou a gota sobre a nuvem distante dele
    • Décimo primeiro reino: o Pai desejou sua própria filha; ela engravidou do pai e lançou a criança numa caverna no deserto; um anjo a criou
    • Décimo segundo reino: veio de dois iluminadores; foi criado ali e recebeu glória e força
    • Décimo terceiro reino: todo nascimento de seu Archon é um logos; esse logos pronunciou uma ordem; veio sobre a água para que o desejo das potências fosse satisfeito
    • A raça sem rei declara: “Deus o escolheu entre todos os éons. Fez surgir nele um conhecimento do imaculado da verdade. O grande Iluminador veio de um ar estrangeiro, de um grande éon. Fez a geração desses homens iluminar aqueles que ele escolheu, para que iluminassem todo o éon”
  • Após o conflito das potências com a semente, uma nuvem de trevas virá, e os povos proclamarão a bem-aventurança dos gnósticos por seu conhecimento eterno de Deus, reconhecendo ao mesmo tempo a própria condenação à morte.
    • Os povos dirão: “Bendita é a alma desses homens, pois conheceram Deus em um conhecimento de verdade. Viverão para sempre e nunca serão destruídos”
    • Os povos reconhecerão: “Mas nós fizemos tudo na insensatez das potências. Glorificamo-nos na transgressão de nossas obras”
    • Michev, Michar e Mnesinus — guardiões do santo batismo e da água viva — são repreendidos por clamar ao Deus vivo com vozes ilegais, por ter poluído a água da vida e perseguido os gnósticos
    • Referências paralelas: Apoc. João 26, 20; Evangelho de Filipe, dito 101
  • O documento encerra com a afirmação de que essas revelações de Adão foram ensinadas por Sete à sua semente, constituindo o conhecimento oculto de Adão — identificado com o santo batismo daqueles que conhecem o conhecimento eterno —, transmitido pelos iluminadores imortais da santa semente.
    • Os frutos dos gnósticos não murcharão; eles conhecerão as palavras do Deus dos éons até os grandes éons
    • As palavras não foram escritas em livro, mas seres angélicos as trarão — palavras que nenhuma geração de homens conhecerá
    • Essas palavras repousarão sobre uma alta montanha, sobre uma rocha da verdade, e serão chamadas “as palavras de incorruptibilidade e verdade”
    • O conhecimento oculto foi transmitido pelos iluminadores imortais nascidos do logos, procedentes da santa semente: Jesseus, Mazareus, Jessedekeus
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