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CABALA E CABALISTAS

MOPSIK, Charles. Cabale et cabalistes. Paris: A. Michel, 2003.

Prólogo

  • Os esoterismo das grandes religiões, embora sejam como ervas daninhas nos campos lavrados das disciplinas do saber, constituem um nicho fecundo onde a vida do espírito se refugia quando a aridez ambiente tende a esterilizar todo novo florescimento.
    • O esoterismo judeu, em particular, propagou-se muito além de seu habitat inicial, formando uma floresta densa e ainda quase virgem, de ramificações inumeráveis.
    • Dificilmente se encontra uma única área de atividade humana inteligente e criadora que não tenha sido, em algum momento ou grau, fecundada, polinizada ou simplesmente acariciada pelos imprevisíveis eflúvios da cabala.
    • A cabala exerceu e ainda exerce um papel de detonador nos domínios mais diversos, suscitando vocações e provocando impulsos intelectuais, religiosos ou artísticos.
    • Isaac Newton — cuja imaginação geométrica foi alimentada pela doutrina luriana da contração do infinito por meio da obra de Henry Moore — e Barnett Newman — que dela extraiu a inspiração principal de suas experiências pictóricas abstratas — figuram entre os muitos que beberam direta ou indiretamente da tradição esotérica do judaísmo.
    • A doutrina luriana refere-se ao ensinamento de Isaac Luria (1534—1572), cabalista de Safed, centrado no conceito de tsimtsum — contração do infinito divino para permitir a criação do mundo.
    • Françoise Monnoyeur aborda a relação entre espaço infinito e divino no capítulo intitulado Defesa de um espaço infinito e divino, em Infinito dos filósofos, infinito dos astrônomos, coleção Olhares sobre a ciência, Belin, Paris, 1995.
    • Daniel Matt, da Universidade de Berkeley, especializado em história da cabala medieval, publicou nos Estados Unidos um estudo comparado entre a doutrina cabalística da origem do mundo e as teorias cosmológicas da física contemporânea, sob o título God and the Big Bang, Jewish Lights Publication, Woodstock, Vermont, 1996.
    • Moshé Idel concedeu entrevista a Victor Malka intitulada A lei das coisas secretas, publicada em Atualidade Religiosa — Chaves para compreender o esoterismo, n. 8, setembro de 1996, p. 49—51.
  • A cabala é também objeto de controvérsia incessante quanto ao seu lugar e sua importância na história das religiões, situando-se entre avaliações radicalmente opostas que revelam seu caráter polimórfico.
    • Mircea Eliade, seguindo Gershom Scholem, afirma: “Na Cabala temos diante de nós uma criação nova e real do gênio religioso judaico, devida à necessidade de recuperar uma parte da religiosidade cósmica sufocada e perseguida tanto pelos profetas quanto pelos rigoristas talmúdicos posteriores” — Fragment d'un journal, Gallimard, Paris, 1973, p. 504.
    • Hans Küng, por sua vez, considera que a cabala não trouxe ao judaísmo nenhum paradigma novo e que ela se situa na linha direta de sua religiosidade mais clássica — Le judaïsme, Le Seuil, Paris, 1995.
    • O fato de a cabala ser descrita ora como conservadorismo religioso, ora como corrente revolucionária, ora como mística visionária, ora como teoria intelectualista abstrata, demonstra até que ponto ela é polimórfica e se presta às abordagens mais variadas.
    • Oito séculos de história — a cabala emerge à luz pública por volta do final do século XIII — e milhares de escritos redigidos sob todas as latitudes acrescentam a essa controvérsia uma opacidade suplementar.
  • A complexidade desconcertante da cabala pode ser compreendida como expressão de uma vitalidade exuberante que, não obstante, permanece decifrável, coerente e criadora.
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