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Primórdios
MOPSIK, Charles. Cabale et cabalistes. Paris: A. Michel, 2003.
Capítulo 1 — Os primórdios da cabala. Mitos de origem ou história?
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No domínio da história das crenças e das ideias religiosas, é difícil senão impossível começar pelo começo, pois o desejo de identificar limites nítidos e limiares precisos se choca com a realidade concreta e complexa da vida social e da transmissão dos saberes.
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Os eventos da história das crenças não podem ser datados como se datam reinados e campanhas militares.
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Essa dificuldade vale ainda mais para a cabala, cujas origens permanecem obscuras e cujos vestígios antigos são de interpretação difícil e discutível.
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A historiografia testemunha essa dificuldade: para Salomon Munk, no século XIX, a cabala teria origem no judaísmo alexandrino do fim da Antiguidade, ele próprio marcado pelo pensamento pitagórico; para Adolphe Franck, ela começa na Pérsia com Zoroastro; para Gershom Scholem, ela nasce de um encontro entre um gnosticismo judeu antigo e o neoplatonismo medieval.
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Mais recentemente, Moshé Idel identificou traços de sua existência em escritos gnósticos e herméticos, bem como nos corpus rabínicos do Talmude e do Midrach, concluindo pela sua grande antiguidade — ou ao menos pela grande antiguidade de seus motivos principais. Cf. Moshé Idel, Maimônides e a mística judaica, Le Cerf, Paris, 1991.
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Apesar de sua preexistência silenciosa no judaísmo do fim da Antiguidade, a cabala só emerge à luz pública e floresce no final do século XII, em reação às posições do filósofo e autoridade rabínica Maimônides (1138—1204), que sustentava terem os segredos da Torá se perdido e que a metafísica de Aristóteles deveria substituí-los vantajosamente.
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Segundo Moshé Idel, foi para provar que a tradição secreta do judaísmo não havia desaparecido totalmente por causa do exílio que os primeiros cabalistas medievais começaram a registrar por escrito elementos do patrimônio esotérico contestado.
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Yehoudah Liebes vê em alguns textos órficos os vestígios de uma mística judaica antiga que estaria na origem das elaborações medievais conhecidas como cabala, e em particular do livro do Zohar. Cf. Yehoudah Liebes, “The Kabbalistic Myth of Orpheus”, em Studies in Jewish Myth and Jewish Messianism, State University of New York Press, Albany, 1993.
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A simples datação do Livro da Criação — Sefer Ietsirá —, que parece ser a primeira expressão literária da cabala, é uma tarefa árdua que ainda suscita discussões vigorosas.
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As polêmicas que eclodem periodicamente nesse campo atestam o caráter hipotético das conclusões alcançadas, e uma hipótese condenada a permanecer hipótese não está longe de fazer figura de mito para eruditos.
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Os cabalistas parecem ter minado o caminho que conduz aos primeiros entre eles, apagando os rastros de seus passos.
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A situação das origens obscuras da cabala deve ser compreendida à luz do estado dos estudos sobre a história das ideias e das crenças religiosas no judaísmo, os quais, se já são embrionários em comparação com os estudos sobre o cristianismo, encontram-se no caso da cabala em sua pré-história.
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Daniel Abrams examinou o estado da erudição textual sobre a literatura mística judaica em: “Critical and Post-Critical Textual Scholarship of Jewish Mystical Literature: Notes on the History and Development of Modern Editing Techniques”, Kabbalah — Journal for the Study of Jewish Mystical Texts, vol. 1, Cherub Press, Culver City, 1996, p. 17—71.
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Antes de qualquer panorama da história da cabala, alguns dados elementares sobre as condições concretas da vida intelectual dos judeus na Idade Média devem ser levados em consideração.
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Não existia universidade judaica nem instituição central do saber, tampouco mosteiro ou convento; os ensinamentos religiosos avançados eram ministrados por mestres dispersos e independentes, em pequenos cenáculos de tipo mais familiar do que escolar.
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Os judeus constituíam uma minoria espalhada pelos reinos cristãos, cada comunidade local administrava seus próprios assuntos sem poder eclesiástico central e sem pessoal dedicado por sacerdócio ao serviço religioso.
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Não existia magistério, credo ou dogmas; ao contrário do que ocorria no cristianismo, não havia concílio reunindo as instâncias da Igreja e tomando decisões válidas para todos; cada rabino exercia autoridade sobre os fiéis locais, assumindo o papel de juiz e conselheiro, com autoridade fundada essencialmente no reconhecimento de sua competência e na notoriedade junto a seus pares.
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Os judeus foram várias vezes expulsos coletivamente das regiões onde viviam, e parte dos escritos transportados em suas peregrinações se perdeu ou deteriorou; os documentos originais antigos e medievais são muito raros, e dentre os que subsistem apenas uma ínfima parte foi impressa.
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Os judeus escreviam em hebraico — a língua da Bíblia continuou a ser sua principal língua de criação cultural e religiosa, mesmo tendo sofrido diversas evoluções.
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A história dos judeus é politicamente congelada, como que suspensa ao longo dos séculos, e é nessa situação de hostilidade profunda do mundo que os tolera — como testemunhas da falência de sua religião — que os judeus creram, pensaram, comentaram as Escrituras e desenvolveram a cabala.
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Sem base territorial soberana e sem instituições religiosas unificadas, a sociedade judaica é o exemplo típico de uma sociedade sem Estado, vivendo de forma quase autônoma sob a dependência política e militar de Estados estrangeiros, cuja língua, cultura, religião e calendário lhe eram não apenas estranhos, mas frequentemente hostis.
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O cristianismo dominante, suas festas, suas narrativas exemplares e suas figuras heroicas foram em grande parte elaborados em reação ao judaísmo.
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As condições materiais da vida dos judeus medievais explicam em parte a obscuridade que envolve os primórdios da cabala, à qual se somam dois outros elementos: a escrita alusiva e elíptica dos primeiros cabalistas e o estado ainda incipiente do trabalho de edição e análise crítica dos manuscritos cabalísticos.
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Gershom Scholem, a quem se deve um impulso formidável no estudo contemporâneo da mística judaica, publicou ele próprio muito poucos textos originais — o mesmo valendo para seus sucessores diretos em Jerusalém.
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Embora os trabalhos de Scholem e de seus sucessores sejam contribuições maiores para o conhecimento da diversidade das correntes e escolas de cabala, o fato de que a grande massa dos escritos cabalísticos permaneça inédita ou editada sem trabalho crítico constitui um obstáculo considerável para obter resultados fundados em fatos verificados, e não em simples hipóteses.
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O que se propõe nas páginas seguintes é uma versão verossímil, reconstituída a posteriori, da história dos primórdios da cabala, pois o estado da pesquisa nesse terreno, apesar de alguns progressos promissores, não permite enunciar certezas.
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