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VISÕES DO FIM
MCGINN, Bernard (org.). Visions of the end: apocalyptic traditions in the Middle Ages. New York: Columbia University Press, 1979.
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O material tradicional da tradição apocalíptica estende-se por dois milênios no judaísmo e no cristianismo, abrangendo desde visões de terror e pavor até visões de paz e glória.
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O Livro de Daniel no Antigo Testamento e o Apocalipse de João no Novo Testamento continuam a ser lidos, comentados e utilizados para interpretar eventos contemporâneos.
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Videntes atuais mantêm-se dispostos a anunciar a iminência do Fim com base em estudos de textos bíblicos, embora o domínio sobre as crenças contemporâneas seja menor.
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O início da tradição localiza-se no período clássico de aproximadamente 200 a.C. a 100 d.C. com Daniel, João e outros produtos.
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O apocalipsismo constitui um fenômeno em desdobramento por muitos séculos, atuando como um exemplo marcante da interação entre tradição e inovação nas religiões com forte compromisso histórico.
O interesse pela literatura do período clássico do apocalipsismo judeu e cristão abrange tanto estudiosos das religiões antigas quanto teólogos cristãos contemporâneos, apesar da escassez de consenso sobre questões fundamentais.-
Proclamação do estudioso alemão do Novo Testamento Ernst Käsemann afirmando que o apocalipsismo foi a mãe de toda a teologia cristã.
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Início dos estudos bíblicos modernos vinculado ao reconhecimento da centralidade dos elementos apocalípicos nas origens cristãs.
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Papel fundamental do apocalipsismo mantido nos estudos bíblicos desde Reimarus no final do século dezoito, passando por Weiss, Wrede e Schweitzer na virada do século, até o trabalho de Bultmann e seus seguidores.
A concentração exclusiva dos estudiosos no período mais antigo do apocalipsismo ocidental gerou certa negligência em relação à continuidade dessas tradições em eras posteriores.-
Existência de uma literatura copiosa sobre o apocalipsismo judeu e cristão tardio.
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Atuação de estudiosos como Wilhelm Bousset, igualmente familiarizados com as tradições apocalípicas antigas e medievais, orientais e ocidentais.
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Divisão do trabalho gerando uma separação de interesses que afasta a compreensão adequada do significado total do apocalipsismo à medida que as informações crescem.
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Objetivo da presente obra direcionado a auxiliar na superação dessas separações.
Os séculos entre 400 e 1500 correspondem à metade do período total de atividade das tradições apocalípicas na sociedade ocidental, constituindo a época menos conhecida por teólogos, historiadores e leitores gerais.-
Textos e comentários estruturados para apresentar uma visão sinótica do apocalipsismo cristão medieval, cuja separação absoluta do passado e do futuro seria artificial.
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Estudo exclusivo dos materiais cristãos representando apenas uma parte da história das tradições apocalípicas ocidentais.
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Exclusão do apocalipsismo judeu tardio, ressalvadas referências ocasionais a momentos de interação com o cristianismo.
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Trabalhos de Gershom Scholem demonstrando a riqueza do messianismo judeu nos séculos posteriores à destruição do Segundo Templo.
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Estudos intensivos sobre a morfologia das esperanças judias e cristãs para o Fim configurando-se como área inexplorada para análises comparativas.
A inclusão de uma discussão detalhada sobre o apocalipsismo clássico mostra-se impossível nesta obra, restando a intenção de inserir as questões de origem e significado em um arcabouço histórico mais amplo.-
Inexistência de pretensão em resolver as sérias dificuldades que dividem os pesquisadores nesse campo técnico e difícil.
O significado da palavra apocalipse consiste na revelação ou desvelamento de um segredo divino, manifestando-se considerável variedade de formas e conteúdos entre os textos que ostentam esse nome.-
Produções literárias denominadas apocalipses bem conhecidas no judaísmo testamental tardio e intertestamental.
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O livro final do Novo Testamento denominando-se como a apocalipse dada por Deus a Jesus Cristo para ser comunicada ao servo João.
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Identificação das tradições apocalípicas com a preocupação pela estrutura e pelo Fim da história excluindo algumas apocalipses intertestamentais desse grupo.
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O Livro de Daniel, única obra apocalíptica admitida no cânone do Antigo Testamento, nunca autodenominando-se uma apocalipse e não possuindo forma pura do gênero.
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Dificuldade metodológica na determinação do que constitui a forma de uma apocalipse e o verdadeiro conteúdo apocalíptico.
O apocalipsismo qualifica-se desde as suas origens como um fenômeno altamente complexo, tornando suspeitas as interpretações unidirecionais ou reducionistas.-
Fusão de uma variedade de interesses e invocação para diversos propósitos ao longo de sua rica história.
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Tarefa do historiador definida como a captura de toda a amplitude do fenômeno sob investigação, sem abdicar da clareza sobre os componentes essenciais.
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Uso de uma definição provisória ou de uma lista de características como recurso interpretativo que não exclui a cautela contra soluções fáceis.
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Desafio dos estudos comparativos focado na validação de uma comunidade de conteúdo e propósito para aplicar o termo a textos e autores diversos através dos séculos.
As origens judaicas do apocalipsismo diferenciam-se de dois termos correlatos na teologia bíblica e na história das religiões, a saber, a escatologia e a profecia.-
O apocalipsismo definido como uma espécie do gênero eschatologia, constituindo uma crença particular sobre as últimas coisas, o Fim da história e o além.
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Uso do termo escatologia apocalíptica por estudiosos para distinguir os ensinamentos especiais dos apocalipcistas em relação à escatologia dos profetas.
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Equivalência do termo escatologia apocalíptica com a palavra Apocalítica, formada em imitação ao vocábulo alemão Apokalyptik.
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Esmaecimento da distinção na história cristã posterior devido à mistura frequente de elementos de ambas as formas de escatologia.
A utilização de escatologia e apocalipsismo como termos intercambiáveis por historiadores do pensamento cristão configura-se como um equívoco indutor de erros.-
Toda visão cristã da história possui caráter escatológico por conceber o processo histórico como teleológico e crer que as Escrituras revelam verdades sobre o seu Fim.
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Possibilidade de uma postura ortodoxa e profundamente escatológica manifestar-se de modo distintamente anti-apocalíptico, conforme atesta o caso de Santo Agostinho.
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Diferenciação entre o autor apocalíptico e o meramente escatológico operando frequentemente mais em grau do que em espécie.
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Distinção importante localizada entre a consciência geral de viver na última era da história e a convicção de que essa era está prestes a terminar.
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Diferença entre a crença na realidade do Anticristo e a certeza de sua proximidade ou da data de seu advento.
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Contraste entre visualizar os eventos do próprio tempo à luz do Fim da história e enxergá-los como os últimos eventos em si mesmos.
O fenômeno religioso da profecia mantém íntima relação com o apocalipsismo, mostrando-se a vertente apocalíptica cristã posterior como o seu componente mais substancial, embora não sejam coterminosos.-
Definição do profeta na história das religiões como qualquer pessoa inspirada que crê ter sido enviada por seu deus com uma mensagem.
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Tradição cristã posterior enxergando a profecia como atividade divinatória ou reformatória, sendo o profeta aquele que prevê o futuro ou busca corrigir o presente à luz de um passado ideal ou futuro glorioso.
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A maioria dos apocalipcistas agindo de alguma forma como profetas durante os séculos revisados.
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Concepção medieval de profecia como predição de eventos futuros, atestada por Tomás de Aquino na Summa theologiae, prescindindo de preocupação com a estrutura e com o Fim iminente da história.
A análise do apocalipsismo pressupõe uma distinção inicial entre a forma apocalíptica e o conteúdo apocalíptico.-
A forma apocalíptica dispensa a restrição aos textos autodenominados apocalipses, vista a existência de obras com esse título sem atitudes religiosas apocalípicas e de apocalipses formais em compilações tardias e ecléticas.
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O teólogo do Antigo Testamento Gerhard von Rad negando a possibilidade de determinar um gênero peculiar ao apocalipse em razão da variedade de formas.
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Procedimento metodológico de Walter Schmithals focado em definir o significado do movimento apocalíptico para fixar um construto ideal para julgar a autenticidade das obras.
As tentativas de isolar as características definidoras do gênero apocalipse apontam para traços básicos sobre o modo de revelação ao vidente e a apresentação da mensagem à humanidade.-
D. S. Russell apontando quatro feições que caracterizam a literatura dos apocalipcistas: caráter esotérico, forma literária, linguagem simbólica e natureza pseudônima.
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Estudos recentes enfatizando o modo de revelação baseado no desvelamento de um segredo por meio da ação de um intermediário, geralmente um anjo.
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Revelação processada por meio de visão celestial, sonho ou jornada real ao céu empreendida pelo vidente, frequentemente retratado como perturbado ou perplexo pela experiência.
O vidente apocalíptico caracteriza-se como um homem literário que fixa sua mensagem em um livro, mantendo o apocalipsismo como um fenômeno erudito e escribal.-
Escrita operando de forma mais integral na essência do apocalipsismo do que no profetismo judeu, apesar do registro escrito dos oráculos proféticos.
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Associação mental da revelação divina ao texto escrito e não à palavra falada no início do século segundo a.C..
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Tradições apocalípicas posteriores preservando substancialmente essa característica escribal.
O estilo apocalíptico define-se pelo uso abundante de símbolos, figuras alegóricas e recursos retóricos, apresentando avaliações gerais difíceis de sustentar de modo uniforme.-
Ataques modernos à artificialidade do estilo decorrentes da divisão introduzida por Goethe entre o simbolismo bom e a alegoria ruim.
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Necessidade de evitar reações imediatas antes de buscar apreciar a intenção dos modos originais de apresentação literária.
A identificação do uso apocalíptico de símbolos com os denominados símbolos estenos mostra-se altamente questionável perante estudantes da literatura clássica.-
Definição de símbolos estenos por crítico literário moderno como sinais unidimensionais facilmente traduzidos em mensagem literal.
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Contraste com os símbolos tensivos, marcados pela multiplicidade de aspectos e pela transcendentalidade que filósofos e críticos situam na essência do modo simbólico.
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Presença de muitos símbolos estenos na literatura apocalíptica acompanhada pela defesa da existência de modos de apresentação com a mesma intenção do símbolo tensivo.
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Escola moderna de investigação focada no modo de retórica envolvida como o princípio básico de sua interpretação.
A apresentação apocalíptica assume forma altamente dramática por meio da criação de cenas visualizáveis e personagens fortes que se fixam na mente do leitor devido ao poder imaginativo.-
Intenção direcionada a expor o conflito entre o bem e o mal, restando a ausência de partes faladas para a caracterização estrita de um drama.
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Cenário dos eventos do Fim estruturado sobre o padrão tríplice fundamental de crise, julgamento e salvação.
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Roteiro geral provendo uma base comum e a possibilidade para enriquecimentos subsequentes.
A pseudonímia manifesta-se como característica formal de relevo nas apocalipses judias dos três primeiros séculos, mantendo importância nas eras posteriores.-
Atribuição das obras a autores que não as escreveram decorrente da idealização da sabedoria antiga em tempos de insatisfação com o presente.
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A segunda parte do Livro de Daniel, escrita por volta de 165 a.C., sendo emitida sob o nome de um sábio lendário e profeta situado na época do cativeiro babilônico no século sexto.
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Profecias medievais do tempo do Grande Cisma atribuídas de forma pseudônima ao abbot calabrês Joaquim de Fiore, falecido dois séculos antes.
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O Apocalipse de João configurando-se como a grande exceção à regra da pseudonímia entre as apocalipses formais do período de origens.
As explicações para a ocorrência da pseudonímia relacionam-se diretamente com o caráter escribal do apocalipsismo no mundo pré-moderno.-
H. H. Rowley sugerindo a origem no esforço do autor de Daniel em ligar as visões da segunda parte às histórias dos capítulos iniciais, proposta considerada muito inflexível.
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Revelação escrita considerada sagrada por ter sido redigida há muito tempo por alguém famoso como favorito de Deus.
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Rol de autores apocalípicos aprovados permanecendo aberto ao longo dos séculos para incluir Daniel, João, a Sibila, Merlin, Joaquim e vários santos sob uma dinâmica constante.
A técnica do vaticínio ex eventu, ou história disfarçada de profecia, enraíza-se na pseudonímia e atua como a chave mais eficaz para determinar a data e o meio de textos individuais.-
Obras como Daniel contendo detalhes reconhecíveis da história recente sob a roupagem de profecia por terem sido compostas em época posterior à sugerida.
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Especificação da transição entre a história disfarçada e a profecia real operando como ferramenta valiosa na investigação, apesar das dificuldades da linguagem simbólica.
A relação entre a forma literária do apocalipse e as tentativas de determinar a natureza da escatologia apocalíptica constitui uma das questões mais difíceis do campo.-
Estudiosos alemães como von Rad e Schmithals concentrando-se na descrição da perspectiva religiosa com menor ênfase na forma literária única.
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Pesquisadores de língua inglesa buscando manter a forma e o conteúdo vinculados de modo mais estreito.
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Tentativas recentes lançando dúvidas sobre a centralidade da vindicação histórica como a mensagem principal da escatologia apocalíptica.
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Esboço de abordagens características servindo para emoldurar as questões em meio às divergências acadêmicas.
As listagens de componentes essenciais da escatologia apocalíptica apresentam-se variadas na literatura recente.-
D. S. Russell identificando a essência do apocalipsismo judeu em cinco pontos: visão sistemática e determinista da história; concepção acentuada do conflito entre o bem e o mal com ação de anjos e demônios; senso de iminência do Fim e caráter transcendental da era vindoura; esperança em um reino messiânico terrestre; e expectativa de vida após a morte com o juízo final como doutrina mais característica.
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Conexão do apocalipsismo com a profecia do Antigo Testamento admitida por Russell ao lado de influências estrangeiras, notadamente iranianas.
Gerhard von Rad resume as características da teologia apocalípica enfatizando o dualismo escorado na diferenciação nítida entre o aeon presente e o vindouro.-
Presença de um transcendentalismo estrito em que as bênçãos salvificas da nova era pré-existem no mundo superior e dele descem à terra.
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Determinação dos eventos finais fixada no passado distante e revelada em detalhes a homens escolhidos, vinculando-se à pseudonímia.
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Caráter esotérico e gnóstico em que as últimas coisas podem ser conhecidas e exatamente calculadas apenas pelos iniciados.
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Visão da história sem referência especial a Israel, ganhando esplendor na unidade da história mundial expressa de modo alegórico e simbólico sob viés pessimista e determinista.
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Incompatibilidade defendida entre a visão histórica da literatura apocalíptica e a dos profetas, traçando as origens do apocalipsismo na literatura de Sabedoria do Antigo Testamento.
A interpretação de W. Schmithals em O Movimento Apocalíptico destaca a compreensão da história e a doutrina dos dois aeons como o motivo central da piedade apocalípica.-
K. Koch publicando em 1970 uma introdução historiográfica com abordagem deliberadamente eclética, identificando oito motivos que resumem a opinião aceita com diferenças em relação a von Rad.
Os esforços de Paul Hanson e John Collins marcam a produção acadêmica americana recente sobre o tema.-
Hanson definindo a escatologia apocalíptica como uma perspectiva religiosa focada no desvelamento esotérico da soberania cósmica de Javé para libertar os fiéis, cuja visão deixa de ser traduzida em história plana ou política real devido ao pessimismo gerado pelas condições pós-exílicas.
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Definição de Hanson colorida pela tentativa de mostrar o surgimento do apocalipsismo no século sexto a.C. a partir da fusão entre a profecia judaica e as dimensões mitológicas do culto real de Israel, reavivando a relação negada por von Rad.
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Origem e proliferação do apocalipsismo judeu como movimento distinto no período intertestamental tornando-se problemática caso a essência seja definida pelo que compartilha com a profecia.
John Collins mantém a datação tradicional para as origens do apocalipsismo judeu e localiza sua essência na esperança pela transcendência pessoal da morte.-
Expectativa visualizada sob dimensões horizontais ou futuras e verticais ou celestiais.
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Gênero apocalíptico definido por Collins como uma revelação celestial mediada por um ser celestial que desvela uma escatologia transcendente envolvendo a transcendência pessoal da morte.
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Divisão do gênero em dois tipos: um com padrão eschatológico precedido por uma revisão da história e outro focado na jornada celestial do vidente com acento mais místico do que histórico.
As determinações do contexto social ou Sitz im Leben do apocalipsismo primitivo apresentam amplas variações na pesquisa contemporânea.-
Hanson buscando um grupo de visionários opostos ao sacerdócio sadoquista.
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Schmithals, em concordância com O. Plöger, localizando os criadores entre os herdeiros da tradição profética no período de 400 a 200 a.C., sem que a situação histórica explique totalmente a nova compreensão da existência.
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Descobertas em Qumran demonstrando que os essênios formavam uma comunidade apocalíptica, reforçando os vínculos entre a escatologia apocalíptica e elementos descontentes do judaísmo entre 200 a.C. e 135 d.C..
A análise dos motivos apocalípticos no período pós-bíblico sugere que as diferenças de opinião foram exacerbadas por enquadramentos muito estreitos, visto que o judaísmo não existia em um vácuo cultural.-
O ensinamento apocalíptico e a própria forma literária integrando um fenômeno geral do mundo helenístico que demanda um tratamento mais amplo.
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Discussão ampliada que não deve se restringir aos períodos helenístico e romano, abrindo-se para desenvolvimentos posteriores judeus, cristãos e muçulmanos.
A forma da apocalipse judaica constitui apenas uma opção em um espectro de revelações especiais sobre a relação da história com o reino celestial, legítimas sob o título geral de apocalípticas.-
Inexistência de uma compreensão apocalípica única da realidade face às diferenças entre os exemplares judeus, seus contemporâneos e sucessores.
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O conteúdo das escatologias apocalípticas expressando um padrão de crenças sobre o tempo e a eternidade muito complexo para redução a uma noção essencial única.
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O apocalipsismo devendo ser visto como um gênero que inclui várias espécies, sob limite de combinações para não perder o significado do termo.
Textos apocalípticos de variadas origens e eras exibem semelhanças familiares em três áreas fundamentais que provêm uma forma de conceber a unidade da tradição em sua variedade.-
Primeira área: senso da unidade e da estrutura da história concebida como uma totalidade divinamente predeterminada.
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Segunda área: pessimismo sobre o presente e convicção de sua crise iminente.
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Terceira área: crença no julgamento próximo do mal e no triunfo do bem, constituindo o elemento da vindicação.
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Vindicação assumindo formas variadas, sejam terrestres ou celestiais, individuais ou coletivas, temporárias ou definitivas.
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Escolha das áreas assumida pelo autor como a postura de um medievalista em busca de continuidade suficiente entre as apocalipses judias e sua influência posterior.
O problema da unidade das tradições apocalípticas complexifica-se na reflexão sobre as relações do cristianismo primitivo com a herança judaica.-
O cristianismo nasceu apocalíptico e permaneceu como tal, sem que as esperanças apocalípticas esgotem o significado da crença cristã.
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Impossibilidade de separar o apocalipsismo cristão primitivo do mundo apocalíptico intertestamental judeu, restando dúvidas sobre a classificação de algumas obras do fim do século primeiro e início do segundo.
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Pesquisa dos textos fundamentais do Novo Testamento necessária por constituírem os primeiros exemplos do apocalipsismo especificamente cristão.
A Primeira Epístola de Paulo aos Tessalonicenses, datada de aproximadamente 51 d.C. como o testemunho cristão mais antigo, contém ensinamento apocalíptico importante em suas passagens sobre a força da expectativa do Fim.-
O Evangelho, forma literária criada pelo cristianismo primitivo, mantendo relações íntimas com o apocalipse em forma e conteúdo.
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Norman Perrin demonstrando que o Evangelho de Marcos, escrito logo após 70 d.C. em meio à crise das Guerras Judaicas e da queda de Jerusalém, organiza-se conforme um drama apocalíptico em três atos.
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Inovação do primeiro evangelista consistente no uso de descrições narrativas realistas para transmitir a mensagem.
Os Evangelhos atuam como livros da igreja nascente capazes de informar sobre as crenças apocalípicas dos primeiros cristãos e sobre elementos da pregação de Jesus.-
O Discurso Apocalíptico ou Pequena Apocalipse de Marcos 13, Mateus 24—25 e Lucas 21 figurando como o texto mais importante atribuído a Jesus pelos sinóticos.
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Teoria de 1864 postulando que uma breve apocalipse judaica escrita serviu de fonte para o texto, implicando distanciamento da pregação real de Jesus.
L. Hartman concluiu que uma exposição ou meditação sobre os textos de Daniel a respeito dos últimos dias subjaz ao discurso sinótico.-
O núcleo da meditação original possuía dois polos: a atividade do Anticristo com ditos declarando Eu sou em paródia à autodescrição divina, menção à Abominação da Desolação e referência a falsos profetas; e a descrição da Parusia do Filho do Homem com a reunião dos fiéis no céu.
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Presença dos elementos nas Epístolas aos Tessalonicenses indicando a existência do midrash em círculos escribais cristãos antes do ano 50.
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Hartman reconhecendo que a origem do midrash no ensinamento de Jesus depende da imagem construída sobre ele e dos critérios para distinguir seus ditos das produções da comunidade.
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Tendência atual entre estudiosos bíblicos direcionada a minimizar a extensão da influência apocalíptica nos fragmentos reputados autênticos da pregação de Jesus nos Evangelhos.
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Inegável importância do apocalipsismo na formação das primeiras comunidades judaico-cristãs.
O Apocalipse de João figura como o principal testemunho da força do apocalipsismo no cristianismo judaico, tendo sido centro de controvérsias na igreja primitiva.-
Ampla aceitação no século segundo seguida por reação negativa no século terceiro devido ao uso por autores suspeitos, estendendo-se no Oriente até o ano 500.
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Debate motivado pelo simbolismo lúgubre, por ensinamentos posteriormente condenados como o milenarismo quiliástico do reino de mil anos e por postura anti-romana embaraçosa nos séculos três e quatro.
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Desacordo substancial sobre autoria, composição e significado da obra, atestado por A. Farrer ao indicar o desconhecimento sobre o tipo de explicação exigido pelo texto.
O Apocalipse estrutura-se como uma série de visões prefaciadas por sete cartas, destacando-se pelo abandono da pseudonímia padrão desde Daniel.-
Tradição posterior identificando o autor João com o discípulo amado e autor do Quarto Evangelho, hipótese considerada improvável por Dionísio de Alexandria no século terceiro.
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O grego desajeitado e o caráter hebraico da obra sugerindo que o Apocalipse possui melhor direito do que o Evangelho como produto do apóstolo.
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Hipóteses alternativas apontando para o misterioso Ancião João mencionado em fontes do século segundo.
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O autor qualificando-se como um profeta cristão ativo na Ásia Menor em direção ao final do primeiro século, cujo abandono da pseudonímia explica-se pelo senso de que a revelação de Jesus Cristo dispensava autoridade adicionada.
A figura do Senhor Ressuscitado ocupa o centro do palco no apocalipsismo cristão primitivo, testemunhando um importante renascimento do profetismo no judaísmo tardio e nas primeiras comunidades cristãs.-
P. Vielhauer observando na profecia cristã da Palestina a primeira união entre profecia e apocalíptica, expressa de modo impressionante no Apocalipse de João, seguida por nova separação posterior.
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O Apocalipse de João atuando simultaneamente como resumo da literatura precedente, apropriação do gênero em novo nível e ponto de partida para comentários e expansões posteriores.
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A. Wikenhauser sintetizando três correntes interpretativas da obra: leitura escorada no viés escatológico do fim do mundo; no viés histórico do vaticínio ex eventu; ou no viés mitológico como compêndio de material lendário tradicional.
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Abordagem literária de estudiosos que enfatizam a mentalidade simbólica criativa do autor como chave do significado essencial.
O Apocalipse de João consolida-se como a obra apocalíptica por excelência e a mais poderosa já escrita, malgrado obscuridades ou trechos tediosos.-
Visões ardentes e hinos majestosos baseados em parte na liturgia cristã primitiva continuando a prover matéria para inspiração e especulação na história do cristianismo.
As comunidades cristãs do início do século segundo viram-se compelidas a enfrentar o problema do atraso da Parusia, o retorno do Cristo Ressuscitado.-
A resolução do problema do atraso não significou o fim do apocalipsismo cristão real, embora tenha gerado formulações simplistas na literatura.
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As expectativas apocalípticas passaram por transformações na apresentação e no conteúdo, sem desaparecer do cristianismo.
A mudança mais marcante no apocalipsismo cristão do século segundo reside na perda de interesse das apocalipses formais pelas preocupações históricas clássicas, enquanto estas persistiram em outras formas literárias.-
Existência de ao menos vinte textos dos séculos dois e três com características literárias do período clássico, divididos entre visões com jornada celestial, como a Ascensão de Isaías, e sem jornada, como o Apocalipse de Pedro.
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Pesquisa de Adela Collins indicando que a revisão sistemática da história ocorre em apenas um exemplar cristão, denominado A Escada de Jacó.
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O interesse pela história assumindo forma paradigmática ou exemplar focado em eventos passados como Adão e Cristo, sem conexão direta com a crise iminente.
A ênfase no pós-morte pessoal manifesta-se em todas as apocalipses cristãs primitivas, incluindo relatos detalhados das dores do inferno e alegrias do céu.-
O influente Apocalipse de Paulo, cujo original grego remonta a meados do século terceiro, assegurando papel importante na literatura medieval posterior por meio de versões latinas.
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A revelação celestial sendo comunicada por um intermediário que por vezes identifica-se como o próprio Cristo, conforme atesta o texto do século terceiro intitulado O Testamento do Senhor.
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Presença do padrão escatológico de crise, julgamento e salvação na maioria das obras, acompanhado por interesse na carreira do Anticristo vindouro.
O senso da unidade e da estrutura da história concebida como uma totalidade predeterminada por Deus preservou-se em obras cristãs que não integram o gênero do apocalipse literário.-
Visões do mundo além da sepultura alcançando imensa popularidade na Idade Média em variadas línguas.
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A Divina Comédia de Dante figurando como a criação literária suprema desse grupo de visões.
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Visões do pós-morte compartilhando traços das apocalipses clássicas, como figuras intermediárias, interesse em realidades celestiais e ênfase no julgamento, constituindo gênero próprio.
O apocalipsismo clássico gerou uma dupla descendência na era cristã.-
Primeira vertente: literatura visionária concentrada no destino da alma individual.
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Segunda vertente: textos vinculados por preocupações históricas gerais sobre o presente como crise suprema e pela esperança fervente no julgamento vindicador dos justos.
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Incorporação frequente da preocupação com a estrutura da história por meio de teorias das eras do mundo.
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Relação do apocalipsismo medieval com o período clássico firmando-se como direta, pelas origens temáticas, e ambígua, pelas formas distanciadas da noção original de apocalipse.
A perda do senso do retorno iminente do Senhor e o problema do atraso da Parusia operaram como fatores cruciais no desenvolvimento do pensamento cristão primitivo, sem fundamentar distorções interpretativas.-
Martin Werner propondo a interpretação da escatologia consistente, em que o não cumprimento da expectativa determinou a transformação da doutrina eschatológica original e das instituições da igreja primitiva.
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O cristianismo compartilhando traços de seitas apocalípicas judias sem prejuízo de uma identidade rica própria desde os primeiros dias.
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A literatura cristã mais antiga registrando variadas interpretações sobre a vida de Jesus, a existência da comunidade e a esperança no retorno do Cristo Ressuscitado.
A expansão célere das comunidades cristãs pelo Império Romano e as acomodações para a sobrevivência induziram mudanças substanciais que afastaram o apocalipsismo de sua posição central primitiva.-
Permanência do anseio e da especulação sobre os últimos tempos por parte de fiéis que continuavam a esperar pela Parusia triunfante.
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Jaroslav Pelikan observando que a relação entre o já e o não ainda no apocalipsismo cristão gerou mais problemas para teólogos filosóficos e exegetas modernos do que para crentes dos séculos dois e três.
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Renovação contínua da tradição apocalípica realizada pelo estudo de textos clássicos e pela criação de novas cenas no drama do Fim.
A vitalidade do apocalipsismo patrístico manifesta-se no desenvolvimento rico de três temas principais: a figura do Anticristo, a duração do mundo e o reino de mil anos.-
A evolução da cristologia estimulando o desenvolvimento de uma obversa Anticristologia, inflacionando o relato sobre a carreira e a pessoa do inimigo final com aportes do mito, folclore e história.
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Formação de uma visão dupla do Anticristo na tradição nascente.
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A versão judaica e judaico-cristã de Apocalipse 13 e 17 mostrando-se anti-romana ao identificar o Anticristo com Nero redivivo, o perseguidor ressuscitado.
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Outra versão mítica acentuando um Anticristo judeu da tribo de Dã, reinando como falso profeta e messias a partir de uma Jerusalém reconstruída, encontrando amparo scriptural nas duas feras de Apocalipse 13.
O interesse pelo número e duração das eras do mundo consolidou-se no século segundo por meio da preferência pelo esquema da semana cósmica de sete períodos de mil anos cada.-
Estudos de J. Daniélou e A. Luneau clareando que a doutrina das eras do mundo liga-se ao tema do reino de mil anos de Apocalipse 20.
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Testemunho de Eusébio sobre o bispo Papias no início do século segundo indicando que o milenarismo era recebido por muitos cristãos como tradição oral derivada de Jesus.
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Daniélou interpretando o milenarismo como a forma pela qual o cristianismo judaico expressou a doutrina da Parusia, discernindo duas vertentes principais.
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A vertente da Ásia Menor, atestada no Apocalipse e em Papias, estressando um reino terrestre do messias anterior à nova criação como repouso dos santos, descrito com traços do Paraíso de Gênesis.
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A vertente da Síria e do Egito, com testemunho na pseudônima Epístola de Barnabé de cerca de 135 d.C., relacionando o reino messiânico aos cálculos dos astrólogos sobre a semana cósmica baseada em Gênesis 1.
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Ambas as visões presentes em escritores patrísticos antes da veemente reação anti-quiliástica posterior.
Os escritos de Irineu de Lyon, ativo entre 178 e 200 d.C., testemunham a influência dos temas apocalípicos no cristianismo do século segundo.-
Sua obra principal, Contra as Heresias, consistindo em um longo ataque aos erros da época, especialmente às formas de gnosticismo, sob a defesa do papel da tradição herdada e do ofício episcopal.
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Inclusão de farto material apocalíptico no Livro 5 do tratado, contendo relato detalhado do Anticristo e forte milenarismo recebido como herança tradicional.
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Daniélou apontando os capítulos 25 a 35 de Irineu como a fonte mais importante de informação sobre o milenarismo asiático.
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Originalidade de Irineu expressa na primeira tentativa de combinar as duas vertentes do quiliasmo patrístico: a esperança paradisíaca material da Ásia e a especulação refinada da Síria.
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O estresse materialista no reino de mil anos estruturado possivelmente para contrapor a excessiva espiritualização das narrativas gnósticas de salvação.
O século segundo marcou o início do uso cristão dos Oráculos Sibilinos, gênero literário cuja história vincula-se estreitamente ao apocalipsismo.-
O apologista Teófilo de Antioquia mostrando-se profundamente influenciado pelos versos sibilinos, embora Irineu não cite a Sibila.
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Cristãos imitando os predecessores judeus na composição de versos atribuídos à profetisa, proliferando revisões históricas e profecias de destruição na Idade Média.
A existência histórica da vidente conhecida como Sibila remonta provavelmente às colônias gregas da Ásia Menor no século oitavo a.C..-
O filósofo Heráclito provendo por volta de 500 a.C. o testemunho literário mais antigo sobre a Sibila de lábios frenéticos que penetra os séculos pelo poder dos deuses.
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Sibilas faladas com reverência por Platão no Fedro e espalhadas pelo mundo mediterrâneo helenístico, alcançando máxima popularidade em Roma.
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Lenda do Rei Tarquínio o Soberbo adquirindo três livros de versos proféticos da Sibila no final do século sexto a.C..
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Livros sibilinos mantidos no Capitólio sob guarda de um sacerdócio especial e consultados na República Romana em tempos de crise ou presságios incomuns.
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Consulta sibilina permitindo a expansão dos horizontes religiosos de Roma com a entrada de deidades gregas e orientais na cidade.
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Destruição dos livros por incêndio em 83 a.C. motivando a coleta de novo material instalado no Capitólio, enumerando Varro dez sibilas com destaque para a Eritreia.
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O poeta Virgílio utilizando a Sibila Cumana como guia de Eneias no submundo e como profetisa do retorno da Idade de Ouro nas Éclogas.
A coleção de versos sibilinos foi purgada de oráculos espúrios sob o Imperador Augusto e alocada no Templo de Apolo no Palatino.-
Consultas decrescentes em tempos imperiais, restando o envio de romanos assustados ao templo após grandes catástrofes como o incêndio de Roma em 64 d.C..
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Oráculos integrando a polêmica de pagãos resistentes contra os cristãos no final do século quarto, motivando a destruição da coleção por Estilicão por volta de 408 d.C..
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Fragmentos dos escritos pagãos remanescentes atestando a forma frequentemente acróstica e o sentido envolto em obscuridade profética.
Os quatorze livros sibilinos preservados possuem origem judaica e cristã com incorporação de materiais pagãos, representando uma fusão de noções de profecia.-
Obras caracterizadas como a apocalíptica do judaísmo da diáspora helenística, cuja literatura apocalíptica nativa no Egito atesta o apelo missionário no contexto alexandrino.
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Propagação dos rudimentos da fé hebraica, monoteísmo e moralismo para uma audiência sibilina mais ampla a partir de meados do século segundo a.C..
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Voz autoritária ideal para expandir a sabedoria religiosa tradicional ao tolerar a introdução de elementos exóticos e estrangeiros.
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Sibilas consideradas como testemunhas da universalidade da revelação para o mundo pagão da mesma forma que os profetas para Israel, anunciando os planos divinos.
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Expressão do século treze reafirmando a importância da junção com a frase que aponta para o testemunho de Davi com a Sibila.
O uso judaico da Sibila exerceu profunda influência no mundo cristão primitivo além dos círculos judaico-cristãos.-
P. Vielhauer afirmando que o cristianismo assumiu o gênero da apocalipse do judaísmo palestinense e o das sibilinas do judaísmo helenístico.
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Quase todos os livros sibilinos judeus retrabalhados por autores cristãos, dificultando a separação de seções originais.
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Livros 1 e 2, originalmente judeus, modificados por redator cristão no século segundo ou terceiro.
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Livros 6 a 8 apresentando-se propriamente cristãos com datação na segunda metade do século segundo.
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O Livro 8 figurando como o mais importante das sibilinas cristãs em uma mistura confusa de materiais de três redatores, refletindo a era de Marco Aurélio sob viés anti-romano.
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Citações frequentes do Livro 8 na patrística, chegando o seu famoso poema acróstico sobre Cristo ao conhecimento medieval via tradução na Cidade de Deus de Agostinho.
Os Oráculos Sibilinos receberam grande respeito dos Padres da Igreja desde o século segundo até a época do Iluminismo.-
Adoção cristã integral da Sibila gerando críticas de pagãos como Celso, enquanto Tertuliano pensava de modo favorável sobre a associação de Cumas e Jerusalém.
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Lactâncio citando extensamente as sibilas no início do século quarto, transmitindo o conhecimento da tradição ao Ocidente latino.
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O próprio Agostinho, opositor do apocalipsismo, citando a Sibila e incluindo-a entre os membros da Cidade de Deus.
Os elementos apocalípicos mantiveram-se fortes no cristianismo do século segundo a despeito do atraso do retorno de Cristo, conforme atestam teólogos e movimentos dissidentes.-
O movimento de Montano na Frígia a partir de 172 interpretado frequentemente como reação contra a perda do fervor apocalíptico.
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Montanistas enfatizando o descenso da Jerusalém celestial sobre a vila frígia de Pepuza.
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Investigação dos fragmentos autênticos apontando o montanismo primitivo como movimento profético e não estritamente apocalíptico por focar no ensino oral.
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Atração de convertidos importantes como Tertuliano no século terceiro e sobrevivência do movimento até a era do reconhecimento da Igreja.
R. M. Grant sinalizou uma renovação das expectativas apocalípicas por volta do ano 200, engatilhada parcialmente por perseguições.-
Tertuliano de Cartago demonstrando familiaridade com noções quiliásticas da Ásia, embora rezasse pela continuidade do Império Romano por identificá-lo com a força retentora do Anticristo mencionada em Tessalonicenses.
O presbítero romano Hipólito, contemporâneo de Tertuliano, figura como testemunha fundamental do apocalipsismo ao prover um esboço teológico completo dos temas, apesar de agir como inimigo do movimento.-
Seu Comentário sobre Daniel consiste na obra exegética cristã completa mais antiga preservada, motivada pelo ressurgimento das expectativas do Fim no início do século terceiro.
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Interesse principal de Hipólito direcionado a provar que o estudo de Daniel atesta que o Fim não é imediato.
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Uso do tema da semana cósmica para demonstrar que Christ nasceu no meio do sexto milênio e não no seu término.
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Visão do reino terreno pertencente à variedade síria mais branda e não à forma asiática radical.
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Seu Tratado sobre Cristo e o Anticristo de cerca de 200 d.C. constituindo o resumo mais completo das tradições patrísticas primitivas sobre o inimigo final.
O século terceiro testemunhou o crescimento e a consolidação das tradições sobre o Anticristo, exemplificados no texto do Testamento do Senhor.-
A obra combina um discurso apocalíptico do meio do século terceiro com uma ordem eclesiástica desenvolvida do século quinto.
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Inclusão de uma descrição física detalhada do Anticristo com cabeça de chama ardente, olho direito injetado de sangue, esquerdo azul-negro com duas pupilas, cílios brancos, lábio inferior grande, coxa direita delgada, pés largos e hálux machucado e plano, denominado foice da desolação.
O poeta latino Comodiano foi situado por seu editor recente J. Martin como nascido na Síria e escrevendo em Roma por volta de meados do século terceiro, sendo considerado o poeta cristão latino mais antigo.-
Suas duas obras principais, Instruções e o Canto dos Dois Povos, evidenciam forte apocalipsismo influenciado pelas invasões góticas e perseguições imperiais.
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Comodiano mostrava-se um quiliasta convicto e veementemente anti-romano na tradição do Apocalipse.
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Ensinamento sobre a existência de dois Anticristos: um Nero revivido no Ocidente, morto pelo Anticristo final surgido na Pérsia para governar sobre os judeus.
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Versos afirmando que para os cristãos Nero é o Anticristo, e para os judeus o outro o é, sendo Nero a destruição de Roma e o outro a do mundo inteiro.
O comentário scriptural formal consolidou-se como veículo central para a disseminação de ideias apocalípicas durante o período patrístico.-
Exegese bíblica atuando como o modo aceitável de avançar aplicações de imagens apocalípicas a eventos correntes a partir da formação do cânone no final do século segundo.
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O comentário latino mais antigo preservado versando sobre o Livro do Apocalipse, contraposto ao pioneirismo grego de Hipólito sobre Daniel.
O Apocalipse de João enfrentou críticas e negações de autenticidade no Oriente e no Ocidente por parte dos Alogi, do presbítero Gaius e do bispo Dionísio de Alexandria.-
Oposição registrada na História Eclesiástica de Eusébio no século quarto com ecos até o final do século quinto, constituindo visões minoritárias no Ocidente.
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Dionísio admitindo que não ousaria rejeitar o livro estimado por bons cristãos.
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Vitorino figurando como o mais antigo da série de comentadores ocidentais da obra, motivando Jerônimo a empreender uma revisão ortodoxa no final do século quarto.
Lactâncio destacou-se como o proponente mais criativo do apocalipsismo entre os primeiros Padres latinos na corte de Diocleciano e Constantino.-
Utilização do gênero do tratado doutrinário e não da apocalipse estrita.
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O sétimo livro de suas Instituições Divinas, composto entre 304 e 313, sintetizando o ensino das eras do mundo, vinda e derrota de dois Anticristos e o reino de mil anos.
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Tratamento marcante pela catolicidade das testemunhas invocadas sob a crença de que as verdades sobre o Fim não se restringiam às escrituras canônicas.
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Revelação parcial concedida por Deus a egípcios, persas e gregos além dos judeus.
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Uso extensivo dos Oráculos Sibilinos, sendo o resumo do Livro 1 a fonte principal para a familiaridade medieval com as sibilas.
O Livro VII de Lactâncio evidenciou conhecimento de materiais iranianos e egípcios além do apocalipsismo judaico-cristão.-
Referências explícitas a Histaspes, denominado rei antigo dos Medos, com uso silencioso do chamado Oráculo de Histaspes nas Instituições.
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Fragmentos sugerindo origem iraniana autêntica do texto fixada no máximo no século primeiro a.C., representando a escatologia zoroastriana.
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Hipótese indicando a presença de direta influência iraniana no apocalipsismo cristão por meio das Instituições.
Lactâncio utilizou o tratado hermético conhecido como Asclepius, atribuído a Hermes Trismegisto e escrito no final do século terceiro no Egito.-
Sobrevivência em tradução latina de meados do século quarto usada por Agostinho e lida na Idade Média e Renascimento.
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O Asclepius contendo uma breve apocalipse conhecida em círculos gnósticos com afinidades com as antigas Profecias de um Oleiro do século segundo a.C..
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Intenção de Lactâncio resumida na tese de que sendo as coisas verdadeiras e preditas pela anunciação unânime dos profetas, de Trismegisto, Histaspes e Sibilas, resta a certeza de que a esperança de salvação reside no culto a Deus.
O apocalipsismo de Lactâncio foi acolhido por autores do final do século quarto como Cirilo de Jerusalém, cuja instrução catequética contém relato completo do Anticristo.-
Reação de poderosas forças teológicas no Oriente e no Ocidente contra o apocalipsismo nos séculos quatro e cinco, motivada pela conversão de Constantino.
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Destino do Império e da Cristandade vistos como providencialmente unidos com a adoção do cristianismo por Roma, tornando a expectativa de queda imperial um ato de deslealdade.
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O apocalipsismo interpretado no nível exegético como um retrocesso à leitura literal judaica das Escrituras.
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O Apocalipse de João compreendido não como profecia dos últimos eventos, mas como alegoria do conflito corrente entre o bem e o mal na Igreja.
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Proibição de tentativas de determinar o tempo do Fim com base no texto de Atos sobre o não pertencimento do conhecimento de tempos e datas.
O bispo Eusébio de Cesareia atuou no Oriente como líder na rejeição de ideias apocalípicas.-
Herdeiro do pensamento de Orígenes, aderindo à leitura fortemente alegórica do Apocalipse com dúvidas sobre sua autenticidade.
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A doutrina das eras do mundo em suas Crônicas direcionada para a antiguidade da verdade cristã e não para o seu devir futuro.
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Eusébio sem preocupações em distinguir o reinado de Constantino em relação ao tempo do reino messiânico.
Os dois principais teólogos latinos do final do século quarto reagiram contra o apocalipsismo manifesto.-
Jerônimo demonstrando pouca simpatia com interpretações apocalípicas rudes, editando Vitorino para extirpar o quiliasmo e redigindo um Comentário sobre Daniel para afogar o movimento em pedantismo.
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Abordagem cautelosa de Jerônimo transmitindo elementos apocalípicos antigos apesar de seus esforços em contrário.
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Desejo de Jerônimo em explicar o excedente de quarenta e cinco dias em Daniel projetando um breve período de paz antes do Fim, usado em eras posteriores para encorajar esperanças milenaristas.
Augusto de Hipona consolidou-se como o oponente mais incisivo da interpretação apocalíptica da história no período patrístico, rompendo com o quiliasmo e com a teologia eusebiana após o saque de Roma por Alarico em 410.-
Rejeição da premissa de ligação entre o plano de salvação e os destinos de impérios seculares, demandando a secularização da história externa para o brilho da Cidade de Deus.
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Nova atitude interpretativa determinando que as profecias apocalípicas referem-se ao encerramento final da história cujo tempo nenhum homem pode saber.
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Rejeição da busca de informações sobre eventos correntes nos textos canônicos, interpretando-os como mensagem sobre a luta perene na alma humana.
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Desprezo por tentativas de datar o Anticristo ou ler sinais da consummación, mantendo a veracidade histórica scriptural profunda.
Os escritos de Agostinho e Jerônimo incorporaram temas da especulação apocalíptica patrística antiga, notadamente as eras do mundo.-
Agostinho figurando como o protótipo do pensamento medieval por integrar o padrão tradicional de seis mil anos com as quatro eras paulinas da graça.
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Dependência de Agostinho em relação ao estudioso donatista Ticônio para a sua teoria hermenêutica exposta no De doctrina christiana.
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Ticônio como autor do Comentário sobre o Apocalipse mais influente do início da Idade Média, reconstruído a partir de testemunhas posteriores.
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Importância de Ticônio localizada no viés moral e tipológico em que o simbolismo apocalíptico expressa a luta constante entre as forças do bem e do mal na Igreja em cada era, sob a liderança de Cristo e do Diabo.
A virada do século quarto marcou um renascimento do apocalipsismo na tradição sibilina, sinalizando o início da literatura propriamente medieval após a conversão de Roma.Os estudos recentes de historiadores, antropólogos e sociólogos sobre messianismo e milenarismo abrangem o apocalipsismo clássico e sustentam a obra de Norman Cohn, O Próprio do Milênio.-
Escolha do termo apocalipsismo em detrimento de milenarismo ou messianismo justificada por questões de substância e precisão descritiva aplicadas ao material medieval.
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Definições rígidas mostrando-se inadequadas para os três conceitos no campo das ciências sociais.
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O termo messianismo sugerindo apenas o polo otimista ao negligenciar os aspectos pessimistas do apocalipsismo medieval, além de focar na liderança religiosa de seitas menos potentes no cristianismo do que no judaísmo tardio.
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Ação de figuras messiânicas como o Cristo que retorna processando-se dentro de um cenário derivado de uma visão total da história que as teorias de messianismo não compreendem.
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Inexistência de figura messiânica histórica cristã tão potente quanto Sabbatai Sevi.
A inadequação do termo milenarismo apresenta-se ainda mais fundamental para elucidar os capítulos da história cristã.-
N. Cohn definindo o milenarismo como tipo de salvacionismo que projeta a salvação como coletiva, terrestre, iminente, total e milagrosa.
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Crenças medievais sobre o Fim carecendo frequentemente da nota de terrestralidade.
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Estereótipo sociológico enxergando o movimento milenarista como agente de mudança social, fenômeno pré-político ou revolta popular subterrânea e amorfa, conforme Talmon, Hobsbawm, Worsley e Burridge.
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Abordagem clássica de Cohn mostrando-se cega perante as manifestações das tradições apocalípicas destinadas a sustentar as instituições do cristianismo medieval em vez de criticá-las.
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Formulações de Cohn na edição revisada admitindo matizes desde a agressividade violenta até o pacifismo suave, e reconhecendo que as crenças originavam-se entre clérigos inferiores instruídos antes de se difundirem.
As crenças sobre a vinda da nova era operaram tanto para a continuidade social quanto para a mudança social, compreendendo-se melhor como formas de retórica política.-
Propagandistas imperiais e publicistas papais revelando-se tão importantes quanto os radicais taboritas na história medieval do apocalipsismo.
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Proposição de uma tipologia de funções positivas e negativas para abarcar o edifício das crenças medidas sobre o Fim iminente.
O apocalipcista busca se relacionar com um início e com um fim em meio à preocupação perene com a estrutura, unidade e meta do tempo, encontro entre era e eternidade.-
Raiz antropológica dos sistemas apocalípicos localizada no senso de pertencimento ao tempo e na necessidade de entender o significado do presente.
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A. N. Wilder sustentando que a retórica apocalípica dramatiza a hierofania grupal em situações de continuidades rompidas e caos, vinculando o tema a crises exaustivas.
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Crises experimentadas no período helenístico provendo a ocasião e não a explicação profunda do significado do apocalipsismo judeu, conforme Schmithals.
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Inexistência de relação mecânica simples atestada pela Peste Negra dos anos 1340 com efeito menor do que eras menos atribuladas, e por novos estágios nascidos de acomodações positivas como a conversão do Império e a Reforma Papal.
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Qualquer desafio ao entendimento estabelecido da história criando a situação para a invocação de formas e símbolos apocalípicos sob total liberdade do vidente.
A validação religiosa de eventos políticos e sociais por meio da incorporação em esquemas transcendentes de significado explica o nexo com a esfera política.-
Propagandistas apocalípicos medievais enquadrando-se majoritariamente no tipo da intelectualidade clerical educada — funcionários da corte, escribas, panfletários — e não em profetas solitários ou renegados.
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Figuras privadas mantendo forte atuação política ou interesse em questões de governança, como Joaquim de Fiore e Telesforo de Cosenza, assemelhando-se aos produtores clássicos descritos por J. Z. Smith.
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O apocalipsismo cristão medieval configurando-se essencialmente como esforço de literatos eruditos para interpretar os tempos, apoiar patronos e mover homens a metas político-religiosas, transcendendo o presente.
A retórica apocalípica contra a ordem estabelecida na busca por estados milenares apresenta-se frequentemente mais passiva do que ativa quanto aos meios de transição.-
O Apocalipse de João exibindo teor anti-romano sem recomendar resistência ativa, restando aos santos sofrer e esperar a vingança divina.
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Revolta de Bar-Kochba e hussitas taboritas operando como exceções de caráter revolucionário ativo.
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A Segunda Epístola aos Tessalonicenses registrando a semente do uso político positivo via menção à força retentora interpretada pela tradição majoritária como o Império Romano destinado a durar até o Fim.
O suporte ao establishment político e social estruturou-se sob os modos conceituais a priori e a posteriori.-
O modo a priori utiliza o cenário estabelecido para interpretar eventos correntes e mover à decisão, enquanto o modo a posteriori expande o cenário com versões transcendentalizadas de mudanças recentes para validação final.
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O modo a posteriori medieval manifestou criatividade ao incorporar três grandes desenvolvimentos: a conversão do Império Romano, o avanço do Islã e a emergência do papado medieval superior.
A figura de um bom imperador cristão no Fim dos tempos apresenta-se ausente nas Escrituras, nascendo após a conversão de Constantino e o desenvolvimento da teologia imperial.-
Projeção trans-histórica asseverando que o Império duraria até o Fim e alcançaria triunfo universal, validando monarcas por mais de mil anos como o esperado último governante.
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Mitos do Último Imperador apresentando caráter positivo na sociedade cristã, associando o apoio imperial ao lado dos anjos.
O avanço do Islã a partir do século sétimo foi assimilado via incorporação a posteriori como o inimigo apocalíptico por excelência devido à sua continuidade, sucesso e oposição violenta.-
Muçulmanos identificados com o exército do Anticristo ou predecessores das pragas de João, estimulando ações políticas e militares concretas.
O papado alcançou estatura apocalípica no século treze por meio da criação do mito do pastor angelicus ou Papa Angélico, viabilizado pelo papel universal pós-Grande Reforma.-
O Último Papa operando como validação apocalípica positiva da instituição e como crítica ao governo contemporâneo pela oposição entre a santidade futura e a mundanismo presente, intensificada pelo temor de um Anticristo Papal.
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Novas criações clericais transcorrendo sem origem em movimentos revolucionários populares, alcançando audiências amplas após a difusão por panfletários.
A aplicação a priori mobilizava a linguagem herdada para interpretar conflitos e apoiar posições, atuando como uso de sustentação da ordem divina social.-
Acusações papais de Gregório IX e Inocêncio IV rotulando Frederico II como Anticristo expressando negação da legitimidade do ocupante por maldade, sem atacar a instituição do Império cristão.
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O modo a priori desenhado para compelir homens a tomar lados na convicção de que o embate definitivo começara e excluía posições intermediárias.
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Confronto entre Frederico II e o papado figurando como o caso de livro-texto da modalidade.
O apelo fundamental do apocalipsismo repousa na convicção de que o tempo vincula-se à eternidade sob uma estrutura e meta divinamente planejadas e reveladas em formas simbólicas e dramáticas.-
Crenças respondendo a demandas religiosas profundas e exercendo funções políticas sobre séculos, resistindo em substitutos reputados científicos na contemporaneidade.
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