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Sacramentos
Pierre Deghaye — A Doutrina Esotérica de Zinzendorf (1700-1760). Paris: Klincksieck
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No comentário a Hb V, 9, Zinzendorf afirma que o Cristo, por sua perfeição, torna perfeito aquele que tem a inteligência da Escritura, libertando-o da lei do pecado.
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Os filhos de Deus são aqueles animados pelo Espírito, que receberam um espírito de filhos adotivos e não um espírito de escravos para cair no medo.
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Para ser reconhecido como filho de Deus, é necessário ter recebido um diploma de filiação divina dado a cada um em particular, o que o batismo ordinário não confere.
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Zinzendorf distingue entre o batismo de água (de João Batista) e o batismo no Espírito Santo (anunciado por João e prometido por Cristo).
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Os Irmãos, seguindo o exemplo de Paulo, não se preocupam em administrar o batismo de água, pois Cristo não o enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho.
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O batismo no Espírito Santo e no Fogo, prometido para os últimos dias, é uma prefiguração da efusão da Pentecoste, mas Zinzendorf vê este período no presente.
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O fogo do batismo de João Batista é o da Gehena, que consumirá o que não pôde ser purificado, sendo que Cristo diz que todos serão salgados pelo fogo.
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O batismo do fogo é aplicado por Zinzendorf à regeneração individual das primícias (antecipando a consumação final), cujo protótipo é o batismo de sangue de Cristo na cruz.
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O sangue que jorra da ferida do lado contém o Espírito como água viva e fogo devorador, sendo uma tintura regeneradora (a grande lavagem no batismo do sangue).
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A faísca da alma é restituída pelo sangue da reconciliação.
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O batismo ordinário é comparado por Zinzendorf à circuncisão dos judeus, que deve ser seguida de um segundo batismo (a segunda nascença) quando a criança se tornar adulta.
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O batismo religioso é um simples sinal (reconhecimento externo dos cristãos), enquanto o verdadeiro sacramento é o batismo espiritual na água verdadeira que corre do flanco do Salvador.
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A necessidade da segunda nascença é o que Nicodemos, o fariseu circuncidado, não consegue conceber.
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Zinzendorf distingue-se dos batistas e anabatistas por não confundir o batismo ordinário (para crianças, como a circuncisão) com o batismo espiritual (para adultos já convertidos).
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O batismo dos adultos só deve ser administrado a pessoas já convertidas que receberam o Espírito, seguindo o exemplo de Cornélio, onde os apóstolos batizaram após a efusão do Espírito.
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Os anabatistas são criticados por rebatizarem os mortos, pois o segundo batismo por eles administrado seria apenas o renovo do primeiro batismo caduco.
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O batismo dos Irmãos (ao nome de Jesus Cristo) simboliza a nascença dos espirituais no plano da Gemeine, sendo um sacramento de gnose ligado à segunda nascença.
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O batismo espiritual (verdadeiro sacramento) é uma força secreta exercida por Deus que une realmente a Deus, ao contrário do batismo religioso que é uma bênção puramente exterior.
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O batismo religioso é um pacto unilateral (de Deus apenas), que não tem realidade para o parceiro (a criatura), sendo o símbolo de todas as alianças do Antigo Testamento.
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Zinzendorf cogita uma confirmação na puberdade para autentificar a aliança do batismo da infância, mas não a institui, pois o verdadeiro sacramento se desenrola no fundo do coração.
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O batismo espiritual (do homem interior) é ratificado pela fórmula ao nome de Jesus Cristo, transpondo o cântico luterano Eu revesti Cristo no meu santo batismo.
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O batismo espiritual é visto como a geração dos perfeitos, onde o Cristo engendra uma posteridade (semente), num realismo simbólico que lembra os gnósticos.
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A virilidade do Cristo e a liquez seminal (logos spermatikos) são transpostas para o plano espiritual, designando as parcelas de pneuma (Geistlein) que engendram os espirituais.
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Abraão é visto como o chefe da geração dos perfeitos, numa tradição gnóstica.
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Este batismo é um mistério no limiar de toda vida espiritual, sendo a unção de luz dos gnósticos que faz do homem psíquico o perfeito.
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Para Zinzendorf, o batismo e a eucaristia se reduzem a um único sacramento: a união mística, com o batismo tendo um sentido incoativo (nascença).
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A força que emana do Cristo (como no caso da hemorroíssa) se transmite por partículas (gotas de suor, sangue) que se comunicam na eucaristia mística.
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O corpo do Cristo se divide para se comunicar a cada um, num paralelo com a teoria gnóstica do anjo único que se divide em anjos individuais.
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O verdadeiro sacramento é definido pela adesão substancial ao Divino (participação física, physice), marcando uma diferença de natureza entre os espirituais e os psíquicos.
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Os espirituais aderem fisicamente a Deus por uma consanguinidade, sendo o sangue do Cristo a matéria prima (materia prima) que impregna a atmosfera que eles respiram.
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Este sacramento é contínuo (sangue que tinge toda a atmosfera) e não se limita a um ato isolado, sendo um habitus que cria um lugar ontologicamente diferente para os espirituais.
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A verdadeira assembléia dos filhos de Deus (Igreja mística) é secreta e absolutamente invisível, vivendo in silentio et pleura, enquanto as igrejas visíveis são a terra seca que não recebe o orvalho.
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Para os fiéis das religiões (psíquicos), a comunhão não passa de uma solenidade (ato de comemoração, Religionsabendmahl), um simples sinal, não sendo o verdadeiro sacramento.
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Paulo teria dito que nas assembléias das igrejas visíveis não se trata de tomar a Ceia do Senhor, pois apenas os espirituais são viventes.
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A carne mística do Senhor não pode dar vida aos adoradores carnais (judeus, psíquicos), que são naturalmente incapazes de comer a carne de Cristo.
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Os psíquicos são cortados do corpo de Cristo para sua vida terrestre, e seu sacramento é puramente simbólico, não estabelecendo contato real com o Divino.
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A disputa entre luteranos e reformados sobre a eucaristia é vã, pois para os que não são filhos de Deus (apenas luteranos ou reformados) o sacramento será apenas um sinal.
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Deus pode ser benevolente com essas invenções humanas, mas sua tolerância pode ser sinal de longanimidade que precede a cólera do Filho do homem.
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Os fiéis ordinários são ou eleitos que se ignoram (o culto religioso os ajuda a caminhar) ou são filhos da cólera (crianças de Babilônia), traduzidos em juízo.
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Mesmo o templo luterano é Babilônia (igreja de Laodicéia) na medida em que seus filhos são prometidos ao julgamento.
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Zinzendorf distingue entre os luteranos convertidos (vasos de eleição, verdadeira comunhão do Cristo) e os que o são apenas pelo batismo religioso (vomitados da boca).
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A alegoria de Agar e Sara (Gálatas 4) é usada por Zinzendorf para mostrar que Babilônia (a serva Agar) pode ter mais filhos de Deus do que Sião (a esposa livre Sara).
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Agar (aliança do Sinai, Jerusalém atual, Babilônia) gera para a servidão, mas seus filhos (da carne) são numerosos.
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Sara (mãe de Isaac, nascido pela promessa, Jerusalém celestial) é a mãe dos espirituais.
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A Igreja verdadeira (Sara) obtém filhos por meio de Babilônia (Agar), que os reconhece como seus.
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Zinzendorf reconhece que a comunhão que deu origem espiritual a Herrnhut (13 de agosto de 1727) foi um rito calviniano, provando que o Espírito pode se espalhar sobre fiéis que recebem o sacramento ordinário das religiões.
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Zinzendorf propõe uma dupla comunhão na comunidade: um sacramento visível (presença real ao modo luterano) para os verdadeiros espirituais, e um sacramento religioso (ato simbólico calviniano) para os membros não convertidos.
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A proposta não foi seguida, mas demonstra a consequência com que Zinzendorf mantém a distinção entre espirituais e psíquicos, assumindo um dualismo que o aproxima dos gnósticos.
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