Introdução
Pierre Deghaye — A Doutrina Esotérica de Zinzendorf (1700-1760). Paris: Klincksieck
Desde o último terço do século passado, comentou-se amplamente a doutrina de Zinzendorf. Ora, a questão do esoterismo jamais foi tratada por si mesma. Entrevê-se ela apenas de modo inteiramente incidental, ao sabor de uma análise literal dos textos.
Hermann Plitt oferece o exemplo mais impressionante dessa carência. Sua obra é uma verdadeira suma: dificilmente há algum aspecto do pensamento de Zinzendorf que nela não seja evocado. Assim, no primeiro volume, o autor reconstitui as grandes linhas de uma análise consagrada por este último aos Discursos cristãos e espirituais de Madame Guyon. Plitt repete literalmente aquilo que essa análise sublinha: existe uma teologia secreta, inacessível ao comum dos mortais. Ora, trata-se de uma constatação que permanece sem desdobramento, pois o comentador dela não tira nenhuma conclusão.
Plitt teria evitado deter-se em uma opinião que Zinzendorf professava em 1731 e que podia não ser definitiva? É possível. Contudo, no terceiro volume, ele cita com muita honestidade um texto de 1750 que retoma a palavra de Mt VII, 6: «Não deis aos cães o que é sagrado, nem lanceis vossas pérolas diante dos porcos: eles bem poderiam pisoteá-las e, depois, voltar-se contra vós para vos dilacerar». No mesmo volume, Plitt fala ainda de uma homilia de 1752 na qual o autor se acusa de ter faltado a esse preceito. Parece, pois, que aí se encontra uma constante na atitude espiritual do fundador de Herrnhut. Ora, Plitt nem por isso se detém nela.
Outro comentador, Bernhard Becker, oferece um exemplo não menos notável dessa indiferença. Becker possui um conhecimento muito amplo dos textos. Como Hermann Plitt, ele os analisa escrupulosamente. Restitui fielmente uma afirmação de Zinzendorf que se refere à palavra de Cristo para distinguir entre duas teologias, uma pública, theologia publica, outra secreta, theologia arcana. Contudo, essa afirmação é simplesmente reproduzida, sem que o autor dela extraia a significação. Praticamente, Becker ignora o problema colocado pelo esoterismo de Zinzendorf, embora ele aflore no contexto literal de sua análise.
Em outro lugar, Becker observa que Zinzendorf faz da comunhão o objeto de uma «espécie de doutrina secreta». Mas em nenhum momento explicita esse ponto de vista.
Foram citados Hermann Plitt e Bernhard Becker. Eis agora um terceiro exemplo dessa lacuna. Mais próximo de nós, Eberhard tocou de passagem a questão do esoterismo, mas sem dela tirar matéria para uma reflexão.
No livro que Samuel Eberhard deixou, ele trata da doutrina quiliasta. Segundo Zinzendorf, não se deve ensinar do púlpito aquilo que se refere ao Reino de mil anos. Eberhard não negligencia esse ponto de vista. Ao contrário, dele restitui a substância. E mesmo recorda em uma nota que, para a publicação de um discurso pronunciado em 1746 no sínodo de Zeist, na Holanda, Zinzendorf suprimiu todo um trecho referente àquilo que considerava um mistério que não devia ser divulgado. Eberhard estima que, se Zinzendorf operou essa supressão, foi sem dúvida para conformar-se a esse princípio. Tem-se, portanto, aqui um caso inteiramente preciso e que revela um motivo sobre o qual valia a pena deter-se. Ora, é necessário contentar-se com uma reflexão que permanece aquém de todo comentário.
Esses três exemplos foram escolhidos por serem julgados significativos. Eles mostram como se pôde tocar de passagem a questão do esoterismo de Zinzendorf sem jamais tratá-la verdadeiramente. Fala-se dela pela força das coisas, pois se é levado a citar textos que a implicam, mas em nenhum momento ela é considerada uma questão que mereça ser estudada por si mesma. Ainda assim, esses três comentadores tiveram o mérito de não a deixar inteiramente em silêncio. Outros, numerosos, a ignoraram totalmente.
