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estudos:berdiaeff:diginidade-cristianismo-iii

A DIGNIDADE DO CRISTIANISMO — A INDIGNIDADE DOS CRISTÃOS III

A humanidade cristã cometeu em sua história uma tripla traição para com o cristianismo. A humanidade deformou-o primeiro e, em seguida, afastou-se completamente dele; finalmente, e essa foi a sua falta mais grave, começou a amaldiçoá-lo pelo mal que ela mesma havia criado. Quando se critica o cristianismo, criticam-se os pecados e os vícios da humanidade cristã, critica-se a não aplicação da verdade de Cristo e sua deformação pelo homem. E é precisamente por causa dessas deformações, desses pecados e desses vícios humanos que o mundo se afastou do cristianismo.

A um princípio ideal é necessário opor outro princípio ideal; deve-se opor um fato real a outro fato real. Poder-se-ia defender a causa do comunismo provando que ele foi deformado e que nunca foi aplicado, como ocorreu com o cristianismo. Os comunistas derramam o sangue e desnaturalizam a verdade para atingir seus fins; os cristãos fizeram o mesmo; todavia, parangonar o comunismo ao cristianismo partindo desse fato seria um erro evidente.

No Evangelho, nos mandamentos de Cristo, nos ensinamentos da Igreja, nos exemplos dos santos e nas realizações perfeitas do cristianismo, encontrar-se-á a boa-nova da vinda do Reino de Deus, encontrar-se-á um apelo ao amor ao próximo, à doçura, ao sacrifício e à pureza de coração, mas não se encontrarão apelos à violência, à animosidade, à vingança, ao ódio ou à avidez; em uma palavra, a tudo aquilo contra o qual se sublevam os detratores do cristianismo. Pelo contrário, na teoria, na ideologia de Marx, que inspirou o comunismo, encontram-se esses apelos à violência, à animosidade rancorosa de uma classe contra outra, à vingança e à luta por interesses pessoais, e nada que faça relação ao amor, ao sacrifício ou à pureza espiritual. Os cristãos cometeram na história esses erros com frequência e o fizeram sob a insígnia de Cristo, mas dessa maneira nunca cumpriam seus mandamentos. Os adversários do cristianismo comprazem-se em dizer que os cristãos recorrem frequentemente à força para defender e propagar sua fé. O fato é em si inegável, mas demonstra que os cristãos estavam cegados pela paixão, que sua natureza não se havia iluminado ainda e que seu estado de pecado deformava a causa mais justa e mais santa. Quando Pedro, querendo defender Jesus, sacou sua espada e feriu o servo do sumo pontífice, cortando-lhe uma orelha, Jesus disse-lhe: Volta tua espada ao seu lugar; porque todos os que tomarem a espada, à espada perecerão.

A verdade divina do cristianismo, recebida pelos homens, refrata-se em sua natureza pecaminosa e em sua consciência limitada. A revelação e a vida religiosa cristã, como toda revelação e toda vida religiosa, pressupõem não somente a existência de Deus, mas também a existência do homem. E este, embora iluminado pela luz da caris procedente de Deus, adapta a seu olho espiritual essa luz divina e impõe à revelação os limites de sua natureza e de sua consciência.

Sabe-se pela Bíblia que Deus se revelou aos hebreus. Mas a cólera, o zelo e a vingança que manifesta o Deus-Iavé não são as qualidades naturais de Deus e não passam de uma imagem refratada na consciência do povo israelita, ao qual eram inerentes tais erros. Os homens desnaturalizaram a ideia de Deus, que frequentemente se personificava em um déspota oriental, em um monarca absoluto, e desnaturalizaron também o dogma da Redenção, que se interpretava como a sentença de um processo judicial instruído por um Deus irado contra o homem transgressor de sua vontade. E esta maneira deformada, humanamente limitada, de compreender os dogmas cristãos, levou os homens a se afastarem do cristianismo. A própria ideia da Igreja desnaturalizou-se. Compreendeu-se-a exteriormente, identificando-a com a hierarquia, com os ritos e com os pecados dos cristãos paroquianos; via-se nela, antes de tudo, uma instituição. A noção mais profunda e mais interna da Igreja, considerando-a como um organismo espiritual, como um corpo místico de Cristo (segundo a definição do apóstolo Paulo), ficava relegada a segundo plano e não era acessível senão a uma minoria. A liturgia e o sacramento eram considerados ritos exteriores; seu sentido profundo e misterioso escapava à vista dos pseudocristãos, e abandonava-se a Igreja escandalizado pelos vícios do clero, pelos erros das instituições eclesiásticas — demasiadamente parecidas com as instituições governamentais —, pela fé excessivamente exterior dos fiéis e pela hipocrisia de uma piedade exterior.

Deve-se recordar sempre que existe na Igreja um elemento divino e um elemento humano; que a vida da Igreja é uma vida teândrica, uma ação recíproca da divindade e da humanidade. A Igreja é de fundação divina e é eterna e infalível, santa e pura, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. O elemento divino na Igreja é Cristo, seu Chefe; é o ensino moral evangélico; são os princípios fundamentais da nossa fé, os dogmas da Igreja, os sacramentos e a ação da caris do Pneuma Hagion. Mas o lado humano da Igreja é falível: podem produzir-se deformações, enfermidades, quedas, alterações, da mesma forma que se pode encontrar nela um movimento criador, um desenvolvimento, um enriquecimento e um renascimento. Os pecados da humanidade e da hierarquia eclesiástica não são pecados da Igreja, tomada em sua essência divina, e não diminuem sua santidade. O cristianismo ergue-se contra a natureza humana, exige que se ilumine, exige que se transfigure, e a natureza humana lhe resiste e tende a deformá-lo. Há uma luta contínua entre o divino e o humano, no curso da qual ora o divino ilumina o humano, ora o humano obscurece o divino.

O Filho de Deus fez-se homem, fez-se carne, e isso santificou a natureza humana. O cristianismo eleva o homem e o coloca no centro do mundo; indica-lhe o fim mais alto da vida, evoca sua origem suprema e sua missão mais alta. Mas, diferentemente das outras religiões, não lisonjeia a natureza humana em seu estado de pecado e de queda, e exige que o homem se vença heroicamente.

Cristo ensina-nos a amar a Deus e a amar o homem, nosso próximo. O amor a Deus e o amor ao homem estão indissoluvelmente unidos. Amamos nossos irmãos por amor a Deus, por amor ao Pai, e no amor a esses irmãos revela-se nosso amor a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e seu amor é perfeito em nós. Cristo era o Filho de Deus e Filho do Homem; Ele revelou-nos a união perfeita de Deus e do Homem; revelou-nos a humanidade de Deus e a divindade do homem. Mas o homem natural assimila dificilmente essa plenitude do amor divino e humano. Umas vezes dirige-se a Deus e afasta-se do homem; dispõe-se a amar a Deus, mas também a sentir pelo homem indiferença e crueldade. Assim era na Idade Média. Outras vezes volta-se para o homem, disposto a amá-lo e servi-lo, mas afasta-se de Deus, cuja própria ideia ataca como se fosse nefasta e contrária ao bem da humanidade. Assim ocorreu nos tempos modernos, no humanismo e no socialismo humanitário. E depois, havendo pisoteado a verdade teândrica, havendo separado o amor ao homem do amor a Deus, os seres humanos atacam o cristianismo e o acusam de suas próprias maldades.

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