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CRISTIANISMO E ATIVIDADE HUMANA IV

Em suma, não é o cristianismo, tomado em sua pureza, que repudia a atividade humana, mas o comunismo materialista, o marxismo, cujo conceito de mundo rebaixa o homem à categoria de objeto. Todavia, como apenas o sujeito é ativo, se o homem é tão somente o objeto da reação da sociedade, o veículo das influências e das exigências sociais, não se pode reivindicar de modo algum para ele a atividade. Em todo caso, é difícil conceber em que consistiria esse elemento ativo, ou seja, interior, que não possa ser deduzido do exterior, isto é, da sociedade. A atividade humana afirmada pelo materialismo social não é, pois, outra coisa senão a atividade de um autômato aperfeiçoado. O homem transforma-se em uma máquina que funciona automaticamente e de uma maneira contínua, acionada pelos órgãos da sociedade. Despoja-se o ser humano de seu substrato interior, de seu livre princípio espiritual, ou seja, precisamente daquilo que faz dele um homem. Por si mesmo, de si mesmo, não pode intentar nada e não se atreve a nada; não pode e não deve agir senão sob o impulso da sociedade, da coletividade, do comitê central do partido. De modo que a imputação feita ao cristianismo pela literatura antirreligiosa, de que aliena a atividade humana, parece irrisória, visto que o que exalta o conceito soviético não é o homem, mas a máquina social aperfeiçoada.

O homem está chamado indiscutivelmente à atividade, à ação; não pode ser unicamente contemplativo. Mas não se deve deduzir disso que todo ativismo seja necessariamente bom; há ativismos falsos e insensatos, sobretudo aquele que envilece cada instante da vida até o ponto de convertê-lo em meio para o instante subsequente, que não dá ao homem a possibilidade de mudar de ideia, que não lhe deixa descanso algum e que, agindo assim, o destrói, aniquila sua vida interior e destrói até sua alma. O homem pertence, ao mesmo tempo, ao tempo e à eternidade, e é desta, isto é, da fonte espiritual, que obtém as forças de que necessita para sua atividade no tempo. Não é ele a função da atividade, como entende o pseudoativismo ao destruir a eternidade, mas, ao contrário, é a atividade que é sua função. É, portanto, vão invocar a atividade do homem quando este, em sua natureza interna e em seu valor indefectível, fica reduzido a um simples instrumento da atividade social, a uma das numerosas máquinas aperfeiçoadas. Porque aqui não são os meios que se submetem ao fim, mas o fim que fica submetido aos meios. Por tal razão, os que insistem na maquinização e na tecnicização definitivas da vida não podem reivindicar a atividade humana. O homem é ativo somente enquanto for um ser espiritual, e não é um ser espiritual senão quando pertence à eternidade, ou seja, quando possui um princípio independente do tempo. Ora, essa não é a doutrina do marxismo, do materialismo; essa é, antes, a doutrina do cristianismo.

Um pensador, notável cristão de fins do século XIX, N. Fyodorov, autor de A Filosofia da Obra Comum, afirmava a prodigiosa atividade do homem, ao qual acreditava destinado a subjugar as forças cósmicas da natureza, a dominar os espaços universais, a vencer a morte. As atividades que atribuía ao homem eram infinitamente mais grandiosas que as dos marxistas-leninistas, que se reconciliaram passivamente com o triunfo da morte, isto é, com o pior dos males. Se Fyodorov, cuja obra apresenta uma analogia formal com o marxismo-leninismo por sua oposição entre o espírito e o resultado final, podia preconizar a atividade do homem, é porque ele acreditava no homem. E essa fé ele a recebera do cristianismo; não de um cristianismo exterior e depravado, mas de um cristianismo puro e interno.

Se Fyodorov tivesse sido materialista, essa fé na atividade humana teria sido uma inépcia. O cristianismo, purificado e regenerado, deve desenvolver e justificar cada vez mais essa atividade. E a isso se consagrou Fyodorov. Os marxistas-leninistas opõem à passividade e à preguiça do cristianismo antigo a atividade inusitada de sua reorganização da vida, da industrialização e do plano quinquenal. E é impossível negar a atividade da juventude soviética, sua sede de ação. Lênin disse um dia que sua tarefa principal consistia em triunfar sobre Oblomov. E um dos resultados mais positivos da revolução será provavelmente o desaparecimento do tipo de Oblomov, a vitória sobre a apatia secular russa. Mas é duvidoso que essa inatividade, à qual se faz alusão aqui, possa ser creditada ao cristianismo. Oblomov era, sem dúvida nenhuma, um mau cristão. E não se choca aqui com o cristianismo, mas com uma propriedade do caráter russo iniciada pela nobreza na época de Pedro, o Grande, e alimentada pelo servidão. Os construtores do Império Russo, qualquer que seja a atitude a seu respeito, nunca foram do tipo Oblomov.

Mas é indispensável aprofundar o caráter da atividade oferecida pela juventude soviética. O que surpreende em primeiro lugar é que se reconheça um só modo de atividade: o da economia técnica, cujos valores são os únicos admitidos e aos quais tem que se submeter todo o processo da vida. A atividade resume-se, em realidade, na industrialização do país conforme o plano quinquenal, que coincide com o construtivismo socialista, e nada mais. Reduz-se à mecanização, à tecnicização da vida. Todas as outras formas de criação, inclusive as suas formas superiores, ou são desconhecidas ou reprimidas e submetidas aos fins econômicos e técnicos. Mas semelhantes resultados da atividade possuem uma ação inversa sobre o sujeito mais ativo — sobre o homem — que, por esse fato, transforma-se ele mesmo em máquina.

Mesmo na filosofia, o jovem soviético tem que executar as prescrições do partido comunista e justificar no terreno do pensamento, segundo o plano quinquenal, o construtivismo socialista. E o mesmo ocorre com a arte e com a literatura. Em tudo reina a ordem imposta e executa-se o mandato oficial; e isso em detrimento do pensamento e da criação do homem, que se converte em instrumento da coletividade. A atividade exterior está ligada à passividade interior, à submissão servil da vontade e do pensamento. Não somente o espírito humano não deve ser ativo, não deve ter iniciativa criadora, mas deve ficar reduzido ao estado de completa passividade e de extinção. Então somente aparecerá a atividade exterior máxima. Essa é a racionalização da existência humana, a de toda a vida.

Sem dúvida que essa vida é o resultado de uma atividade inusitada, mas é a atividade do autômato e da máquina. Todavia, a atividade que o cristianismo reconhece é, antes de tudo, a do espírito humano, à qual, ao contrário, deve submeter-se a máquina.

Quando os comunistas russos, e mesmo os burgueses capitalistas da Europa e da América, falam de atividade, consideram como admitido que só merece essa denominação aquela que deriva da técnica e da economia. A ciência e a arte não são reconhecidas como tal atividade se não estiverem submetidas ao construtivismo técnico e econômico. Se se levantou uma fábrica ou se construiu um aeroplano, se se organizou um colcoz, é-se ativo, realizou-se efetivamente algo tangível. Esse é o pensamento próprio da época técnica, na qual os fins da existência se eclipsam e o homem se encontra absorvido pelos meios da vida. Mas por que razão não hão de constituir uma atividade a modificação das relações de homem para homem, sua humanização e seu enobrecimento? Por que a atividade espiritual, que transforma o homem mesmo e ilumina sua natureza, não haveria de constituir a realização de uma vida nova e melhor? A razão é muito simples: a realização e a atividade são atribuídas agora aos meios e aos instrumentos da vida, e não ao seu sentido e aos seus fins.

Existe neste momento na Rússia soviética uma idolatria da técnica, uma atitude supersticiosa para com a máquina. Este estado de coisas não era possível senão em um país tecnicamente atrasado em que, para o povo ainda muito ignorante, tudo nesse terreno parece novo e prodigioso. A palavra de ordem de Lênin sobre a eletrificação de toda a Rússia parecia eminentemente audaz, temerária, revolucionária. Mas, em realidade, não há nada mais banal, mais prosaico, e esse lema não apresenta interesse algum para os países de vanguarda cuja técnica se encontra fortemente desenvolvida. Os prodígios da técnica devem, em efeito, parecer ao povo russo como milagres, em sentido próprio, não em sentido figurado; têm que provocar uma atitude quase religiosa a seu respeito. A técnica produz a impressão de uma magia; aliás, dela proveio e a ela se atribui a mesma missão: a conquista da natureza. Ridicularizar o milagre é um dos temas favoritos da propaganda antirreligiosa. A espera do milagre, a fé nele, confunde-se com a negação da atividade, a passividade e a humilhação do homem. Os milagres da técnica, conforme dizem, estão chamados a vencer os milagres da religião.

Mas, em realidade, não se pode conceber o milagre do ponto de vista religioso como se se cumprisse acima do homem, ficando este absolutamente passivo. Essa seria uma atitude naturalista com respeito a ele. O milagre efetua-se com a cooperação ativa do homem; realiza-se tão somente para os que são dignos dele, para os que, de certo modo, o mereceram por sua atividade espiritual. O milagre não é uma revogação e uma negação das leis da natureza, mas se opera, desde logo, nas forças naturais e através delas, sendo, ao mesmo tempo, a manifestação de forças novas espirituais que ultrapassam seu ciclo. A negação do milagre baseia-se no postulado do isolamento e da finitude da natureza concebida como um sistema de forças que atuam em um círculo hermeticamente fechado. Mas esse é um postulado eminentemente dogmático. Em realidade, o sistema da natureza desenvolvido em nossa experiência sensível está inserido na infinitude, e nele podem fazer irrupção novas forças que, pelo fato mesmo, modifiquem os resultados de sua ação recíproca com as forças existentes. O milagre é um conceito relativo e não pode expressar mais que a entrada ativa, dentro do sistema de forças atuantes, de uma força espiritual ainda maior. O que se denomina cura milagrosa é tão somente a manifestação de uma força espiritual que triunfa sobre as forças naturais destrutivas. Por conseguinte, o milagre é ativo e implica a atividade de forças espirituais no homem. É absurdo opô-lo à técnica, visto que cada um pertence a uma ordem diferente. O milagre é uma manifestação de forças espirituais na qual o sentido deve vencer o contrassentido dos processos naturais; ao passo que a técnica não manifesta forças novas e não é mais que uma combinação das existentes, submetida aos fins práticos do homem.

Deve-se reconhecer, todavia, que existe uma parcela de verdade no que Marx e os marxistas dizem sobre a religião e sobre o cristianismo. E não se deve ter medo disso. Na vida religiosa das sociedades, introduziram-se demasiada ganância e demasiadas mentiras. Com muita frequência, a religião justificou a opressão do homem pelo homem. Mas esta verdade refere-se inteiramente ao aspecto exterior, social, da religião, que os marxistas consideram como a única realidade. Em suma, estes não percebem nunca a religião; eles não veem mais que a política que sempre a deformou. Tudo o que é profundo, interno e espiritual escapa à sua vista; a vida, para eles, sobe à superfície e não percebem mais que a parte superficial das coisas. As tentativas feitas para encontrar, do ponto de vista do materialismo histórico, uma justificativa da exploração e da opressão de classe no próprio Evangelho, na imagem de Cristo, produzem uma impressão lamentável; mas, em suma, são relativamente pouco frequentes. Em geral, prefere-se limitar-se aos abusos humanos e às deformações da verdade cristã na história, que apresentam um terreno infinitamente mais fértil. É inegável que a vida cristã das sociedades reflete as relações de dominação e de sujeição, a opressão social; que expressa a servidão do homem. Mas a revelação e a verdade cristãs não têm nada a ver com esse estado de coisas; possuem uma origem espiritual e revelam uma irrupção do espírito em nosso mundo natural e social.

A negação da atividade humana pela consciência cristã era tão somente a expressão do abatimento do pecado no homem, de sua escravidão e de seu pavor. Mas a essência do cristianismo consiste precisamente em libertar o homem desses estados, em desembaraçar, por isso mesmo, sua atividade criadora e em restabelecer sua dignidade perdida. Como já se indicou, a atividade humana possui uma origem interna e espiritual, e não externa e social. O homem mesmo é chamado a agir em um meio social, mas não pode manifestar atividade e dominar esse meio e suas diversas relações, não pode submetê-los aos fins do espírito senão quando realiza por sua atividade não os mandatos desse meio, mas os de uma força infinitamente mais profunda por ser interior e espiritual.

Para poder agir, o homem deve, antes de tudo, estabelecer para si mesmo o que é que representa o valor supremo, o fim e o sentido da vida. E não pode obter essa apreciação no mundo natural e social que o cerca, porque é ele quem deve comunicar a esse mundo seu valor, seu fim e seu sentido. O cristianismo ensina qual é seu manancial supremo e eterno. O cristianismo eleva o homem, por isso mesmo, acima do meio ambiente, acima de sua escravidão, dando-lhe a possibilidade de modificar, de melhorar, de transfigurar esse meio, de submetê-lo ao seu espírito e de realizar em si o valor último. Mas o que se lhe deve, antes de tudo, é o dar um sentido e um valor à existência pessoal do homem, o que nenhuma das doutrinas sociais existentes fez até o dia de hoje.

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