Nova Religião
Abade Stephane. Introduction à l’ésotérisme chrétien I. Paris: Dervy-livres, 1979
Grosso modo, pode-se dizer que a nova religião é a “religião do Homem”. Deus estando “morto”, pode-se dizer que é uma religião “atea”. Ela não tem mais por objetivo “religar” o homem a Deus, mas os homens entre si. É igualmente uma “forma” de socialismo, ou de comunismo.
Paradoxalmente, ela reveste formas diversas, mas isso é apenas uma aparência exterior: o ateísmo e o humanismo permanecem o denominador comum destas diferentes formas. Há, por exemplo, a “fé sem religião”, a fé em estado puro, sem conteúdo, sem dogmas, sem ritos; é uma espécie de protestantismo extremo que Lutero ou Calvino vomitariam. Inversamente, há a “religião sem fé”. Era, há cem anos, o “formalismo” exterior de pessoas que praticavam sem crer seriamente, ou por motivos mercantis. Hoje esta forma tomou um outro aspecto: é o “comunitarismo”. Repete-se à saciedade aos cristãos, que eles formam uma “comunidade”: o batismo os introduz na comunidade, como se inscreve no Partido comunista; a Eucaristia não é mais que um repasto comunitário; o próprio pecado é concebido como ruptura ou afastamento da comunidade, e a penitência, como no tempo da Igreja primitiva, é concebida como reintegração na comunidade, com esta diferença que os judeus e os pagãos convertidos ao Cristianismo criam em Deus. Atualmente as virtudes teologais não têm mais que um sentido humano: crê-se no Homem, espera-se no futuro da Humanidade, graças à Ciência e ao Progresso, e ama-se seu próximo enquanto tal.
Em uma tal perspectiva, o Cristo não é mais que o Chefe da comunidade, e é por isso que “Deus está morto em Jesus Cristo”. Outros vão mais longe, e não veem em Jesus Cristo senão um “agitador social”. A tese é demasiado conhecida para que se julgue útil insistir. Em tudo isso, não se trata mais da “vida eterna”, e o Reino de Deus não é mais que a “cidade terrestre” a construir.
Não há portanto senão o homem que conta, seu trabalho e sua ação sobre o mundo. Alguns veem ainda nele um continuador da Criação, que Deus não teria acabado, mas uma tal concepção da Criação é tão diferente da concepção tradicional que ela equivale a negar Deus: se Deus criou o mundo “no tempo”, e não continua a “criá-lo a cada instante”, segundo o conceito exato de criação, então Deus não é “Criador”, e negar um de seus atributos equivale a negá-lo por inteiro. De uma forma geral, uma cosmologia não tradicional, evolucionista por exemplo, conduz fatalmente a uma ideia falsa de Deus, e consequentemente à sua negação.
Assim, sob qualquer forma que se a considere, a “nova religião” é essencialmente ateia. Tudo o que é sagrado — considerado aliás pelos partidários da “fé sem religião” como uma sobrevivência do Judaísmo e do paganismo — não pode então senão desaparecer rapidamente. Não se vê nestas condições por que se fala ainda do Sacerdócio, da “crise das vocações”, do estatuto clerical, etc. Tudo isso é chamado a desaparecer.
Restará portanto uma pseudorreligião, a “religião do Homem”, cuja existência será tão efêmera quanto o “reino do Anticristo” no “fim dos tempos”. E seu declínio já é anunciado pelos estruturalistas que preveem a “morte do homem”. Depois disso, não restará evidentemente mais que a “morte do Cosmos”, ou seja precisamente “o fim do mundo” ao qual se acaba de fazer alusão.
É bem evidente que se “Deus está morto”, ao menos na consciência do homem, nem a Igreja, nem a religião, nem o homem, nem o mundo, podem lhe “sobreviver” por muito tempo. Se se objeta que Deus não está “morto” em si mesmo, mas apenas na consciência do homem, e que a relação ontológica entre Deus e a alma imortal não poderia ser afetada por uma “atitude de conhecimento”, responder-se-á que em virtude da identidade do Ser e do Conhecer, toda deterioração na ordem do Conhecimento tem sua repercussão, se não na ordem do Ser enquanto tal, ao menos na ordem da Existência, da qual o Ser é o Princípio.
O homem enquanto ser não pode certamente desaparecer ou ser aniquilado (o que se exprime correntemente falando da imortalidade da alma), mas é enquanto existente a diferentes níveis, ou graus de realidade, que ele pode “morrer”. Em outros termos, é por uma ou outra de suas modalidades que o homem pode morrer: a morte no sentido ordinário não é senão o desaparecimento da modalidade corporal do homem, do mesmo modo que a “segunda morte” da qual fala o Apocalipse (XX, 14), não é senão o desaparecimento de sua modalidade psíquica, mas o ser do homem não poderia morrer. Compreende-se assim que a morte corporal possa ter sido a consequência do “pecado original”. Ora tudo o que se acaba de dizer do homem individual se aplica à humanidade por inteiro: no “fim dos tempos” é uma modalidade da humanidade ou a “presente humanidade” que desaparece, e concebe-se que esta, chegada a um grau de ateísmo total, — ainda não se está lá — seja condenada à morte. Dito de outro modo, a humanidade total, no nível do Ser, não pode desaparecer, mas uma humanidade parcial pode morrer, e uma outra humanidade pode nascer em condições cósmicas totalmente diferentes evocadas pelo “novo céu e a nova terra” dos quais fala o Apocalipse; entre os dois no entanto, não há continuidade a bem dizer, ou seja segundo o modo do qual a concebemos ordinariamente: não pode haver senão uma continuidade analógica.
