Morte Intelecto
Abade Stephane. Introduction à l’ésotérisme chrétien I. Paris: Dervy-livres, 1979
Os trabalhos de exegese escriturística têm algo de monstruoso, como todas as produções modernas. Concebe-se que um tal desregramento mental só pôde nascer nos cérebros que já haviam prodigalizado as elucubrações nebulosas do idealismo, e deviam em seguida nos esmagar sob montanhas de erudição e de “cultura”. O protestantismo, que havia rompido com a Tradição, encontrava evidentemente aí seu terreno de eleição: o idealismo e o racionalismo tendo destronado “o intelecto”, não restava mais que perscrutar as Escrituras com métodos “científicos”. Mas aqueles que escaparam ao vírus do cientismo e do positivismo sabem a que se ater sobre o valor da ciência moderna: puramente convencional e axiomática no domínio das matemáticas, empírica e conjectural no das ciências da natureza e das ciências humanas, a ciência moderna não constitui um conhecimento verdadeiro; ela não acarreta nenhuma certeza, e ela só deve seu sucesso junto a um público materialista e hedonista a aplicações técnicas ou a desempenhos esportivos para o uso de “grandes crianças”. Os “contemplativos”, se ainda os há, só podem sorrir à vista de uma tal quermesse.
A aplicação dos métodos científicos modernos à Escritura Sagrada culmina geralmente em conclusões negativas ou, no máximo, hipotéticas, da ordem das probabilidades, e que só podem engendrar a dúvida ou o transtorno nos espíritos. Quando a Tradição ensina que a Terra é plana e quadrada e que o Céu é redondo, que as estrelas são as “modalidades corporais” dos Anjos, etc., esta Cosmologia constitui um quadro perfeitamente adaptado à Teologia, em razão de seu simbolismo natural e humano. Não é “humano” crer que a Terra gira em torno do Sol, e as teorias de Galileu e de Copérnico constituíam uma espécie de “esoterismo” cuja vulgarização só podia prejudicar a alma do povo. É demasiado fácil julgar a árvore por seus frutos! Hoje, alguns escritores não hesitam em dizer que na presença da Televisão, do Computador e das viagens à Lua, o homem ordinário não pode mais crer em Deus! Ele só pode crer mais no Homem! As pseudoteologias da “morte de Deus” se inscrevem perfeitamente neste contexto psicológico.
Da mesma forma, quando a Tradição ensina que o Pentateuco foi escrito por Moises, que a Epístola aos Hebreus é de São Paulo, que o Corpus dionysiacum é de São Dionísio o Areopagita, etc., ela cria o clima de ingenuidade e de credibilidade indispensáveis à fé dos simples, aqueles a quem “estas coisas” foram reveladas, enquanto elas foram escondidas dos sábios (cf. Mateus XI, 25).
Toda a Escritura Sagrada, a Arte sacra, a Legenda dourada, o “folclore” são, por assim dizer, tecidos de ingenuidade, em oposição à suficiência pretensiosa dos sábios. Naturalmente há diferentes “níveis” de ingenuidade: “Sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas” diz o Evangelho (Mateus X, 16). É preciso ser “ingênuo” em relação ao espiritual e “prudente” em relação ao mundo. Em outros termos, qual é o mais “ingênuo”: aquele que crê que Moisés escreveu o Pentateuco, ou aquele que se fia nos métodos da ciência moderna?
Seja como for, os Padres da Igreja não tinham necessidade das “ciências humanas” para se elevarem “até o mais alto cume das Escrituras místicas” (São Dionísio, Teologia mística). Se o obscurecimento do intelecto condena os teólogos modernos a submeter a Escritura Sagrada a um tratamento cirúrgico, ao preço de trabalhos gigantescos, não há do que se felicitar por isso. É preciso saber reconhecer que o “progresso” do pensamento, que é de ordem humana, só pôde se fazer em detrimento do intelecto. São Tomás de Aquino diz que o intelecto em nós não é “nada de outro senão uma certa participação de similitude à Luz incriada na qual estão contidas as razões eternas das coisas”. Em um sentido, os teólogos que proclamam “a morte de Deus” reconhecem de fato “a morte do intelecto”, e nisso eles se mostram os fiéis continuadores de Kant.
Objetar-se-á então que, se assim é, não há mais que se resignar a utilizar os métodos da ciência moderna, o que equivale a apresentar em particular a Escritura Sagrada (assim como a cosmologia e a teologia) em uma linguagem adaptada à mentalidade atual.
Toda a questão é então saber se este aggiornamento não acarreta uma desnaturação, uma falsificação ou ao menos uma desvalorização das “coisas santas”. A dissecação que se aplica à Escritura Sagrada parece tão “sacrílega” quanto se se examinasse uma hóstia consagrada ao microscópio na esperança de nela encontrar o Corpo do Cristo! Mais uma vez, se se está lá, não há razão para se glorificar. A ingenuidade e a ignorância “científicas” da Idade Média permitiam seguramente melhor o funcionamento do intelecto. Este, aliás, não está “morto” senão em aparência; ele está enterrado no coração do homem sob uma montanha de erros e de paixões paralisantes, e ele só pode ser acordado pela Revelação e purificado pela Graça. Em vez de exercer o pensamento humano, impotente para apreender a verdade espiritual, não valeria mais “fazer penitência” e “aplanar os caminhos do Senhor”, para abrir o caminho da Graça? Se o intelecto, purificado pela Oração (cf. Evagrio o Pôntico) recobrasse ao menos parcialmente a inocência paradisíaca, nossos exegetas nem mais sonhariam em identificar o autor da Gênese, e nossos sábios se preocupariam muito pouco com a rotação da Terra; eles reaprenderiam a “ler” com a inteligência (intus legere) os primeiros versículos da Gênese, o Ícone da Theotokos, o Portal Real de Chartres, a Legenda dourada, etc., e adquiririam assim a certeza da verdade.
