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Genealogias Jesus

Abade Stephane. Introduction à l’ésotérisme chrétien I. Paris: Dervy-livres, 1979

A questão das duas genealogias do Cristo apresenta algumas dificuldades cuja solução conduz a observações interessantes. As diferenças entre a de São Mateus (cap. I, versículos 1 a 17) e a de São Lucas (cap. III, versículos 23 a 38) se explicam geralmente da seguinte maneira: São Mateus dá a genealogia legal, São Lucas dá a genealogia natural. A primeira é portanto a de São José, a segunda a de Maria. Mas esta não é mencionada por São Lucas; o texto diz: “Jesus era, como se cria, filho de José, filho de Heli”. Ora entre os judeus, os nomes de Heli, de Eliakim e de Joaquim são sinônimos; trata-se portanto de Joaquim, pai de Maria. Se se olha José como o filho de Joaquim (Heli), é ainda em razão de um uso judeu, em virtude do qual os homens que desposavam filhas herdeiras (é o caso de Maria) eram inscritos nos quadros genealógicos como os verdadeiros filhos de seus sogros. O Talmude reconhece também que a genealogia de São Lucas é a de Jesus por sua mãe: ele chama Maria, filha de Heli.

Além disso a tradição concorda em reconhecer que José e Maria eram primos, de modo que as duas genealogias são tanto a de Maria quanto a de José. Ora elas ambas culminam em Davi por duas séries de nomes quase todos diferentes (salvo Salatiel e Zorobabel); é o que permite olhar a genealogia segundo São Mateus como legal e a outra como natural, neste sentido que um indivíduo tinha frequentemente dois pais, um legal e um natural, em virtude da lei judia do “levirato”: se um homem morresse sem deixar filho, seu parente mais próximo desposava sua viúva para lhe suscitar uma posteridade, e o filho, filho natural do segundo marido, era filho legal do primeiro. Assim Jeconias e Neri eram respectivamente o pai legal e o pai natural de Salatiel.

A figura abaixo resume a situação:

Finalmente, os Evangelistas quiseram dar a genealogia de Jesus sob dois aspectos diferentes, mostrando que ele era o herdeiro de Davi não somente legalmente, mas por natureza.

Mas do ponto de vista teológico, as duas genealogias exprimem, à sua maneira, o dogma das duas naturezas do Cristo: a natureza divina e a natureza humana, unidas na Pessoa do Verbo. A genealogia legal corresponde à natureza divina pois ela parte de Abraão, pai do Povo eleito, e se situa consequentemente na ordem da Graça, enquanto que a genealogia natural remonta a Adão, e se situa na ordem natural. No entanto não há separação estanque entre as duas ordens, como indica a genealogia segundo São Lucas que se termina por estas palavras: filho de Adão, filho de Deus. Deus é tanto o autor da natureza quanto da Graça, e Jesus é filho de Deus tanto por Adão quanto por Abraão.

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