Só Deus é bom
LOGIA — Só Deus é bom… (Mt 19,16-22; Mc 10,17-23; Lc 18,18-23)
Ressalta neste dito de Jesus, como nos demais ditos sempre voltados à orientar nossa vida interior, a «pretensão» do jovem rico. Já ao se dirigir a Jesus chamando-o de «bom» denuncia a projeção de seu orgulho que em seguida vai se declarar abertamente, por afirmar categoricamente que desde sempre pratica os mandamentos (ascese de dificílima prática espiritual). Assim, cheio de compaixão, Jesus lhe indica que só resta ele se desfazer de toda sua «pretensão» (Riqueza), dando aos pobres (dando esta energia mal direcionada, ao que nele há de Divino, que vive em pobreza, diante de sua ostentação), e assim segui-lo (v. Segue-me).
Jean-Claude Larchet: TERAPÊUTICA DAS DOENÇAS ESPIRITUAIS
Também se pode destacar, como fundamento do orgulho, outra perversão relacionada à que acabamos de ver. A atitude normal do homem, ao realizar ou constatar em si algum bem, é atribuí-lo a Deus, vendo nele um dom e dando graças ao Doador, o princípio e o fim desse bem, como de todo bem. O próprio Cristo nos dá o exemplo dessa atitude normal, dizendo a um homem que o chama de «Bom Mestre»: «Por que me chamas de bom? Ninguém é bom, a não ser Deus» (Mc 10, 17-18). O orgulhoso perverte essa atitude: atribui o bem a si mesmo, tornando-se seu princípio e fim, e dando graças a si mesmo. Diz São Máximo: «utilizamos o bem para que venha o mal».
Marco Pallis: LUZES BÚDICAS
O Cristo declara certa ocasião: «Por que me chamas de bom?» O que de fato ele afirmava por estas palavras era a autenticidade de sua própria condição humana em presença de sua Divindade essencial. Quando é dito do Cristo que ele é «verdadeiro Deus e verdadeiro homem», isso implica necessariamente, em relação ao segundo termo, uma limitação existencial, logo também certo aspecto de imperfeição inseparável do que é relativo enquanto tal. Se não houvesse um tal limite assim que o exprima o fato que o Filho do Homem, Jesus, teve a possibilidade de devir e de sofrer, a humanidade do Cristo não permaneceria senão um simples espectro — houveram Seitas para sustentar opinião parecida — e sua encarnação não teria tido sentido. Eis porque vemos na pessoa do Cristo a figura perfeita da humanidade compreendendo também suas limitações. A quididade do homem, por definição, não é a quididade de Deus; por conseguinte ele não poderia ser chamado «bom» de próprio direito, mas somente enquanto revela a perfeição divina, a princípio pelo fato de existir e em seguida por seu simbolismo.
Em termos puramente metafísicos, esta verdade do Cristianismo pode ser expressa sucintamente dizendo que no Cristo se encontram a perfeição absoluta e a perfeição relativa. A interseção da cruz é o símbolo de sua coincidência perfeita.
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 95
O desprendimento, o desapego, a renúncia (v. Renuncia) é o sentido profundo, oculto, da reflexão de Jesus por motivo da deserção daquele jovem que não resultou capaz de abandonar suas riquezas. Nenhuma alma enriquecida, guarnecida nos tesouros de sua vestimenta terrena, entrará no Reino de Deus. Para entrar por essa Porta Estreita é necessário que a alma se tenha lavado antes na pobreza absoluta; nessa pobreza que consiste em não ser nada, em só ser a essência de si mesma — o que é como nada no mundo — sem mescla de outra coisa. Mas isso é um minguamento, uma negação, difícil de obter.
Segundo conta o evangelista disseram alguns: “Pois quem poderá se salvar?” E a resposta de Jesus: “O impossível para os homens é possível para Deus”.
É certo que a porta é demasiado estreita para a alma, mas quando ela se dobra no silêncio de si mesma, quando aceita sua negação, recebe o espírito, a essência da alma, a unção do Espírito de Deus que se une a ela.
Depois, o espírito, Glorificado em Espírito, vem com sua chuva a fortalecer a alma e enchê-la de sabedoria: vem satisfazê-la com o tesouro celestial, “porque a graça de Deus está sobre ela”.
