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Gnósticos

BRAKKE, David. The Gnostics: myth, ritual, and diversity in early Christianity. Cambridge (Mass.): Harvard University Press, 2010.

  1. O Evangelho de Judas, publicado em 2006, causou impacto global ao apresentar os discípulos originais de Jesus como adoradores iludidos de um deus falso e Judas como o único que compreendia verdadeiramente Jesus e avançava sua missão ao facilitar sua prisão e crucificação.
  2. O bispo Irineu de Lião, por volta do ano 180, já havia mencionado o Evangelho de Judas, classificando-o como fabricação demoníaca dos gnósticos e afirmando que todas as versões alternativas do cristianismo, por mais diversas que fossem, derivavam de um único mestre demoníaco, Simão Mago, e manifestavam a falsa gnose contra a qual Paulo advertira em sua carta a Timóteo.
  3. Tanto Irineu quanto os estudiosos modernos que descrevem o Evangelho de Judas como o avesso do cristianismo operam com uma concepção implícita de cristianismo normativo, embora os produtores e leitores do evangelho se considerassem os verdadeiros cristãos — o que revela que sua exclusão do cânone não foi historicamente inevitável, mas resultado de um processo complexo de competição entre formas diversas de cristianismo.
  4. Um dos principais desafios para quem estuda o cristianismo antigo é compreender simultaneamente a coerência e a diversidade de uma tradição religiosa que acabou estabelecendo uma ortodoxia, ainda que nunca de modo completo e sem contestação, tornando difícil imaginar como o Evangelho de Judas poderia ter sido considerado genuinamente cristão.
  5. O legado de Irineu moldou a historiografia de duas maneiras persistentes: pela ideia de que o cristianismo partiu de uma forma única que depois se diversificou equivocadamente, e pela caracterização de todos os grupos que condenou como manifestações de uma única gnose falsa — pressupostos que scholars modernos como Adolf von Harnack reproduziram ao narrar a essência do evangelho original corrompida pela helenização.
  6. A visão iriniana espelha ortodoxia e heresia simetricamente — ambas originadas num único fundador e transmitidas por cadeia de sucessores —, com a diferença crucial de que os bispos ortodoxos preservavam a verdade sem alterá-la, enquanto os mestres heréticos constantemente modificavam e elaboravam seus ensinamentos, tornando a diversidade uma marca exclusiva da heresia.
  7. Estudiosos modernos que agrupam movimentos antigos sob a categoria gnosticismo replicam a noção iriniana de gnose falsa, mas negligenciam sua cuidadosa demarcação da diversidade interna, chegando às vezes a afirmar que o gnosticismo era uma religião independente que precedia o cristianismo e incluía o maniqueísmo e o mandeísmo, religiões surgidas séculos depois.
  8. Walter Bauer demonstrou em 1934 que formas de cristianismo posteriormente declaradas heréticas precediam em certas regiões o que viria a ser a ortodoxia, e suas intuições centrais — diversidade desde o início, desenvolvimento regional diferenciado, emergência da ortodoxia como resultado de luta real, com a ideia de uma única ortodoxia nascendo em Roma e se espalhando posteriormente — tornaram-se a base do modelo das variedades do cristianismo primitivo.
  9. No modelo das variedades do cristianismo primitivo, comparável a uma corrida de cavalos, numerosas comunidades cristãs independentes competem entre si sem que nenhuma possa reivindicar com exclusividade a autenticidade de verdadeiro cristianismo, até que a proto-ortodoxia emerge como vencedora após longo período de disputa, posicionando-se para ser adotada por Constantino no século IV.
  10. A metáfora da guerra, presente no livro Cristianismos perdidos de Bart Ehrman, apresenta os gnósticos, os marcionitas e outros como perdedores literais de uma batalha travada com arsenal de armas como a sucessão apostólica, a regra de fé e o cânone bíblico, preservando a ideia central de competição e luta entre grupos cristãos diversos com a proto-ortodoxia saindo vitoriosa.
  11. O modelo das variedades do cristianismo primitivo representa avanço real sobre o paradigma iriniano por reconhecer a diversidade e não privilegiar a priori o grupo vencedor, mas apresenta limitações sérias: convida à busca das características que garantiram o triunfo da proto-ortodoxia, sugerindo implicitamente sua superioridade, e trata os grupos como entidades discretas e estáveis com fronteiras claras semelhantes a marcas de cereal competindo numa prateleira.
  12. A proto-ortodoxia era ela própria altamente diversa e, em muitos aspectos, pouco ortodoxa — Clemente de Alexandria compartilhava mais pressupostos com Valentino do que com Irineu, e o próprio Irineu descrevia uma série de sete céus e traçava bênçãos de Deus genealogicamente pelos filhos de Noé, elementos que condenava nos gnósticos.
  13. Uma abordagem emergente centra-se na formação de identidade como processo discursivo e prático, investigando as estratégias pelas quais indivíduos e grupos buscavam definir-se, construir fronteiras e criar comunidade, deslocando o foco das variedades estáveis de cristianismo para os processos dinâmicos pelos quais identidades cristãs eram continuamente criadas e transformadas.
  14. O hibridismo, primeiro dos três temas que caracterizam essa nova abordagem, substitui o antigo conceito de sincretismo ao destacar a desigualdade cultural no interior de um império e os modos pelos quais culturas dominantes e subordinadas interagem mutuamente para criar formas culturais novas que nunca são puras — o que problematiza a caracterização dos gnósticos como especialmente sincréticos e revela o caráter híbrido de figuras proto-ortodoxas como Irineu.
  15. A retórica, segundo tema central, revela que cristãos como Justino Mártir partilhavam amplamente da cultura helenística e romana mesmo ao contestá-la, enfrentando o desafio de afirmar uma diferença que sua retórica precisava construir mais do que simplesmente refletir, sendo a invenção da heresia por Justino melhor compreendida no contexto mais amplo das tentativas helenísticas de relacionar verdade universal e crenças locais.
  16. A etnicidade, terceiro tema, mostra como cristãos utilizavam linguagem racial e étnica — chamando-se de terceira raça ou semente de Sete — para estabelecer identidade e construir fronteiras, revelando a conexão inextricável entre religião e identidade étnica na cultura antiga e iluminando autoidentificações gnósticas como a semente de Sete.
  17. Esses três temas tornam problemático o modelo das variedades do cristianismo por dissolverem as distinções entre grupos, mas a ansiedade acadêmica em torno da reificação de categorias não deve paralisar os esforços para descrever distinções sociais e religiosas reais entre cristãos antigos, pois a coerência das comunidades imaginárias era algo repetidamente reivindicado e construído em textos e rituais, não algo simplesmente dado.
  18. É necessário distinguir entre categorias interpretivas — como judaísmo apocalíptico, que agrupam fenômenos para fins de comparação sem implicar identidade de grupo — e categorias sociais — como cristianismo joanino, que procuram corresponder a como pessoas antigas se organizavam —, embora na prática quase todas as categorias acadêmicas sejam híbridas das duas, e a confusão entre elas gere os principais problemas historiográficos.
  19. O gnosticismo é o exemplo mais destacado de categoria que, por confusão sobre sua função, perdeu utilidade: Henry More inventou o termo no século XVII para todas as heresias que Irineu atacara, e os séculos seguintes expandiram progressivamente seu alcance até incluir movimentos tão diferentes quanto valentinianos, maniqueus e mandeanos, produzindo uma categoria que ao mesmo tempo diz demasiado e demasiado pouco.
  20. A conferência de Messina de 1966 tentou definir o gnosticismo por uma série coerente de características — centelha divina no ser humano, movimento descendente do divino para recuperar energia perdida, dualismo sobre fundo monista —, concluindo que ele não pertencia ao mesmo tipo histórico e religioso que o judaísmo ou o cristianismo do Novo Testamento, mas poderia ser ligado às Upanishads indianas e aos cátaros medievais.
  21. Kurt Rudolph, em obra de 1977 que se tornou leitura obrigatória para estudantes de cristianismo antigo, narrou um gnosticismo de escopo vertiginoso como religião independente que se diversificou desde Simão Mago até o maniqueísmo e o mandeísmo, exemplo de categoria interpretiva que se transformou inadvertidamente em categoria social postulando uma religião contínua cujos adeptos provavelmente não se reconheceriam uns nos outros.
  22. Michael Williams demonstrou que o gnosticismo, tal como concebido pela historiografia, incluía tradições por demais diversas para constituir um movimento coerente, desconstruiu clichês sobre reversão bíblica, parasitismo religioso e libertinismo ou ascetismo extremo, e propôs a categoria interpretiva tradições demiúrgicas bíblicas — que se revelou abrangente demais por incluir praticamente todo judeu ou cristão com interesse filosófico.
  23. Karen King acrescentou à crítica de Williams uma dimensão ética: o gnosticismo reproduz o discurso antigo de ortodoxia e heresia, marginaliza vozes alternativas e empobrece os recursos teológicos disponíveis para o presente, razão pela qual advoga leituras próximas de textos individuais em vez de agrupamentos tipológicos, resistindo à maioria das tentativas de delinear movimentos ou subculturas dentro do guarda-chuva do cristianismo.
  24. As propostas tipológicas de Markschies, Marjanen e Meyer buscam reter um gnosticismo heurístico sem postular uma religião independente, mas pecam por isolar motivos doutrinários fragmentários — deus criador ignorante, origem transcendente da alma, ênfase em conhecimento místico — de mitologias complexas e atribuir centralidade a características que os próprios autores antigos, como Ptolemeu valentiniano ou o autor do Livro Secreto, provavelmente não reconheceriam como o núcleo de seus ensinamentos.
  25. Birger Pearson argumenta em sentido contrário que o gnosticismo era de fato uma religião autônoma, aplicando as sete dimensões da religião de Ninian Smart aos textos de Nag Hammadi e incluindo os mandeanos no corpus gnóstico, mas sua argumentação é frágil por mostrar apenas que esses materiais podem ser analisados como religiosos, não que constituem uma única religião independente, e por estabelecer um limiar muito baixo de continuidade para incluir o maniqueísmo no gnosticismo.
  26. Em vez do gnosticismo como categoria tipológica, seria preferível que os historiadores identificassem e descrevessem um movimento gnóstico cujos membros se reconheciam como tais — designados assim por outros, incluindo Irineu —, compartilhando mitologia e ritual distintos, recuperando o adjetivo gnóstico como categoria social sem sucumbir à rigidez de fronteiras, essencialização e reificação que preocupam os estudiosos contemporâneos.
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