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Shenoute
BRAKKE, David. Demons and the making of the monk: spiritual combat in early Christianity. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2006.
- O monge Shenoute, líder do Mosteiro Branco no Egito do século IV, confrontou o ex-governador Gesios, que realizou um ritual pagão nas ruínas de um templo que o próprio Shenoute havia queimado, denunciando-o publicamente como adorador de Satanás e opressor dos pobres, em um episódio que ilustra o papel do monge como profeta que expunha a hipocrisia religiosa e a injustiça social.
- Shenoute ingressou no Mosteiro Branco por volta dos vinte anos, tornou-se seu líder em 385 após um período de conflito e retiro no deserto, e sob sua direção a comunidade cresceu para milhares de membros em uma federação de três mosteiros, sendo lembrado até hoje pela Igreja Copta.
- Os escritos copta de Shenoute, reconstruídos modernamente, são compostos pelos “Cânones” (nove volumes disciplinares para os monges) e pelos “Discursos” (oito volumes com sermões e cartas para diversos públicos), cujo quarto volume, sobre o diabo e a luta pela virtude, é fundamental para o estudo de sua demonologia.
- Shenoute afirmava que Satanás era o “pai” de pagãos, hereges e cristãos pecadores, com quem se uniam de forma orgânica, mas também enfatizava o livre-arbítrio humano e a impotência final do diabo, cujos ataques se resumiam a pensamentos, usando uma retórica flexível que explorava os efeitos polarizadores da demonologia para cumprir seu dever profético de separar o santo do impuro.
- O pensamento de Shenoute era dominado por um dualismo escatológico, no qual o julgamento final dividiria a humanidade entre os que vão para Cristo e os que vão para Satanás, uma clareza que ele buscava aplicar ao presente confuso, expondo o mal oculto e forçando as pessoas a fazer uma escolha simples entre o bem e o mal, entre a glória e a vergonha eternas.
- A carreira profética de Shenoute começou quando, como monge comum, recebeu revelações divinas sobre um pecado grave (provavelmente homoerótico) cometido por um monge em posição de autoridade e encoberto por outros, e, após ser inicialmente rejeitado pelo pai do mosteiro e sofrer acusações, acabou vindicado quando um segundo incidente veio à tona, tornando-se o novo líder.
- Esse incidente inicial marcou profundamente Shenoute, fazendo do pecado homoerótico o arquétipo da violação de categorias, levando-o a atacar líderes cristãos negligentes, a condenar a hipocrisia e o encobrimento de pecados, e a rejeitar a ideia de que a vida monástica (simbolizada pelo “muro”) garantia automaticamente a salvação, pois Satanás podia agir de dentro.
- Shenoute modelou sua identidade como profeta nos profetas hebraicos, assumindo o papel de “voz que clama no deserto” para expor pecados ocultos, denunciar a adoração de outros deuses e defender os pobres, mantendo-se como um “estranho” crítico mesmo após décadas de liderança, recusando-se a usar sua clarividência para fins mundanos, como revelar ladrões, e preferindo expor a falta de clareza religiosa na região de Panópolis, dividindo as pessoas entre Deus e Satanás.
- Gesios, o ex-governador rico e severo que tentava conciliar o cristianismo com a religião tradicional, tornou-se o alvo principal da campanha profética de Shenoute, que o denunciou como um criptopagão e opressor, realizando atos públicos dramáticos e envolvendo-se em uma longa batalha de discursos e invasões para expor sua falsidade, aplicando a clareza do julgamento final à ambiguidade do presente.
- O Satanás de Shenoute era uma figura informe e escorregadia, que escapava à definição e à detecção, assumindo várias aparências (como animais, lugares ou pessoas), mas sem pertencer a nenhuma delas, encarnando o estado confuso de ambiguidade moral que tanto irritava Shenoute, que preferia uma linguagem gráfica a conceitos abstratos para descrever tal inimigo.
- Shenoute via Satanás como uma criatura caída, um anjo tornado besta por sua arrogância, enfatizando que sua queda não foi verdadeira, pois foi amaldiçoado desde a criação, e que, embora derrotado e enfraquecido por Deus e por Cristo, ele continua a existir e a testar a humanidade por permissão divina para que os justos possam se distinguir e ser recompensados, sendo a escolha livre a causa do pecado, tanto para anjos quanto para humanos.
- O diabo derrotado, comparado a um soldado desmembrado, tem seu poder limitado ao “sopro” ou pensamentos, que são sua principal arma contra os humanos, e sua fraqueza é um contraste com a sua natureza mortal e a necessidade de os crentes lutarem contra ele para alcançar a glória.
- Apesar de sua fraqueza, Satanás e seus demônios são descritos como inimigos ferozes e cruéis, usando imagens de animais (como a sanguessuga, o gato e a cobra) para ilustrar sua insaciabilidade, astúcia e capacidade de destruir a alma, e Shenoute interpreta as referências bíblicas a “bestas” como referências a demônios.
- A cobra, em particular, é o modelo mais adequado para Satanás, combinando fraqueza (sem braços ou pernas) com veneno mortal e truques astutos, e seu comportamento e as estratégias humanas para lidar com ela ensinam como combater o diabo, como mostra a analogia entre o tratamento de uma picada de cobra e a cura da alma pecadora através da correção divina.
- A relação íntima entre a cobra e Satanás, forjada no Gênesis, faz com que a cobra sirva como metáfora para os humanos que servem ao diabo, e Shenoute argumenta que o poder de Satanás no mundo se manifesta através dos pecadores que se tornam seus “instrumentos” e “moradas”, formando uma solidariedade orgânica com ele, descrita com metáforas de parentesco, indwelling e nascimento, criando uma espécie de “antifamília” monástica.
- Shenoute concebia o pecado como uma poluição ou doença contagiosa, comparando a dureza do coração do pecador à lepra, que se espalha como veneno de cobra pelos membros do corpo monástico, e essa visão orgânica apoiava sua política de expulsão de monges pecadores, mas também a possibilidade de reabilitação, já que os indivíduos poderiam se curar e se divorciar de Satanás.
- A demonologia de Shenoute, que via o poder de Satanás apenas através dos pecados humanos, baseava-se na Bíblia e na “Vida de Antônio”, de Atanásio, e sua exegese do “dragão” no livro de Jó interpreta as características do monstro como referências a hereges e pagãos, mostrando que o poder do diabo é mediado por seus seguidores humanos, como Gesios.
- Shenoute argumentava que Deus permitia a existência de Satanás para que os humanos pudessem triunfar sobre ele e provar sua retidão, e o papel do diabo na vida espiritual era o de colocar “armadilhas” e “laços” (como falsos mestres ou os próprios desejos) para capturar as almas, usando três armas principais: provações, ilusões e pensamentos, todas resistíveis com disciplina ascética e ajuda divina.
- Shenoute distinguia entre provações (sofrimentos físicos e perseguições), que vêm com a permissão de Deus e devem ser suportadas, e tentações para pecar, que devem ser combatidas, e via a ascese como uma provação autoimposta que, se suportada com paciência, traz recompensa e revela a verdadeira liderança.
- As aparições visuais do diabo são consideradas ilusões, pois ele é sem forma, e Shenoute advertia que qualquer aparição de anjo ou espírito deve ser suspeita, pois Deus fala internamente, e as ilusões mais perigosas são as que assumem formas enganosas (como um “misericordioso” ou um “anjo de Deus”) ou horripilantes em sonhos.
- O relato de Shenoute sobre sua luta com um “oficial” demoníaco, que o atacou por expulsar monges pecadores, ilustra e contradiz suas afirmações sobre aparições, pois a luta física provou ser um teste para discernir se a visão era de Deus ou do demônio, e a experiência o convenceu da justeza de sua ação, embora sua defesa do combate físico com um possível anjo pareça contradizer sua visão de que as tentações são internas.
- O combate espiritual, para Shenoute, consiste principalmente em resistir aos pensamentos do diabo, e ele descreve um conflito entre dois grupos de pensamentos (bons e maus) ou entre um pensamento de Satanás e um de Cristo, sem a complexidade de Evágrio, e acredita que o coração pode se tornar como uma pedra lisa, resistente às sugestões demoníacas.
- Shenoute sustentava que os humanos sempre podem escolher o bem, e o pecado só seduz se a vontade o “preceder”, sendo a ignorância a causa do pecado para os pagãos, mas os cristãos, que conhecem o julgamento de Deus, são responsáveis por suas escolhas, e ele rejeita a ideia de que, sem o diabo, todos seriam bons, defendendo a permissão divina de Satanás como uma oportunidade para os humanos provarem seu valor e ganharem a glória eterna.
- A vida monástica, chamada de “labor” ou “sofrimento”, é o meio mais eficaz para derrotar o diabo, e as práticas ascéticas (jejum, oração, vigílias) são o “equipamento de batalha”, mas são inúteis se os monges não evitarem o pecado, e a demonologia servia para reforçar a adesão às regras do mosteiro e explicar os conflitos internos, com os líderes monásticos desempenhando um papel crucial.
- Embora Satanás assombre o mosteiro, os monges contam com a ajuda de Deus, Jesus e dos anjos, e a comunidade monástica é vista como um “céu na terra”, o que torna ainda mais decepcionante quando um monge pensa em coisas demoníacas, mas Shenoute confia que, com a ajuda divina e a bondade natural da humanidade, os monges podem resistir.
- A abordagem dualista de Shenoute, que contrasta radicalmente com a sutileza de Evágrio, pode parecer simplista, mas não se deve esperar que ele fosse um guia espiritual sensível, pois sua era uma “voz de além”, profética e autoritária, que respondia a uma falha profunda em sua comunidade e à desordem moral que via ao redor, usando a demonologia para criar diferença e verdade, como exemplifica a conversão de um templo pagão e a exortação à mudança pessoal.
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