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Combate interior
BRAKKE, David. Demons and the making of the monk: spiritual combat in early Christianity. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2006.
- A imagem de Arsênio em oração solitária, de costas para o sol nascente até que a luz incidisse sobre seu rosto, evoca uma dimensão do monasticismo que o argumento central do livro pode ter obscurecido: a alegria, a fraternidade e a comunhão com Deus que também constituíam a experiência monástica.
- O combate com os demônios não era um aspecto periférico da identidade monástica, mas seu núcleo constitutivo: o monge se entendia como combatente na linha de frente de uma batalha cósmica entre o bem e o mal, herdando simultaneamente os papéis do mártir, do gnóstico e do profeta.
- A literatura monástica egípcia tornou-se a fonte principal da demonologia para os monges de toda a bacia mediterrânea, tanto no Oriente grego quanto no Ocidente latino, com a Vida de Antônio e os Ditos dos Padres do Deserto servindo como referências centrais para compreender as experiências de tentação, ansiedade e tristeza.
- Evágrio, condenado no Segundo Concílio de Constantinopla em 553, sobreviveu no Oriente por meio de traduções siríacas e armênias e de obras transmitidas sob outros nomes, e sua influência sobre João Clímaco e Máximo Confessor foi profunda, ainda que estes o criticassem explicitamente quando o citavam.
- No Ocidente latino, João Cassiano tornou-se o principal mediador da herança monástica egípcia, e sua Instituições e Conferências, recomendadas pela Regra de Bento de Núrsia, transmitiram os ensinamentos de Evágrio a gerações de monges ocidentais, porém com transformações significativas que respondiam às questões teológicas colocadas por Agostinho de Hipona sobre o livre-arbítrio e a graça.
- Cassiano apresenta as Instituições e as Conferências como sínteses dos ensinamentos monásticos egípcios, combinando material genuíno aprendido no Egito com elaborações originais voltadas para as preocupações dos monges da Gália do início do século V.
- A apatheia evagrina tornou-se em Cassiano pureza do coração, conservando o conteúdo mas eliminando o vocabulário técnico comprometido pela condenação origenista.
- Cassiano reteve elementos essenciais da demonologia egípcia — a especialização dos demônios em vícios particulares, os ataques sequenciais de um único demônio por vez, a possibilidade de um anjo bom e um mau acompanharem cada pessoa —, mas subordinou o combate exterior com os demônios a um conflito interior permanente e divinamente ordenado entre o espírito e a carne, tal como Paulo o descrevera na carta aos Gálatas.
- Nas duas conferências dedicadas ao tratamento sistemático dos demônios, Cassiano, pela voz do abba Sereno, insiste em que os demônios não podem penetrar na alma nem interferir decisivamente em seu movimento interior, resguardando assim o espaço da liberdade humana frente às teses agostinianas sobre a vontade decaída.
- A transmissão cassianense da lista evagraniana dos oito pensamentos principais operou uma psicologização progressiva: ao distribuir os vícios em categorias como interno e externo, corporal e não corporal, natural e não natural, Cassiano iniciou a trajetória que eventualmente converteria os oito pensamentos demoníacos de Evágrio — coisas externas que atacam o monge — nos sete pecados capitais medievais — tendências que originam-se no próprio interior do ser humano.
- Como consequência de longo alcance dessa transformação, as práticas monásticas de exame de consciência e partilha de pensamentos com o abba deram origem ao sistema confessional e penitencial, que se expandiu para o laicato, enquanto os demônios migravam para o interior de um eu dividido e tornavam-se figura acessível a qualquer cristão — e, por fim, metáfora secular das tentações e ansiedades que a modernidade ocidental ainda chama de seus próprios demônios.
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