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Evágrio

BRAKKE, David. Demons and the making of the monk: spiritual combat in early Christianity. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2006.

  1. Em 383, Evágrio do Ponto chegou aos assentamentos monásticos de Nitria, no norte do Egito, depois que a Vida de Antônio de Atanásio circulou pelo mundo mediterrâneo e inspirou cristãos letrados, como o jovem Agostinho, a buscar modelos de virtude; nos dezesseis anos até sua morte, Evágrio tornou-se o mais importante teorizador da vida monástica, articulando uma psicologia ascética e uma demonologia que dominariam o monaquismo posterior, mesmo após sua condenação como herege origenista no século VI.
    • Atanásio de Alexandria — bispo e teólogo, autor da Vida de Antônio
    • Antônio — monge egípcio apresentado como modelo de virtude e derrota dos demônios
    • Agostinho — futuro bispo de Hipona, que em Milão reagiu com consternação ao ouvir a história de Antônio
    • Origenista — seguidor da teologia de Orígenes, condenada no século VI por suas especulações cosmológicas
  1. Evágrio levou ao estudo dos demônios uma formação teológica excepcional na tradição de Orígenes e uma experiência pessoal de tentação erótica devastadora, tendo sido ordenado leitor pelo bispo Basílio de Cesareia ainda jovem e servido como arquidiácono de Gregório de Nazianzo em Constantinopla, de quem herdou a adaptação da paideia grega clássica às vocações monástica e episcopal.
    • Basílio de Cesareia — bispo capadócio, ordenou Evágrio leitor na adolescência
    • Gregório de Nazianzo — bispo de Constantinopla, mentor de Evágrio; chamado por ele de “nosso sábio mestre” e “aquele que me plantou”
    • paideia — formação cultural e educacional da elite grega clássica, aqui adaptada ao ideal cristão monástico
    • Orígenes — teólogo alexandrino cujo pensamento fundamenta a narrativa da queda e retorno das criaturas racionais à unidade com Deus
    • Aristóteles, estoicos, platônicos — fontes filosóficas mobilizadas pelos capadócios e incorporadas por Evágrio
  1. A crise que encerrou o período de Evágrio em Constantinopla foi o apaixonamento por uma mulher casada com um alto funcionário imperial, situação que, após um sonho revelador, levou-o a fugir para Jerusalém e à comunidade monástica de Melânia, a Velha, e Rufino, onde sofreu um colapso físico e emocional superado somente após confessar o caso amoroso a Melânia, que o aconselhou a abraçar a vida monástica e o enviou ao Egito.
    • Melânia, a Velha — asceta cristã proeminente, seguidora de Orígenes, que acolheu Evágrio em Jerusalém e o direcionou ao monaquismo
    • Rufino — parceiro de Melânia na liderança da comunidade ascética de Jerusalém
  1. Chegando ao Egito com experiência direta da tentação erótica e da depressão, Evágrio encontrou em Nitria e depois em Kellia novos mestres monásticos — Amônio e os dois Macários — que o introduziram nas táticas dos demônios do deserto, numa continuidade formativa que se estende da Capadócia ao Egito, pois um origenismo monástico já existia no deserto antes de sua chegada.
    • Amônio — monge egípcio, um dos mentores de Evágrio no Egito
    • Macário, o Grande (Macário Egípcio) — monge influente, um dos “santos pais” que “regaram” Evágrio
    • Macário de Alexandria — teria introduzido Evágrio especificamente nas táticas dos demônios do deserto
    • Cartas de Antônio — fonte que comprova a existência de um origenismo monástico pré-evagriano no deserto
  1. Evágrio emergiu como mestre reconhecido em Kellia, reunindo os monges em discussões noturnas de sábado para que revelassem seus pensamentos e compartilhassem métodos de enfrentamento, e realizando sessões privadas com casos mais graves, sustentando-se como calígrafo; a originalidade de sua demonologia radica nessas tradições, não as nega.
    • Paládio — biógrafo e ex-discípulo de Evágrio, fonte principal sobre sua vida em Kellia
    • “círculo de Evágrio” — expressão usada por Paládio para descrever o conjunto de discípulos reunidos ao redor do mestre
  1. A tensão entre o intelectual urbano e o monge sem formação formal, que alguns usaram para marginalizar Evágrio, é por ele mesmo tratada com leveza, pois o monaquismo é concebido como um corpo de conhecimento prático e teórico transmitido desde figuras bíblicas como Davi, cujas partes mais avançadas — incluindo a natureza e a origem dos demônios — são reservadas ao monge “gnóstico”, ou seja, ao monge que conhece.
    • David — figura bíblica invocada como origem antiga do conhecimento monástico
    • gnóstico (gnostikos) — termo técnico evagriano para o monge avançado que contempla as naturezas das criaturas racionais e se encaminha para o conhecimento de Deus; não se confunde com o gnosticismo herético
  1. O Cristianismo, para Evágrio, é a doutrina de Cristo composta por três formas de conhecimento — prático, natural e teológico —, e o itinerário do monge percorre dois grandes estágios: o de praktikos, em que se conquista a liberdade das paixões (apatheia) por meio do autoconhecimento e do combate aos demônios, e o de gnostikos, em que a contemplação da criação e das criaturas racionais conduz ao conhecimento da própria Trindade.
    • praktikos — monge asceta em estágio prático, dedicado a vencer vícios e demônios para alcançar a apatheia
    • apatheia — estado de liberdade interior das paixões, que inclui tanto o autocontrole externo (enkrateia) quanto a serenidade interior livre de pensamentos apaixonados
    • agape — amor orientado ao outro, que floresce da apatheia e marca a transição ao estágio gnóstico
    • gnostikos — monge avançado que contempla o mundo material, as criaturas racionais e, por fim, a Trindade
  1. No esquema evagriano, o conflito com os demônios é essencialmente uma questão de pensamentos: a meta é eliminar os pensamentos malignos introduzidos pelos demônios para clarificar a visão e regressar ao conhecimento de Deus, e o conhecimento cada vez mais preciso dos demônios — identidades, estratégias, inter-relações, origem e natureza — confere ao monge domínio sobre eles e sobre suas próprias reações, de modo que a ciência dos demônios equivale funcionalmente a uma psicologia do eu interior, embora o olhar do gnóstico permaneça voltado para fora, fixado nos inimigos invisíveis e, sobretudo, na Trindade.
  1. A apatheia como meta do estágio prático revela a dívida de Evágrio com os estoicos, mas ele se afasta deles ao adotar, com os platônicos, a concepção de que a alma possui partes irracionais — concupiscível e irascível —, cujas energias não devem ser erradicadas, mas reorientadas: do desejo por corpos para o desejo por Deus e pelas virtudes; da agressividade contra os irmãos para a agressividade contra os demônios.
    • estoicos — escola filosófica grega que propunha a erradicação total das paixões como ideal de vida racional
    • platônicos — escola filosófica que reconhecia partes irracionais na alma e propunha sua moderação e reorientação, não sua extinção
    • parte concupiscível — dimensão desejante da alma, origem das paixões de luxúria, gula e avareza
    • parte irascível — dimensão agressiva da alma, origem da ira e do ressentimento; deve ser redirecionada contra os demônios
  1. Evágrio acredita que algumas paixões originam-se nas partes irracionais da alma — a concupiscível gera atração (luxúria, gula, avareza) e a irascível gera repulsa (ira, ressentimento) —, e a meta do conhecimento prático é curar essas partes para que produzam virtudes: da parte desejante, continência, caridade e temperança; da irascível, coragem e paciência; assim, a apatheia não é ausência de energias psíquicas, mas plenitude das virtudes.
  1. O ser humano, para Evágrio, originou-se como puro intelecto em contemplação de Deus, e somente pela queda primordial tornou-se alma encarnada; o centro do eu é o intelecto, não as partes irracionais compartilhadas com os animais, e o intelecto possui suas próprias paixões negativas — vaidade e orgulho — e suas próprias virtudes — prudência, entendimento e sabedoria —, de modo que purificar o intelecto para que retorne ao conhecimento de Deus é a tarefa definitiva do gnóstico, precedida pela purificação das partes irracionais pelo asceta.
  1. Os demônios, como os seres humanos, foram outrora intelectos em contemplação de Deus e se afastaram desse conhecimento, tornando-se criaturas dominadas pela irascibilidade, ao passo que os humanos são dominados pelo desejo; os demônios atacam o monge principalmente por meio de pensamentos — de gula, orgulho, avareza e outros — que são sinônimos dos próprios demônios e das paixões, de modo que Evágrio pode falar indiferentemente do “demônio da vaidade”, do “pensamento de vaidade” e simplesmente da “vaidade”.
  1. Evágrio não identifica completamente os demônios com os pensamentos e as paixões, pois ensina que o monge não controla o surgimento dos pensamentos demonicamente inspirados, mas controla se eles persistem e “colocam as paixões em movimento”, o que corresponde à distinção estoica entre a propatheia — impulso involuntário preliminar — e a paixão plena, distinção que Orígenes e Dídimo, o Cego, já haviam associado à sugestão diabólica.
    • Dídimo, o Cego — erudito asceta alexandrino contemporâneo de Evágrio, que identificou a sugestão de Satanás como uma propatheia no comentário ao Eclesiastes
    • propatheia — impulso pré-passional involuntário dos estoicos, que pode ser rejeitado ou deixado crescer em paixão plena
    • Judas — exemplo bíblico recorrente: Satanás primeiro “lançou no coração” de Judas o pensamento da traição (propatheia) e só depois “entrou nele” quando encontrou a propatheia persistida
  1. Para resistir às sugestões demoníacas, o asceta prático deve aprender a identificar os demônios pelos pensamentos que produzem, pois simplesmente nomear o demônio que se aproxima pode afastá-lo; daí o valor da famosa classificação evagriana dos oito pensamentos genéricos — gula, fornicação, amor ao dinheiro, tristeza, ira, listeza, vaidade e orgulho —, em que três formam a “linha de frente” do exército demoníaco — gula, amor ao dinheiro e vaidade —, dos quais dependem os demais, assim como Satanás tentou Jesus precisamente com esses três.
  1. Estudiosos modernos não encontraram fonte definitiva para a lista evagriana de oito pensamentos principais: os estoicos elegeram quatro paixões genéricas; uma versão influente do mito gnóstico adaptou esses quatro como “quatro demônios principais”; Orígenes esboçou hierarquias demoníacas com listas variáveis; os Testamentos dos Doze Patriarcas apresentam conjuntos de sete espíritos mais um oitavo — mas ninguém antes de Evágrio reuniu exatamente esses oito, e a contribuição da lista, dos números e das descrições é genuinamente sua.
    • Testamentos dos Doze Patriarcas — texto judaico pseudepígrafo; Rúben lista dois conjuntos de sete espíritos de engano e erro, mais um oitavo, o do sono
    • O Livro Secreto segundo João e O Livro de Zoroastro — textos gnósticos que adaptam as quatro paixões estoicas como quatro demônios principais com nomes esotéricos
  1. Nenhum autor anterior a Evágrio forneceu uma etnologia tão sistemática dos demônios, com descrições detalhadas de suas características, estratégias e métodos de resistência; quatro obras são centrais para isso: o Praktikos (visão geral da prática ascética), o Gnostikos e as Kephalaia Gnostica (destinados ao gnóstico), Oito Espíritos de Maldade (coleção de ditos sobre os demônios) e Falando de Volta — Antirrhetikos (versículos bíblicos com os quais o monge responde aos pensamentos demoníacos).
    • Praktikos — primeiro tratado da trilogia evagriana; introduz o estágio ascético prático
    • Kephalaia Gnostica — obra mais avançada, destinada ao gnóstico; trata das naturezas das criaturas racionais e da Trindade
    • Antirrhetikos (Falando de Volta) — coletânea de versículos bíblicos organizados por tentação demoníaca, para uso do monge em combate
  1. A gula, primeiro dos oito demônios, não se limita ao excesso alimentar, mas tenta o monge a abandonar toda a disciplina ascética — trabalho, vigílias, dieta restrita —, usando estratégias que vão de evocar os banquetes da vida anterior a sugerir acumular alimentos para os pobres ou para ocasiões festivas cristãs, e produz no monge uma ansiedade generalizada sobre o corpo, a saúde e o vestuário, sufocando a disposição de partilhar.
  1. A fornicação é um demônio muito mais focalizado, que compele o monge a desejar uma variedade de corpos femininos por meio de imagens visuais incessantes — em ilusões, sonhos e estímulo físico direto —, e os antídotos incluem jejum, redução de água e alimentos, evitar multidões em festividades, caminhar apressadamente pela cela em oração durante ataques severos e direcionar um pouco de irascibilidade contra o objeto de atração.
  1. O amor ao dinheiro é um demônio mais sutil e abre portas para outros vícios: explora a insegurança da existência temporal tentando o monge a acumular provisões contra enfermidades, fome e velhice, a manter vínculos com bens passados, a duvidar dos bens invisíveis e eternos, e até a transformar atos genuínos de caridade e administração comunitária em pretextos para a aquisição, culminando numa cadeia que entrega o monge ao demônio da vaidade e depois ao do orgulho.
  1. A tristeza ocupa a quarta posição na maioria das listas de Evágrio e resulta da frustração de um desejo ou da ira não saciada; como o demônio que mais diretamente se opõe à apatheia, ela pode contudo ter uma face positiva quando decorre da frustração do desejo pelas virtudes e pelo conhecimento de Deus, embora em sua forma prolongada leve o monge ao desânimo e ao retorno ao mundo.
  1. No Falando de Volta, a tristeza aparece com caráter diferente — como medo e falta de confiança diante dos demônios —, sob influência direta da Vida de Antônio de Atanásio, que retrata o monge como Jó paciente sob os ataques mais brutais ao corpo; Evágrio admite ter visto pessoalmente os demônios golpear, morder e marcar a pele dos monges, e reconhece a influência do texto de Atanásio na construção dessa face da tristeza.
    • Jó — figura bíblica evocada como paradigma da paciência sob ataques demoníacos ao corpo
    • Salmo 117:7 — versículo que Antônio usa na Vida contra o demônio da fornicação e que Evágrio recomenda ao monge diante de demônios que imitam imagens obscenas
  1. A listeza (akedia), o demônio pelo qual Evágrio é justamente celebrado, é definida como um “afrouxamento antinatural da alma” que se manifesta como tédio intenso próximo à depressão, golpeando entre dez da manhã e duas da tarde e tentando o monge a abandonar a cela, criticar os irmãos e buscar trabalho mais significativo alhures; como sexto demônio, a listeza é dobradiça da lista, pois resume os cinco anteriores e afeta simultaneamente as partes desejante e irascível da alma.
    • akedia — transliteração do grego; posteriormente se transformará em “preguiça” entre os pecados capitais, embora o conceito evagriano seja mais abrangente
    • “demônio do meio-dia” — expressão retirada do Salmo 90:6 (LXX), usada por Evágrio para a listeza que golpeia no calor do dia
    • xeniteia — prática de vagabundagem intencional como forma de alienação voluntária; a akedia evagriana contribuiu para suprimi-la no monaquismo do final do século IV
    • Macário Egípcio — de quem Evágrio teria aprendido o princípio de viver como se fosse morrer naquele dia, antídoto central contra a listeza
  1. Vaidade e orgulho, os dois últimos demônios, afligem a parte racional do monge e o atacam especialmente quando as outras paixões recuam: a vaidade seduz o monge a realizar seus labores para ganhar a admiração dos outros — leigos, irmãos monges, e até a ordenação sacerdotal —, enquanto o orgulho leva o monge a atribuir a si mesmo seus sucessos, distorcendo sua relação com Deus, com os anjos e com os demônios e podendo conduzi-lo à blasfêmia e à loucura.
    • vaidade (vainglory / kenodoxia) — demônio que explora o desejo de reconhecimento exterior, inclusive por meio da ordenação ao episcopado
    • orgulho (hyperephania) — demônio que distorce a percepção do lugar do monge na hierarquia das criaturas racionais; causou a queda do próprio diabo
  1. O monge asceta que enfrenta principalmente a vaidade e o orgulho está próximo da fronteira do estágio gnóstico, e os sinais dessa proximidade incluem a calma diante de objetos desejáveis acessíveis, sonhos sem terror nem excitação sexual e oração sem distração; a partir desse ponto, o combate desloca-se dos demônios ligados à parte desejante para os ligados à irascível, e o confronto com os demônios não cessa — entra em fase mais sutil.
  1. A demonologia evagriana impõe pelo espessamento circunstancial de cada demônio, mas o poder central reside na própria lista: ela abstrai a experiência múltipla e anárquica do mal e cria algo cognoscível e, portanto, controlável, de modo que o monge atormentado por qualquer pensamento específico pode encontrá-lo no Falando de Volta, saber que não está só, identificar o demônio responsável e opor-lhe um versículo bíblico.
    • David Frankfurter — estudioso citado para a tese de que a essência da demonologia é a lista que abstrai o mal e cria a “pretensão de certeza, controle e tradição ritual”
    • Salmo 72:3 — versículo bíblico proposto por Evágrio contra o pensamento de inveja da honra alheia, catalogado sob o demônio da listeza
  1. O monge gnóstico continua enfrentando ataques demoníacos, agora mais focados na busca da oração pura e do conhecimento de Deus — purificação do intelecto —, pois os demônios concentram-se na parte irascível para despertar a ira que impede a oração e exploram a vaidade e o orgulho para “estragar as orações” e pavimentar o caminho para a blasfêmia.
  1. O orgulho pode afetar o monge avançado sob a forma do demônio que “arrebata o intelecto para a blasfêmia contra Deus e para fantasias proibidas”, um demônio rapidíssimo que compele o intelecto à impiedade e cujo conteúdo preciso Evágrio se recusa a revelar; o gnóstico pode ainda usar estratégias mais arriscadas que o asceta prático — como deixar um pensamento desenrolar-se por um ou dois dias antes de analisá-lo metodicamente e expulsá-lo ao recitar com precisão o que o demônio fez da última vez.
  1. O intelecto caído trabalha com dois tipos de materiais — pensamentos (de conteúdo proposicional, oriundos de anjos, demônios ou do próprio monge) e representações (noémata, conceitos de natureza primariamente visual, oriundos dos sentidos e armazenados na memória) —, sendo que as representações são moralmente neutras em si mesmas, mas servem de base para pensamentos bons, maus ou neutros, e uma representação persistente por apego passional pode “imprimir” o intelecto e distorcer a visão necessária para o conhecimento de Deus.
    • noémata — transliteração do grego; representações mentais de natureza visual que o intelecto processa uma de cada vez, embora em rápida sucessão
    • Clemente de Alexandria — teólogo que já usava a linguagem da “impressão” para descrever o efeito distorcedor das paixões demoníacas na alma, comparada a uma tábua de cera
  1. O gnóstico busca o estado de oração pura em que o intelecto, como uma tábua limpa, está livre de pensamentos e representações, vendo “sua condição no momento da oração como safira ou a cor do céu” — a “localização de Deus” — enquanto os demônios tentam turvar essa luminosidade com imagens aterrorizantes, sons perturbadores e formas falsas de luz que imitam a iluminação autêntica do intelecto puro.
    • “localização de Deus” — expressão de Êxodo 24:9-11 usada por Evágrio para o estado de oração pura em que o intelecto vê sua própria condição como safira ou azul celeste
  1. No itinerário do gnóstico, as quatro transformações descritas nas Kephalaia Gnostica levam do mal à virtude, da apatheia à contemplação natural secundária (estudo da criação material e de seus princípios), depois à contemplação natural primária (conhecimento das criaturas racionais, incluindo os demônios) e, finalmente, ao conhecimento da santa Trindade — de modo que o estudo dos demônios pertence à penúltima etapa do itinerário rumo a Deus.
    • logoi — “princípios” ou razões que subjazem à criação material, objeto da contemplação natural secundária
    • contemplação natural primária — contemplação das criaturas racionais (anjos, seres humanos, demônios), etapa penúltima antes do conhecimento da Trindade
  1. Um demônio é definido por Evágrio como “uma natureza racional que, por excesso de irascibilidade, caiu do serviço de Deus”; outrora intelectos em unidade com Deus, os demônios existem agora em corpos de cor e forma fixas, imperceptíveis aos sentidos humanos comuns mas detectáveis pelo odor que exalam — odor que desencadeia as paixões —, e quando aparecem às pessoas assumem corpos que imitam as formas dos seres cuja aparência tomam, ao contrário dos anjos, capazes de transformar a natureza de seus próprios corpos.
  1. Os demônios são observadores aguçados e imitadores hábeis, mas não verdadeiramente inteligentes — o mal, no mundo de Evágrio, correlaciona-se à ignorância —, não possuem linguagem própria, devendo estudar as línguas humanas para falar com as pessoas, e deduzem “as coisas ocultas no coração” não por leitura direta da mente, mas pela observação dos movimentos corporais e das palavras do monge, pois só Deus é “conhecedor dos corações”.
    • Macário de Alexandria — mestre que aconselhou Evágrio a não revelar aos “profanos” o que sabia sobre os modos pelos quais os demônios deduzem os segredos interiores
  1. As três classes de criaturas racionais — anjos, seres humanos e demônios — distinguem-se pelo predomínio de diferentes faculdades e elementos: os anjos, pelo intelecto e pelo fogo; os seres humanos, pelo desejo e pela terra; os demônios, pela irascibilidade e pelo ar; anjos podem ver humanos e demônios, demônios só veem humanos, e humanos não veem nem uns nem outros; anjos contemplam os seres o tempo todo, humanos apenas às vezes, e demônios jamais.
  1. As três classes de criaturas racionais não se ordenam em compartimentos estanques: demônios e ímpios partilham a contemplação perceptível e material do mundo, enquanto anjos e justos partilham a contemplação inteligível e espiritual; demônios transmitem seu conhecimento inferior a “pessoas que consideram pertencer a eles”, assim como anjos transmitem conhecimento espiritual aos seus, e no julgamento pós-morte os seres humanos podem ascender ou descer nas ordens das criaturas racionais, recebendo novos corpos que correspondem ao nível de virtude ou vício alcançado.
  1. Evágrio convida o gnóstico a vislumbrar a recuperação futura da unidade que as criaturas racionais compartilhavam com Deus: o mal não existiu sempre e um dia deixará de existir, e toda a natureza racional se curvará ao nome do Senhor, enquanto os intelectos que se originaram na unidade com Deus fluirão de volta a Ele “como torrentes ao mar” — a apocatástase, restauração da unidade em que não haverá mais distinção entre anjo, ser humano e demônio.
    • apocatástase — doutrina origeniana da restauração universal de todas as criaturas racionais à unidade com Deus; um dos pontos que levou à condenação de Evágrio no século VI
    • Filipenses 2:9-11 e Isaías 2:2-4 — passagens bíblicas usadas por Evágrio para fundamentar a esperança da prostração universal diante do nome de Jesus
  1. A guerra entre o monge e os demônios é, numa perspectiva cósmica, uma guerra civil entre criaturas de uma mesma natureza racional, e o gnóstico que avança no conhecimento da natureza dos demônios aprende que ele e o demônio pertencem a uma natureza maior, cujas distinções são claras mas permeáveis e provisoriamente temporárias; o demônio — feixe feroz de energia irascível e ignorância frustrante — apresenta ao monge o espelho perturbador de seu próprio risco de recair na ignorância e tornar-se exatamente aquilo que combate.
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