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Deuses a demônios

BRAKKE, David. Demons and the making of the monk: spiritual combat in early Christianity. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2006.

  1. A narrativa de Apolo de Hermópolis, tal como registrada na História dos Monges, exemplifica o padrão característico da Antiguidade tardia pelo qual um monge prestigioso, após anos de recolhimento ascético, torna-se o ponto focal de uma transição religiosa, desativando o culto tradicional e assumindo as funções que este oferecia à comunidade.
  2. A capacidade do monge de desempenhar esse papel dependia de sua reputação como adversário dos demônios — identificados com os deuses do paganismo —, o que obrigava os aldeões a aceitar a demonização de suas próprias divindades como condição para acolher a figura do homem santo cristão.
  3. Embora muitas fontes antigas associem os monges à destruição violenta de templos, Peter Brown advertiu que relatos como o de Libânio podem ter sido convenientes para responsabilizar os monges por ações orquestradas por bispos, visto que os monges, como leigos, não gozavam das proteções legais do clero e podiam ser acusados de uso de força ilegítima.
  4. As fontes monásticas revelam ambivalência quanto à violência antipagã: monges não eram unânimes no entusiasmo por tais ações, e o silêncio ou a dissimulação de sua participação indica que o engajamento com templos e vizinhos pagãos era mais complexo do que a imagem do monge iconoclasta sugere.
  5. Os templos pagãos, mesmo abandonados, eram concebidos no imaginário monástico como quartéis-generais dos demônios, e como tais serviam a funções pedagógicas e terapêuticas para o monge em formação, ao mesmo tempo que representavam espaços perigosos para residência permanente.
    • Monges iniciantes podiam ouvir os demônios nos templos relatar seus fracassos ou sucessos contra monges virtuosos, o que lhes fornecia instrução e encorajamento.
    • Macário, o Grande, ao dormir tranquilamente sobre um caixão num templo e repelir os demônios com calma absoluta, exemplifica o grau de confiança espiritual que tornava o espaço pagão inofensivo para o monge avançado.
    • O relato de Anoub e seus irmãos no templo de Terenute ilustra como a indiferença conspícua às imagens pagãs — nem veneradas nem temidas — podia tornar-se instrumento de ensinamento ascético.
  6. A participação monástica no saque do Serapeum de Alexandria, em torno de 391, é registrada apenas em alguns Ditos dos Padres, onde aparece de modo ambivalente, sendo criticada por Bessarion como conduta vergonhosa para quem deveria permanecer no deserto, embora outras versões do mesmo relato sugiram que a destruição dos templos foi interpretada por alguns monges como cumprimento de um decreto divino.
  7. Durante o século V, a oposição ativa aos deuses pagãos tornou-se parte crescente da identidade do monge, e a figura literária do monge como combatente dos demônios — inaugurada por Atanásio com Antônio e radicalizada por Senute com invasões e incêndios de templos — forneceu o modelo heróico para hagiografias posteriores que apresentavam a conversão do Egito como ruptura dramática e total.
  8. No ambiente religioso do Egito tardio, o monge ocupava uma posição análoga à do sacerdote pagão e do especialista ritual móvel, pois todos ofereciam acesso ao sobrenatural — curas, exorcismos, profecias, proteção —, e as comunidades monásticas figuram entre os locais mais prováveis de produção dos papiros mágicos que mesclam elementos egípcios, judaicos e cristãos.
  9. A identidade fluida entre monge, sacerdote e mago criava tensões que os autores monásticos procuravam resolver pelo contraste: o poder do monge derivava de sua virtude e de seu uso exclusivo das Escrituras, ao passo que o poder do mago vinha de palavras compostas externamente, que os demônios zombavam em vez de temer.
    • Atanásio, na Epístola a Marcelino, e Evágrio, no Antirrhético, sistematizaram o uso de passagens bíblicas como arsenal antidemônico, distinguindo-o explicitamente das fórmulas mágicas compostas, embora o efeito prático de ambos os gêneros textuais fosse funcionalmente semelhante.
    • A comparação feita por um Dito atribuído a Abba Poemen entre o encantador e o monge — ambos proferirem palavras cujo poder supera sua compreensão — revela a proximidade estrutural entre as duas figuras, que os autores monásticos normativos se esforçavam por apagar.
  10. Histórias de conversão de sacerdotes pagãos ao monasticismo dramatizavam a superioridade do monge sobre o sacerdote, estabelecendo fronteiras claras pelo alinhamento do sacerdote com os demônios que o monge combate, ao mesmo tempo que a narrativa do jovem dividido entre dois pais — o abba cristão e o sacerdote pagão — tornava-se um tipo literário recorrente no qual a escolha pelo monasticismo equivalia à escolha pelo próprio Cristo.
  11. O exorcismo era o dom de cura monástico por excelência, e os autores monásticos desenvolveram uma dialética paradoxal em que a humildade tornava-se ela própria a fonte do poder exorcístico, de modo que o monge suficientemente humilde nem precisava pronunciar palavras ou executar gestos específicos para expulsar demônios — sua virtude acumulada era suficiente, distinguindo-o radicalmente do especialista ritual.
  12. A história de Macário, o Grande, e a mulher transformada em égua por um feiticeiro sintetiza a contradição estrutural do discurso monástico: o monge afirma-se como especialista ritual superior, capaz de fazer o que os sacerdotes não conseguem, ao mesmo tempo que nega ter feito coisa alguma, pois o que o mago produziu não era real — revelando assim que o monge cristão se constituiu mediante o simultâneo reconhecimento e repúdio de seus cognatos religiosos, os sacerdotes e magos, igualmente versados nos caminhos dos deuses, agora declarados demônios.
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