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2 Espaço da Alma

BERGAMO, Mino; BONNEVAL, Marc. L’anatomie de l’âme: de François de Sales à Fénelon. Grenoble: J. Millon, 1994.

  1. Para compreender como o espaço da alma humana se configura em Francisco de Sales, é necessário antes estabelecer um domínio de referência identificando os principais modelos da alma que circulavam em sua época no campo do saber religioso, pois somente em relação a esses modelos e a partir de seus esquemas é possível compreender a natureza do modelo salesiano e fazer sobressair sua especificidade e originalidade, sendo os dois modelos mais consistentes e prestigiosos da época o aristotélico-tomista e o renano-flamengo.
  2. O modelo aristotélico-tomista e o modelo renano-flamengo diferem um do outro não apenas por suas qualidades intrínsecas, mas também pelo estatuto que cada um ocupa na história da espiritualidade, pois o primeiro encontra suas raízes na filosofia de São Tomás e de Aristóteles, sendo transmitido pelos tratados de escolástica e elaborado nos comentários do De Anima, ao passo que o segundo se elabora e se conserva no interior da grande tradição da mística do Norte, renana e flamenga.
    • O modelo aristotélico-tomista pertence à história da espiritualidade não como modelo originado nela, mas como modelo que, uma vez elaborado no discurso filosófico, nela foi importado e aplicado, constituindo a enxertia de um bloco de conhecimentos filosóficos no terreno da espiritualidade.
    • O modelo renano-flamengo tem estatuto completamente diferente, pois a espiritualidade define de forma inseparável tanto seu horizonte de origem quanto seu horizonte de recepção, sendo o domínio onde o modelo se elabora, se transmite e se conserva ao longo de todo o arco de seu desenvolvimento histórico.
    • A tradição mística do Norte, florescente no século XIV, encontra sua primeira grande síntese doutrinal na obra de Eckhart e se desenvolve em autores como Tauler, Suso e Ruysbroeck, tendo como continuador mais insigne Hendrick Herp, chamado Harphius, que no século XV retoma e reelabora o ensinamento de Ruysbroeck, prolongado ainda no século XVI pelos escritos de Luís de Blois e pela Perla evangelica.
  3. No modelo aristotélico-tomista, a alma humana se subdivide em três planos ou graus de perfeição: o grau vegetativo, o grau sensitivo e o grau racional, correspondendo a cada um deles um certo número de potências, também chamadas forças ou faculdades, que são os princípios imediatos de todas as operações da alma.
    • Ao grau vegetativo correspondem três potências: as faculdades de se nutrir, de crescer e de engendrar.
    • O grau sensitivo compreende cinco sentidos externos e um número variável de sentidos internos que, na filosofia escolástica dos séculos XVI e XVII, passa por um processo de simplificação que os reduz a dois e depois a apenas um, a imaginação, além de uma potência apetitiva geral, o apetite sensitivo, que se subdivide em irascível e concupiscível, às quais se referem todas as paixões da alma: amor, ódio, desejo, cólera etc.
    • No grau racional articulam-se duas grandes potências: o intelecto, potência cognitiva, e a vontade, potência apetitiva, sendo a memória representada como uma das funções assumidas pela potência intelectiva.
    • São Tomás distingue na alma humana duas classes de operações: as que se efetuam sem a intervenção de um órgão corporal, como pensar e querer, e as que implicam tal intervenção, como ver e sentir, sendo apenas as faculdades racionais exclusivamente pertencentes à alma e, por isso, autenticamente espirituais.
    • Luís de Granada, na Introducción del Símbolo de la Fe, apresenta o homem como um paradoxo vivente, maravilhando-se com a grandeza da alma humana em que coexistem as faculdades dos anjos e as das bestas, comparando o homem a um ser monstruoso e fabuloso que seria ao mesmo tempo um anjo e um cavalo.
  4. A propriedade fundamental do modelo aristotélico-tomista, considerada sob o ângulo de suas relações com a espiritualidade, consiste em veicular uma representação binária da vida interior e uma tópica biplanar da interioridade, pois dos três grupos de potências apenas o das faculdades sensitivas e o das faculdades racionais intervêm na dinâmica da vida interior, sendo o plano vegetativo irrelevante para ela.
    • Essa grade binária exprimiu-se geralmente por meio da distinção, tornada canônica, entre a parte inferior e a parte superior da alma, como se vê em Luís de Granada, que distingue a porção superior, onde se articulam o intelecto e a vontade, da porção inferior, onde se ligam a imaginação e o apetite sensitivo.
    • Eustache de Saint-Paul, no Brief traité des puissances et facultés de notre âme, texto situado no cruzamento da filosofia e da espiritualidade por ter sido composto a pedido de pessoas devotas e religiosas com o fim de facilitar a prática das virtudes, define da seguinte forma: a parte superior não é outra coisa senão a vontade guiada e conduzida pelo entendimento, e a parte inferior não é outra coisa senão o apetite sensual conduzido pela imaginação.
  5. O modelo renano-flamengo, apesar de comportar igualmente uma subdivisão tripartite da alma humana, difere profundamente do modelo aristotélico-tomista, pois o plano mais elevado do modelo renano-flamengo, a essência da alma, não é jamais representado como tal nos textos que dependem do modelo aristotélico-tomista, ao passo que o plano mais baixo deste último, o grau vegetativo, não se manifesta nos textos que se referem ao modelo renano-flamengo.
    • Tauler desenvolve o célebre simbolismo dos três homens: o homem animal, o homem racional e o homem deiforme, representando a subdivisão da alma em uma zona sensível, uma zona racional e uma zona suprarracional, sendo o homem deiforme a suprema porção da alma identificada com a substância mais íntima da alma, a pura e nua essência.
    • Harphius e Luís de Blois traduzem essa organização tripartite em uma tópica ternária baseada na oposição entre uma parte ínfima, sede das forças inferiores e sensitivas como os cinco sentidos externos, o sensus communis e a potência apetitiva, uma parte média, sede das três forças superiores e racionais que o homem tem em comum com os anjos, a saber o intelecto, a memória e a vontade, e uma parte suprema que é a simples essência da alma, unidade originária e centro de irradiação das forças superiores, de onde estas fluem como raios do sol e para onde refluem.
    • Enquanto apenas dois dos três planos do modelo aristotélico-tomista intervêm na vida interior, todos os planos distinguidos pelo modelo renano-flamengo desempenham algum papel nela, e em particular a essência da alma ocupa nessa dinâmica uma posição privilegiada e culminante, pois para os místicos do Norte ela é a sede da suprema união divina.
  6. As duas propriedades fundamentais do modelo renano-flamengo são inseparáveis entre si: ele coloca em jogo uma tópica multiplanar do espaço interior e introduz na representação desse espaço um plano que ultrapassa e supera o plano das forças racionais, um além da razão na alma do homem, sendo que a topologia do espaço interior passa, nesse modelo, do registro da biplanaridade ao da multiplanaridade em virtude precisamente da introdução da essência da alma como plano da estrutura no jogo da vida interior.
  7. Para abordar o modelo salesiano, a análise não pode limitar-se aos esquemas elementares, como foi feito com os modelos aristotélico-tomista e renano-flamengo, devendo abranger também as estruturas mais superficiais nas quais esses esquemas se realizam, isto é, não apenas o modelo da alma que nele se elabora mas também as imagens da estrutura da alma nas quais esse modelo se especifica e se manifesta, com atenção a todos os deslocamentos e interstícios entre as imagens que se sucedem no discurso de Francisco de Sales.
    • O modelo salesiano se traduz, desde sua primeira aparição, em uma pluralidade de imagens diversas, e os capítulos XI e XII do primeiro livro do Tratado do amor de Deus, aos quais se deve acrescentar o capítulo V, formam o domínio onde esse modelo se manifesta articulando-se em toda uma pequena galeria de imagens distintas e justapostas.
    • Seguindo passo a passo a emergência dessas imagens ligeiramente diferentes e buscando apreender sua formação, suas deformações e desaparições, procura-se surpreender o pensamento salesiano no momento e no próprio movimento de sua constituição, realizando uma ausculta minuciosa da respiração do texto a fim de colher as imagens variadas da estrutura da alma no rumor quase imperceptível de seu florescimento.
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