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SÃO JOÃO DA CRUZ
SÃO JOÃO DA CRUZ (1542-1591)
STEIN, Edith. A Ciência da Cruz. São Paulo: Loyola, 1988.
- Quem quiser compreender os ensinamentos de São João da Cruz a partir de suas raízes espirituais deve levar em conta a peculiaridade e mesmo a singularidade de seus escritos, sua origem e seus destinos, pois elevado pela Igreja ao status de Doutor da Igreja, ele é reconhecido também para além do catolicismo como um dos principais gênios e guias mais confiáveis para quem quiser penetrar seriamente na misteriosa riqueza da vida interior.
- João da Cruz não ofereceu nenhuma apresentação sistemática da mística, pois sua intenção ao escrever não era teórica, embora fosse bastante teórico para às vezes, pelas correlações puramente factuais, deixar-se arrastar além de sua meta original, sendo o que ele realmente queria conduzir pela mão, como diz o Areopagita de si mesmo, completando por meio dos escritos seu trabalho como guia espiritual.
- Não nos foi conservado tudo o que escreveu: tudo o que surgiu antes de sua prisão foi destruído por ele mesmo ou por outros, uma segunda perseguição no âmbito da Reforma privou-nos de muita coisa incluindo valiosos registros feitos pelas freiras carmelitas segundo suas instruções orais, apenas uma fração das cartas foi conservada, e dos quatro grandes tratados restantes, Subida do Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama viva de amor, a Subida e a Noite chegaram de forma incompleta.
- A verdadeira origem dos escritos conservados deve ser buscada no período da prisão em Toledo, sendo a experiência mais íntima a fonte de onde brotam, pois a bem-aventurança e o tormento de um coração atingido e ferido por Deus encontram sua primeira expressão lírica nas primeiras 30 estrofes do Cântico espiritual e possivelmente na poesia da Noite escura, surgidas no calabouço, enquanto os tratados esclarecedores devem-se ao pedido de filhos e filhas espirituais.
- Nos tratados, a experiência oriunda da linguagem do poeta é traduzida na do pensador treinado filosófica e teologicamente, com uso módico de expressões técnicas escolásticas e abundante recurso a imagens mais próximas da realidade, sendo a base da experiência alargada pela experiência própria e pelo profundo vislumbre sobre a vida interior de outras pessoas obtido na orientação espiritual, o que o preserva da unilateralidade e de falsas generalizações.
- A Sagrada Escritura é para ele uma fonte sempre transbordante de instrução sobre as leis da vida interior: nela encontra a firme confirmação do que lhe é conhecido pela mais íntima experiência, e a própria experiência abre-lhe os olhos para o significado místico dos livros sagrados, tornando-se a linguagem imagética dos Salmos, as parábolas do Senhor e as narrativas históricas do Antigo Testamento transparentes para a única coisa que lhe importa: o caminho da alma para Deus e a ação de Deus na alma.
- Deus criou as almas humanas para si, desejando uni-las a si mesmo e dar-lhes já nesta vida a incomensurável plenitude e a inapreensível bem-aventurança de sua própria vida divina, sendo esta a meta para a qual as dirige e pela qual elas mesmas devem forcejar com toda veemência, embora o caminho seja estreito, abrupto e penoso, ficando a maioria pelo caminho por causa dos perigos do mundo, do maligno inimigo, da própria natureza, do desconhecimento e da falta de orientação adequada.
- João oferece-se às almas como guia competente, tendo misericórdia com os que erram e dor de que a obra de Deus malogre por causa dos obstáculos, pois tem familiaridade com todos os caminhos e estágios do misterioso reino da vida interior, não lhe sendo possível dizer tudo o que sabe a esse respeito, precisando refrear-se constantemente para não ir além do que a tarefa exige.
- João não escreveu suas obras para todos, sabendo que só pode contar com a compreensão de determinado círculo de pessoas que já possuem alguma experiência da vida interior, pensando em primeira linha nos frades e freiras carmelitas mas sabendo que a graça de Deus não está vinculada ao hábito religioso e aos muros do mosteiro, pois é a uma de suas filhas espirituais no mundo que se deve o escrito sobre a Chama viva de amor.
- Ele quer tomar pela mão as almas introspectivas num ponto bem determinado do caminho delas, numa bifurcação onde a maioria fica perplexa: a encruzilhada da meditação e da contemplação, onde os exercícios espirituais que até então exercitavam as forças espirituais, sentidos, imaginação, memória, intelecto e vontade, tornaram-se agonia, insuportavelmente maçantes e estéreis, sem propensão a coisas mundanas mas com o desejo de permanecer totalmente quieta sem mover-se, o que parece à alma ociosidade e perda de tempo, sendo esse o sinal de que Deus quer conduzi-la à noite escura.
- Embora em algumas passagens dos escritos do santo Padre João se fale com tanta determinação do significado da cruz que seria justificada a compreensão de sua vida e ensinamentos como uma ciência da cruz, trata-se de relativamente poucas passagens, pois o símbolo dominante em suas poesias e tratados não é a cruz mas a noite, encontrando-se absolutamente no centro em Subida e Noite e ainda ressoando em Cântico e em Chama, sendo por isso necessário dar conta precisamente da relação entre cruz e noite para conseguir clareza sobre o significado da cruz em João.
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