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LER OS MÍSTICOS
GUYON, Jeanne Marie Bouvier de La Motte. Le moyen court et autres écrits spirituels: une simplicité subversive. Grenoble: Jérôme Millon, 1995.
Resumo da apresentação de Marie-Louise Gondal
Uma redescoberta
- O termo “místico”, adjetivo ou substantivo, evoca uma atmosfera de claro-escuro em torno da região de seu nascimento e tornou-se de uso corrente após uma longa reticência, tendo designado entre os gregos o silêncio do vidente cegado pelo mistério ao término da iniciação, falado aos cristãos dos primeiros séculos do sentido secreto das escrituras e da liturgia, e tornado-se no Ocidente dos séculos XVI e XVII o nome de uma língua interior ao cristianismo que se desenvolvia a certa distância das linguagens oficiais, moral ou ritual, sendo falar místico falar a língua do sujeito, de sua experiência às voltas com o mistério da fé.
- Essa língua teve seus mestres, que tratavam das vias interiores como de uma ciência divina, suas escolas e seus lugares de destaque, suas figuras de proa, homens ou mulheres, seus modos de aprendizagem e suas obras, e por ela muitos excluídos do tempo, iletrados, laboriosos, solitários ou vagabundos, cegos ou coxos, acederam à vida do espírito.
- Após uma apogeu na primeira metade do século XVII, algo nesse impulso se quebrou: a língua mística veio a enfraquecer sob o gigantesco deslizamento mental da positividade nascente, sendo suspeita pelo poder monárquico onipotente de estar ao lado dos contestadores da ordem, percebida como ameaça pelos guardiões da doutrina e da moral, sem voz diante das exigências do novo espírito científico e tomada como alvo das campanhas jansenistas, perdendo assim seu espaço intelectual e social e exilando-se em grupos ou lugares retirados.
Interesses diversos
- Há muitas maneiras de ler os escritos místicos, sendo todas praticáveis e legítimas, cada uma com sua estação e suas leis que são também seus limites: buscá-los como documento humano de escolha, submetendo as vidas, relações e correspondências dos místicos à questão das ciências humanas; abordá-los como documento histórico que aguarda seu lugar no puzzle das questões e hipóteses sobre um personagem, um episódio ou um universo mental e social; recebê-los com uma imediaticidade poética que espera deles ser transportado a um mundo outro e ouvir acentos inauditos; ou buscá-los como companheiro de caminho espiritual, pedindo-lhes uma palavra essencial e iniciadora.
- Existe contudo uma maneira de ler que entregaria o livro do livro, aquele que o próprio místico lê, fazendo apelo à inteligência da história e dos textos e à atenção a uma gênese única e muitas vezes obscura no próprio autor, leitura perigosa mas que por vezes parece se impor.
No limiar do indizível
- Os místicos esperam antes de tudo que sejamos por eles convidados à atenção profunda, pois suas páginas, jorrando de uma experiência ardente e muitas vezes trágica, parecem abrigar um segredo que escapa no momento mesmo em que se dá, e têm o extraordinário privilégio de estar ali em espera do espírito que as reavivará.
- A distância dos séculos torna-se então subitamente aquela que se abre entre nós e um essencial para além das fraturas culturais, e esses mestres falam de experiência e autoridade para hoje, abrindo em sua companhia um espaço em que se iluminam a desolação atual e a ausência, onde o fio do sentido começa a se puxar e file de relâmpago em trevas, de alegria em pena e de pena em alegria, rumo ao que já está ali e no entanto sempre é buscado.
Um retorno às fontes
- Uma hierarquia foi elaborada entre os místicos distinguindo os grandes, como Eckhart, João da Cruz, Teresa de Ávila, Maria da Encarnação, e os outros, mas hoje se impõem outras evidências, a primeira das quais é que os gigantes não estão sozinhos no mundo da mística, pois não teriam sido o que foram se estivessem sozinhos em seu tempo a se arriscar nessa viagem e a dela entregar o relato.
- Os maiores puderam falar e se fazer ouvir porque sua voz era audível e seu discurso pensável, porque outros escutavam e respondiam, havendo em seu tempo aquela multidão das almas interiores, a turba magna de que falava Henri Bremond, cuja rumor habita os períodos em que a voz dos tenores se destaca, verificando-se assim em destinos tidos por tão solitários uma verdade humana universal: toda criação nasce na solidão mas é uma solidão habitada e ligada, verdade particularmente pertinente no domínio da experiência mística onde são essenciais o diálogo, a conversação, o colóquio, a comunicação de boca e de coração.
- Certos espirituais, mesmo que nunca tenham se dado o nome de místicos, têm destinos sacudidos e quebrados, mensagem estilhaçada ou contestada, não sendo em tudo admiráveis nem imitáveis, e no entanto seu itinerário intriga e atrai, sendo por vezes mais próximo do nosso do que o dos místicos incontestados, pois oscilando entre queixa e profecia, entre morte e vitória, entre sucesso e exílio, o discurso espiritual torna-se, apesar de si mesmo, o apelo de um impossível no entanto oferecido.
- Ler espiritualmente os místicos não é apenas nem primeiramente buscar neles mestres ou modelos, mas recebê-los como testemunhas, descobrindo nos que são meteoritos de outro tempo luzes para tempos difíceis que não oferecem os que jamais sentiram o mundo vacilar, e em uns ou outros, segundo o chamado e segundo os dons, descobrindo por vezes uma viva chama, não apenas deles nem nossa, mas aquela misteriosa que lentamente transforma a humanidade, segundo a palavra de Isaías, em fornalha sem fim (Is 33, 14).
- Madame de Guyon pode ser situada tanto no primeiro tipo, tendo dos grandes a altura e a simplicidade, a penetração e a limpidez, o coragem e a obediência, quanto no terceiro tipo, pois como os profetas anuncia, por vezes em estilo de apocalipse, o fim de um mundo e a chance do mundo que vem, permanecendo de pé, repetindo incansavelmente o quem é como Deus? do arcanjo Miguel, recordando assim a honra de Deus.
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