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Elemire Zolla

Francisco de Sales

Elémire Zolla. I mistici dell’Occidente. 2. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.

Qual seja a conveniência que estimula ao amor

[I, 8] Os concertos da música formam-se das discordâncias, e por elas se correspondem as vozes dessemelhantes, fazendo todas juntas um proporcionado encontro: como da dessemelhança das pedras preciosas e das flores, faz-se agradável composição do esmalte e do ramilhete. Assim, o amor não sempre se forma da semelhança e simpatia, senão da correspondência e proporção, que consiste em que, pela união, possam mutuamente receber as coisas perfeição e melhoria. A cabeça, verdadeiramente não se parece ao corpo, nem a mão ao braço; não obstante, têm tão grande correspondência e juntam-se tão propriamente, que sua mútua união as aperfeiçoa com excelência; e por esta razão, si cada uma destas partes tivesse alma distinta, amar-se-iam perfeitamente, não por semelhança, que entre si não a têm, senão pela correspondência a sua mútua perfeição. Por esta causa, os melancólicos e os alegres, os agros e os doces, amam-se entre si às vezes, pelas mútuas impressões que recebem os uns dos outros, por cujo meio se temperam reciprocamente seus humores.

Mas quando esta mútua correspondência se junta com a semelhança, engendra-se sem dúvida mais galhardo o amor; porque sendo a similitude verdadeira imagem da unidade, quando dois semelhantes se unem por correspondência a um mesmo fim, então, mais parece unidade que união.

A conveniência, pois, do amante à coisa amada, é a origem primeira do amor; esta consiste na correspondência, que não é outra coisa que uma mútua relação que dispõe as coisas propriamente a unir-se, para comunicar-se entre si alguma perfeição.

Que o amor tende à união

[I, 9] …Aplica-se uma boca a outra em ósculo, para demonstrar que quisera verter-se reciprocamente uma alma em outra, para unir-se em perfeita união: por isto, em todo tempo, e entre os varões mais santos do mundo, o beijo foi sinal de amor e dileção; e assim se praticou universalmente entre os primeiros cristãos, como afirma São Paulo, quando diz aos romanos e coríntios: “Saudai-vos mutuamente os uns aos outros pelo ósculo santo” (1 Coríntios 16,20; 2 Coríntios 13,12). E como muitos creem, Judas na prisão do Senhor, usou do beijo para dar-lhe a conhecer (Mateus 26,48-49; Marcos 14,44-45; Lucas 22,47-48), porque este divino Salvador beijava de ordinário a seus discípulos quando os encontrava, e não só a eles, mas às crianças, que amorosamente tomava em seus braços (Marcos 10,16)…

[10] …Quando a alma pratica o amor pelas ações sensuais que a põem debaixo de si, é impossível que não debilite outro tanto o amor superior; de sorte que tão longe está de ser ajudado e conservado o verdadeiro e essencial amor, pela união a que aspira o amor sensual, que antes por ela se enflaquece, dissipa e perece. Os bois de Jó lavravam a terra, enquanto os asnos inúteis pastavam ao redor deles (Jó 1,14) consumindo o pasto devido aos que trabalhavam. Enquanto a parte intelectual de nossa alma trabalha pelo amor honesto e virtuoso de algum objeto digno dele, acontece de ordinário que os sentidos e faculdades da parte inferior caminham a sua própria união que lhes serve de pasto, ainda que só é devida ao coração e ao espírito, que são os que somente podem produzir o verdadeiro e essencial amor.

Eliseu, havendo curado a Naamã Siro, contentou-se com haver-lhe obrigado, desprezando o ouro, prata e roupas que lhe oferecia; mas Giezi, seu servo infiel, correndo trás ele, pediu e tomou contra o gosto de seu dono, tudo o que ele havia desejado. O amor intelectual e cordial, que à verdade é, ou devera ser, o senhor principal em nossa alma, recusa toda sorte de uniões corporais e sensuais, e contenta-se com a simples benevolência; mas as potências da parte sensitiva, que são, ou deviam ser servas do espírito, pedem, buscam e tomam o que recusou a razão, e sem sua licença se apressam a conseguir sua união como vis e abatidas, desonrando, como Giezi, a pureza de intenção de seu dono, que é o espírito; e à medida que a alma se converte a estas grosseiras e sensíveis uniões, se diverte da união delicada, intelectual e cordial. Bem vedes, Teótimo, que estas uniões que miram à complacência e paixões animais não só não aproveitam à produção e conservação do amor, senão que se debilitam e são grandemente danosas. Assim, quando o incestuoso Amnon, que adoecia e ardia de amores de Tamar, houve chegado à união sensual e brutal, de tal sorte ficou privado do amor cordial, que depois jamais pôde encará-la, e a empurrões a lançou de si indignamente, violando com crueldade o direito do amor, como havia com torpeza violado o do sangue.

O manjericão, o alecrim, a manjerona, o hissope, os cravos, a canela, a noz-moscada, os limões e o almíscar, tudo junto, mas inteiro, dão de si um odor bem agradável por uma mistura de sua fragrância; mas muito inferior ao que dá a água tirada destes ingredientes, na qual se junta com excelência a suavidade de cada um, separada de seu corpo, unindo-se em odor perfeitíssimo, muito mais penetrante do que fora, se com ele e a água estivesse também junta e unida a massa destas especiarias. Assim o amor se pode achar nas uniões das potências sensuais, misturadas com as uniões das potências intelectuais, mas nunca com tanta excelência, como quando os espíritos e ânimos sós, separados de todo afeto corporal, juntos entre si, constituem o amor puro e espiritual; porque o odor dos afetos assim misturados é não só mais suave e melhor, senão mais vivo, mais ativo e mais sólido.

Verdade é que muitos, sendo de espírito grosseiro, vil e terrestre, fazem apreço do amor como das peças de ouro, que as mais grossas e de mais peso são as melhores e de mais estimação: assim lhes parece que o amor brutal é mais forte, porque é mais violento e furioso; mais sólido, por mais grosseiro e terrestre; mais grande, por mais sensível e feroz. Mas ao contrário, o amor é como o fogo, que quanto mais delicada é a matéria, tanto mais claras e belas são as chamas; as quais não se podem extinguir melhor que oprimindo-as e cobrindo-as de terra; e da mesma maneira, quanto mais levantado e espiritual é o sujeito do amor, tanto mais vivos, subsistentes e perseverantes são seus afetos, e não se poderá melhor destruir e arruinar que abatendo-o às uniões vis e terrestres. Esta diferença há, como diz São Gregório, “entre os prazeres espirituais e os corporais: que estes causam desejos antes que se possuam, e desgosto quando se alcançam”; mas os espirituais são ao contrário: dão desgosto antes de alcançá-los, e prazer quando se conseguem…

[12] Esta extremidade, pois, e cume de nossa alma, esta ponta suprema de nosso espírito, está bem representada ao natural, no santuário e casa sagrada; porque o primeiro, nele não havia janelas que dessem luz. Neste grau do espírito, não há discurso que ilumine. Segundo, no santuário, toda a luz entrava pela porta; neste grau do espírito, nada entra senão pela fé, que produz, a modo de raios, a vista e o sentimento da formosura e bondade do beneplácito divino. Terceiro, ninguém entrava no santuário senão o Sumo Sacerdote; nesta ponta da alma, o discurso não tem lugar senão somente o grande, universal e soberano sentimento, que a vontade divina deve ser soberanamente amada, aprovada e abraçada, não só em particular por alguma coisa, senão em geral por todas, e não só em geral por todas, senão em particular por cada uma. Quarto, o Sumo Sacerdote, logo que entrava no santuário, obscurecia a luz que entrava pela porta, lançando muitos perfumes em seu incensário, cujo fumo turbava os raios da claridade. Tudo quanto se vê na suprema ponta da alma, está em certa maneira escuro pelas renunciações e resignações que a alma faz, não querendo olhar nem ver tanta beleza da verdade que se lhe representa, quanto adorá-la e abraçá-la; de sorte, que a alma quisera quase fechar os olhos ao ponto que começou a ver a dignidade da vontade de Dios, para que sem ocupar-se já em considerá-la, mais poderosa e perfeitamente possa aceitá-la, e por uma complacência absoluta, unir-se infinitamente e submeter-se a ela. Quinto, no santuário estava a Arca de paz e nela as tábuas da Lei; o maná em um vaso de ouro e a vara de Aarão, que floresceu e frutificou em uma noite; e nesta suprema ponta do espírito acham-se: primeiro, a luz da fé representada pelo maná, escondido no vaso, pela qual nos rendemos à verdade dos mistérios que não entendemos. Segundo, a utilidade da esperança, representada pela vara florida e fecunda de Aarão; por ela admitimos as promessas dos bens que não vemos. Terceiro, a suavidade da santíssima caridade, representada nos Mandamentos de Deus, que compreende; por ela chegamos à união de nosso espírito com o de Deus que apenas sentimos. Porque bem que a fé, a esperança e a caridade, derramam seu divino movimento quase por todas as faculdades do alma, assim racionais como sensitivas, reduzindo-as e sujeitando-as santamente sob seu justo domínio e autoridade, sua verdadeira morada, especial e natural habitação, é esta suprema ponta da alma, de onde, como um ditoso manancial de água viva, se derramam por diversos ribeiros, sobre as partes e faculdades inferiores.

[II, 9] Teótimo, os anjos são como as aves a quem por sua beleza e raridade chamam do paraíso, as quais nunca se costumam ver em terra, senão mortas; porque estes espíritos, no mesmo ponto que perdendo o amor de Deus abraçaram o próprio, foram derrubados como mortos ao inferno, de maneira que neles esta queda, que os privou para sempre da vida eterna, veio a ser como a morte nos homens, que os afasta para sempre da vida temporal; mas nós os homens assemelhamo-nos mais às aves chamadas ápodes, porque se nos sucede perder o ar do santo amor de Deus por tomar terra e converter-nos às criaturas, o qual nos acontece quantas vezes lhe ofendemos, à verdade então morremos, mas de uma morte não total e perfeita, porque nos fica algum movimento, e com este as pernas e pés: quero dizer, alguns débeis efeitos, bastantes a que possamos fazer alguns acometimentos de amor; bem que tão fraco, que por nós mesmos não podemos de verdade afastar nossos corações do pecado, nem voltar a tomar voo de santo amor, do qual como miseráveis que somos, pérfida e voluntariamente nos despojamos.

E certamente bem merecíamos que nos desamparasse Deus quando nós com tanta vilania lhe havemos assim deixado; mas seu amor eterno não permitiu a sua justiça usasse deste castigo, antes excitado de sua compaixão provocou-lhe a que nos livrasse de nossa desdita; o qual faz, enviando o vento favorável de sua inspiração santíssima, que com uma doce violência, dando em nossos corações, faz presa neles e os move, levantando nossos pensamentos e suspendendo nossos afetos no ar do divino amor.

Dos primeiros sentimentos de amor que as seduções divinas infundem na alma antes de que esta tenha a fé

[II, 13] O mesmo vento que levanta os ápodes, prende primeiro de suas plumas como de partes mais ágeis e susceptíveis de sua agitação, com a qual dá logo movimento às asas estendendo-as e desdobrando-as, de sorte que elas lhe sirvam depois como de presas para apreender todo o corpo da ave e levantar-lhe para pôr-lhe no ar; e se o ápode assim elevado contribui ao movimento do vento com o de suas asas, o mesmo vento que lhe pôs no ar ajudar-lhe-á mais e mais a voar com leveza. Assim, meu caro Teótimo, quando a inspiração, como um sagrado vento vem a nós a pôr-nos no ar do amor santo, o primeiro que faz é agarrar-se a nossa vontade, e mediante o sentimento de alguma celestial deleitação movê-la, estendendo e desdobrando aquela natural inclinação que tem ao bem; de forma que a mesma inclinação lhe serve de presa para agarrar nosso espírito; e tudo isto se faz em nós sem nós pelo favor divino que de tal sorte nos previne, que se nosso espírito assim santamente prevenido, sentindo as asas de sua inclinação movidas, desdobradas, estendidas, levantadas e agitadas deste vento celestial, contribui com tão pouco como é seu consentimento, que dita a sua, Teótimo! Pois a mesma inspiração e favor que nos apreendeu, misturando sua ação com o consentimento nosso, animando nossos fracos movimentos com a força do seu, e vivificando a debilidade de nossa cooperação com a fortaleza de sua operação, ajuda-nos, conduz-nos e acompanha-nos de amor em amor, até o ato da fé santíssima necessário para nossa conversão…

[15] Sentimos algumas vezes certas alegrias, que vêm como de improviso, sem que haja causa notória para elas, e costumam ser de ordinário presságios de algum prazer maior. O qual deu ocasião a julgar que nossos anjos custódios, prevenindo os bens que nos esperam, lançam em nós estes sentimentos: como ao contrário, quando nos ameaçam ou cercam perigos que não sabemos, nos infundem temores e quebrantos, para fazer invocar a Deus e estar com atenção a nós mesmos. Assim quando estes bens prognosticados chegam ao coração, recebe-os com os braços abertos, e lembrando-se do prazer que sentiu, sem entender a causa, reconhece somente que aquele prazer era como um precursor que vinha diante do sucesso ditoso. Assim também nosso coração, amado Teótimo, sentindo em si muito antes a natural inclinação ao soberano bem, não sabe aonde vai parar este movimento; mas logo que a fé se lo mostra, ao ponto conhece bem que aquilo é o que sua alma buscava, seu espírito requeria, e aonde sua inclinação caminhava…

[20] E não há tampouco por que estranhar que a força do amor se ache no arrependimento antes da formação do mesmo amor; pois vemos que pela reflexão dos raios do Sol, ferindo na lua de um espelho, o calor, que é a própria virtude e qualidade do fogo, aumenta-se pouco a pouco, até tanto, que começa a queimar mesmo antes que produza perfeitamente fogo, ou ao menos antes que o percebamos nós. Assim quando o Espírito Santo lança em nosso entendimento a consideração da grandeza de nossas culpas, pelas quais ofendemos a uma bondade soberana, e nossa vontade recebe a reflexão deste conhecimento, o pesar cresce pouco a pouco, de tal sorte, com um certo calor afetivo e desejo de voltar a estar em graça com Deus, que ao fim este movimento chega ao termo que abrasa e une antes que o amor seja inteiramente formado; logo este amor imediatamente se acende como um fogo sagrado, de sorte que nunca chega o arrependimento ao ponto de abrasar e reunir o coração a Deus, que é última perfeição, sem que se ache todo convertido em fogo e chama de amor, sendo o fim do um princípio do outro; assim o fim da penitência está muitas vezes no princípio do amor, como o pé de Esaú estava na mão de Jacó; de maneira que quando Esaú acabava de nascer, começava Jacó, estando junto, atado, ou o que mais é, enlaçado o fim do nascimento do um com o princípio do outro; pois assim o princípio do amor perfeito, não somente segue ao fim da penitência senão arrima-se, enlaça-se, e por dizê-lo de uma vez, mistura-se com ele; e nesse ponto a penitência e contrição faz-se meritoria de vida eterna.

Progresso e perfeição do amor

[III, 2] Quanto mais vivamente olhamos nossa imagem em um espelho, ela também nos olha mais atentamente; e à medida que Deus amorosamente põe seus doces olhos em nossa alma, que é feita a sua imagem e semelhança, nossa alma olha reciprocamente a divina bondade mais atenta e ardente, correspondendo segundo sua pequenez a todos os aumentos que esta soberana doçura faz de seu amor com ela…

[3] A alma do justo é a Esposa do Senhor, e porque não estando em caridade não há justiça, não será então esposa nem levada ao camarim dos deliciosos perfumes, de que ela fala nos Cantares (Cantares 1,3); pois quando a alma que chega a este estado de honra e felicidade comete pecado, cai prostrada de um desmaio espiritual, e este acidente, à verdade, é bem impensado; porque, quem pudera imaginar que uma criatura quisesse deixar a seu Criador e soberano bem por coisa tão leve como são as iscas do pecado? Certamente causa espanto ao céu (Jeremias 2,12); e se Deus estivesse sujeito a paixões, pudera ocasionar-lhe desmaio o sentimento desta desdita, como quando mortal expirou na cruz para remir-nos dela. Mas como não há já necessidade de empregar seu amor em morrer por nós, quando vê a alma assim precipitada no pecado, acode de ordinário em sua ajuda, e com uma misericórdia incomparável entreabre as portas do coração por inspirações e remorsos de consciência, que procedem de muitas luzes e apreensões, que comunica ao espírito, com uns saudáveis movimentos, por cujo meio, como de águas odoríferas e vitais, faz que a alma volte em si, e lhe restitui melhores sentimentos; e tudo isto, meu Teótimo, Deus o obra em nós sem nós, por sua bondade toda amável, que nos previne com sua doçura (Salmo 21,4); porque como nossa princesa desmaiada se houvera ficado morta com seu desmaio se lhe faltasse o socorro do rei, assim a alma ficaria perdida em seu pecado a não ser prevenida de Deus; mas se a alma sendo assim excitada, junta seu consentimento ao sentimento da graça, seguindo a inspiração que a previne, e recebendo os auxílios e remédios necessários que Deus lhe preparou, a dará vigor e encaminhará com diversos movimentos de fe, esperança e penitência, até que do todo seja restituída à verdadeira saúde espiritual, que não é outra coisa que a caridade…

[8] …Meu caro Teótimo, não sabeis que os maus sonhos, voluntariamente procurados pelos depravados pensamentos do dia, têm em alguma maneira lugar de pecado, porque são como dependências e execuções da antecedente malícia? Assim, certo, os sonhos produzidos pelos santos afetos da vigília, são estimados por virtuosos e sagrados.

[IV, 1] Somos como o coral, que no oceano, lugar de sua origem, é um arbusto pálido, verde e flexível, mas tirado do profundo do mar como do seio de sua mãe, quase se torna pedra firme e inflexível, e muda seu verde esbranquiçado em um vermelho muito vivo. Estamos assim em meio do mar deste mundo, solar de nosso nascimento, sujeitos a muitas mudanças e flexíveis a todas as mãos: à direita do amor celestial pela inspiração; à esquerda do terreno pela tentação; mas se, uma vez tirados desta mortalidade, trocamos o polido verde de nossas temerosas esperanças no vermelho vivo do seguro gozo, nunca mais seremos mudáveis, senão ficaremos para sempre firmes no amor eterno…

[3] Costumam ver-se as pombas tocadas de vaidade, lozanear-se no ar, dando giros e voltas, olhando-se na variedade de suas plumas; mas então o gavião ou falcão que as espia abate-se sobre elas e as colhe, o qual não lhes sucederia jamais se as pombas voassem seu voo direito, porque têm as asas mais rijas que as aves de rapina. Ai, Teótimo! se não nos embebecêssemos na vaidade dos prazeres caducos, e sobre tudo na complacência de nosso amor-próprio, senão que tendo uma vez a caridade fôssemos cuidadosos de voar direitos à parte onde ela nos leva, pouca presa fariam em nós nem as sugestões nem as tentações; mas porque como pombas seduzidas e enganadas voltamos sobre nós mesmos e entretemos demasiado nossos espíritos entre as criaturas, achamo-nos muitas vezes presos nas garras de nossos inimigos que nos levam e despedaçam.

[V, 8] As cigarras, Teótimo, têm o peito cheio de canos, como se fossem órgãos naturais; e para cantar melhor, sustentam-se de orvalho, o qual não chupam pela boca, que não a têm, senão por uma lingueta que lhes pôs a natureza em meio do estômago, com a qual forma também seus sons com tanto ruído como se fossem vozes.

Assim é, pois, o amante sagrado, porque todas as faculdades de sua alma são outros tantos canos que tem em seu peito para entoar os cânticos e louvores de seu Amado. Sua devoção em meio de todas é a língua de seu coração, segundo diz São Bernardo, pela qual recebe o orvalho das perfeições divinas, chupando e atraindo-as a si, como seu alimento pela santíssima complacência; e por esta mesma língua de devoção forma todas as suas vozes de oração, de louvores, cânticos, salmos e bênçãos, segundo o testemunho de uma das mais insignes cigarras espirituais que jamais se ouviu cantar, que cantava assim (Salmo 103,1-2):

Bendizei, alma minha, santamente
impelida, a Deus vivo e poderoso;
não fique pensamento preguiçoso,
que seu louvor pregar não intente;
nem força alguma em meu interior se aplique,
que seu valor imenso não publique.

Que é o mesmo que se houvera dito: eu sou uma cigarra mística; minha alma, meus espíritos, meus pensamentos e todas as faculdades que estão juntas em mim, são órgãos…

[VI, 9] Não somente serve o vinho misturado com o mel para recolher e reduzir as abelhas a sua colmeia, senão também para afastar as umas das outras e sossegá-las; porque quando se amotinam e inquietam entre si, matando-se umas às outras, não tem melhor remédio o sobrestante que arremessar-lhes vinho com mel, rociando este miúdo povo embravecido; de sorte que com isto, cada particular de que se compõe, percebendo o odor suave e agradável, apazigua-se, e ocupando-se no gozo daquela doçura, fica sossegado e tranquilo. Oh Deus eterno! quando com vossa presença dulcíssima lançais em nossos corações os odorosos perfumes que alegram mais que o vinho delicioso (Cantares 4,10) e o mel suave, então todas as potências da alma entram em um agradável repouso, com tão perfeita quietude, que não lhes fica sentimento algum mais que o da vontade, a qual, como olfato espiritual, acha-se docemente empenhada em sentir, sem perceber, o bem incomparável de ter a seu Deus presente.

[10] …Esta alma, de quem vou falando, tendo só la vontade colhida, e o entendimento, memória, ouvido e imaginação livres, parecia… ao menino que mamando pode ver, ouvir e menear os braços, sem deixar por isso o peito. Mas é certo que a paz da alma seria muito maior e mais doce, se junto a ela não lhe fizessem ruído, nem tivesse ocasião de mover-se, em quanto ao coração nem ao corpo.

[IX, 7] Olhai, rogo-vos, aquela boa alma… que grandemente havia desejado e procurado livrar-se da cólera em que Deus a favoreceu, concedendo-lhe isenção de todos os pecados que dela procedem; primeiro morreria que dizer uma só palavra injuriosa nem dar uma só mostra de ódio; não obstante, ficou sempre sujeita aos assaltos e primeiros movimentos desta paixão, que são certos impulsos e saídas de um coração irritado, que a paráfrase caldaica chama estremecimentos, dizendo: “Estremecei-vos e não queirais pecar”, onde nossa sagrada versão disse: “Irai-vos e não queirais pecar (Salmo 4,5), que em efeito é uma mesma coisa, porque o profeta não quer dizer senão que, se a cólera nos colhe excitando em nossos corações os primeiros tremores, guardemo-nos bem não nos deixando engolfar nesta paixão porque pecaríamos, e ainda que estes primeiros impulsos ou estremecimentos não sejam pecado, com tudo isso, a alma que a miúdo se acha acometida, turba-se, aflige e inquieta, pensando que acerta em entristecer-se, como se o amor de Deus fosse quem a provoca a esta tristeza. Mas não é, Teótimo, o amor celestial quem causa sua turbação, porque este não se ira senão pelo pecado; é nosso amor-próprio, que quereria fôssemos isentos da pena e trabalho que nos causam os assaltos da ira…

[8] …Notai… que jamais retira Deus sua misericórdia de nós, senão pela equidade da vingança de sua justiça castigadora, e nunca escapamos o rigor de sua justiça senão pelo justificado de sua misericórdia: e sempre, ou castigando, ou gratificando, é adorável, amável e digno de eterna bênção seu beneplácito. Assim, o justo, que canta os louvores de sua misericórdia, pelos que se hão de salvar, alegrar-se-á também quando vir a vingança (Salmo 58,11); os bem-aventurados aprovarão com regozijo o juízo da condenação dos réprobos, como o da salvação dos escolhidos; e os anjos, havendo exercitado sua caridade com os homens que tiveram em guarda, ficarão em paz vendo-os obstinados e mesmo condenados. Convém, pois, ajustar-se à vontade divina e beijar com amor e reverência igual a mão direita de sua misericórdia e a esquerda de sua justiça.

[10] …Devemos, pois, procurar não buscar em Deus mais que o amor de sua formosura, não o prazer que há na formosura de seu amor. O que ora a Deus, se conhece que ora, não está perfeitamente atento a sua oração; porque diverte sua atenção de Deus a quem ora, para pensar na oração que lhe faz: o cuidado mesmo que temos de não ter distrações serve-nos muitas vezes de grande distração. A simplicidade nas ações espirituais é a mais digna de recomendação. Quereis olhar a Deus, olhai-lhe pois, e estai atento a isso; porque se fazeis reflexão e revolveis sobre vós mesmo, pondo os olhos no modo de olhar-lhe, já não é Deus a quem olhais, senão a vosso aceno e a vós mesmo. O que está em uma fervorosa oração, não sabe se está nela, porque não pensa na oração que faz, senão em Deus a quem a oferece. O que está no ardor do amor sagrado não revolve seu coração sobre si mesmo para olhar o que faz, senão tem-no fixo e ocupado em Deus a quem aplica seu amor. O cantor celestial recebe tanto gosto em agradar a Deus, que não acha algum na melodia de sua voz, senão em quanto é a Deus agradável…

[14] Se lhe perguntassem ao doce Menino Jesus, quando ia nos braços de sua mãe “Onde ides, Senhor?”, com razão houvera respondido: “Eu não vou, minha mãe é quem vai por mim”: e se lhe dissessem “Mas ao menos não ides com vossa mãe?”, respondera também: “Eu em nenhuma maneira vou, ou se vou à parte onde minha mãe me leva, não vou com ela por meus próprios passos, senão pelos de mi mãe, por ela e nela”; e se se lhe replicasse: “Mas ao menos, oh amantíssimo, divino Infante!, bem quereis deixar-vos levar de vossa doce mãe”. “Não por certo”, houvera podido dizer, “nada quero de tudo isso, antes como minha toda boa mãe caminha por mim, assim o quer ela por mim e deixo-lhe igualmente o cuidado de andar e querer andar por mim onde bem lhe pareça; e como eu não ando senão por seus passos, assim não quero, senão por seu querer e desde que me acho entre seus braços, não tenho atenção nem a querer nem a não querer, deixando todo outro cuidado a minha mãe, salvo o de estar em seu seio, mamar seu sagrado peito e pender de seu amabilíssimo pescoço, para amorosamente beijá-la 'com os beijos de minha boca' (Cantares 1,2); e haveis de saber, que enquanto eu estou entre as delícias destas santas carícias, que excedem toda suavidade, parece-me que minha mãe é uma árvore de vida e que eu sou nela como seu fruto, que sou seu próprio coração em meio de seu peito ou sua alma em meio de seu coração; e assim como seu andar basta para ela e para mim, sem que eu me intrometa em dar passo algum, assim sua vontade basta para ela e para mim, sem que eu tenha querer algum no ir ou vir; e assim não reparo se vai depressa ou devagar, por uma parte ou por outra, nem inquiro onde queira ir, contentando-se de qualquer maneira que seja, de achar-me sempre entre seus braços, junto a seus amáveis peitos, onde eu 'como entre os lírios me apascento' (Cantares 2,16; 6,2)”… Assim devemos, Teótimo, fazer nós; deixando-nos dobrar e trazer, segundo o beneplácito divino, como se fôssemos de cera; não nos ocupando em desejar e querer as coisas, senão deixando-as querer e fazer a Deus…

[15] “Meus olhos estejam sempre no Senhor, porque Ele desempenhará meus pés dos laços e redes” (Salmo 25,15). Caístes nas redes das adversidades? Não olheis vossa aventura nem os laços em que destes; olhai a Deus e deixai-lhe fazer, que Ele terá cuidado de vós; “ponde vosso pensamento em Deus e Ele vos manterá” (Salmo 55,23); para que vos intrometeis vós em querer ou não querer os sucessos e acidentes do mundo, pois não sabeis o que deveis querer deles? Deus quererá sempre e bastante por vós, tudo o que vós pudésseis querer sem que vos atormenteis com o cuidado; aguardai, pois, com repouso de espírito os efeitos do beneplácito divino e baste-vos seu querer, pois sempre é sumamente bom, porque assim o ordenou a sua mui amada santa Catarina de Sena: “Pensa em Mim (disse-lhe), que pensarei por ti”.

[X, 7] Quando a desditosa tropa dos espíritos diabólicos, havendo-se rebelado contra seu Criador, quis atrair a sua facção a santa companhia de espíritos bem-aventurados, o glorioso São Miguel, animando seus companheiros à fidelidade que deviam a seu Deus, gritava em alta voz (mas com um modo angélico) em meio da celestial Jerusalém: “Quem como Deus?”. E com esta palavra derrubou ao aleivo Lúcifer com seus sequazes, que queriam igualar-se à Divina Majestade; e daí, como se diz, pôs-se-lhe o nome, pois Miguel não quer dizer outra coisa senão “quem como Deus?”. E quando os amores das criaturas querem atrair nossos espíritos a seu bando para fazer-nos desobedientes à Divina Majestade, se o grande amor divino se acha na alma, opõe-se como outro Miguel, e assegura as potências e forças da alma no serviço de Deus, com esta palavra de firmeza: “Quem como Deus?”. Que bondade há nas criaturas que possa obrigar ao coração humano a rebelar-se contra a soberana bondade de seu Criador?…

[11] …Do mesmo modo que Jacó viu que uma mesma escala tocava o céu e a terra servindo igualmente aos anjos para descer como para subir, assim também sabemos que uma mesma dileção se estende a amar a Deus e ao próximo, levantando-nos à união de nosso espírito com Deus, e voltando-nos à amorosa sociedade dos próximos; mas de tal sorte, que amamos ao próximo em quanto é imagem e semelhança de Deus, criado para comunicar com a divina bondade, participar de sua graça e gozar de sua glória…

[14] Desejava um cavalheiro que um famoso pintor lhe pintasse um cavalo correndo: fez-lhe o artífice deitado de costas e como revolvendo-se; começou a enfadar-se o cavalheiro, quando o pintor, voltando o retrato de cima para baixo: “Não vos enojeis, senhor”, disse-lhe, “para trocar a postura de um cavalo correndo na de um que se está revolvendo, não é mister mais que voltar o retábulo”. Teótimo, quem quiser ver que zelo ou que zelos devemos ter para com Deus, não é mister mais que pintar mui bem os zelos que temos das coisas humanas, e depois transtornar o retábulo, porque tal deve ser o que Deus nos pede…

[15] Aquele bom pai de famílias… conheceu bem que os criados ardentes e violentos costumam exceder da intenção de seus donos; porque oferecendo-se os seus para ir a escardar seu campo, e arrancar dele o joio, disse-lhes: “Não vo-lo quero permitir, não seja que com o joio arranqueis também o trigo” (Mateus 13,29)… Não é boa economia, diz nossa gente do campo, ter em casa pavões, porque ainda que colhem as aranhas e a limpam delas, lançam, com tudo isso, a perder as cobertas e tetos e a utilidade não é comparável com os danos que fazem…

[16] Os grandes santos que industriaram suas paixões a força de mortificá-las com o exercício das virtudes, podem governar sua cólera a todas as mãos, soltando-a e recolhendo-a como bem lhes parecer… Não é dado a todos o saber encolerizar-se quando convém e como convém.

[XI, 3] …Para dar gosto de azeitona às uvas, não é mister mais que plantar as cepas entre oliveiras; porque sem tocar uma na outra, só pela vizinhança comunicar-se-ão estas plantas reciprocamente os sabores e propriedades; tanta é a inclinação e estreita conveniência que têm entre si. Todas as flores, exceto as da árvore triste e algumas outras de natural monstruoso, alegram-se, abrem-se e formoseiam à vista do Sol, pelo calor vital que recebem de seus raios; mas todas as flores amarelas, e sobre todas as que os gregos chamaram heliotrópios e nós girassol, não só recebem alegria e complacência com a presença do Sol, mas seguem com uma amável volta o atrativo de seus raios, olhando-lhe e revolvendo-se para ele desde que se levanta até que se põe. Assim, todas as virtudes recebem um novo lustre e uma dignidade excelente pela presença do amor sagrado…

[20] O amor é a vida de nosso coração, e como os pesos dão o movimento a todas as peças movíveis de um relógio, assim o amor dá à alma todos os movimentos que tem…

Os médicos metódicos têm sempre na boca esta máxima: que os contrários se curam com seus contrários. Os espagíricos celebram uma sentença oposta, dizendo que os semelhantes se curam com seus semelhantes. De qualquer maneira que seja, sabemos que duas coisas desaparecem a luz das estrelas: o escuro das trevas da noite, e a maior claridade do Sol. Do mesmo modo combatemos as paixões, ou pondo-lhes outras contrárias, ou maiores afetos de seu gênero… Assim, posso combater o desejo de riquezas e de deleites mortais, ou pelo desprezo que merecem, ou pelo desejo das imortais…

Cristo, Senhor nosso, usou de um e outro método em suas curas espirituais… Oh santa e sagrada alquimia! Oh divinos pós de submissão, com os quais todos os metais de nossas paixões, afetos e ações, se convertem no ouro puríssimo da celestial dileção!

[21] Não se pode enxertar uma pua de carvalho em uma pereira, tão contrários são os humores destas duas árvores. Assim, tampouco se poderá juntar a ira, a cólera, nem o desespero com a caridad, ao menos será dificultosíssimo. Em quanto à ira, temo-lo visto no discurso de zelo; quanto ao desespero, se não é reduzindo-o à justa desconfiança de nós mesmos, ou bem ao sentimento que devemos ter da vaidade, fraqueza e inconstância dos favores, assistências e promessas do mundo, não vejo que outro serviço possa tirar disto o divino amor.

Em quanto à tristeza, como pode ser útil à santa caridade? Pois entre os frutos do Espírito Santo, a alegria tem seu lugar junto à caridade (Gálatas 5,22)… Diz-se que há um peixe chamado pescador, e por sobrenome diabo do mar, que revolvendo o lodo enturva a água ao redor de si para meter-se nela como em emboscada, desde onde logo que apercebe os pequenos peixinhos, arroja-se a eles, colhe-os e devora, de onde quiçá saiu o refrão: “Pescar em água turva”. Pois o mesmo faz o diabo do inferno que o do mar, porque arma suas emboscadas na tristeza, quando havendo enturvado a alma com multidão de enfadonhos pensamentos que põe no entendimento, arroja-se depois sobre os afetos, oprimindo-os com desconfianças, zelos, aversões, invejas, apreensões supérfluas de pecados passados, e trazendo quantidade de sutilezas vãs, agras e melancólicas, para que se dê de mão a toda sorte de razões e conselhos… A tristeza procede outras vezes da condição natural, quando o humor melancólico predomina em nós, e esta, verdadeiramente, não é viciosa em si mesma; mas nosso inimigo não deixa de servir-se dela grandemente para afundar e tramar mil tentações em nossas almas, porque como as aranhas não costumam urdir suas teias senão quando o tempo está pardo e o céu nublado, assim este espírito maligno não tende com tanta facilidade as redes de suas sugestões nos espíritos brandos, benignos e alegres, como nos turbulentos, tristes e melancólicos, porque lhes inquieta facilmente com angústias, suspeitas, ódios, murmurações, censuras, invejas, preguiças e entorpecimentos espirituais.

…Finalmente, há uma tristeza que a variedade de acidentes humanos traz consigo… Esta tristeza é comum aos bons e aos maus; mas nos bons é moderada pela conformidade e resignação na vontade de Deus, como se viu em Tobias, que de todas as adversidades que padeceu deu graças à Majestade Divina; e em Jó, que bendizia o nome do Senhor (Jó 1,21); e em Daniel, que convertia suas dores em cânticos. Ao contrário, aos mundanos esta tristeza é ordinária e troca-se em pesares, desesperos e aturdimentos de espírito, porque são semelhantes aos macacos e martas que sempre estão mofinos, tristes e enfadonhos na minguante da Lua, como ao contrário na crescente saltam, dançam e fazem suas macaquices. O mundano é desabrido, enfadonho, amargo e melancólico na minguante das prosperidades terrenas; e na crescente, bravo, regozijado e insolente.

A tristeza da verdadeira penitência, não tanto se deve chamar tristeza como desgosto, sentimento e detestação do pecado; tristeza que jamais é enfadonha nem irada… segundo a regra que põe São Agostinho: “Que o penitente se entristeça sempre, mas sempre se alegre de sua tristeza”… Desculpável é não estar sempre alegre, porque nenhum é dono da alegria para tê-la quando quiser; mas não há desculpa para não ser sempre bom, fácil e ajustado, porque isto sempre é do poder de nossa vontade e não é mister mais que resolver-se a vencer o humor e inclinação contrária.

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