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Estado teopático

JBSJC

Capítulo IV: Estado Teopático na Doutrina de São João da Cruz

  • Problema metodológico relativo ao estudo da transformação e união místicas nas obras de São João da Cruz.
    • Dificuldade em reconstruir esquema doutrinal completo a partir apenas de Subida do Monte Carmelo e Noite Escura, obras consideradas inacabadas.
    • Interrogação sobre valor dos tratados Cântico Espiritual e Chama Viva de Amor para suprir lacunas das primeiras obras.
    • Reconhecimento de que cada poema expressa experiência mística total e não etapas de processo linear.
    • Admissão de que Cântico e Chama oferecem construção doutrinal nova, permitindo aceder a certos fatos e ritmos da experiência extática, embora em plano estético e metafísico a perda seja irreparável.
    • Circunstância de composição das obras: Cântico e Chama como respostas a demandas específicas, aplicando doutrina já edificada a experiências íntimas, em contraste com intenção sistemática e edificante da Subida.
  • Natureza da penetração na substância íntima da alma e seus custos.
    • Implicação de sacrifício total das modalidades conscientes do eu.
    • Rupturas do equilíbrio psicofisiológico como acompanhantes do passagem dos sentidos para o espírito, analisadas na Noite Escura.
    • Distinção crucial entre sinais somáticos, que apenas dispõem para vida nova, e a vida espiritual propriamente dita.
    • Desinteresse de São João da Cruz pelo estudo modal dos fenômenos extáticos ou pseudoextáticos em si mesmos.
    • Aspiração a transcender o obstáculo da natureza para alcançar vida espiritual permanente, sendo esta o verdadeiro objeto de seu olhar.
    • Centralidade da análise do estado teopático como ponto de convergência de seu pensamento teórico e como abalo transformador de sua experiência narrada.
  • Postura de São João da Cruz face a diferentes formas de êxtase.
    • Rejeição das formas de êxtase que traduzem desordem ou desequilíbrio entre espírito e sentido, equiparando-as a meras aparências.
    • Valor eventual dos estados extáticos residiria apenas na capacidade de conduzir a estados ulteriores.
    • Distinção terminológica crucial: uso de arrobamiento (arrebatamento) e traspaso (transporte) para fenômenos em geral; uso de rapto (rapto), vuelo de espíritu (voo do espírito) e éxtasis (êxtase) para fenômenos extáticos muito elevados.
    • Fonte privilegiada para compreender a valoração positiva do êxtase: comentário à estrofe XII do Cântico Espiritual, onde tais termos aparecem associados a tema poético do voo e a ebulação considerada divina.
    • Referência às análises de Santa Teresa de Jesus como doutrina adotada por São João da Cruz, na qual o êxtase, apesar da apaziguamento teopático final, é ressaisido em sua grandeza.
  • Análise comparativa das concepções de êxtase em Santa Teresa e São João da Cruz.
    • Em Santa Teresa, distinção mas não dissociação entre arrebatamentos e visões; as mais altas visões frequentemente produzem êxtase e vice-versa.
    • Reconhecimento teresiano de que, no ponto mais alto do arrebatamento, a alma não vê nem ouve, experimentando suspensão simultânea das potências.
    • Persistência, porém, do vínculo entre êxtase e comunicação de verdades, revelações e favores, mesmo após fase paroxística.
    • Oposição profunda com São João da Cruz: este rejeita tanto a visão ligada ao arrebatamento quanto a visão independente, desviando-se delas com igual força.
    • Admiração de São João pela finura introspectiva e capacidade de diferenciar estados em Santa Teresa, especialmente nas geniais páginas das Sextas Moradas sobre o voo do espírito.
    • Convergência doutrinal fundamental residindo não na fenomenologia, mas na mesma experiência central, para além das visões e mesmo do êxtase, da união secreta no centro íntimo da alma onde espírito e Deus se tornam um.
  • Estrutura e ritmo experiencial do Cântico Espiritual como via para o êxtase e estado teopático.
    • Esquema proposto pelo próprio São João: primeiras estrofes sobre trabalhos e amarguras da mortificação; estrofes V a XI sobre penas e estreitos do amor; estrofes XII a XXVII sobre esponsais espirituais; a partir da XXVII, matrimônio espiritual.
    • Necessidade de interpretação não literal deste esquema, pois desde início o Cântico transcende a mera ascese.
    • O Cântico é, desde origem, canto de amor ferido, partindo do grito da alma pela ausência do Amado.
    • Sonho fundamental formulado desde início: união com o Verbo Filho de Deus em clara e essencial visão.
    • Substituição dos rodeios didáticos da Subida e da Noite pelo atalho lírico; busca de Deus escondido na própria alma.
    • A ferida de amor ou toque divino como ponto de partida, não sendo apreensão distinta, mas contato que arranca a alma das coisas e de seus modos naturais.
    • Renúncia dupla e implacável: a Deus e às criaturas, incluindo imagens e tudo que delas emana.
    • Ritmo da Subida e da Noite é conservado, mas transposto para plano lírico novo, impulsionado por delírio sagrado expresso na linguagem do Cântico dos Cânticos.
  • Caminho da alma nas primeiras estrofes do Cântico: da angústia aos prelúdios do êxtase.
    • Oscilações do ser desolado buscando Deus fora do centro onde Ele reside: desejos, afetos, gemidos, trabalhos internos, exaltação das virtudes, humilhação, conhecimento de si.
    • Conhecimento das criaturas não como etapa ascética, mas como conhecimento lírico, olhar inflamado que já anuncia vida teopática, aproximando São João de São Francisco de Assis.
    • Diálogo angustiado entre alma e natureza, à maneira agostiniana, buscando vestígios divinos nas criaturas.
    • Resposta das criaturas, que deixam a alma ferida por um não sei quê que balbucia, levando-a a sentir a imensidão inatingível da Divindade.
    • Prelúdios extáticos: questão sobre como a alma persiste no corpo quando vive mais no que ama; volta à Fé como único meio para união verdadeira.
    • O drama extático eclode no momento da renúncia total, quando a alma é definitivamente atingida pelo toque divino.
  • Descrição e análise do voo do espírito como êxtase propriamente dito no Cântico.
    • Distinção entre arrebatamentos imperfeitos, que a alma pede sejam afastados, e o voo do espírito, por ela ardentemente desejado.
    • O voo do espírito é descrito como momento altíssimo, comparado ao arrebatamento paulino.
    • Espírito humano é arrebatado para comunicar-se com o espírito divino, abandonando o corpo, deixando de sentir nele e ter nele suas ações.
    • Corpo fica inanimado, sem sensação, sem reação à dor, diferindo de desmaios naturais.
    • Retorno do voo (Vuélvete, Paloma) se dá no seio do próprio êxtase que declina, inaugurando a contemplação inerente ao estado extático.
    • Problema da consciência durante a transe: observação externa sugere inconsciência psicofisiológica, abolição da vida de relação.
    • Porém, simultaneamente, experiência interior do voo do espírito sugere vivência positiva, talvez uma supraconsciência, uma vivência do abandono do corpo em sua qualidade positiva.
    • Êxtase cósmico expresso nas estrofes seguintes: síntese de imensidão, solidão, silêncio e fragor, onde universo e Deus se fundem para a alma extática.
    • Esta síntese constitui a única êxtase que, em sua obra teórica, São João da Cruz considera criadora.
  • Diferença de ritmo e valor do êxtase entre a Noite Escura e o Cântico Espiritual.
    • Na Noite, o êxtase violento parece miséria que a vida do espírito fará desaparecer, fraqueza comum nos aprovechados.
    • No Cântico, o êxtase, ainda que destinado a cessar na união total, é iniciação a vida nova, transfiguração onipotente que faz passar do plano humano ao divino.
    • Ritmo do Cântico é de veemência angustiada que culmina na transe extática, resumindo experiência onde o êxtase é fase decisiva.
    • Coincidência doutrinal final sobre a cessação dos arrebatamentos no estado de perfeição, mas divergência fundamental dos ritmos experienciais: um sombrio e purgativo, outro arrebatado e iniciático.
    • Na transe do Cântico, a contemplação reflete o êxtase, e o retorno a si é ainda extático, constituindo primeira fase da divinização definitiva.
    • Estado resultante, chamado academicamente de Esponsais Espirituais, envolve comunicação de grandes coisas de Deus à alma, embelezando-a de grandeza e majestade, e fim das angústias veementes.
    • Metáfora nupcial (esponsais, matrimônio) encobre pensamento metafísico subjacente de crescente deificação, que caracteriza o estado teopático final.
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