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Peter Lamborn Wilson

Angels

Prelúdio

O cabalista

  • Convida-se à imaginação de um ícone tal como poderia ter existido na mente de um estudioso cabalista da Toledo do século XV, onde um feixe de luz atravessa a janela sobre sua tribuna e ele levanta os olhos em devaneio para contemplar a grande Árvore do Mundo Angélico.
    • A cena evoca o ambiente intelectual do misticismo judaico medieval em Toledo, centro de efervescência cabalística
    • A Árvore do Mundo Angélico — imagem central da Cabala — serve de suporte visual para toda a meditação que se segue
  • O cabalista recria o esquema abstrato dos dez Sefirot, os dez Atributos Divinos que governam e moldam o universo visível e invisível, e eles se dispõem numa forma semelhante a um roseiro sobre o qual desabrocham dez imensurávéis flores de luz.
    • Sefirot — as dez emanações ou atributos divinos na cosmologia cabalística, que estruturam tanto o mundo espiritual quanto o material
    • A imagem do roseiro com flores de luz traduz em linguagem sensível a abstração das emanações divinas
  • Cada uma das rosas de luz desdobra suas pétalas e revela uma figura alada, e no cume da Árvore aparece o grande Metatron, o mais próximo do Trono Divino, que foi outrora o profeta Enoque.
    • Enoque — figura bíblica que “não estava mais, pois Deus o havia tomado” (Gênesis 5,24), transformado no arcanjo Metatron na tradição mística judaica
    • Deus colocou sua própria coroa sobre a cabeça de Enoque, concedeu-lhe setenta e dois pares de asas e incontáveis olhos
    • A carne de Enoque foi transformada em chamas, seus tendões em fogo, seus ossos em brasas, e ele passou a ser envolto por tempestade, redemoinho, trovão e relâmpago
  • Metatron é o mais elevado de todos os Anjos — profeta, ancião de barba, inspirado —, mas ao mesmo tempo um adolescente eterno e celestial, de beleza radiante, tal como Isaías o contemplou.
    • Isaías o viu “assentado sobre um trono, alto e sublime, e o seu manto enchia o templo. Acima dele estavam os Serafins: cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava.” (Isaías 6, 1–2)
    • Os Serafins — seres celestes de seis asas que circundam o Trono Divino na visão de Isaías
  • Em torno de Metatron situam-se os Querubins, descritos nas visões proféticas com quatro asas cada um, pés retos, solas como solas de pata de bezerro e brilho de bronze polido.
    • “Cada um tinha quatro asas. E seus pés eram pés retos; e a sola de seus pés era como a sola do pé de um bezerro; e eles brilhavam como a cor do bronze polido. E tinham as mãos de um homem sob as suas asas nos quatro lados… Suas asas estavam unidas umas às outras… Quanto à semelhança de seus rostos, os quatro tinham rosto de homem, e rosto de leão do lado direito; e os quatro tinham rosto de boi do lado esquerdo; os quatro também tinham rosto de águia.” (Ezequiel 1, 4–10)
    • “Dessas criaturas jorram rios de suor de fogo semelhantes a rios de relâmpago, e das gotas desse suor são produzidas multidões de Anjos.” (Daniel 7, 10)
  • Os três Anjos à esquerda da Árvore são Zafquiel, Anjo da Contemplação; Samael, Anjo do Mal; e Rafael, Anjo da Cura — sendo que Samael também é chamado Satã, Lúcifer, a Estrela da Manhã.
    • O cabalista recorda que os Anjos podem assumir muitas formas simultaneamente
    • Se Satã — em uma manifestação decaída e descomunal — ocupa o poço gelado do mais baixo inferno de Dante, ele também pode aparecer como o adversário estranho e elegante do Livro de Jó, que perambula pelos Céus para travar um jogo de azar com o Senhor
    • Na Árvore, o cabalista o contempla em sua glória original, resplandecente de joias
  • Rafael é o Médico Divino e também o patrono dos viajantes — veste chapéu de peregrino, carrega um cajado e uma cabaça d'água, ou talvez um frasco de ungüento curativo.
  • O tronco da Árvore, abaixo de Metatron, exibe mais três figuras do ícone do cabalista — Miguel, Gabriel e Sandalfão —, sendo que nenhuma palavra pode fazer jus à glória de Miguel, patrono de Israel e chefe dos exércitos celestiais.
    • Miguel — comparável ao deus persa Mitra, seu equivalente — pode ser representado como um guerreiro alado e radiante em armadura reluzente, transpassando com sua lança a forma retorcida de uma serpente ou dragão sob seus pés
    • Mitra — divindade persa solar e guerreira, com paralelos simbólicos ao arcanjo Miguel
  • Gabriel, que comanda a Sabedoria Espiritual, assume a forma de um belo jovem vestido de seda verde bordada, levando aos lábios uma trompa de ouro.
  • Sandalfão — cujo nome evoca o som de passos que se aproximam — é o Espírito Guardião, ao mesmo tempo chefe e protótipo de todos os anjos guardiães, e embora esteja aos pés da Árvore, sobre o mundo criado, sua estatura se estende por todo o universo, sendo mais alto do que qualquer outro ser “por uma jornada de quinhentos anos”.

O filósofo

  • No Fedro, Platão sugere que tanto os deuses quanto as almas dos homens são alados, mas o ser que acima de todos deve ter asas é aquele que não é nem deus nem homem, mas um intermediário entre os dois — um mensageiro, em hebraico malakh, em grego angelos.
    • Platão — filósofo grego (428–348 a.C.), autor do Fedro e do Simpósio, obras centrais para a compreensão filosófica dos intermediários espirituais
    • Malakh — palavra hebraica para mensageiro ou anjo
    • Angelos — palavra grega para mensageiro, origem do termo “anjo
    • Para Sócrates, Eros não é, como outros sustentariam, o belo amado; ao contrário, é o Espírito que inspira o amante, que lhe confere a divina loucura
  • Eros não é mortal nem imortal — é um espírito que interpreta e transporta mensagens entre homens e deuses, pois “Deus não trata diretamente com o homem; é por meio dos espíritos que se realiza toda a intercomunicação e comunicação dos deuses com os homens, tanto na vigília quanto no sono.”
  • Sócrates transmite o relato da sacerdotisa Diotima sobre as origens do Amor: no aniversário de Afrodite, Astúcia, filho da Invenção, embebedou-se de néctar, e Pobreza aproveitou-se disso para seduzi-lo e gerar seu filho, que foi Eros.
    • Diotima — sacerdotisa de Mantineia, figura do Simpósio de Platão, mestra de Sócrates nos ensinamentos sobre o Amor
    • Afrodite — deusa grega do amor e da beleza, em cujo aniversário teria sido concebido Eros
  • Eros é sempre pobre e, longe de ser sensível e belo como a maioria das pessoas imagina, é duro e curtido pelo tempo, descalço e sem lar, dormindo sempre ao relento por falta de cama, no chão, em soleiras e na rua — mas, sendo também filho de seu pai, trama para si tudo o que é belo e bom; é audacioso e impetuoso, sempre tramando ardis como um astuto caçador; anseia pelo conhecimento e é pleno de recursos, sendo amante da sabedoria por toda a vida, um hábil mágico e alquimista.
  • Assim como os Anjos da Cabala, Eros é um mensageiro, um espírito; é alado; é ao mesmo tempo o Ancião dos Dias e um menino gracioso, e em outros contextos atua como guia da alma, guardião ou duplo espiritual do homem — representando tanto o mestre espiritual quanto o amado —, o que lhe confere pretensão de ser considerado uma manifestação do mais elevado de todos os Anjos.
  • Eros também prega peças e é algo de um mágico, e nenhuma figura do ícone angélico nos preparara para isso — o que suscita a questão de se um Anjo pode ser um trapaceiro —, exigindo que se estenda o olhar para além da Terra Santa e da Grécia a fim de descobrir se o arquétipo platônico do homem ou espírito alado pode ser encontrado em outros lugares e sob que disfarces.

O xamã

  • O xamã Campu do leste do Peru canta com uma voz estranha e distante que faz até suas vestes vibrar, e os bons espíritos aparecem a ele sozinho, assumem formas humanas e dançam — sendo que o falcão Koakiti aparece como um homem alado.
    • “Tabaco, tabaco, tabaco puro / Vem do Começo do Rio. / Koakiti, o falcão, traz-te. / Suas flores estão voando, tabaco. / Vem em teu auxílio… / Koakiti, o falcão, é seu dono.”
    • A fumaça do tabaco é a ponte mágica pela qual a alma do xamã pode ascender ao mundo dos espíritos — daí o seu valor ritual
  • Os espíritos beija-flor também aparecem como Anjos, conforme evocado em canto ritual.
    • “Beija-flores, beija-flores, eles vêm correndo / Beija-flores, beija-flores, aparência sombria / Beija-flores, beija-flores, todos nossos irmãos / Beija-flores, beija-flores, todos eles pairam / Beija-flores, beija-flores, grupo sem mácula.”
  • Alce Manco, um médico sioux contemporâneo, descreve em sua autobiografia os Quatro Pássaros-Trovão, homens alados que correspondem aos Querubins dos Sioux.
    • Alce Manco — medicine man (curandeiro sagrado) sioux, autor de relato autobiográfico sobre a cosmologia de seu povo
    • “Há quatro grandes e antigos pássaros-trovão. O grande wakinyan do oeste é o primeiro e o principal entre eles. Está envolto em nuvens. Seu corpo não tem forma, mas tem enormes asas de quatro articulações. Não tem pés, mas tem garras, enormes garras. Não tem cabeça, mas tem um enorme bico com fileiras de dentes afiados. Sua cor é preta. O segundo pássaro-trovão é vermelho. Tem asas de oito articulações. O terceiro pássaro-trovão é amarelo. O quarto pássaro-trovão é azul. Este não tem olhos nem ouvidos.”
    • Wakinyan — palavra sioux para o pássaro-trovão, ser cosmológico de poder supremo
  • Quem tem a visão desses seres deve tornar-se um palhaço, um homem-contrário ou heyoka — que faz tudo ao contrário, para o divertimento e muitas vezes o horror da tribo —, sendo como um bobo medieval com licença para virar o mundo de cabeça para baixo e ser um eterno Senhor do Caos; o heyoka é também um profeta, um homem santo — um tolo sagrado.
    • Heyoka — figura ritual dos Sioux que age de modo inverso às normas sociais, considerada ao mesmo tempo cômica e sagrada
  • Corvo (Qaq), o demiurgo ou agente do Caos e da Criação dos Tlingit do noroeste da América, é outra criatura alada — obscena, gulosa, lasciva e trapaceira —, que traz luz ao mundo roubando a lua.
    • Tlingit — povo indígena do noroeste da costa do Pacífico norte-americano
    • Qaq — nome tlingit para o Corvo, ser mítico primordial
  • O Corvo sabe quem é dono da lua — um velho pescador que sulca os mares da escuridão absoluta dos “tempos antigos” e mantém a fonte de luz escondida dentro de dez caixas, como um quebra-cabeça chinês, num alto prateleiro de sua cabana.
  • O Corvo se transforma numa agulha de pinheiro e flutua na superfície de uma fonte — a filha do pescador bebe a água, concebe e dá à luz uma criança; o pescador se encanta com o novo neto e o mima, e o bebê chora, o homem oferece brinquedo após brinquedo, mas somente a caixa da lua o aquieta — e ele abre todas as caixas e brinca com a bola luminosa, até o pescador sair da cabana.
  • Logo o Corvo retoma sua forma de pássaro, solta o grito do corvo — “Gaa!” — e voa pela abertura da chaminé com a lua no bico, quebra pedaços dela e cria o sol e as estrelas.
  • O Corvo é o Logos — nascido de uma virgem —, Lúcifer e Prometeu portadores de luz; Maya, a deusa hindu da natureza e da ilusão; Proteu, o deus grego que assume muitas formas — a própria alma da matéria —, e é o primeiro e maior xamã, o homem que penetra os segredos, torna-se um pássaro-espírito e voa pela árvore em direção à luz, grasnando com gargalhada selvagem.
    • Logos — princípio grego de razão ordenadora do cosmos, aqui associado ao Corvo como princípio criador
    • Lúcifer — o portador da luz, associado tanto à queda quanto à iluminação nas tradições ocidentais
    • Prometeu — titã grego que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens
    • Maya — conceito hindu de ilusão cósmica, personificado como deusa
    • Proteu — divindade marinha grega capaz de assumir qualquer forma
    • O Corvo entalhia o primeiro poste totêmico — símbolo da Árvore do Mundo ou Escada Angélica, a hierarquia do cosmos, registro de sua jornada e emblema heráldico de seu povo
    • O Corvo é Metatron, o profeta que se torna Anjo; é Hermes, o trapaceiro com feições angélicas e mensageiro dos deuses que rouba o gado do sol e inventa a lira; é também Mercúrio dos alquimistas — o jovem nu e alado
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