MINUCIOSIDADE DOS DETALHES E EXTREMA AMPLITUDE
Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)
O leitor de Fílon tem imediatamente a impressão de que ele associa um pouco à sua fantasia as reflexões que lhe são sugeridas por uma palavra da Escritura, à maneira de um pregador erudito que se deixa levar por digressões. Ora, em sua obra não há digressões, se por isso se entende um ornamento baseado na improvisação e não mais na necessidade do discurso. Sua lógica se baseia nos códigos que ele utiliza.
Assim, por exemplo, descobrimos imediatamente algumas traduções que são sempre as mesmas: o nome Eva sempre carrega consigo a noção de “sensação-sensibilidade” ou de “feminilidade” frágil; é uma das duas partes do composto humano, enquanto a outra é a virilidade, a solidez, a orientação para cima e não para baixo. Fílon tem as ideias e os clichês fortemente ambivalentes de sua época sobre a “mulher”, mas veremos mais adiante como esse artigo de seu “código” se insere em uma síntese menos simplista. Da mesma forma, Israel sempre designa “aquele que vê Deus”, e assim por diante. É fácil imaginar que, uma vez que se depara com esse nome, Fílon seguirá esse cânone e se sentirá obrigado a aceitar essa ideia, por exemplo, a de “ver Deus”, o que o levará necessariamente a dizer algo sobre o que é possível “ver” em Deus, já que se pode perceber “que ele existe”, mas não discernir com clareza “o que ele é em si”. Se então aparecer um número, por exemplo, “quatro reis em guerra contra outros cinco reis”, imediatamente se destacará um significado simbólico que evocará os “cinco” sentidos e seremos arrastados pela própria necessidade do código para uma psicologia rudimentar. Sodoma evocará sempre a ideia de “esterilidade” ou “cegueira”; Ló será sempre o símbolo irritante dos homens que “se desviam” do caminho reto.
Devemos acrescentar, para não assustar gratuitamente o leitor, que essas traduções nem sempre são declaradas abertamente. Pode ser que uma ou duas páginas, ou mesmo mais, tomem essa direção e que, passando de uma coisa para outra, se dê uma interpretação desconcertante de tal passagem bíblica diante do fato de que, sem nomeá-lo expressamente, ronda por aqueles lugares a figura de Ló ou de Adão ou do malvado Esaú ou mesmo do pérfido Labão. Os nomes e os números, os lugares, a direção das viagens, a presença de um singular ou de um plural, de um masculino ou de um feminino, o valor definido ou indefinido de um pronome, o tempo presente ou imperfeito ou futuro de um verbo, uma repetição das palavras: tudo é interpretado, mas seguindo uma regra fixa em cada tipo de observação. Dessa forma, um pronome indefinido nos lançará ao mundo do indefinido, ou seja, para algo que não está encerrado neste aspecto ou naquela forma, e, finalmente, indo logicamente do riacho ao rio, do rio ao golfo, chegaremos à descoberta de que é Deus quem está implícito nesse pronome indefinido, aquele a quem é impossível circunscrever ou limitar em nenhum aspecto e em nenhuma forma.
Essa atenção ilimitada aos detalhes seria mera curiosidade ou mera atitude infantil se não fosse acompanhada por uma vestimenta mais ampla, mais nobre, mais digna da palavra. Por isso, é preciso perceber em tudo isso outro código, mais amplo, distinto daquele que Fílon deseja ler. Os destinos exemplares dos três patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó, sem esquecer Moisés, servem de pano de fundo para todas as páginas de Fílon.
Em Abraão, é preciso lembrar tudo o que se refere aos começos, ao desejo de saber, à pergunta, à busca, ao chamado.
Em Jacó, que, desse ponto de vista, ocupa uma segunda posição mística — é o homem que usa seu conhecimento —, nos vemos imersos na existência concreta daquele que quer e luta; é regularmente chamado de “o atleta”; é um homem apaixonado, pois sua vida conhece duas épocas e, um belo dia — seria melhor falar de uma bela noite —, ele se vê transformado de Jacó em Israel, “aquele que vê Deus”. Compreendemos então todo o proveito moral e místico que se pode tirar desse cumprimento.
Isaac, embora esteja situado entre Abraão e Jacob do ponto de vista cronológico, domina ambos: filho de Deus em certo sentido, eterno e símbolo da alegria pelo seu próprio nome de “risada”, é aquele que de fato dá a ambos seu movimento e seu término.
O leitor de Filo deve sempre ter em mente que há um desses três personagens, ou os personagens contrários — como Caim ou Labão, ou também Esaú —, presidindo a exposição de Filo que tem diante de seus olhos, porque são esses destinos literários e místicos que realmente governam seu discurso, e não mais as concepções filosóficas. Essas concepções, inclusive a do logos-verbo, a das potências de Deus, inclinam-se, pelo contrário, diante das necessidades da exegese local; são seus instrumentos. Quando se começa a sutilizar as coisas, quando se afasta de uma teologia forte, mas muito simples, para ler Fílon, já não se pode mais lê-lo nem explicá-lo; não se faz mais do que projetar sobre ele um sistema teológico pré-fabricado. Recordemos, por exemplo, seu monoteísmo obstinado; sua afirmação mil vezes repetida de que Deus é incognoscível e que somente ele é quem comunica o que pode ser vislumbrado; sua concepção heróica e absolutamente judaica da virtude, segundo a qual, mesmo reduzida a quase nada e confinada a um resto, a um último justo, continuará sendo sempre o sustento do universo; sua bela ideia do homem, na qual o espírito natural dado ao ser humano se une ao Espírito de Deus, já que o logos-verbo teceram no homem uma sabedoria e um instinto da verdade e da beleza que reconhecem na Escritura dada a Israel a verdade e a beleza que há em Deus. Trata-se de um terceiro código, por assim dizer, distinto de um simples bagagem mental.
Desta forma, os raciocínios de Fílon misturam sem qualquer dissimulação os mínimos detalhes dos tabus alimentares com a definição do um; ele reflete com a mesma seriedade sobre a gramática ou sobre a teologia. É que seu objetivo é diferente de uma “explicação”. Ele deseja “mostrar” o texto bíblico. E quanto mais os meios à sua disposição lhe permitirem mobiliar nossa memória com as prateleiras das páginas bíblicas — vale a comparação —, melhor ele cumprirá sua função de intérprete.
