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OBRA, SEGUNDO MARTÍN

JOSÉ PABLO MARTÍN — FILÓN DE ALEJANDRÍA Y LA GÊNESIS DE LA CULTURA OCCIDENTAL

O alexandrino escreveu cerca de 50 livros durante sua vida, totalizando mais de três mil páginas atuais. A maioria chegou até nós, o que é incomum para escritores antigos. A maior parte do que foi preservado é conhecida na língua original, o grego koiné. Alguns fragmentos são conhecidos apenas na tradução armênia, traduzida por sua vez para línguas modernas e parcialmente confirmada pela doxografia.

O grupo mais numeroso de seus escritos pode ser agrupado sob o título de “interpretação alegórica do Gênesis”. São 19 tratados que se sucedem temática e exegeticamente, acompanhando o caminho da ascensão do homem, pelo conhecimento do cosmos, de seu próprio ser composto, de sua situação ética antinômica, até chegar à visão do ser que resolve, com seu poder, as antinomias pelas quais passa.

Eis esquematicamente a concatenação deste grupo orgânico de tratados:

(Observação: em primeiro lugar, será dada a abreviação com que o tratado será citado; em segundo lugar, o título completo em latim; em terceiro lugar, as passagens do Gênesis que constituem o programa exegético de cada tratado; em quarto lugar, o tema exegético-filosófico ali desenvolvido).

  1. Leg I = Legum allegoriae I (Gên 2, 1-17): criação do mundo inteligível e do mundo sensível.
  2. Leg II = Legum allegoriae II (Gên 2, 18-3,1): criação do homem composto de intelecto e sensibilidade.
  3. Leg III = Legum allegoriae III (Gên 3, 8-18): drama do intelecto entre Deus e o prazer.
  4. Cher = De Cherubim (Gên 3, 23-24; 4, 1-2): expulsão do paraíso e presunção da alma terrena (= Caim).
  5. Sacr = De sacrificiis Abelis et Caini (Gên 4, 2-4): duas naturezas em conflito dentro do homem (Caim e Abel), orgulho e graça.
  6. Deter = Quod deterius potiori insidiare soleat (Gênesis 4, 8-15): castigo do orgulho.
  7. Post = De posteritate Caini (Gênesis 4, 16-25): tensão entre o esforço humano e a perfeição dada por Deus.
  8. Gig — De Gigantibus (Gênesis 6, l-4a): oposição entre o carnal e o espiritual; interpretação dos gigantes míticos.
  9. Deus — Quod deus sit inmutabilis (Gênesis 6, 4b-12): sentido de antropomorfismo e da ira de Deus; Noé recebe as graças.
  10. Agr — De agricultura (Gên 9, 20-21): sobre o cultivo da sabedoria na alma. Deus, esposo da sabedoria.
  11. Plant — De plantatione (Gên 9, 20): Deus cultivador do mundo; o homem, cultivador de virtudes, imitador de Deus.
  12. Ebr = De ebrietate (Gênesis 9, 21 e outros): tipos de embriaguez (Noé).
  13. Sobr = De sobrietate (Gênesis 9, 24-27): bênçãos e maldições de Noé; estados da alma.
  14. Conf = De confusione linguarum (Gênesis 11, 1-9): a dispersão e o castigo da alma presunçosa.
  15. Migr = De migratione Abrahami (Gênesis 12, 1-6): itinerário da alma; etapas do abandono da criação e dons de Deus para o itinerante.
  16. Her = Quis divinarum rerum heres sit (Gên 15,1-18): o herdeiro de Abraão é a alma purificada.
  17. Congr = De congressu eruditionis gratia (Gên 16, 1-6): a instrução (Hagar) e a sabedoria (Sara) conduzem no caminho para Deus.
  18. Fug = De fuga et inventione (Gên 16, 6-14): fuga e retorno da alma (Hagar).
  19. Mut = De mutatione nominum (Gên 17,1-6; 16-22): a mudança de nomes (de Abraão e Sara) significa a conclusão da obra de Deus e a consumação da jornada do homem.

Neste conjunto de tratados, a interpretação alegórica, em desenvolvimentos difíceis e nem sempre ordenados, incorporou a história espiritual do homem, que desde sua obscuridade inicial acessa a sabedoria divina, ao quadro exegético dos temas do Pentateuco, especialmente do Gênesis. Próximas aos tratados anteriores, existem ainda outras obras exegéticas cujo texto é o Gênesis:

  1. Somn I = De somnis I.
  2. Somn II = De somnis II. e principalmente:
  3. Opif = De opificio mundi (Gênesis 1 e 2), a obra mais conhecida de Filo, na qual ele comenta os dois relatos da criação, segundo os quais a atividade criadora de Deus teria imposto às coisas suas estruturas essenciais, todas inscritas no pensamento expresso do próprio Deus, o logos.

Outro grupo de tratados descreve as figuras dos Patriarcas, como arquétipos da vida humana elevada a Deus. O Pentateuco, para Filo, é a Lei ou legislação de Deus: se na criação se funda a lei de todos os seres cósmicos, nas pessoas dos Patriarcas se funda a lei viva para todo o homem. Os títulos que se conservam são: -? 23. Abr = De Abraão.

  1. Jos — De José.
  2. Mos I = De vita Mosis I.
  3. Mos II = De vita Mosis II.

Outros títulos se detêm na observância legal, ou seja, expõem a lei e as tradições judaicas. Essas obras têm um duplo aspecto: fundamentar os elementos particulares de uma legislação e mostrar que, por sua vez, são a concretização da Lei já manifestada na criação e nos Patriarcas, para a prática filosófico-religiosa de cada homem. Haveria, portanto, um universalismo sem perda do particular. Os tratados que se conservam neste grupo são:

  1. Dec = Do decálogo.
  2. Spec l = De specialibus legibus I.
  3. Spec II = De specialibus legibus II.
  4. Spec III = De specialibus legibus III.
  5. Spec IV — De specialibus legibus IV.
  6. QG = Quaestiones et solutiones in Genesim.
  7. QE = Quaestiones et solutiones in Exodum.

Um grupo de títulos tem características apologéticas, de exposição ou defesa da doutrina judaica:

  1. Virt = De virtutibus.
  2. Praem — De praemiis et poenis.
  3. Contempl — De vita contemplativa.
  4. Prov — De Providentia.
  5. Hypoth = Hypothetica, Apologia pro Iudaeis.

Existem também ensaios de caráter filosófico onde são expostas (às vezes sem discussão) opiniões das escolas da época, especialmente estoica, platônica e aristotélica; nesses tratados não são citados textos bíblicos:

  1. Prob = Quod omnis probus liber sit.
  2. Aeter = De aeternitate mundi.

E, por último, foram conservadas duas obras históricas de grande importância, nas quais são narradas as turbulências antijudaicas da Alexandria do século I e a embaixada que Filo presidiu perante os imperadores romanos:

  1. Flacc = In Flaccum.
  2. Legat = Legatio ad Caium.

Para as abreviações das edições críticas e traduções, consulte a bibliografia. A principal edição crítica é a alemã de Cohn, sendo também útil a inglesa de Colson. A mais consultada para este trabalho é a francesa, dirigida por Arnaldez-Pouilloux-Mondésert. Recentemente, os leitores de língua espanhola têm à sua disposição uma tradução integral do texto grego, publicada pela primeira vez e de forma meritória por José M. Triviño. Em geral, seguirá-se esta tradução, exceto nos casos em que seja necessário um reflexo imediato do texto original. Em casos especiais, por outro lado, serão indicados os termos gregos. Existe uma dificuldade na tradução da palavra-chave para o tema desta investigação: nous. Esta palavra grega pode ser aplicada a Deus e ao homem. Provém da tradição grega (especialmente platônica) e designa o substrato último da alma humana, aquele que deve alcançar a autoconsciência. Para este termo, preferiu-se o espanhol “intelecto”.

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