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MIGRAÇÃO DE ABRAÃO

Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)

Tomemos a primeira página de um livro, A emigração de Abraão. Nela, Filon comenta as famosas palavras: “O Senhor disse a Abraão: Saia da sua terra, da sua parentela, da casa de seu pai…” (Gn 12, 1).

A migração de Abraão § 1-6

Deus quer purificar a alma humana. Começa por lhe dar um impulso para o caminho da salvação perfeita; é preciso que ela abandone os três terrenos, o do corpo, o da sensação, o da palavra expressa. Porque a terra deve ser tomada como símbolo do corpo, a família como símbolo da sensação, a casa do pai como símbolo da palavra. Por quê? Porque o corpo recebeu sua substância da Terra e também se dissolve na terra. Tal é o testemunho de Moisés: “Tu és terra e em terra te converterás”. Isso significa que o corpo formou um conjunto de elementos graças ao gesto de Deus que modelou o pó na forma de homem; e é necessário que, uma vez dissolvido esse corpo, ele se dilua nos elementos que se reuniram. Quanto à Sensação, ela é certamente parente e até irmã do pensamento; juntas, as duas constituem o par do irracional e do racional, e são as duas partes da alma, que é uma só. A Palavra é a morada do pai, pois, em primeiro lugar, nosso espírito é certamente nosso pai: ele semeia em cada parte da alma as potências que dele emanam e distribui suas funções, embora mantendo cuidadosamente a tutela geral de todas elas; mas, por outro lado, a morada onde ele reside, à parte de todas as outras da casa, é precisamente a palavra. A residência de um homem é o lar; a residência do espírito é a palavra. Nós o vemos efetivamente estabelecer-se no discurso e colocar-se ali à vontade e confortavelmente, a ele e aos raciocínios que ele engendra como se fossem filhos; ele está ali como em sua morada. Não se surpreenda que Moisés dê à palavra do homem o qualificativo de “morada do espírito”. Ele não diz que o espírito do universo, Deus, possui sua própria palavra da mesma forma que se possui uma morada? De fato, quando Jacob — o asceta — acaba de receber a manifestação dessa palavra, ele reconhece imediatamente: não é isto ou aquilo, é a morada de Deus; o que significa: a morada de Deus não é uma daquelas realidades que podem ser descritas ou que caem sob os sentidos; não, é invisível, imperceptível; só pode ser captada pela alma enquanto alma. Bem, mas o que pode ser esse quarto senão a Palavra, anterior a todos os seres que receberam a existência e o devir, essa palavra da qual o piloto do universo se apoderou como de um leme para governar a navegação do todo? Quando modelava o mundo, ele fez dela um instrumento para garantir a coesão irrepreensível de sua obra.

Eis o que se tornou aquele famoso êxodo de Abraão!

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