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LETRA E SER

LÉVY, Benny. Le Logos et la lettre: Philon d’Alexandrie en regard des pharisiens. Lagrasse: Verdier, 1988.

  • Diante da indagação sobre a origem da ideia de que os relatos foram escritos de gênero alegórico e devem ser entendidos apenas nesse sentido, questiona-se se os autores convocaram para suas deliberações ou se houve ocultação da verdade na mente deles no momento em que substituíam uma coisa por outra.
    • Arnobe, Adv. nat. V 33, citado em Mito e alegoria, J. Pépin, nova edição, Estudos augustinianos, 1976, página 403.
  • A concessão divina permitiu estar a serviço de uma nova aliança, não literal, mas espiritual, visto que a letra mata e o espírito faz viver.
    • Paulo, II Coríntios 3:6.
  • Os judeus alegoristas são caracterizados como cidadãos do mundo.
    • E. Bréhier, As Ideias filosóficas e religiosas de Filo de Alexandria, Vrin, 1950, página 65.

O Logos e a Letra

Os sinais da natureza

  • Uma vez reduzida a diferença entre Israel e as nações, concebe-se que a Palavra de Deus, na perspectiva de Filo, não se manifesta em nenhuma língua específica.
    • Estimativa de que indivíduos de horizonte limitado ao próprio país julguem que o legislador não pretendeu dizer outra coisa.
    • Aqueles inscritos em uma cidade mais vasta, dotados de pensamentos mais perfeitos, sabem que a investigação não se concentra em quatro poços, mas nas quatro partes do universo.
    • Somn. I, parágrafo 39.
  • A ausência de necessidade em perscrutar os hebraísmos no autor alexandrino indica que comentar a Torá em grego não representa nenhum problema real.
    • A Septuaginta surge como a própria Palavra de Deus, de caráter incorpóreo e nu, sem diferença alguma com a unidade.
    • Deus., parágrafo 83.
    • Celebração anual de festa e panegíria na ilha de Faros para venerar o lugar onde a tradução lançou a primeira clareza e para render graças a Deus pelo antigo benefício sempre renascente.
    • Mos. II, parágrafo 41.
  • A travessia em massa por judeus e não judeus sugere que, não fosse a condição pouco prestigiosa do povo judeu, o mundo inteiro realizaria o deslocamento.
    • Opinião de que cada povo abandonaria as leis próprias, deixando de lado os costumes ancestrais, para respeitar a única Lei.
    • Id., parágrafo 44.
  • A liberdade de comentar termos gregos, interrogar radicais e interpretar nomes hebreus a partir de jogos de palavras gregas ocorre sob a condução de um soplador invisível.
    • O termo próprio caldeu foi vertido exatamente pelo mesmo termo próprio grego, perfeitamente adaptado à coisa significada.
    • Mos. II, parágrafos 37, 38.
  • A univocidade é apontada como a essência ou o telos da linguagem, constituindo um ideal aristotélico ao qual nenhuma filosofia jamais renunciou.
    • Jacques Derrida, Margens — Da filosofia, Minuit, 1972, página 295.
  • A realização desmedida desse ideal em Faros torna irrelevante o próprio problema da tradução.
    • Sempre que caldeus conhecedores do grego ou gregos conhecedores do caldeu confrontam simultaneamente as duas versões, a caldeia e a tradução, contemplam-nas com admiração e respeito como duas irmãs, ou como uma só e mesma obra, tanto no fundo quanto na forma.
    • Os autores não são chamados de tradutores, mas de hierofantes e profetas.
    • Mos. II, parágrafo 40.
  • Essa febrilidade extraordinária evidencia a condição central da estratégia de leitura praticada por Filo.
  • A interpretação do versículo em grego adota como ponto de partida a tese aristotélica sobre a limitação das significações.
    • A postulação de uma infinidade de significações impediria a existência de qualquer logos.
    • Não significar uma coisa única equivale a nada significar.
    • Metafísica Gamma, 4 1006 b, tradução de Tricot, Vrin, 1966, tomo I, página 201.
    • Contraponto de um mestre de Israel afirmando que cada versículo da Torá foi feito pelo Santo, bendito seja Ele, como uma imensa reserva onde se asseguram e reservam múltiplos temas sem limite.
    • Ben Ich Hai, od Iosef hai, Jerusalém, 1984—1985.
  • O impasse diante das variações dos versículos e a preservação do ideal de univocidade resolve-se por meio da alegoria, que converte o sementema em noção filosófica.
    • A operação promove a passagem das afirmações literais para as ideias.
    • Abr., parágrafo 217.
  • A intolerância a qualquer descompasso exige que o significado, pertencente à ordem do espírito, não conviva com a variedade no significante, sob pena de colapso do universo philoniano.
    • Assim como na geometria e na dialética as coisas a significar não admitem a variedade na expressão, que permanece imutável uma vez estabelecida, os tradutores descobriram as expressões adaptadas às realidades, as únicas ou mais capazes de restituir com perfeita clareza as coisas significadas.
    • Mos. II, parágrafos 37, 38.
  • A validade observada no texto grego aplica-se com maior força ao texto original escrito pelo dedo divino, alterando a compreensão habitual de Palavra de Deus e Logos.
  • O Logos assume a condição de habitação onde reside o pensamento, sendo essa morada identificada inicialmente com a figura de uma mulher antes da ascensão da alma.
  • A caracterização dessa figura como sedutora e perversa impõe o abandono da palavra expressa.
    • Orientação para deixar a habitação do pai a fim de não sofrer sedução pelas belezas das palavras e dos termos, evitando a separação da beleza autêntica residente nas coisas designadas pelos vocábulos.
    • Id., parágrafo 39.
  • A transformação da casa-mulher em esquema para a ascensão culmina na manifestação do Logos a Jacó como habitação divina.
  • O Logos restituído à majestade, como potência divina semelhante a uma Virgem celeste, divide-se entre pensamento e palavra, representados pelos irmãos Moisés e Aarão.
    • Linguagem e razão compartilham a mesma mãe, a natureza racional do Logos, cujos filhos são necessariamente irmãos.
    • Migr., parágrafo 78.
  • A tradução do pensamento de Moisés por Aarão assemelha-se à tradução da Torá pelos setenta sábios sob o reinado de Ptolomeu.
  • Os artifícios da linguagem-mulher e da língua dos magos do Egito desfazem-se de modo análogo ao engolimento dos bastões pelo bastão de Aarão diante da hábil variedade da natureza.
    • Migr., parágrafo 85.
  • A noção de variado deixa de conotar a túnica ensanguentada de José e passa a designar a veste ornada e maravilhosa do sumo sacerdote Aarão em sua atividade externa.
    • Tomar a outra veste toda ornada e melhor de ver, Ebr., parágrafo 86.
  • O alegorista, também denominado físico, identifica os sinais claros da natureza refletidos nas palavras como em um espelho.
    • Abr., parágrafo 60.
    • Contempl., parágrafo 78, em paralelo com as Enéadas, IV 3, 30.
  • Há uma recusa voluntária em enxergar o jogo exercido pela palavra variado sobre o intérprete.
  • O autoimpedimento em perceber o próprio jogo justifica-se porque a conversão ao sentido figurado decorre da coação da própria letra, por meio de sinais fornecidos pelo legislador ou pela natureza.
  • O físico reconhece o chamado particular feito pelo legislador direcionado a ele, e não à multidão.
  • Constata-se a ausência de justificação a respeito desse processo de significação e sinalização.
  • É a partir dessa dinâmica sinalizadora que se projeta a transição em direção à filosofia.
  • A preservação da estratégia interpretativa ocorre mediante a decisão do alegorista de fundamentar essa significação na própria filosofia, fechando o ciclo.
  • Em intervenção no colóquio de Lyon, assinala-se o comportamento de Filo e Aristóbulo diante do texto sagrado.
    • As anomalias, estranhezas, contradições e absurdos do sentido literal tornam-se mais chocantes e significativos da intenção alegórica quando tocam a natureza de Deus.
    • O absurdo da acepção literal mostra-se suficiente para afastar o leitor do literalismo e orientá-lo para a alegoria.
    • Jean Pépin, Teoria da exegese alegórica, Atas do colóquio sobre Filo, Lyon, 1966, Ed. do CNRS, Paris, 1967.
  • Aquilo considerado natural e suficiente pelo físico para migrar rumo à alegoria constitui o fator de interrupção para o pensador da letra.
  • A suposição de que Moisés deve ser entendido literalmente em Êxodo 22:25—26 e de que Deus manifesta preocupação por um manto recebe censura ou advertência.
    • Tal entendimento é interpretado como rebaixamento da grandeza divina à pequenez humana.
    • J. Pépin, página 146.
  • O pensador da Letra, vinculado à Halachá, mantém a convicção de que a preocupação divina se dirige efetivamente ao manto.
    • O procedimento divino de autolimitada pequenez é apontado como a condição que viabiliza a grandeza humana.
    • O Talmud, tratado Baba Metzia 31b, 113b.
  • O alegorista realiza a seleção dos sementemas respaldado no conhecimento prévio sobre a natureza e sobre a essência de Deus.
  • O pensador da Letra preserva a integridade da letra sem acréscimos ou subtrações, permitindo que as estranhezas do texto desestabilizem continuamente o saber estabelecido sobre a divindade.
  • A pressa do alegorista confronta-se com a paciência fiel do literalista.
    • Filo prescinde de solucionar as dificuldades do sentido literal no nível em que se apresentam, optando por desconsiderá-las de maneira sumária.
    • J. Pépin, ibid.

B. A mulher petrificada

  • A intenção de Filo, conforme sugestão anterior de Bréhier, volta-se à crítica contra a leitura mitológica da Escritura.
  • Sob essa ótica, a contestação da letra-mulher concentra-se na crítica da petrificação, representada no plano semântico pela esposa de Ló.
    • Ló teve duas filas de uma mulher que foi petrificada e que deveria ser denominada costume; ela se manifesta hostil à verdade e, se conduzida junto, permanece atrás, com olhos fixos nos objetos habituais, assemelhando-se a um marco sem alma.
    • Ebr., parágrafo 164.
  • A leitura da Escritura não deve adotar a postura assumida pela mulher de Ló.
  • A materialidade da letra não pode servir de pretexto para a elaboração de fábulas, embora estas possuam utilidade na fundação de uma comunidade.
    • Utilidade reconhecida para a condução da vida de um bom cidadão, no sentido de ser educado em opiniões que remontam à antiguidade e seguir a tradição das belas ações.
    • Sacrif., parágrafo 78.
  • O literalismo compreendido como mitologia bastaria caso o objetivo do leitor consistisse apenas em preservar a memória dos pais fundadores.
  • A palavra revelada, contudo, afasta-se do conceito de costume, mesmo transmitida de geração em geração; a leitura da trajetória de Abraão difere da fixação em uma lembrança familiar.
  • A interpretação meramente mnemônica configura hostilidade à verdade, pois repete a recusa da mulher de Ló em acompanhar a partida de Abraão.
  • A mulher de Ló, de forma semelhante a Labão, pressupõe a necessidade de conservação da ordem temporal.
    • Crença de que é justo que os homens tenham comércio com as coisas mais antigas e somente depois com as mais recentes.
    • Ebr., parágrafo 48.
  • O comportamento de Labão revela crença no novo e na juventude, supondo a sedução pelos encantos do recente após o casamento com a primogênita.
    • Essa atitude reflete as duas faces da paixão pelo tempo fragmentado, no qual a sensibilidade busca discernir o antes e o depois.
  • O diferencial da leitura inspirada reside na inversão da ordem temporal, desestabilizando os ritmos lentos do estudo, da audição e da obediência aos preceitos tradicionais.
  • Na brecha gerada por esse momento oportuno ocorre a manifestação do próprio Deus.
    • Indagação sobre o momento indicado pelo mestre, reconhecendo-o como aquele incapaz de ser apontado por qualquer ser do devir.
    • O próprio Deus constitui o verdadeiro momento propício.
    • Mut., parágrafo 264.
  • Os literalistas vinculados aos tempos antigos e aos mitos de fundação ignoram a ruptura e a inversão desse acontecimento temporal.
    • Junto a Deus inexiste o velho ou o passado, pois tudo nasce e existe instantaneamente.
    • Sacrif., parágrafo 76.
  • Sob o tempo fragmentado manifesta-se a promessa de retorno na mesma estação no ano seguinte, para que Sara conceba um filho, conforme Gênesis 18:10.
  • O Presente de Deus define-se simultaneamente como doação pura e presença em um tempo diferenciado.
  • A sabedoria em questão é recebida sem a mediação de mentores, configurando uma visão que emerge no silêncio da maestria.
  • Ocorre a substituição do sentido da audição pelo da visão.
  • O dever de atenção aos ensinamentos visa à preparação para o momento em que a divindade faz brotar os germes internos.
    • Deus faz levantar na alma novos germes de uma sabedoria aprendida de si mesmo.
    • Sacrif., parágrafo 79.
  • A alegoria busca conduzir o leitor ao instante decisivo de autorrevelação, integrando a história sagrada à própria trajetória de nascimento individual.
  • O processo dispensa o auxílio da maiêutica tradicional.
    • Menção de que as mulheres dos hebreus não necessitam de parteiras para a realização do parto.
    • Fug., parágrafo 168.
  • Essa orientação interpretativa observada nos pontos salientes da alegoria de Filo é interrompida.
  • A impossibilidade de apagar totalmente os vestígios da letra impede a redução da facticidade histórica de Israel.
  • A presença desse signo não natural revela-se indispensável para a convergência das nações em Faros com o objetivo de celebrar o Unificado.
  • A crítica philoniana se estende aos alegoristas radicais que ignoram os vínculos comunitários.
    • Aqueles que agem como se vivessem isolados no deserto ou fossem almas desencarnadas ignoram cidades, povoados, casas ou agrupamentos humanos na busca isolada pela verdade nua.
    • A Palavra Santa ensina a necessidade de cultivar a inteligência fecunda sem abolir os costumes determinados por personagens inspirados.
    • Migr., parágrafo 90.
  • A restauração dos Pais na condição de fundadores não gera perturbação no sistema de Filo.
  • A preservação do filosofema garante a univocidade do significado em qualquer cenário.
    • A abordagem comporta o relato empírico de fundação voltado ao público popular ou a transposição do sensível ao inteligível direcionada à perspectiva mística.

C. O sintema

  • Ocorre a transferência imprevista do variado do plano sensível para o plano inteligível por parte de Filo.
  • O vocábulo destinado a assegurar a precisão e a univocidade filosófica sofre deslocamento de acordo com a dinâmica metafórica.
  • A alegoria é descrita como uma metáfora contínua que desloca a totalidade do plano semântico sensível em direção à Ideia, à virtude e à alma.
    • Quintiliano, citado em J. Pépin, Teoria da exegese alegórica, op. cit., página 89.
  • Deslocamentos instáveis são identificados no interior do próprio discurso filosófico, onde se esperava estabilização.
  • A aparente ingenuidade philoniana contrasta com a vigilância manifestada pelos neoplatônicos no tratamento do material simbólico.
  • Damascius expressa preocupação antes do desenvolvimento do discurso sobre a processão.
    • Inquietação em transferir para o inteligível as denominações extraídas das realidades inferiores.
    • Damascius, Dos primeiros princípios, Verdier, 1987, página 491.
  • Filo assemelha-se a um platônico neófito fixado no sentido óbvio da crítica de Platão ao mito, indignando-se com representações corporais da divindade e com absurdos literais.
  • A demonstração de Proclus no comentário sobre A República indica a exigência de superação dessa postura por um platonismo rigoroso.
  • É necessária a percepção da semelhança na dissemelhança entre o plano superior e o inferior, articulada pela linguagem mítica.
    • O mito realiza o indivisível no dividido e confere corpo ao inefável.
    • J. Trouillard, A Misticismo de Proclos, páginas 48—49.
  • Uma prerrogativa metodológica concedida ao neoplatônico apresenta-se vedada ao exégeta alegorista.
  • Essa possibilidade baseia-se na manutenção de um afastamento entre a linguagem da filosofia e a da teologia, cindida entre a indicação e o simbolismo.
  • Embora o filosófico e o teológico convirjam na afirmação da pureza do Unificado ou do Indicível, expressam-no por vias distintas com efeitos diversos.
  • O neoplatonismo adota o termo sintema do vocabulário dos Oráculos caldaicos para designar a marca divina impressa no sensível.
    • A designação representa a eficácia do Unificado atuante no plano sensível.
    • A causa do universo semeou em todos os seres marcas de sua superioridade absoluta, permitindo a descoberta do símbolo do Pai quando o ser retorna ao aspecto inefável da própria natureza.
    • Proclus, Teologia platônica II, ed. H.E. Saffrey e L.G. Westerink, Les Belles Lettres, 1968—1978, páginas 5—6.
  • A marca semeada pelo Pai na alma torna-se objeto de esquecimento no momento da entrada desta no corpo.
    • H. Lewy, Chaldaean Oracles and Theurgy, nova edição nos Estudos augustinianos, 1978, página 190 e seguintes.
    • O desejo de retorno da alma ao Pai envolve a recordação dessa marca.
  • O âmbito da simbólica, conectado à teurgia, fundamenta-se na recordação de um nome e na invocação de sua potência.
    • E.R. Dodds, Os Gregos e o irracional, Flammarion, 1965, col. Champs, página 290.
    • O despertar da alma vincula-se à restauração do nome esquecido que a assinala.
  • A introdução do sintema na linguagem da indicação faculta ao filósofo suspeitar do indicível por meio de termos aplicados às realidades inferiores.
    • Na tentativa de indicar o princípio supremo, propõe-se ora um meio, ora outro de conhecimento, ou mais precisamente, um sintema.
    • Damascius, op. cit., página 279.
  • O plano inferior emite sinais em direção ao plano superior por intermédio da articulação sintemática do sensível.
    • O signo sensível condensa uma longa processão contínua e assume potência de conversão, revelando eficácia quando há engajamento ativo em seu jogo.
    • Sentir define-se como decifrar.
    • J. Trouillard, op. cit., página 206.
    • A exegese alegórica recusa esse tipo de sinal, demandando o esquecimento da mulher para a revelação da alma virtuosa.
  • O filósofo que inicia a investigação a partir de vocábulos abstratos lida inicialmente com a indigência verbal, distanciando-se da abundância simbólica.
  • A aproximação discreta entre a Indigência e a Abundância instaura uma dinâmica erótica na linguagem da indicação.
  • O exégeta alegorista adota uma postura de desconfiança perante essa união.
  • O ponto de partida do alegorista situa-se no plano simbólico da letra, tomada como algo que o ultrapassa.
  • O problema central do intérprete resume-se às ações de suprimir, consolidar e ordenar.
  • Esse procedimento resulta na eliminação da densidade simbólica do sensível, de modo que a noção perde a capacidade de indicação.
  • A impossibilidade de controlar a dinâmica metafórica preserva uma zona cega evidenciada pelo comportamento do termo variado.
  • A aceitação da hipótese de um comentário alegorico radical utilizado e traído por Filo permite projetar a uniformidade conceitual de tal tratado.
    • R. Goulet, A Filosofia de Moisés, Vrin, 1987.
    • A substituição sistemática de cada sementema por uma noção resultaria em um conteúdo banal para o historiador da filosofia.
    • Na tentativa de localizar a filosofia grega na Bíblia, os alegoristas evitavam originalidade doutrinária, limitando-se a breves aproximações simbólicas no comentário cursivo.
    • O interesse do documento desaparecido reside na originalidade do projeto exegético, mais do que na execução nos versículos do Pentateuco.
    • R. Goulet, op. cit., página 566.
  • A conclusão do Pentateuque sob essa metodologia não acrescentaria conhecimentos além daqueles já disponíveis por meio de Cícero.
  • Nota-se relevância no fato de que o vocábulo que designa o ápice do pensamento no cuidado em Damascius — a suspeita — corresponde em Filo à designação da própria alegoria.
    • Tradução de M.-C. Galpérine: o suspeito.
  • A suspeita em Damascius move-se em direção ao nada, confronta a aporia, recua e reinicia o processo, enquanto o indicível se esquiva.
  • A suspeita em Filo, após proclamar a propensão da natureza ao ocultamento em alinhamento com Heráclito, cede à tentativa de desvelá-la.
    • Esse tipo de personagem recebe do legislador o nome de falso profeta por desnaturar a verdadeira profecia e obscurecer as descobertas autênticas com invenções espúrias.
    • Os estratagemas são descobertos em curto espaço de tempo, pois a Natureza não se compraz na dissimulação eterna e desvela sua beleza por meio de poderes invencíveis.
    • Spec. IV, parágrafo 51.
  • O indicível manifesta-se a partir do próprio sensível na abordagem neoplatônica, expressando a potência do princípio transcendente.
  • A transcendência é afirmada na perspectiva alegorista para além do Bem e do Unificado.
  • A necessidade de contrair o plano sensível-semântico não impede a teoria alegorista de buscar o desvelamento do segredo resguardado da transcendência.
  • Cogita-se a presença de um jogo de finalidade mais decisivo na teléstica teúrgica de Proclus do que na experiência mística de Filo.

D. O telos

  • O vocábulo telos é interpretado inicialmente por Filo como termo, limite e fim.
  • O alcance do telos e a consumação da iniciação equivalem, para o alegorista, a atingir a fronteira do pensamento.
  • Formula-se a questão sobre qual seria o fim da reta inteligência das coisas.
  • A resposta de Filo concentra-se na condenação da loucura.
    • Consiste em condenar a loucura em si mesmo e em toda criatura.
    • A convicção da ignorância total estabelece os limites e as fronteiras do saber diante do único Sábio, que é também o único Deus.
    • Migr., parágrafo 134.
  • O espírito conduzido à perfeição reverte seu imposto à divindade sob essa condição.
  • O termo imposto em grego pode ser designado como telos, em conformidade com a estipulação legal de que o imposto pertence a Deus.
    • Migr., parágrafo 139, comentário do versículo de Números 31:29.
  • O sacrifício de Isaac ao terceiro dia constitui o imposto devido ao término da trajetória abrahamica.
  • A chegada ao termo do percurso configura o pagamento do tributo e a consequente emergência como linhagem perfeita.
  • Esse processo estabelece a transição em direção à natureza intemporal.
    • O homem de bem executa cada ponto, direcionando sua marcha sem desvios no caminho da vida.
    • As obras do sábio deixam de se diferenciar das palavras divinas ao final do trajeto.
    • Id., parágrafo 129.
  • O resultado final apresenta-se como a cessação da diferença entre a criatura e o Criador, anulando a distinção entre mortal e imortal.
  • A natureza perfeita representada por Isaac faculta o acesso a uma assimilação radical a Deus, configurando o ser humano à imagem divina.
    • Vinculado à linhagem do guia soberano devido à abundância do sopro divino, o indivíduo aplicava-se a agir de modo agradável ao Pai e Rei, seguindo-o nas vias abertas pelas virtudes.
    • O avanço é permitido apenas às almas que consideram a assimilação a Deus como o termo.
    • Opif., parágrafo 144.
  • Isaac simboliza o renascimento na condição de filho de Deus com base no instante que inaugura a eternidade.
  • A tese da assimilação divina constitui o limite crítico do pensamento philoniano, que não pode excluir o princípio hebraico da separação entre Criador e criatura.
    • A formulação evita a equiparação hermética de uma natureza perfeita que se integra à própria Potência de Deus.
    • Mos. I, parágrafo 75.
  • O uso cauteloso do conceito de assimilação por Filo encontra um direcionamento mais seguro por meio da noção de lei animada.
  • Essa concepção, disseminada no ambiente helenístico, alinhava-se à formulação presente no Político de Platão.
    • Atribuição ao Rei de uma ciência régia posicionada acima das leis escritas.
    • O Político, 294a.
    • Mos. II, parágrafo 4.
  • A atração de Filo por essa ideia fundamentava-se em uma tripla vantagem teórica.
  • A identificação das palavras divinas com os atos do sábio operava de forma gradual a transição do mortal ao imortal.
    • A existência do fundador da linhagem apresenta-se em conformidade com a lei, configurando-se como a própria lei e como um código não escrito.
    • Abr., parágrafo 276.
  • O termo conforme à lei bastaria para uma finalidade moral, mas a lei animada assume a função de esbater a diferença entre mortal e imortal.
  • A noção evoca de modo sutil a unidade na tríade dos patriarcas sob a proeminência exercida por Isaac na exegese philoniana.
    • Homens que não foram discípulos de outrem, não aprenderam com mestres o que dizer e fazer, tornando-se os próprios ouvintes e alunos.
    • Dedicaram-se à ordem da natureza, julgando a própria natureza como a instituição mais venerável.
    • Id., parágrafo 6.
  • Todos os patriarcas passam a ser descritos como dotados de aprendizado espontâneo e natureza perfeita.
  • A operação transfere a própria letra do plano sensível para o plano inteligível.
    • Aquele que espera é digno de registro e memória na natureza imortal, na qual as boas ações estão inscritas, em vez de pequenos pedaços de papiro destruídos por vermes.
    • Id., parágrafo 11.
  • Os Pais realizam a abolição da letra por meio do código não escrito, garantindo simultaneamente a sua continuidade.
  • Nota-se que, de modo análogo ao ocorrido com o termo variado, Filo não manifesta percepção quanto a esse movimento.
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