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CONFINS

LÉVY, Benny. Le Logos et la lettre: Philon d’Alexandrie en regard des pharisiens. Lagrasse: Verdier, 1988.

  • A doutrina de Fílon sobre as Potências divinas nunca encontrou eco na Palestina, seja na época da Mixná ou na do Talmud.
    • Treitel aponta essa ausência de repercussão na obra Mélanges H. Cohen.
  • O problema do pensamento que confina com o mundo e com Deus reside nos próprios confins, especificamente no intermediário e no traço de união entre Jacó e Israel.
    • A busca por uma solução evoca a noção de meson em alinhamento com o Filebo.
  • A primeira vista, a existência de um tipo humano nos confins do mortal e do imortal sugeriria a figura do Progressante, situado a meio caminho entre o Egípcio e o Perfeito, representando a metade de Jacó—Israel.
  • A noção de meio dissimula o impasse e se torna o lugar das equívocas e da confusão entre Agar e Rachel, caracterizando a educação média.
    • R. Arnaldez aborda esse ponto em intervenção no colóquio de Lyon.
  • A investigação sobre quem se situa nos confins do imortal e do mortal pelo lado masculino remete ao questionamento sobre as figuras bíblicas.
  • Enoque representa o arrependimento e foi arrebatado por Deus para fundar uma colônia distante da vida mortal, nas margens da vida imortal.
  • A oposição se estabelece entre Enoque, que foi agradável a Deus, e Abraão, que foi agradável diante de Deus.
  • Abraão combina o interior e o exterior, simbolizando a alma que se mantém pura interiormente para Deus e imaculada exteriormente para o mundo e a vida sensível.
  • Embora Enoque e Abraão pareçam se situar no mesmo ponto de articulação entre o mortal e o imortal, as duas figuras se opõem.
  • A resolução da oposição ocorre ao confundir as duas figuras na pessoa do sumo sacerdote, o qual, sendo o Logos, se assemelha ao homem perfeito no limite da natureza ingênita e da perecível.
  • A condição do sumo sacerdote ao entrar no Santo dos Santos indica que ele não é homem, conforme o Levítico, dezesseis, dezessete.
  • O sumo sacerdote não é Deus nem homem, mas sustenta os dois extremos.
  • Aaron é apresentado em outra perspectiva não como Perfeito, mas como aquele que progride moralmente.
  • Moisés situa Aaron na região intermediária entre os vivos e os mortos, definindo os vivos como os que vivem com sabedoria e os mortos como os que se alegram na loucura, conforme o livro de Números, dezessete, treze, que relata que ele se mantinha entre os mortos e os vivos e o flagelo diminuiu.
  • Fílon oscila entre dois pontos e dois meios, sendo um entre o céu e a terra, de onde procedem uma sabedoria e educação médias, e o segundo no meio do próprio céu, onde se restauraria a perfeição adâmica.

a. Adam: do céu à la terra

  • O céu é criado no segundo dia da semana primordial, pois o dia Um é reservado ao lugar do Inteligível.
  • O céu constituiu a primeira das partes do mundo sensível criado, sendo definido como o santuário mais puro da substância corpórea.
  • A denominação de firmamento decorre de sua natureza corpórea, visto que o corpo é sólido por natureza.
  • O termo ouranos é aplicado seja por ser o limite de tudo, seja por ser o primeiro dos seres visíveis.
  • O limite do mundo e de Deus estabelece que o Adam criado—segundo—a—Imagem se aparenta ao céu, como uma espécie de céu reduzido.
    • Deus meditou harmonizar o princípio e o termo das criaturas.
  • O limite impulsiona a ir além, de modo que o Adam, embora saído da terra, eleva—se para evoluir com o coro dos planetas e das estrelas fixas, assemelhando—se à alma do Fedro.
    • Ao atingir esse ponto, ele cobiça o inteligível e parece chegar à presença do grande rei.
  • A hesitação sobre o sentido do limite envolve a possibilidade de Adam ter sido criado como meio entre o céu e a terra, composto de corpo e alma.
  • Fílon enfatiza a diferença radical existente entre o Adam—segundo—a—Imagem de Gênesis, um, vinte e sete, e o Adam—moldado de Gênesis, dois, sete.
  • O Adam moldado também é caracterizado como limite da natureza mortal e da natureza imortal.
  • A disparidade entre os dois Adam equivale àquela existente entre a Árvore da Vida, que representa a piedade voltada a Deus e imortaliza a alma, e a Árvore do Conhecimento, que significa a prudência média, estando ambas plantadas no meio do jardim.
    • M. Harl analisa a phronèsis como faculdade de traçar o limite entre o bem e o mal e de defini-los, caracterizando uma sabedoria puramente humana que esquece a montanha pelo limite.
  • A noção de limite viabiliza a equivocidade necessária ao pensamento filoniano, permitindo conciliar os comentadores que defendem a existência de dois Adam ou de apenas um.
    • Ch. Kannengiesser discute a dupla criação do homem em Fílon e nos Padres da Igreja.
  • O jogo conceitual gera oscilações sobre se o Adam—segundo—a—Imagem é o melhor dos corruptíveis ou se é incorruptível.
  • O efeito decisif do equívoco manifesta—se em uma transformação sômantica estrutural.
  • O Adam—segundo—a—Imagem foi criado inicialmente como masculino e feminino, com as espécies macho e fêmea contidas no gênero homem.
  • A diferenciação altera o cenário ao estabelecer que o homem—moldado, composto de corpo e alma, é homem ou fêmea, enquanto o homem—segundo—a—Imagem não é nem macho nem fêmea.
  • O gênero deixa de conter as espécies e passa a se opor ao indivíduo.
  • A distinção absoluta entre o inteligível e o sensível aboliu a diferença entre o masculino e o feminino.
  • O problema central de Fílon reside na diferença radical entre o primeiro homem e o segundo homem.
  • O primeiro homem moldado surge da terra.
  • A escolha divina recaiu sobre a melhor parte da terra, a mais pura da matéria pura.
  • O corpo excelente do primeiro homem foi construído como um templo para a imagem divina mais semelhante a Deus que o homem deveria carregar em si.
  • O primeiro homem segundo a Imagem, que também saía da terra, era igualmente portador da imagem divina.
  • O pensamento atinge seu ponto limite na transição de um Adam ao outro com a noção de um corpo puro portador da Imagem.
    • O Logos também carrega em si uma cidade inteligível.
  • O primeiro homem se distingue do segundo e de todos os outros homens por sua origem direta.
    • Os homens atuais nascem de homens, ao passo que o primeiro homem saiu das mãos de Deus.
  • A diferença separa fundamentalmente o ato de criação do processo de nascimento.
  • A geração atua entre a criação e o nascimento, promovendo o apagamento progressivo da beleza do primeiro homem ao longo do tempo.
  • O primeiro homem é tratado como uma Ideia da qual os outros homens participam, resultando em uma degradação crescente a cada geração.
  • A dinâmica levanta o questionamento sobre a impossibilidade da conversão e o motivo de se esquecer a parentesco com o primeiro Pai.
  • Fílon é impelido a formular essas interrogações no desenvolvimento de seu movimento de pensar.
  • Os descendentes que participam da ideia daquele homem conservam as marcas de seu parentesco com o primeiro Pai, ainda que de forma enfraquecida.
  • O parentesco define o ponto limite do pensamento que confina com o mundo e com Deus.
    • Todo homem se une intimamente ao Logos divino por sua inteligência, sendo uma marca, um fragmento e um reflexo da natureza bem-aventurada, e se une ao mundo inteiro pela constituição de seu corpo.
  • Apenas a alma, e não o corpo, pode se situar no lugar da procissão—conversão.
  • A restauração da beleza do corpo primordial não pode ser pensada, pois este carrega o peso das gerações e marca o distanciamento entre criação e nascimento, pertencendo ao devir da geração.
    • Guy Lardreau analisa o esforço da tradição cristã—síria para pensar a sensibilidade espiritual e o corpo primordial sem a divisão das duas criações de Adam.
  • O primeiro homem precisou experimentar o infortúnio, tendo a mulher como a origem de sua vida culpada.
  • A matéria é implicitamente associada ao feminino, indicando que a terra, apesar de bela e pura no início, termina em decadência por sua condição de mulher.
  • Adam assemelhava—se ao Unico, à mônada e ao mundo em sua unicidade antes da criação da mulher descrita no capítulo da Gênesis.
  • Os caracteres das duas natures estavam impressos de forma implícita na alma de Adam.
  • A criação da mulher tornou explícita a dualidade que antes estava oculta no primeiro homem.
  • O retorno à Imagem exige a recuperação de uma inocência cega que esqueça o ventre da mulher e permita renascer para não mais nascer.
  • O primeiro nascimento do homem é carnal, derivado de pais mortais, enquanto o segundo é simples, sem mistura, sem mãe e gerado apenas pelo pai do universo segundo a natureza do número sete sempre virgem, isto é, segundo a sabedoria.

b. Les intermédiaires

  • A duplicidade do homem criado gerou um problema para o Deus criador de Fílon, dada a impossibilidade de contato com o ilimitado da matéria caótica.
  • Fílon rejeita a ideia de um Deus que se dedicasse diretamente à tarefa de criação do universo.
    • Sendo detentor da felicidade perfeita, Ele não poderia entrar em contato com a matéria ilimitada e desorganizada.
  • Deus não criou diretamente o homem terreno e a mulher, que foi a origem da vida no mal.
    • Na criação do homem, Deus utiliza a palavra façamos, indicando o auxílio de outros artesãos para que as ações irréprocháveis do homem sejam imputadas a Deus e as contrárias aos seus subordinados.
    • O Pai não podia ser responsabilizado pelo mal em relação aos seus filhos.
  • Deus não pode ser a causa do mal tanto para Fílon quanto para Platão.
    • Wolfson argumenta que Deus decide não tocar no profano ou no impuro para ensinar o caminho da santidade e da pureza.
  • A necessidade de inspiração divina pressupõe um contato com a alma humana para que esta tenha noção de Deus.
  • O sopro de vida insuflado na face do homem—moldado estabelece uma união tripla entre Deus que sopra, a inteligência que recebe e o sopro enviado.
    • Deus estendeu a potência que vem dele por meio do sopro até o objeto para que se tivesse noção dele.
  • A tese de Wolfson sobre um Deus santo e puro que não toca a matéria é contestada pelo texto, que afirma ser o Deus santo quem estende a potência e toca a alma.
  • A inteligência tocada deixa de corresponder à dimensão terrena na sequência do texto.
    • A inteligência humana não subiria para se ligar a Deus se Ele próprio não a tivesse atraído e marcado com uma marca conforme as potências divinas conhecíveis por ela.
  • O sopro passa a ser entendido como uma marca que define a inteligência celeste em vez da terrestre.
    • A faculdade comum aos seres irracionais tem o sangue como essência, enquanto a que emana da fonte racional é o sopro, caracterizado como marca ou sinal da potência divina chamada por Moisés de imagem.
    • Deus é o arquétipo da natureza racional, e o homem é uma cópia e réplica, referindo-se não ao ser duplo, mas à forma mais nobre da alma, denominada espírito e razão.
  • O sopro deve ser compreendido como marca e como Imagem no comentário sobre o homem moldado em Gênesis, dois, sete.
    • R. Arnaldez discute a junção das imagens do selo e da luz no nível da inteligência para resolver o contato entre luzes e massas.
  • A alma é descrita como feita da parte etérea do ar, constituindo uma parcela divina.
  • O éter, considerado a quinta substância que dá nascimento ao céu, é a pátria do homem—segundo—a—Imagem.
    • A raça da alma, sendo inteligente e celeste, alcançará o éter mais puro como a um pai.
  • A transição do sopro para a imagem e da inteligência terrestre para a celeste ocorre de forma necessária.
  • A duplicidade do éter reflete a duplicidade do homem e a equivocidade do limite celeste, com a Imagem ocupando o lugar do éter conforme apontado por M. Harl.
  • Fílon busca se contrapor à ideia comum de que o espírito humano deriva da natureza etérea.
    • Moisés não assimilou a alma razoável aos seres do devir, mas a definiu como exemplar autêntico do sopro invisível marcado com o selo de Deus, cujo tipo é o Logos eterno.
  • A duplicidade é evidenciada na caracterização da razão como fragmento ou como marca de uma imagem divina.
    • A razão é vista por filósofos seguidores de Moisés como a marca semelhante de uma imagem divina.
  • O termo apospasma funciona para articular o En—alto e o En—baixo na estrutura cosmológica.
    • O espírito humano não conteria a imensidão do céu se não fosse um fragmento não separável da alma divina, visto que não há corte no divino, mas apenas extensão.
  • A omnipresença do divino e sua extensão são governadas pela duplicidade.
    • E.R. Goodenough emprega a expressão Deus de extensão para descrever esse conceito.
  • O deslizamento do Deus separado até as extremidades do mundo realiza—se por meio de uma cadeia de ouro, analogamente ao mito de Hera suspensa por Zeus no vide.
    • Zeus representa o éter, Hera figura o ar, as duas bigornas são a terra e a água, e a cadeia de ouro marca o vínculo indissolúvel do cosmos e a conexão entre ar e éter.
  • O movimento de extensão baseado na duplicidade fundamenta a hierarquia ontológica e a hierarquia antropológica.
  • Deus estende as Potências que, por sua vez, estendem o mundo e tocam a matéria, o caos e o mal, atuando o tensor como viabilizador do toque.
    • As potências dividem—se em potência criadora, pela qual Deus cria, e potência régia, pela qual o mestre pune e toca diretamente o mal, com intermediários distribuindo a continuidade divina.
  • O mesmo movimento ocorre no homem, onde a inteligência separada toca o corpo através do sopro, e este cede lugar ao sangue para contatar o irracional.
  • A lei do tensor opera tanto no éter quanto na sensibilidade corporal descrita em Gênesis, dois, vinte e um, na extração da costela.
    • A sensibilidade é tomada como disposição e como ato, sendo completada e tensionada até a carne e toda a superfície.
  • O tensor demonstra que o problema do intermediário se repete em toda a cadeia, tanto no ponto de separação—contacto superior entre Deus e as Potências quanto no inferior entre a inteligência celeste e a terrestre.
  • A doxa pode ser entendida como Glória e adorno das Potências, com a duplicidade comandando a resposta de baixo para cima.
  • A noção de Logos em Fílon absorve o peso dessa duplicidade, significando simultaneamente a razão humana, um Logos distinto e a razão divina segundo Lagrange.
    • Wolfson define o Logos como propriedade de Deus idêntica à sua essência, um ser incorpóreo criado antes do mundo, imante ao cosmos e manifesto na Lei de Moisés.
  • A noção de lugar expressa o limite do movimento de pensar filoniano de forma contundente.
  • Fílon afirma que Deus contém tudo em si e não é contido, e que o Ser envolve sem ser envolvido, para mostrar que Deus é transcendente e une o mundo.
  • Deus é chamado de lugar por conter todas as coisas sem ser contido, por ser o refúgio do mundo e por ser seu próprio lugar, contido e envolvido apenas por si mesmo.
  • O termo lugar assume três significados na visão de Fílon.
    • Os sentidos correspondem ao espaço ocupado por um corpo, à Palavra divina preenchida de Potências incorpóreas e ao próprio Deus.
  • O primeiro e o segundo significado alinham—se à khôra platônica e ao lugar das Ideias, gerando o questionamento sobre o motivo da inclusão do terceiro sentido a respeito de Deus envolto por si só.
  • Fílon interpreta em Gênesis que Abraão atingiu o lugar—Palavra e, a partir dali, avistou de longe o lugar—Deus.
    • Estando nessa Palavra, Abraão não alcança Deus em sua essência, mas O vê de longe.
  • A dificuldade sobre o motivo de Deus em sua essência incompreensível ser chamado de lugar faz Fílon recuar em sua análise.
    • O texto sugere que Abraão percebeu que o lugar onde havia chegado estava longe do Deus inominável, inefável e inacessível a qualquer conceito.
  • Deus é posicionado além do lugar, conforme a interpretação de Gênesis, vinte e oito, onze, sobre o encontro com um lugar quando o sol já havia se posto.
  • Encontrar um lugar ou uma palavra constitui um dom suficiente para aqueles que não podem ver o Deus que antecede todo lugar e palavra.
  • O sujeito cognoscente não colocará a cabeça acima da abóbada supraceleste como as parelhas do Fedro, permanecendo restrito à dualidade.
    • O que se exprime pela palavra proferida não é seguro por ser uma dualidade, mas a contemplação silenciosa do ser pela alma é sólida por repousar na unidade indivisível.
  • A questão do terceiro significado do lugar retorna diante da indefinição sobre se Deus ainda é incompreensível na contemplação.
  • A transcendência divina é denominada lugar porque sua manifestação ocorre efetivamente no âmbito do lugar.
  • O lugar opera tanto como Palavra divina quanto como khôra, residindo a maravilha na identidade comum entre esses termos.
    • M. Heidegger discute a escuta da khôra no khôrismos da transcendência na obra O que significa pensar?.
  • O milagre da criação consistiria no fato de Deus fazer lugar e de seu nome ser ouvido de longe no próprio lugar, algo que Fílon não consegue formular teoricamente.
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