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biblia:filon:intelecto-sensibilidade

DUALIDADE DO HOMEM

Excertos de JOSÉ PABLO MARTÍN, “FILÓN DE ALEJANDRÍA Y LA GÉNESIS DE LA CULTURA OCCIDENTAL”

INTELECTO E SENSIBILIDADE (NOÛS — AISTHESIS).

O intelecto e a sensibilidade são, respectivamente, a parte superior da alma e do corpo; mas também podem designar globalmente as duas esferas opostas. Exegeticamente, são Adão e Eva criados no início por Deus. Na relação entre ambos está em jogo o sentido do humano.

MATRIMÔNIO E SEPARAÇÃO

Os dois níveis correlativos do composto humano precisam um do outro. O intelecto precisa da sensibilidade para conhecer as coisas materiais, que é o início de toda vida cognitiva. Essa tese aristotélica é frequentemente exposta em Fílon. Por outro lado, o intelecto é capaz de conhecer o inteligível por si mesmo, uma vez remontado além do sensível. A sensibilidade, por sua vez, precisa do intelecto para agir, dependendo dele como da fonte ou do sol. Mas enquanto a sensibilidade está ligada aos “objetos” e ao “presente”, o intelecto transcende o tempo, percorre o passado e o futuro, ascende às “ideias”. O homem terrestre foi criado através do casamento desses dois princípios, um masculino (o intelecto é ativo) e outro feminino (a sensibilidade é receptiva). O bem do homem repousa na harmonia desse casamento criado por Deus: “é supremo o benefício que obtém a sensibilidade que se voltou para seu legítimo esposo, isto é, para seu intelecto” (Leg III 221). Destas e de outras passagens emerge a ideia do homem como repouso metafísico da forma na matéria, da matéria na forma. A imagem bíblica do casamento introduz um novo elemento do problema: a união “legítima” do intelecto e da sensibilidade deve ser alcançada através de um caminho onde a vontade não está ausente.

Muitas outras afirmações de Fílon, no entanto, se apressam em romper o idílio matrimonial, ao expressar que a sensibilidade é a causa da ruína do intelecto, assim como o corpo é a porta do mal para a alma; assim como Eva é veículo do pecado de Adão. A sensibilidade, sendo fogo, incendeia o intelecto (Migr 100); sendo água, o inunda, fazendo-o perecer (Mut 107); sendo a mulher, o seduz para o mal (Somn I 246); o corpo é a porta das artimanhas sofísticas (Ebr 71). A sensibilidade, em geral, é a causa da ruína do homem, de sua melhor parte (Leg III 200); por isso, o intelecto (Adão) faz mal ao chamar de “vida” a sensibilidade (Eva), quando ela é “sua própria morte” (Her 52). Como um sol ofuscante, a sensibilidade impede ver os astros verdadeiramente inteligíveis (Sonho I 84); a atração dos objetos próprios da sensibilidade desvia o intelecto de seu itinerário celestial, deixando-o sem abrigo e exposto aos perigos (Fuga 189). Como no relato bíblico, o prazer (a serpente) não ataca diretamente o intelecto (Adão), mas, por meio da sensibilidade (Eva), “engan Este deve libertar-se progressivamente daquela, para alcançar seu objetivo natural. Assim como Noé saiu da arca, símbolo do invólucro sensível, o homem “sairá e usará seu intelecto, já livre do corpo, para a apreensão da verdade” (Conf 105). “Porque, certamente, não imaginam que o seu intelecto livre da vestimenta corporal, da sensibilidade e da fala, possa, separado destas, ver as coisas existentes nuas” (Migr 192).

Então, a perfeição humana consistiria no abandono progressivo da dimensão sensível, deixando a união matrimonial entre sensibilidade e intelecto como uma etapa momentânea: a sensibilidade ofereceria, aparentemente, os objetos materiais ao intelecto para que este iniciasse seu voo e superasse a própria materialidade. A antropologia parece resolver-se, segundo esses trechos, em um divórcio, ou melhor, em uma separação de naturezas: a sensibilidade permanece em seu nível, a matéria, enquanto o intelecto ascende ao seu: a ideia (cf. Her 274). Como o fogo, o ar ou o éter, o intelecto se separaria por sua própria força essencial da pesada materialidade, buscando os espaços ideais congêneres.

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