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ESTATUTO DA ALEGORIA

Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)

Estas seriam as linhas de um comentário a esta passagem. Como se vê, é preciso tornar-se alegorista para decifrar a alegoria. Mas o texto de Fílon é um texto vivo, que ainda não é escolástico, apesar de todo o seu aparato, do seu código ou do seu caráter estranho. Não se pode realmente lê-lo — e ele ficaria feliz com isso — sem renovar também com ele o mesmo método que Fílon aplica ao texto inicial e iniciador, a Bíblia. É o pensamento de um rabino, de um mestre que não ensina mais do que trabalhos práticos. Mas, incomodados ou intrigados, voltemos à alegoria.

Aí está essa palavra irritante de alegoria, cuja eficácia acabamos de saborear no início de um belo livro, A emigração de Abraão. O problema que ela nos coloca é o de seu estatuto lógico ou moral em relação à verdade da existência, à seriedade da Escritura. No entanto, vivemos de alegorias: a nação não é um grande corpo? O urbanismo, o traçado das estradas, a infinidade de organismos e instituições certamente não teriam nome nem existência sem essa ficção. As oposições verbais podem decidir todo um movimento: se alguém reivindica alguns direitos, automaticamente lhe são citados seus deveres, mas esse equilíbrio tão fácil e talvez tão eficaz, será que responde à realidade? Organizamos a existência mais material sobre modelos inconscientes que devem muito a um sistema alegórico de traduções e redundâncias; a psicanálise explora essa imensa alegoria; a própria ciência não é, em primeiro lugar, uma observação neutra do real, mas a transmissão de modelos que são substituídos e ajustados progressivamente e cuja coesão se encontra acima de tudo no espírito. E que relação existe entre o batismo e o Mar Vermelho ou a lança que abriu o peito de Jesus?

Fílon também parece reduzir toda a história, por exemplo, a um perfil imanente e individual. Ele ignora o messianismo e o nacionalismo de seus primos da Palestina. Como se se tratasse de uma bolha fechada e redonda, tudo ou quase tudo se reflete nas aventuras do patriarca: as regras do casamento, a geometria ou a história natural… No entanto, admitir isso seria já dominar esse estilo, tautológico e pitoresco para esses geômetras, juristas e historiadores que todos nós somos. O comentário do Gênesis se assemelha a uma Bíblia em imagens. A alegoria reúne em um mundo estreito toda uma série de dados acumulados em uma cena ou em uma fórmula. Também a pedra limitada de um capitel se presta à exibição simultânea e, portanto, intuitivamente eloquente de uma cena determinada, como a do sacrifício de Abraão ou a expulsão do paraíso ou o assassinato de Abel por Caim: à custa de forçar os ângulos, de impor contorções às figuras, de limitar espaços, de colocar sinais abstratos (uma árvore designa uma floresta: três linhas onduladas, um rio) Fílon exerceu uma influência imensa na Idade Média. Um estudo do universo simbólico, como o de , tudo cabe naquele retângulo rígido, que obriga a pensar, quando lá a única coisa a fazer é olhar. Mas, paradoxalmente, é também o universo dos capitéis (um universo que continua sendo teórico, evidentemente) que dá sentido a tal capitel. A alegoria condensa as coisas, assim como a pedra. É uma arte, e uma arte ambiciosa. Mais ainda: é um estudo que olha para o estético e o toma como um desvio para se aproximar da verdade. Depois de indicar algumas chaves desse sistema, voltaremos a esse princípio de totalidade, para ver se é ele que dirige a alegoria.

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