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ABRAÃO

Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)

Há toda uma série de obras de Filão que têm como tema o conjunto dos capítulos do Gênesis que vão desde o chamado do patriarca Abraão até sua morte. Além disso, há um livro específico que reúne tudo isso, intitulado Abraão. Nessa série, como é natural, o leitor encontrará mais dados exegéticos relativos a Abraão do que em todas as outras. No entanto, exceto no tratado sobre Abraão, é possível passar páginas e páginas sem se deparar com o nome de Abraão nem com nada que possa nos lembrar de seus gestos e feitos. O leitor deve estar ciente desse fenômeno. Já deve ter imaginado: o método de Filo pressupõe a conivência de todas as partes da Escritura ou das leis. Portanto, não existe nenhum privilégio que isente alguma figura, como a de Abraão, do fluxo e refluxo dos vastos oceanos da Escritura. Abraão fala à nossa sensibilidade religiosa, da qual se torna uma espécie de figura, quase um herói. A maneira como ele continua sendo exemplar na trama do discurso filoniano o consagra e, ao mesmo tempo, retira-lhe todo privilégio. Por meio dele, conectamo-nos com muitas outras figuras, de sombra e de luz, e com muitos outros textos diferentes; é sua fecundidade moral e intelectual que permite toda essa colheita. Por meio das outras referências, podemos ler com mais precisão as páginas do Gênesis nas quais Abraão ocupa o primeiro plano da cena. Uma espécie de conivência reúne, por um lado, esses dados concretos que são o chamado, as guerras, a vida sexual de Abraão, sua paternidade, o sacrifício que ele aceita e, por outro, a história de Moisés ou do povo de Israel. Mais de perto, tudo o que acontece a Jacó ou a Isaac repercute sobre o antepassado Abraão. Esses destinos nos fazem compreender seu papel, assim como os destinos fatais dos egípcios, de Esaú, e até mesmo de Caim, dos amalequitas, iluminam por contraste a nobreza e a verdade de Abraão. Ao falar de todos esses personagens, que por sua vez podem trazer para o círculo outras figuras ainda mais distantes, Filo não perdeu de vista seu herói.

Provoca-se assim um deslocamento da atenção ou da expectativa; trata-se talvez de um caminho mais livre em relação a um desejo de encontrar aqui, neste gesto de Abraão tal como eu creio interpretá-lo, o que me espera em outro lugar. Eis como Filão explora os valores da marcha de Abraão. Já lemos sua “tradução” da ordem divina: é preciso abandonar o corpo, a sensação, a linguagem. Logo Filão indica o que significa abandonar o “corpo”: o próprio Abraão, pedindo a Ló que se separe dele (Gn 13, 9), renuncia à companhia de uma pessoa entregue aos desejos materiais e corporais; o nome de Ló significa, no vocabulário codificado, “deslize”, desvio no caminho, e esta é, para Filo, a verdadeira interpretação de Ló. Essa interpretação corresponde à realidade bíblica, já que Ló, de fato, escolherá de antemão a região mais fértil (Gn 13, 10-11), demonstrando assim sua avidez pelos bens deste mundo. Depois de Ló, que já está descartado, vem o Egito: também de lá os hebreus terão de se afastar. É que o nome Egito significa “corpo”, e de fato os hebreus sentirão saudades, no deserto, daqueles bons alimentos que o Egito lhes dava nos anos bons e maus.


Ele não abandona um país, definido por redundância como sua terra, o lugar onde mora sua família e sua casa. Ele deixa interiormente algumas realidades internas: seu corpo, para consentir na fabricação original do homem; sua sensação, para prestar mais atenção à segunda parte de seu ser, o pensamento; e até deixa a linguagem, cala-se, para aprender sem dúvida uma língua diferente. Toda essa anedota se coloca por simbolismo — por alegorização — ao lado de uma história da alma singular. Palavra por palavra, todos os detalhes do texto base, o de Gn 12,1, encontram uma tradução moral. De passagem, e para que se possa medir igualmente toda a sutil inteligência deste texto, façamos algumas indicações simples. Em primeiro lugar, das três palavras alegorizadas, a última, a palavra, é a que leva a parte do leão. Trata-se de um princípio da escrita rabínica, ou pelo menos filoniana: nada é deixado na sombra, mas sim arranja-se para destacar o termo desejado. Abraão deixa a terra, ou seja, o corpo; muito bem. Deixa a sua parentela, ou seja, a sensação; muito bem. Ele deixa a linguagem expressa; e então toda uma série de razões “exegéticas” vem explicar longamente o valor desse símbolo. Para que tudo fique bem claro, acrescentemos que Fílon “traduziu” discretamente o valor imperativo da ordem dada a Abraão: “Saia da sua terra…”, e prefere nos dizer nas primeiras linhas: “Deus começa por lhe dar um impulso…)”.

Outra observação: se prestarmos atenção, a cadeia dos três simbolismos (terra-corpo, parentesco-sensação, linguagem expressa-pai) garante uma progressão e não se trata de enumerar algumas equivalências mais ou menos casuais. Neste caso, as três interpretações remetem todas à criação; isso fica claro no que se refere à terra-corpo e à palavra que nos remete ao relato do capítulo 1 do Gênesis, onde Deus cria todos os dias e todas as suas obras pela palavra; mas também é verdade para a parentela-sensação, já que devemos ver no fundo a criação de Eva, mulher de Adão, que simboliza sempre em Fílon a parte sensível do composto humano.

Mais ainda, se o quadro continua centrado nos dois primeiros capítulos do Gênesis, devemos acrescentar também sua progressão. Há uma conveniência entre o corpo mortal e a sensação irracional: trata-se de dois mundos inferiores, ligados entre si e decepcionantes. No entanto, a sensação foi dada por Deus como companheira do espírito (lembremos: Eva e Adão) para formar um todo homogêneo, uma coisa, como diz Fílon. Pois bem, eis que a linguagem, testemunha do espírito por seu domínio e sua autonomia, tem precisamente uma autonomia e nos permite analisar essa curiosa unidade entre o pensamento e a sensação que se celebra na segunda equivalência. A linguagem às vezes se expressa e outras vezes se recolhe silenciosamente no pensamento puro, assim como o dono da casa que possui uma fazenda, estábulos, dependências, mas que se retira para sua própria casa, com seus filhos. Subimos na escala do ser. E eis o termo: aquele que não se projetou apenas nos sons dispersos da palavra expressa adivinha que seu próprio mundo interior imita a grande criação, onde Deus deixou o logos:, ao mesmo tempo inexprimível e presente no mundo, para que o dirija, o ordene e faça subsistir todas as coisas.

Mas o que parece estranho à primeira vista é que o perfil do homem que acaba de ser traçado, desde o corpo até a imagem do logos:, é nobre, positivo, elevado e exaltante. Então, por que Abraão tem que abandonar tudo isso? Respondamos com Fílon, sem meias palavras: é para reencontrá-lo. Em uma palavra, que aqui deve ser necessariamente rápida: Abraão precisa se afastar porque, embora talvez pratique essa boa filosofia, ainda não sabe que tudo isso lhe foi dado. Em particular — daí a insistência no terceiro termo, a linguagem — ele terá que aparecer diante de nós como o aprendiz da linguagem justa, proporcionada, que não confunde o mundo com seu autor. Ele precisa de um corpo digno, para morrer nele nobremente; precisa de um bom equilíbrio dos sentidos e do espírito, para poder dominá-lo; precisa, finalmente, de uma grande consciência do espírito, para submetê-lo à revelação do espírito e do logos:.

Mas vamos mais rápido que o leitor… O leitor talvez vislumbre a utilidade da alegoria, sua coerência, pelo menos, e sua força. Uma física dos elementos com o corpo; uma psicologia, com a composição da sensação e do pensamento; uma metafísica ou teologia, com a habitação de Deus, que é o logos:. Além disso, esboça-se ou supõe-se uma economia do saber. Finalmente, a associação de fórmulas filosóficas e citações bíblicas é pensada para demonstrar de imediato essa harmonia pré-estabelecida que existe, para Fílon, entre o bom uso da razão e a verdade revelada.

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